Sacrifício

16 Vale da Morte


Notas iniciais
Olá, boa leitura! Que comece a treta!

Ao atravessar o portal, John Constantine ficou confuso. Ele planejava permanecer na cidade, mas se deparou com um grande deserto. Alguns montes o cercavam e as pequenas dunas se moviam pelo vento forte que levou seu cigarro embora. Quase tropeçou pelas fendas arenosas que havia no chão devido à seca. O clima estava mais quente, como o início de uma primavera. Ainda era dia, por mais que o céu estivesse escuro pelas nuvens densas e sinuosas, que com os relâmpagos ameaçavam uma forte chuva a qualquer momento. “Mau presságio com certeza”, ele pensou.

Olhou em volta à procura de Rachel, logo a encontrando em frente à uma única construção que estava oculta por magia negra. A capa violeta que dançava com a ventania cobria quase todo o seu corpo, escondendo o collant preto e o cinto decorado com esferas douradas e vermelhas. Suas botas tinham o cano mais alto. O traje agora era diferente do último que John havia visto anos atrás. O corpo agora mais definido pelos treinos sob a roupa justa a deixava com aparência mais ameaçadora e sedutoramente perigosa. Seus olhos já estavam completamente brancos. Pronta para o que estava por vir.

Constantine se aproximava observando a igreja antiga, construída apenas por pedras escuras e o telhado de madeira estava quase apodrecido. Um pentagrama que marcava a porta vermelha já o alertava do que a morena estava planejando.

— Em que país estamos? — gritou contra o vento, tirando Rachel dos pensamentos conflituosos.

— Ainda estamos na Califórnia. Este é o Vale da Morte — o tom de voz foi alto o suficiente para o homem mal-humorado a ouvir em meio a ventania. Escondia o desconforto pela areia que batia em seu capuz, o que a fez ir em frente e tentar abrir a porta.

— Perto de Las Vegas? Que interessante — tentou quebrar a tensão com o comentário — Com certeza existem entidades aí dentro. Tem certeza?

Ignorou o loiro. A porta estava trancada por magia, mas ela não demorou para rompê-la e entrar, escapando do vendaval. Ouviu John reclamando atrás de si, mas não deu importância. Ele pediu um local vazio, distante dos civis. E ali estava.

— É uma Igreja do Sangue abandonada... Os adoradores de Trigon se reuniam aqui há quase um século. Aquela seita maldita... — sua voz ecoou enquanto levitava até o altar. Por fora o lugar parecia ser uma igreja simples. Entretanto, por dentro o local era grande o suficiente para se comparar a uma catedral. Estava escuro, e as velas que estavam por toda a parte foram acesas pelo estalar de dedos de John, permitindo que visse uma grande gravura na forma de um pentagrama marcada no centro do templo maligno, onde suas linhas aprofundavam o chão. Provavelmente para o sangue escorrer após algum sacrifício — Eles matavam os próprios filhos... Quando o líder morreu, alguns abandonaram a seita.

— Fiquei sabendo — o loiro já estava com o novo cigarro na boca — Foi boa essa sua ideia. Vamos nos preparar. Sele as palavras em sânscrito em volta dessa coisa. Não queremos um demônio distinto aqui.

Enquanto a magia de Rachel fazia o seu papel, ela se encontrava refletindo sobre o que aconteceria daqui a alguns minutos. Estava preocupada com sua equipe e não parava de pensar em Garfield. Eles não poderiam estar dentro da igreja quando o ritual já estiver começado, e tinha certeza de que os Titãs tentariam invadir o lugar. A aflição tomou conta do seu peito, estava tentando ao máximo não demonstrar o medo em seus gestos e falas. John poderia pensar que tal sentimento era pelo seu pai, mas na verdade o pavor era pela possível perda da sua família que a acolheu desde tempos atrás. Se lembrou do comunicador que estava consigo e imediatamente o destruiu. Talvez isso pudesse atrasá-los.

— Não quero a Zatanna aqui — expressou seu descontentamento para o homem que sussurrava algumas palavras para expulsar as entidades escondidas entre as sombras — Com certeza vai tentar me banir também, e eu não posso dizer que sinto muito depois de quebrar o pescoço da sua ex-namorada antes que ela pense em me matar. É um erro. Vai nos atrasar.

John parou o que estava fazendo e tragou o cigarro. Olhou para a morena em dúvida, pensando se ela era realmente capaz de tirar a vida de alguém propositalmente. Ela estava apoiada no púlpito no fundo do altar, os olhos brancos o fitavam com ódio pela sua ideia ridícula de chamar a maga.

