Sacrifício

15 Esperança e Covardia


Notas iniciais
Olá, eu estou de volta, ainda viva! Amém irmãos. Giulia Valdez meu coração aqueceu pelas as suas palavras na sua recomendação! Eu fiquei muito, muito feliz! Obrigada de verdade! Boa leitura! Capítulo longo, porém necessário!

O loiro largou o jornal e tragou o cigarro. Lhe direcionou um olhar latente, que a fez sentir um pingo de esperança e expectativa em seu peito.

— Confesso que senti sua falta — a voz grave e descontraída lhe trazia boas lembranças — Resolvi fazer uma visita. A propósito, seu sorriso é engraçado.

Pelo flagrante ela rapidamente voltou a sua normal postura. Não havia percebido como ficou desperta.

— Desde quando saiu de Londres? — perguntou, ignorando o comentário.

— Uns dois minutos — deu de ombros enquanto observava a morena. Ela havia crescido e estava mais forte, tanto emocional quanto fisicamente. O cabelo estava mais longo do que antes, mas ainda curto. Seus olhos violeta tentando esconder a ansiedade. Entretanto, agora a expressão indiferente de sempre voltou a estampar sua face alva.

Então ele realmente estava na ali apenas esperando ela perceber sua presença. O observou apagar o que restou do cigarro no cinzeiro sobre a mesa enquanto soltava a última fumaça no ar pelas vias aéreas. Sua expressão demonstrava uma ressaca de quem virou a noite bebendo. As olheiras profundas ofuscavam os olhos azuis, a maldita gravata folgada estava amassada e ele precisava fazer a barba. Apesar de ainda não ter chegado aos quarenta, pela maneira que se cuidava o fazia parecer mais velho.

— John, como conseguiu se transportar até aqui? Você não faz ideia...

— Se eu pegasse um avião provavelmente quando chegasse essa cidade ela já estaria em ruínas — lhe interrompeu, cerrando os dentes enquanto falava — Eu sei exatamente a merda que está acontecendo... — estalou a língua com irritação enquanto procurava inquieto por outro cigarro no bolso do sobretudo, o colocando na boca e acendendo com o isqueiro de sempre — Uma energia distinta está emanando na Terra, e assim que soube de quem era, fiz questão de vir resolver a porra das suas questões familiares.

Rachel franziu as sobrancelhas e olhou para as próprias mãos, constrangida. Conversar com pessoas que tem habilidades parecidas com os dela acabava a deixando com certo desconforto. Normalmente é ela quem interrompe a conversa.

A morena se afastou dos Titãs por um curto período de tempo, aproximadamente três anos. Aproveitou a deixa, já que Dick havia partido e deixado Victor no comando (que na época não era muito responsável), ao se envolver em missões com Batman e estava em conflito interno por querer se tornar mais independente. Quando retornou, ele já se proclamava como Asa Noturna, mas o restante da equipe achou o nome engraçado, e continuavam lhe chamando de Robin, talvez para provocá-lo. Ela não fez nenhum comentário ao saber da notícia.

Rachel viajou por poucas dimensões e rodou pelo mundo com o objetivo de aprender mais sobre seus poderes e a própria magia. Foi quando conheceu Constantine.

Este protege os humanos de todas as forças malignas e celestiais, e depois de se tornar conhecido começou a fazer alguns favores. Com o dom que tinha, ao cruzar com ela em uma biblioteca em Londres sentiu a presença demoníaca e logo tentou mandá-la de volta ao inferno. Entretanto, depois de alguns momentos conflitantes, ambos acabaram se tornando parceiros, mas nunca confiando totalmente um no outro. Na época, o loiro recém havia terminado o relacionamento sério com Zatanna pela morte de seu pai, Zatara. Ele ainda não deixou de amá-la.

John a ajudou a explorar e fortalecer suas habilidades místicas para mantê-la segura de seu pai e também de si mesma. E ela também compartilhou seus conhecimentos na arte de manipulação da mente, a sua conexão com as almas e a escuridão. Foi o loiro quem havia lhe presenteado o livro de capa branca ao se despedirem. Fazendo as contas por cima, não se viam há quatro anos.

— Pode me dizer se ela está envolvida? — sua voz saiu baixa, estava distraída o suficiente para não perceber o namorado atravessando a rua.

— Z ainda está pegando no seu pé? — tossiu com a fumaça em meio ao riso — Que mulher maravilhosa.

