Sacrifício
9 8.
O primeiro sinal anunciando o fim veio naquela mesma tarde.
Eu estava no jardim, pulando e brincando com os cachorros da mansão. Mesmo lendo seus nomes nas coleiras, criei eu mesmo um apelido para cada um. E tudo parecia bem até que eu vi o primeiro deles.
Parado do outro lado da calçada, um jornal ocupando seu colo e um boné amarelo ridículo lhe cobrindo a careca... Aquele cara estava ali há horas, e eu não era nenhum idiota para não ver que sua atenção estava voltada diretamente para mim.
-Prestígio, Laika... Vamos entrar — sussurrei aos cachorros, levando-os para seus ninhos secretos quando a escuridão começou a ganhar vida no céu.
Durante o jantar, eu e minha mãe comemos em silêncio. Meu pai, que até agora não aparecera naquela casa, continuava sendo a incógnita na minha mente. Ele também tinha sua parcela de culpa na solidão que eu supus que seu filho tivesse, mas a presença invisível dele me deixava apenas sem certezas concretas.
-Onde está o papai? — perguntei a minha mãe, quando já estávamos terminando o jantar.
Diante de minhas palavras, ela me observou por um momento, seu garfo agora suspenso no ar.
-Ele está viajando, Cris. Eu te disse isso na sexta, não se lembra?
Não, o novo eu não tinha recebido essa informação.
-Ah, é mesmo, me lembro sim...
E a conversa ficou por isso mesmo.
No quarto que agora pertencia a mim, a cama de casal teria ganhado delírios em minha mente se Gabriel estivesse ali comigo. No entanto, fechei os olhos tão sem perceber que nas horas que se seguiram tive uma noite de sono sem sonhos.
-Não tem um carro menos... chamativo para me levar à escola não?! — perguntei na manhã seguinte, quando me jogaram mais uma vez dentro daquela luxuosa limosine branca.
-Não — o motorista sorriu pelo retrovisor, como se na verdade estivesse rindo de mim...
Ainda não eram nem 6:30 da manhã quando me deixaram na entrada da escola. Não ter nenhum aluno ali perto me deixou deprimido. Como se hoje fosse ontem, olhei mais uma vez para o colégio diante de mim. Nostalgia não era palavra suficiente para descrever a desilusão que segunda-feira deixara em mim.
Olhei para a limosine mais uma vez, ela agora virando a esquina e desaparecendo enfim da minha vista. Avancei um passo, e foi então que, tarde demais, escutei o som vindo atrás de mim. Não precisei me virar para enxergar a sombra sinistra que crescia na calçada.
Eu sabia que estava encrencado.
Sem escolha, me virei lentamente, meus sentidos todos voltados àquele intruso que estava ali. O mesmo sobretudo marrom de ontem, a mesma careca escondida pela boina amarela...
Eu teria me atirado sobre ele, dando um soco naquele rosto que me encarava feio. Mas foi o reflexo de algo metálico em suas mãos que congelaram minhas ações. Ele sorriu, vendo a careta de medo que cobrira meu rosto. O homem levantou o objeto que estava em sua mão, a arma agora apontada diretamente em mim.
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