— Rachel, por mais que você me ame incondicionalmente, sabe que não tenho tanto poder para te ajudar. Eu preparo o terreno quando o demônio é dos grandes. Sei meus limites e não pretendo ir para o inferno hoje. — explicou, não conseguindo mudar a expressão de Rachel — Eu sei que ela vai tentar fazer isso com você, mas eu tenho um plano quanto a isso.

— Ao invés de ter um plano para ela não me matar, poderia chamar um de seus amigos — ela tentou procurar uma saída, mas ele negou com a cabeça.

— Todos tem parte demoníaca também, jamais iriam participar disso. E nem mencione os celestiais. Você estaria encrencada antes mesmo do ritual começar.

O silêncio reinou por alguns segundos. Os comparsas de Constantine seriam muito úteis naquele momento, mas neste quesito ele tinha razão. Apenas ela teria chances de sair intacta dali. Por ter o sangue de Trigon em suas veias, o feitiço seria como se Ravena fosse uma membra da Igreja do Sangue. Estaria sacrificando o próprio pai. Como os outros não tinham parentesco, seriam banidos ou mortos também.

— Você é mais forte do que pensa.

— Por mais que eu tenha as habilidades que menciona indiretamente, não deixo de ser humano, garota. Esses argumentos não funcionam comigo — foi impassível, querendo fazer com que ela calasse a boca — Não sou de dar ordens, mas se quiser que essa porra termine logo, complete esse selo malfeito enquanto farei um campo de força. Não quero o seu grupo morrendo aqui dentro. Se forem fazer cagada, que seja no lado de fora.

Suspirou pesadamente, se sentindo perdida pelas palavras daquele loiro estúpido e ignorante. Teve a sensação de estar falando consigo mesma. O observou dar as costas e abrir a porta vermelha com pressa, mas seu sangue gelou ao vê-lo cair no chão de joelhos depois que uma grande lâmina atravessou seu corpo, na área da costela. Sentiu um aperto no peito pelo grito de dor do mais velho enquanto assistia Slade adentrando ao local, passando por cima de John com uma espada empunhada na mão direita.

“O que ele estava fazendo? Como chegou até aqui?”

Sua voz não saía. Estava em choque ao ver o babaca gemendo no chão com as mãos na ferida que esbanjava sangue, com o rosto já pálido. Precisava curá-lo.

— Rachel Roth, é uma honra estar em sua presença — a voz grave a tirou do transe. Ele se aproximava a passos lentos — vejo que já estavam preparando o terreno pra mim. Sou grato por isso.

Enquanto respondia um curto interrogatório, Dick procurava por Rachel pelo rastreador. Nada. Nenhum deles tinha a habilidade de poder contatá-la, então no momento em que o metamorfo disse sobre locais abandonados e longe de inocentes, localizaram no mapa os possíveis prédios em que ela poderia estar e cada um iria para um lado da cidade. Dick já estava em sua moto perto dos demais, pronto para partir quando avistou a silenciosa nave mediana de seu tutor se aproximar. Ele sequer pousou. Com o olhar já soube que Batman havia descoberto tudo.

— Entrem — a voz grave ordenou — não temos tempo a perder.

— Todos nós cabemos aí? — Garfield perguntou enquanto subia pela asa da aeronave.

— É só você mudar de tamanho. Quer nos atrasar mais do que atrasou? — Grayson disse enquanto segurava a mão de Kori e aguardava Victor, mas se surpreendeu quando viu um baixinho com cara de poucos amigos em seu lugar — Damian? O que está fazendo aqui? Bruce, ele não precisa fazer parte disso.

— Não sabemos totalmente qual o perigo que nos aguarda.

Suspirou pesadamente enquanto já partiam. Agora teria que se preocupar com uma criança mal-humorada. Ouviu o macaco no colo da ruiva tentar cumprimentá-lo, mas recebeu silêncio em resposta.

— O que descobriu? — se dirigiu ao homem morcego que pilotava, por estarem em uma nave a distância deveria ser grande — Para onde estamos indo?

— O deserto Vale da Morte. Entrei no prédio que me indicou e Slade ainda estava lá, preso pelo campo de força como havia me dito. Ele discutia com Terra, que planejava a morte de Rachel. — Ouviu Garfield soltar um grunhido — Fiquei observando até Zatanna chegar. Terra fugiu ao perceber a movimentação, pensando que ela não estava envolvida. Confesso que me surpreendi quando ela abriu o livro de Ravena e deu a Slade instruções sobre a continuação de um ritual para um feitiço de invocação, que envolve magia negra — Grayson travou o maxilar em ódio contido e novamente olhou para o macaco verde, checando se ele não daria um chilique — Como também estou agindo fora do esquema da Liga da Justiça, descobri os dois lados. Slade quer entregar Rachel viva à Trigon para receber os poderes dela, entretanto ele não tem experiência para tal ato. E nem sabe que isso não é possível. A tentativa de invocá-lo sozinho quase o matou e a tragédia no domingo passado ocorreu propositalmente, tanto para tirar Rachel do controle quanto para atrair Zatanna para a cidade, porque de alguma forma ele sabia da rixa entre as duas.