Sorriu minimamente pela maneira descontraída que ele agia. A ironia e o sarcasmo sempre estavam com eles, mas quando estavam juntos parecia ser diferente.

— Quem é esse cara?

Os dois fitaram os olhos desconfiados. Raven sorriu e puxou a cadeira para Gar sentar-se, que achou ainda mais estranho o lindo e raro sorriso, mostrando os dentes brancos. Ele estava com um saco de papel com o hambúrguer pela metade da morena e os refrigerantes na outra mão. Conseguiu se livrar de todos os adolescentes depois de muitas fotos. Olhou torto para o fumante, que tinha a expressão séria e indiferente no rosto.

— Garfield, este é John Constantine. Um amigo que me acompanhou quando passei um tempo fora. Ele me ajudou a descobrir parte do que sei sobre magia.

O garoto suavizou o olhar, ele apenas tinha ouvido falar daquele homem, e o achava um sociopata lunático. Mais uma pessoa para se meter na sua mente adicionada na lista. Sorriu encabulado depois da cena desnecessária.

— É um prazer conhecê-lo — disse ao estender a mão ao loiro, que aceitou o cumprimento de má vontade — Raven falou de você quando voltou. Além de inteligente e perigoso, é bonitão.

— Obrigado pelo elogio.

Constantine não era uma pessoa amigável. Rachel percebeu que o cumprimento e o agradecimento só aconteceram porque era o seu namorado ali. Ela não gostou do que viu. John a olhou de soslaio enquanto Mutano se sentava, já alertando que aquele romance não era uma boa ideia.

Estava ciente de que Garfield estava em perigo, mas parando para pensar, quem não estava? Ela o amava, e isso a impossibilitava de tomar uma atitude para afastá-lo. Talvez estivesse sendo egoísta. Entretanto, ele já foi avisado do que acontecerá em breve, e se Garfield continua ali, só o afastaria em último caso. Uma mudança abrupta prejudicaria o relacionamento dos dois que acabou de começar, e não estava disposta a perdê-lo. Não iria perdê-lo.

— Então, por onde começamos? — ignorou os próprios pensamentos, querendo focar no presente. O recém-chegado a olhava em silêncio, tentando acompanhar o assunto.

— Precisamos de um local longe dos civis para não causar alarde, — tragou mais uma vez e soltou a fumaça, que com o vento acabou indo de encontro ao Garfield, que fez uma careta — Planejo terminar com isso ainda essa semana, os hotéis daqui devem ser caros... — comentou, falando mais pra si mesmo — É como se Trigon estivesse batendo na porta, só esperando alguém abrir. Faz apenas alguns minutos que ele se libertou, garota. E... — disse aproximando lentamente a mão ao rosto da morena, que não emitiu reação — a única coisa que o impede de passar para esse plano, é isso aqui — encostou com o dedo indicador no cristal vermelho em sua testa, escondido pela franja improvisada.

Com o toque do loiro, ela pôde observar seu pai arrebentar a última corrente que havia o mantido preso durante esses dias. Ela estremeceu com a visão. Trigon de alguma forma estava conseguindo ser sutil nos movimentos, ou ela que estava muito distraída. Desde o acontecimento no centro da cidade ela não estava mais contendo alguns sentimentos. Isso pode ter sido um combustível para seu pai conseguir se libertar com facilidade.

Constantine a observava intrigado, se perguntando em como uma forte sensitiva como ela não havia percebido algo tão explícito. Ele retirou o dedo de seu chakra, fazendo com que ela voltasse a si. Garfield tocou a mão alva involuntariamente depois de perceber os olhos da mulher ficarem brancos por poucos segundos. Não sabia o que o loiro tinha feito, mas foi o suficiente para deixá-lo mais incomodado. Ele iria começar uma discussão, entretanto o fumante que o ignorava desde o início falou primeiro.

— Rachel, você precisa saber que não existe uma forma de matá-lo. Estou pensando em um banimento.

Garfield pigarreou, chamando a atenção dos dois.

— Então a ideia do suicídio não daria certo?

— Sacrifício, Gar — o corrigiu, um pouco aérea — Pare de tentar impedir o óbvio.

— Na verdade ele tem razão, Rachel. Não daria certo. Apenas atrasaria Trigon de chegar à Terra pela diminuição dos poderes. Infelizmente o filho da puta é imortal.

