Eu não poderia ser denominado de Demônio perto dele.

Ah! Não! Eu não era.

Era aquele garoto, aquele frágil garoto, que tinha seus olhos brilhando por vingança, aquele ser, de doze anos, era uma peste. A peste que me invadia enchendo meu peito e corpo de glória, a peste, onde a sua alma me pertencia...

É meu caro, creio que devo lhe explicar que existem diferenças gritantes entre uma alma tomada, e uma dada de bom grado... Mas isso não vem ao caso, afinal, é apenas uma alma. Uma alma para com essas sete bilhões de pessoas, que diferença faz não é mesmo?

Uma alma infantil ainda, em que ela beneficiará o mundo?

Você deve estar pensando que eu sou um egoísta, mas permita-me contar uma história, minha história.

Senti um êxtase, um êxtase infinito, ao ver aquele boneco de porcelana apreciando aquele chá fumegante de todas as manhãs. Encarei-o junto com seu olho azul, e sabia muito bem o outro em baixo daquele tapa-olho preto de couro velho, suspirei um pouco alto demais. Bocchan percebeu, e levantou o rosto...

- Há algo errado, Sebastian? – Ele disse colocando a xícara de porcelana importada em cima do pires, e sustentou o queixo em cima da palma da mão.

Mordi a minha língua para pensar antes de falar alguma coisa. Era tão desafiador e aguçado aquele Conde.

- Só ando frustrado com o jantar mi Lord. Não é nada muito sério... – Sorri pelos cantos, devido à mentira deslavada.

Ele ficou um silêncio um pouco, arqueou uma sobrancelha e disse em um tom ríspido:

- Não jantarei hoje... Sebastian... Não aqui!

- Como quiser mi Lord... – Falei pausadamente, reverenciei-o e me virei em direção à porta.

Havia tantas coisas para fazer, tantas provas pra analisar, tantos trabalhos. E tantas coisas para dizer a ele.

Durante esses doze anos em que eu estive ao seu lado, sempre percebi que ele não seria apenas meu Bocchan... Eu sempre soube que ele não possuía uma alma tão inocente assim, saberia o trabalho intenso e árduo que eu teria de realizar... Mas por aquela alma, aquela alma tão deliciosa, que eu ansiava até hoje, eu, Sebastian Michaelis, faria qualquer coisa!

Comecei a perceber que queria ir mais além com o jovem Ciel, em um dia que eu parecia fisicamente exausto, ele em uma atitude confortadora acariciou minha nuca e meus ombros enquanto eu sentei na escada em frente à mansão Phantohimve por um momento. Eu tentei conter-me e quando me virei para revê-lo ele saia correndo pelo hall imenso da mansão. Uma atitude bem estranha. Lembro-me de sempre sorrir ao rever a cena pela minha mente.

Lembro-me também, que passei o dia inteiro pensando nisso, eu com certeza estava ficando louco! Não era possível, tentei durante esses seiscentos e sessenta e seis anos me esconder de um tal sentimento, algo como “um tal amor”, tentei ser forte, mas não consegui... Meu peito que tinha um buraco no lugar que deveria estar meu coração, agora estava completo, eu já tinha tudo o que me faltava!

Eu era o Demônio e ele a Salvação!