— E o outro lado? — Kori perguntou enquanto alisava a cabeça do macaco inquieto, que se segurava para não dizer nada. Victor só observava as nuvens escuras que se aproximavam em silêncio.

— Zatanna no Salão da Justiça disse que havia uma forma de banir o demônio junto de seus filhos, mas mentiu sobre ter a intenção de “proteger” a Ravena com um feitiço de proteção. Alguns integrantes da Liga já devem estar indo ao mesmo local para ajudá-la. Ainda não sabem que ela quer matar a Rachel.

— E por que você não os alertou? — Mutano disse com raiva na voz.

— Eu alertei. Ela enfeitiçou todos eles.

— E como sabe de tudo isso se faz parte da Liga também?

— Porque meu pai é o Batman, imbecil — Damian falou pela primeira vez, arrogante, conseguindo tirar um pequeno sorriso da maioria.

Os Titãs ficaram sem ter o que dizer. Grayson puxou os próprios cabelos involuntariamente, fazia isso quando estava irritado. As lágrimas de Kori começaram a escorrer sem que percebesse, mas com o olhar determinado. Garfield estava sentindo um aperto no coração, pela culpa de não ter alertado os amigos assim que havia chegado na Torre. Victor continuava olhando o céu escurecido, pensando se realmente deveriam acreditar no que Zatanna planejava ou não. Como Titã e para o seu sonho, futuro membro da Liga da Justiça, ele deveria pensar no melhor para o planeta, o universo em primeiro lugar. E pensar na amiga soturna de longa data o deixava confuso.

— Estamos se aproximando. Está chegando uma tempestade e não sabemos o que está acontecendo lá embaixo, então se preparem. Qualquer selo mágico que virem mantenham distância. Não sabemos o que eles fazem e nem quem foi que fez.

Logo que Batman lhes permitiu a saída, todos correram em direção à miríade escurecida que se acumulava em volta da igreja. Conseguiram ver um corpo caído, e Garfield pela sua boa visão conseguiu identificar o sujeito. Como um guepardo partiu na frente dos demais junto de Kori e conseguiu alcançar o loiro tossindo sangue que fora atingido no pulmão. A cor escarlate já banhava parte do chão.

— Como isso aconteceu? Tem mais alguém aqui? — perguntou olhando em sua volta, notando que estranhamente dentro do templo estava um breu — Eu tenho que ver o que...

— Não entre lá, idiota — o alertou respirando com dificuldade, o segurando pelo braço — A igreja está selada, você vai se machucar se tentar.

— Então o que a gente faz, porra? — Mutano já disse alterado por não poder ver como Ravena estava.

— Z. Chame a Z. Ela pode ajudar.

— Quem é Z? — a ruiva falou pela primeira vez.

— Zatanna quer a morte de Rachel, John. — Batman avisou, recebendo um olhar espantado e confuso vindo do ferido — Precisamos dar um jeito nisso. Damian — chamou o mais novo que imediatamente pegou um dispositivo no cinto de utilidades e foi em direção ao loiro para cessar a hemorragia. Enquanto o soro era aplicado o homem urrou de dor, fazendo com que o garoto o chamasse de dramático. — Como entramos?

Um pouco mais desperto, Constantine fala palavras sem sentido para os ouvintes, que começaram a sentir um leve calafrio. Olharam para o próprio corpo e avistaram algumas letras que emitiram um brilho dourado antes de dissiparem.

— Estão protegidos — a voz quase inaudível pelo vento forte. A chuva já começava a cair — Tirem aquele filho da puta de lá. Ele vai estragar tudo.

Sem pensar suas vezes Mutano entrou na igreja escura mesmo sem saber quem deveria ser retirado de lá e levou um susto pelo tamanho da mesma. Sentiu vontade de vomitar pelo cheiro de enxofre. Conseguia identificar Rachel voando perto do teto da agora catedral enquanto fazia um escudo com sua escuridão para não ser acertada pelos disparos de fuzil do Exterminador, que não tinha como objetivo matá-la, só queria a distrair até o reforço chegar.