O namorado sentado em meio aos dois suspirou alto, reclinando a cadeira, aliviado. Parecia que uma montanha havia sido retirada de suas costas. Ela não precisava morrer. Ouviu Rachel soltar um grunhido de frustração enquanto jogava o cabelo para atrás com as mãos trêmulas, já deixando à mostra o losango vermelho sem se importar.

— E iremos bani-lo para onde? Pode ir para qualquer lugar. Em qualquer dimensão — seu timbre era calmo, mas o loiro sabia que a raiva já estava apossando a morena. Ele suspirou pesadamente, apagando o segundo cigarro e procurando um terceiro no mesmo bolso de antes, fazendo com que Mutano o encarasse incomodado pelo cheiro da nicotina vindo do mais velho que o ignorava.

— Eu estava pensando no Descanso Eterno. Aquele que você mesma nomeou. Estudamos juntos.

A expressão da morena se iluminou, parecendo se lembrar de algo tão óbvio. O que eles estudaram não estava em um livro específico. Eles praticamente criaram o feitiço do zero, juntos.

— Podemos bani-lo para uma das dimensões que ele já destruiu após o feitiço ser concluído.

— Está entrando na minha mente de novo, garota? — ele deu um sorriso torto, satisfeito pelo amadurecimento de Ravena. Garfield sorriu também, aprovando o plano — Agora só precisamos da Zatanna.

A morena fechou a cara e o fuzilou com os olhos, que também não gostava do que estava por vir. Aquela mulher sabia tirar os dois do sério por mais que tenham a conhecido em períodos diferentes, e mesmo depois de anos ele pensava nela quase todos os dias. Nunca mais havia se encontrado com a mágica, que continuava a fazer seus shows por diversão, bem distante da Inglaterra propositalmente. John tinha certeza de que ela ainda não tinha o perdoado, e com razão.

— Ela me quer morta, John.

— Não, ela quer Trigon morto, junto dos seus irmãos e... — Ele próprio se interrompeu, e deu um suspiro lamentável — É. Ela quer a família inteira morta. Z não gosta de deixar o trabalho pela metade.

— Rachel não é como Trigon e os seus irmãos, — Gar se pronunciou enquanto procurava a mão da morena, que não hesitou antes de entrelaçar os dedos com os dele sobre a mesa, sem encará-lo — é uma heroína. Aquela mulher não enxerga o lado bom dela, só liga para o obscuro, que estava controlado por quase uma década. Não sabemos qual a razão de toda essa confusão ter começado, mas não foi culpa dela — aumentou o tom de voz, chamando a atenção das pessoas sentadas nas outras mesas do estabelecimento, que a namorada começou a olhar nervosa — Alguém entrou em contato com aquele demônio nojento e precisamos descobrir quem foi.

O breve discurso do garoto só fez o loiro tragar o cigarro mais uma vez com o olhar entediado. Rachel percebeu que aquela conversa teria que ser em particular. Se sentiu desconfortável por ter que dispensar o namorado que era leigo em magia.

— Gar, sei que combinei de almoçarmos juntos, mas eu realmente preciso de um tempo a sós com John — falou baixo, para as pessoas pararem de olhar para eles. Ele a encarou desapontado — Temos uma chance. Eu volto à Torre assim que possível. E por favor, não compartilhe essa informação com ninguém e se for alguém, que seja apenas Dick — aproximou-se para sussurrar em seu ouvido — Eu prometo que quando eu voltar seremos só nós dois. Estou com o comunicador, caso aja algo mais urgente.

— Não existe algo mais urgente do que isso — John disse impaciente, fazendo os dois o encararem irritados.

Ele deu um suspiro, visivelmente entristecido, e ao levantar deu um beijo em sua testa. Olhou torto para o loiro bonitão que o fitava com a sobrancelha arqueada, só esperando ele ir embora.

— Vou estar te esperando.

Como um falcão deu um último olhar a ela, que deu um pequeno sorriso em despedida e voou para longe, levando o hambúrguer. John riu pelo nariz.

— Ele realmente gosta de você — com o cigarro no fim, o apagou no cinzeiro e se levantou, e ela o acompanhou enquanto caminhavam pela calçada, sem rumo — Mas sabe que estará morto no mesmo segundo em que encontrarmos o seu pai se ele estiver presente. Nenhum feitiço de proteção irá protegê-lo.

