Engoli perigosamente em seco.

-Não faça isso de novo — como facadas, as palavras dela pareciam perfurar cada músculo meu — Nunca mais deixe sua mãe preocupada assim, Christopher!

Arregalei os olhos, a garganta seca como um deserto.

-Me desculpe... — disse, meus olhos fixos naquele rosto que se escondia cada vez mais nas sombras.

Ouvi a mulher respirar fundo, e juro que achei que ela me mataria ali mesmo.

-Por onde andou? — ela lançou mais uma de suas palavras afiadas como navalha — E que corte de cabelo é esse?!

Apalpei o cabelo, lembrando do sangue que tingira ele de vermelho há pouquíssimos dias atrás.

-Cortei, quis mudar de visual... Não quero ser um garoto mimado para sempre, m-mãe, por isso fiquei esses dias vagando por aí, tentando ser independente.

A mentira era tão descarada que achei que ela, no mínimo, fosse raspar meu cabelo com gilete e me jogar pela janela.

Só que na verdade ela ficou em silêncio, num silêncio terrivelmente assustador...

-Faça isso quando tiver um emprego — ela murmurou, quando o carro lentamente começou a perder velocidade.

A porta, automática, se abriu atrás de mim. Desci do carro aos tropeços e parei, abobalhado. Diante de mim estava uma esplêndida mansão, aquelas que você só vê nos melhores filmes de Hollywood. Sem perceber, prendi a respiração, encarando aquele lugar que agora era meu mais novo lar.

Almoço posto na gigantesca mesa da sala de jantar, dezenas de empregadas curvando a cabeça quando nos viram passar, um salão de jogos que qualquer garoto choraria de inveja... Aquele lugar era o paraíso.

-Isso está uma delícia! — exclamei, o lombo recheado inundando minha boca de prazer.

Minha mãe me olhou sarcástica, um pequeno riso escapando do canto de seus lábios. Retribui o sorriso, como se pedisse desculpas pelo o que o garoto que antes habitara meu corpo estivera aprontado.

Naquele momento, rodeado de glamour e pessoas bonitas, me perguntei como alguém que morava num lugar daquele, com pais que pareciam tão preocupados com o bem-estar de seu filho, pudesse acabar morto numa esquina qualquer. Olhei preocupado em volta. Havia algum segredo macabro ali que meus olhos ainda não eram capazes de ver.

Mas se eu pudesse ter pedido a eles uma única coisa, eu queria que tivessem me avisado que eu estava em perigo. Apenas isso teria bastado.

Notas finais
E agoora?!