Ele não estava entendendo porra nenhuma, não sabia para onde ir ou o que fazer. Uma luz vermelha em forma de estrela surgia no chão, junto de nuvens escuras que se espalhavam pelo lugar, como se estivessem procurando alguém para possuir. A morena ainda não havia percebido sua presença. Estava concentrada demais em querer parar o homem sem precisar matá-lo. Estranhamente sua magia não lhe causava efeito, então passou a usar seus portais para cada disparo de projéteis ou lâminas contra ela fossem direcionados ao atirador. Ele foi atingido todas as vezes, entretanto não se feriu muito devido à armadura.

— Mutano! Não fique aí parado, vamos derrubar Slade! — Asa Noturna chamou sua atenção enquanto corria em direção ao louco que já recarregava o fuzil pela segunda vez. Victor fez questão de atirar assim que entrou, fazendo com que o Exterminador se esquivasse pra atrás do púlpito, o deixando em pedaços. O local era aberto, não havia pilares para ele se esconder. Mira fácil. Batman e Robin também entraram, usando o local escuro como vantagem para se aproximar, e Estelar voou em direção à morena que por mais que estivesse se defendendo de míseros tiros, estava apenas preocupada na possibilidade de sua equipe chegar. Eles eram o seu ponto fraco.

— Ravena, o que está fazendo? — perguntou ao lado da amiga que se assustou, mas não o suficiente para baixar a guarda.

Se ela estava surpresa? Não. Talvez John houvesse chamado ajuda depois do golpe que levou. Pelas suas habilidades sensitivas viu que a amiga estava com o feitiço de proteção de Constantine, porém ele não serviria pra nada quando o seu pai aparecesse. A ruiva apenas estava segura de seus irmãos que estavam passeando pela catedral como nuvens escuras, procurando vítimas para possuírem.

— Ele está tentando invocar Trigon. Estou esperando o feitiço falhar porque ele não tem poderes para isso. Onde estão os outros?

— Lá embaixo. Vamos distrair ele para que os outros o peguem de surpresa.

Ela assentiu, logo observando Estelar se aproximar de Slade e lançando seus raios verdes em sua direção. O mesmo estava encurralado por Cyborg e ela, que não o acertavam de propósito, com o intuito de ele ser contido pelos heróis que estavam mais próximos. Mas uma voz feminina mudou tudo.

— Merap! — a recém-chegada disse, fazendo com que todos ficassem sem se mover, como estátuas. Somente o Exterminador e uma loira que estava ao seu lado se mexiam. Os passos ecoavam no local agora silencioso — Desculpe o atraso, confesso que demorou mais que o previsto para tirar essa daqui da cela.

Terra caminhava incerta pelo local escuro. Não conseguia enxergar mais que um metro em sua frente pela névoa que rodeava o local, mesmo com velas acesas. Alguns minutos atrás uma mulher elegante com uma varinha havia retirado ela da Torre e agora se deparou com esse lugar. Estranhamente estava calor, e ficou tensa quando avistou a cauda de um tigre verde próximo a ela. Ele conseguia piscar, e os olhos queimavam pela raiva que sentia por ela.

— Você demorou — Slade saiu em meio aos destroços, passando pelo trio de Gotham estáticos sem os encarar — Aparentemente está tudo pronto.

— Vamos começar — se aproximou do Exterminador que lançou o olho para a garota que estava ao seu lado — Não temos tempo para reencontro afetivo. Onde está Rachel?

Ele apontou para cima com o indicador, sem tirar o olhar de Tara, que o olhava sorrindo.

— Vá buscá-la, garota. Precisamos dela no meio do pentagrama — foi direto ao ponto enquanto se aproximava das linhas que brilhavam um vermelho sangue.

Terra retirou um pedaço do solo e subiu para encontrar Ravena. Rodeou o local e não conseguiu encontrá-la. Foi com sua rocha em meio às nuvens escuras que também pararam de se mover e foi surpreendida por um grande e perigoso corvo coberto de magia indo em sua direção. Ela não teve tempo de desviar. As asas a cobriram e ela sentiu uma grande queimação em seu corpo, o que fez gritar de dor enquanto caía no chão. Foi pega novamente pela escuridão, batendo o corpo violentamente no teto do templo, e se chocando com tudo ao solo que rachou devido à força do baque.

Rachel apareceu entre as nuvens, com os olhos brancos lhe lançando o ódio e fúria que guardava há muito tempo, o que fez Terra engolir em seco.

— Traidora. Você vai pagar por isso.

Notas finais
Estamos nos aproximando do fim da fanfic! Ainda não acredito que estou conseguindo! Até mais!