Rachel colocou as mãos geladas nos bolsos e olhou para o chão enquanto caminhavam. Não tinha argumentos quanto a isso. Teria que encontrar uma forma de deixar o namorado fora da ação. Na verdade, teria que dispensar toda a sua equipe, agora que tinha alguém capaz de acompanhá-la nessa trajetória perigosa que poderia ceifar a vida de seus amigos. Constantine queria se livrar de Trigon e voltar a sua vida problemática assim que possível. Ele não era de se apegar a alguém. A única pessoa que realmente sentia falta o evitava. O restante que se foda.

— Eu mudei, John. Por mais que não pareça, eu me importo com os Titãs, e para sua surpresa, agora eu também estou amando — disse firme a frase nunca dita por ela antes, a fazendo sentir seu coração aquecer — Não pretendo desistir de minha família como você desistiu da sua. — Tocou na ferida, para tentar fazer com que o homem parasse de jogar a verdade na sua cara, mas ele não se abalou.

Quando o conheceu, ele estava levemente deprimido pela sua separação, se sentia culpado pelo acontecido do “sogro” que sacrificou sua vida para salvá-lo. Rachel sabia que era só ele ir atrás de Zatanna e havia uma grande chance de reatarem, mas ele não teve coragem. O ouviu suspirar, indiferente.

— Você que sabe. — Mexeu no bolso do sobretudo, e percebeu que o maço de cigarro estava vazio, parou de caminhar para olhar em volta, procurando algum local para reabastecer — Enfim, precisamos de algum local fechado, vazio e de preferência longe dessas pessoas. Não conheço essa cidade, então fica a seu critério.

Rachel respirou fundo, segurando a irritação ao vê-lo dar uma pequena corrida até uma loja de conveniência. Ouviu uma mulher reclamar por ele fumar dentro do estabelecimento enquanto deu as costas para ir até um beco sem saída, abrindo o seu portal longe da visão dos civis. O loiro a alcançou com o maldito cigarro na boca.

— Siga-me.

Garfield saiu do elevador na área de treinamento, mastigando o restante do hambúrguer de Rachel, que ele tinha conseguido convencer ela a comer algo vegano. Havia esquecido que Grayson iria “colocar as múmias preguiçosas para se mexer”. Estava matutando a tempos sobre o que falar para a equipe até começar a ouvir uma discussão entre Tara e Dick. Se aproximou devagar, assistindo os dois em um canto mais escuro do local, já que Victor usava os hologramas para praticar sua mira e Kori participava na luta corpo a corpo com um sorriso no rosto. Ela voava pela pequena arena e acertava alguns alvos também com seus raios de luz contidos, para não destruir o lugar.

— Meu dever como Titã é comunicar meus superiores sobre a ameaça eminente. Você como líder está sendo irresponsável — a loira segurava o tom raivoso enquanto olhava para o Grayson de cima a baixo, com desdém.

— Um dos líderes mais importantes da Liga da Justiça já estava presente e deu seu veredito, a ordem é aguardar — Dick era firme e não se intimidava com o olhar de Terra.

— Só está dizendo isso porque foi o seu papai que veio aqui, e se fosse o Superman? Você obedeceria?

— Não importa quem da Liga viesse. Você quem alertou eles sobre o que houve com Garfield mesmo com Batman presente, estão nas câmeras. Era totalmente desnecessário. Tara, você tem que saber ouvir e obedecer a ordens. Pare de agir como uma criança.

— Eu faria de novo caso eu estivesse aqui ontem antes da Rachel destruir a Torre. Ela poderia ter matado Kori, como pôde permitir que sua mulher ficasse? Como sabia que ela aguentaria o poder da magia daquela bruxa?

Garfield ouviu um baque na parede. Como um camundongo resolveu se aproximar, preocupado. Estavam falando de Rachel e Tara havia voltado com as provocações. Observou Dick com o punho fechado na parede, onde havia socado. Tara estava com os braços cruzados, sua face demonstrava ira e indignação.

— Está me dizendo que eu a deixei pra trás?

— Foi você quem me disse isso hoje de manhã.

Grayson segurou um rosnado, não iria permitir que a Tara o deixasse mais estressado. Havia reunido a equipe para treinarem durante a tarde, já que estavam a dias vagabundeando. Resolveu se aproximar da loira para conversar sobre a missão dela e tentar descobrir alguma coisa, mas a mesma rapidamente desconversou e começou a criticar as decisões dele enquanto ela estava fora. O que o deixou puto.

