Sadgirl
1 bem vindo ao canto das bonecas...
Notas iniciais
Estático no chão, olhando o nada e o tudo, com seus olhos de boneca, olhos de morte.
Mas não uma boneca, uma pessoa, um fantoche, vazio e sem sentimentos, ou será que sentia? Era provável que não, claro, achar que sente e sentir, são duas coisas completamente diferentes, a maioria finge que sente, mas no fundo, seu único desejo é sentir de verdade.
Bom, aquele alguém já não sentiria mais, o maior problema do ser humano, é achar que é tão apegado a algo ou alguém a ponto de acreditar nisso, e afundar cada vez mais após a perda disso ou daquilo. Mas ele já não sentiria essa dor, ele não precisava mais fingir, estava morto.
Agora era só mais alguém que morreu sem encontrar seu sentido no mundo, na vida, ou será que encontrara? Já não importa, não mais, está morto.
Ela pega seu sobretudo, e o veste enquanto admira os pequenos traços, feitos por ela mesma, um a um, com uma distância perfeita, ainda continha a vermelhidão do sangue que escorrera durante os cortes, porém, agora depois de limpa com água morna, a pele branca já parecia menos manchada, e os cortes começavam a se destacar com seu vermelho coagulado, nenhum deles se tocavam, nunca se encontravam na mesma direção, era como um mosaico fino, e o contraste da cor do sangue com a pele, deixava sua obra mais viva e admirável.
A única coisa que estragava sua obra, eram os olhos, por que os olhos lhe incomodavam tanto? Aqueles olhos verdes estáticos de boneca. Por um breve segundo, sentiu um impulso devastador e quase incontrolável de arrancá-los, chegou a pegar na adaga de prata afiada que jazia ainda suja sobre a mesa de madeira ornamentada, fitou o sangue na lâmina por um breve instante, fechou os olhos e respirou fundo, sentiu o cheiro de sangue, e por alguns segundos, talvez minutos, foi tomada pelo mesmo prazer que sentira enquanto manejava a lâmina sobre a pele de sua vítima. Lembrou-se de seus corpos entrelaçados sobre a mesma mesa, lembrou-se dos abraços quentes, e da mão forte em sua nuca, puxando-a para si, lembrou-se da entorpecência que durara alguns minutos, e do êxtase ao sentir o sangue escorrendo no peito dele e molhando as coxas dela, quente e frio ao mesmo tempo, deixando aquele rastro escuro e aquele cheiro doce-metálico que aos poucos ia tomando o ambiente. Ela, fora a última coisa que aqueles olhos fitaram, ou talvez não, talvez a última coisa a ser fitada tenha sido a própria alma, dizem que quando se esta morrendo, vê-se um filme, sua própria vida passando diante de seus olhos, se for assim, então nem sequer tinha sido ela sua ultima visão, seus olhos estavam fechados quando a adaga atravessou suas costas, e só abriram com o espasmo da morte fria lhe atravessando, sendo assim, já não a olhava, e sim fitava, aquele nada e tudo que a morte admira.
Voltou a realidade, ainda de olhos fechados, suspirou novamente, abriu os olhos lentamente, e atravessou a sala com o olhar, reparando em cada detalhe, os móveis, os desenhos, os quadros, as estátuas, em breve, ele faria parte daquela coleção, uma obra de arte, pensou, e riu, aquela risada curta, baixa, discretamente sádica, riu novamente, ao lembrar dele elogiando o mesmo riso. Fitou aqueles olhos verdes de boneca novamente, e achou aquele rosto um tanto quanto triste, por sorte, a bolsa estava consigo, pousada ao pé da mesa, pegou-a e correu até o corpo, com aquele sorriso discreto, começou a pintar, primeiro o pó branco que deu ao rosto uma aparência de porcelana, depois o lápis e enfim o batom preto, seu sorriso ia se tornando mais largo e tenebroso, enquanto desenhava um sorriso parecido no rosto morto. Terminou, levantou-se e admirou sua obra mais uma vez, agora, parecia um tanto mais divertido, e risonho, estava mais alegre.
Acariciou seus cabelos, e fitou seus olhos , agora que ele sorria, ela estava mais feliz, sorriu de volta pra ele, um sorriso de criança, inocente, exagerado. De repente teve uma idéia, como uma criança que organiza seus brinquedos, arrastou o corpo e sentou-o num canto da sala, em companhia de outras bonecas, agora ele parecia uma delas, olhou mais uma vez, a cada vez que olhava, sentia-se mais feliz por seu feito, agora estava tudo em seu devido lugar, limpou a adaga e guardou-a em uma das gavetas da mesa, guardou a maquiagem na bolsa, amarrou o sobretudo, abriu a porta e olhou para o canto de bonecas, mais uma vez, sorriu para o corpo, apagou as luzes, e saiu, fechando a porta vagarosamente, com aquele sorriso discreto, de criança que em breve, aprontaria mais uma.
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