— Para me tornar líder da equipe, foi imprescindível saber a história, habilidades e limites de cada pessoa que habita neste prédio. Principalmente suas fraquezas — sua voz grave estava mais calma, mas ainda firme, não querendo chamar atenção dos demais — Eu jamais colocaria em perigo qualquer um de vocês sem saber lidar com a situação primeiro. A impulsividade acaba em desastre quando se está nessas circunstâncias, Tara. E com essa conversa eu acabei de perceber que se você estivesse presente ontem, seria muito pior — o moreno se aproximou da mais nova, que deu um passo para trás, ao conseguir ser intimidada — Como você disse, “meu dever como Titã é comunicar meus superiores sobre a ameaça eminente”. Talvez a ameaça agora seja você, por este comportamento inapropriado. Quer que eu comunique a Liga?

O silêncio dela já deu uma resposta à Grayson que sorriu de lado enquanto se afastava, triunfante. A expressão do rosto de Tara que estava irritado agora havia se tornado nefasto enquanto observava o moreno dar as costas com a intenção de voltar ao tatame. Garfield sentiu o sangue gelar quando viu o movimento da loira, que provavelmente pretendia atacá-lo pelas costas, já com as mãos acumulando a pouca poeira do local em suas mãos. Não pensou antes de se transformar em um rinoceronte e empurrá-la com tudo contra a parede no momento em que ela iria atingir Dick, que havia percebido o movimento quase tarde demais.

O impacto fez com que os que treinavam parassem para descobrir o que acontecia, intrigados. Tara encarava os olhos do animal verde espantada, por não saber da sua presença. Não havia o visto desde que chegara ontem à noite. Dick não conseguiu esconder a surpresa em sua face.

— O que está acontecendo? — Kori pousou perto deles, curiosa. Garfield ainda segurava a mulher contra a parede — Olá, Mutano! Não sabia que estava treinando também.

— Eu não estou treinando — o animal disse sem se mexer, estava furioso — Tara tentou atacar o Dick pelas costas.

A ruiva colocou as mãos na boca, pasma. Victor que estava logo atrás e ao ouvir a voz do amigo, ficou em alerta pelo seu comportamento distinto. Raramente agia assim, então o caso realmente era sério.

— Eu não fiz nada. Me solta, Gar — disse incomodada pela pressão que estava sentindo contra seu corpo, não se feria facilmente.

— Mas ia fazer. Eu não sou cego.

— Garfield, solta ela — Dick pediu, mas o garoto não saiu do lugar — É melhor conversarmos civilizadamente.

— Tal comportamento não é civilizado, querido. — Kori disse sem o tom doce na voz, os olhos verdes já emitiam seu brilho perigoso, o que fez Tara engolir em seco.

— Eu agi sem pensar, eu... — falava com dificuldade pelo nervosismo e o chifre do rinoceronte estar apertando seus pulmões — Gar, você me conhece. Só estou tentando ajudar.

— Pode me dizer como se ajuda alguém o golpeando pelas costas? — Victor se pronunciou, com a voz alterada — O que está acontecendo com você, Tara? Está aprontando de novo?

Ela negou com a cabeça, com a dificuldade para respirar acabou não respondendo. Mutano voltou ao normal, deixando-a cair no chão arfando. Dick abaixou-se perto dela e ergueu a sobrancelha. Ela estava sim envolvida com Slade, entretanto suas feições lhe intrigavam.

— De que lado você está? — perguntou enquanto ouvia os passos de Kori se aproximando — Sabe que a verdade é a melhor coisa a se fazer.

— Eu só quero que esse planeta sobreviva ao caos que está para chegar, nós moramos nele, não sei se perceberam! Queria que todos vocês estivessem a salvo — gritou, olhando direto para Garfield que a encarava com certo receio de ela atacá-los de novo — Rachel quase matou todos vocês ontem de novo, porra! Não percebem que o melhor para nós é com ela longe daqui?

Kori surpreendendo todos foi para cima da mulher caída, a levantando bruscamente com o braço.

— Diga o que esconde, por favor! Eu não quero ser mais indelicada com você! — Ela detestava violência, intrigas. Odiava quando falavam mentiras e eram deseducados para com seus amigos. Tara era sua amiga, mas a partir do momento em que ela havia tentado agredir Grayson covardemente e agido de má conduta com Rachel, deixou de conhecê-la.

O chão já estava sutilmente rachando por baixo do tatame, Tara estava prestes a acertá-los para fugir dali, mas ouviram o alerta da Liga para uma mensagem urgente. A ruiva desviou o olhar para Dick, incerta do que fazer, e ele respirou fundo por todo o peso dos problemas acumulando em seus ombros. Precisava dormir.

— Vamos resolver essa merda mais tarde. Victor, prenda ela lá embaixo e depois se reúna conosco. Não se esqueça de chamar a Rachel — deu a ordem seguindo para o elevador sem olhar para trás, ignorando os protestos da loira e não percebendo o nervosismo vindo de Garfield — Vamos, Titãs.

Estavam todos na sala de controle, com exceção de Cyborg e Ravena. Quem havia os chamado era Superman desta vez, o que deixou todos agitados, com exceção de Grayson que queria manter o decoro. Se é ele quem os chamou, era porque algo grave ocorria. O homem de aço os cumprimentou em tom agradável, como era de seu feitio.

— Vejo que não estão reunidos. Essa conversa é sobre Rachel Roth. Eu devo aguardá-la?

— Cyborg foi chamá-la. Na verdade, houve um “equívoco” agora a pouco. Terra está trabalhando com Slade, e fui atacado há alguns minutos atrás. Já está presa, para caso queiram interrogá-la. — Dick informou, sabendo que ele não tinha permissão para tal feito, porque pertencia a mesma equipe e ela retornara de uma missão que a própria Liga da Justiça estipulou. Ouviram Clark dar um suspiro, lamentando o ocorrido.

— Isso é realmente terrível. Iremos tomar providências assim que tudo estiver sob controle.

— Sob controle? — Estelar repetiu, aguardando uma explicação. Superman olhou para o lado, talvez procurando alguém.

— Sim, Estelar. Realmente precisamos conversar com Ravena.

Dick estava se segurando para não despejar tudo sobre Clark, que segurava o suspense como uma novela mexicana, até que ouviu um puta merda atrás de si. Ele olhou para os olhos de quem nunca conseguiu omitir alguma coisa na vida.

— Gar, onde ela está? — perguntou calmamente, por estarem sendo observados, mas o idiota não respondia — Onde ela está, caralho!?

— Ela foi se livrar de Trigon com Constantine — confessou, sentindo a dor de cada palavra que disse. Tinha certeza de que Rachel o mataria. Os amigos lhe olharam chocados, e Superman na tela passou a mão na testa, visivelmente nervoso.

— Desde quando? — o moreno disse entre dentes se segurando para não gritar.

— Eu... eu não sei. Uma hora? Estávamos almoçando, ele chegou e me mandaram embora. Robin, ela disse para não contar a ninguém.

— Talvez seja porque Trigon se libertou — Clark os chamou a atenção — Zatanna sentiu a ameaça minutos atrás, por isso vim avisá-la para vir a nosso encontro e resolvermos isso.

— E irão resolver como? — Kori perguntou, preocupada com a amiga.

— Confesso que não entendo sobre esse assunto, Estelar. É uma mensagem de última hora, quem realmente sabe o que fazer é Zatanna.

— E John Constantine — Gar complementou, tentando não pensar na complicação que acabara de criar — Ele disse que precisava dela para conseguir banir Trigon. Avise ela, Superman. Tenho certeza de que ela saberá onde ele está para impedir que Trigon retorne.

O homem o olhou pensativo, e lançou um pequeno sorriso, agradecendo a contribuição.

— Eu irei comunicá-la. Agradeço a sua honestidade, Mutano. Sei que deve ser difícil para você — o moreno comentou, deixando os Titãs confusos — Aguardem mais informações e tenham cuidado. Sobre Terra, resolveremos após o demônio ser contido. Até breve, Jovens Titãs.

O grande monitor desligou, e imediatamente o Dick furioso foi de encontro a Garfield, com vontade de estrangulá-lo. O mais novo tentava fugir das mãos do moreno enquanto Victor apareceu na sala, querendo saber o que tinha acontecido. Kori tentava explicar enquanto algumas lágrimas caíam, com o coração aflito pela amiga.

— Eu quero que me conte tudo o que vocês fizeram até você chegar aqui! — Grayson exclamou, apontando um dedo para a face verde assustada enquanto o segurava pela jaqueta — Cada palavra, movimento, o segundo e o local. Precisamos encontrá-la antes da Liga, agora que Clark sabe, Bruce não pode mais protegê-la.

Notas finais
É treta! É treta!