Lembro-me um dia que ouvi o Jovem Mestre sussurrar para mim uma vez, algo como: “Para um rei sobreviver, é necessário que ele seja capaz de manipular habilidosamente as outras peças, usando ambos o cavalo, a rainha e o próprio rei...”
É!... Para crianças da idade dele, a malícia em que em si fervia parecia infinita.
Depois de muito discutirmos, de analisarmos provas durante dias e noites inteiras, e destruir obstáculos presentes na família, descobrimos tudo sobre a nobre tia de Bocchan...
Estava envolvida com o repugnante ceifador ruivo e de cabelos longos, um ser surtado, porém, nem um pouco tenebroso. Madame Red, destemida, se passando por corajosa, acabou envolvendo-se também com aquele Anjo amaldiçoado.
Envolveu-se com quem não deveria, se apaixonou pelo inútil errado, e acabou morrendo pelo próprio. Uma morte como os dois desejaram, uma morte em vermelho! O vermelho que corre nas veias do homem, com um cheiro de ferrugem, que por sinal, é muito bom.
A rainha tombou e só sobrou o cavalo e o rei.
Durante o velório de Madame Red, Ciel se portou realmente como um Conde, honrou o nome de sua tia, a única parte de seu sangue que restou. E a vestiu assim, com a cor que ela mais admirava e sempre usava.
Não chorou durante sua morte e seu enterro, não comentou e conversou nada com ninguém. Apenas observava atentamente cada movimento, meu, e dos outros humanos envolvidos. Estava estático a qualquer movimento brusco.
Ao chegarmos do enterro monótono e gélido, preparei com a ajuda da senhorita Maylene um belo chá das cinco para mi Lord. Era seu chá de pêssego com leite, o preferido. Fizemos um bolo de morango silvestre, a vista estava fielmente apetitoso.
Dirigir-me até seu escritório, abri lentamente a porta, e empurrei o carrinho com aquelas iguarias, a fechei como abrira, silenciosamente, e quando me virei para observá-lo, ele veio correndo em meus braços, me abraçou em meio de soluços e choros. Eu o confortei, sentamos no chão, e ele enxugava suas lágrimas em meu smoking, agarrou com força a gola de minha camisa social e sussurrava com um ódio em sua voz:
- Ela se sacrificou por mim – caia lágrimas pesadas em meu peito – Aquele maldito ceifador... Ela era... – a voz continuou rouca – Minha única família...
Tentei não dizer nada, tentei até não respirar, concordava com a cabeça e suspirava algumas vezes... Até que desisti. Acariciei a sua cabeça e disse:
- Enquanto eu estiver aqui, você não estará sozinho, mi Lord...- Disse encarando o pôr-do-sol pela janela.
Ele levantou sua cabeça, seu olho esquerdo meio inchado, e uma lágrima saindo pelo tapa-olho, eu não pude resistir e passei meu polegar tirando aquela fraqueza dele. Levantei-me e puxei o Jovem Mestre, o guiei até sua poltrona pela mão, e suspirei. Nada disse, e ele nada respondeu. O servi e ele não agradeceu. Sai do quarto e fechei a porta lentamente...
Agora nós dois estaríamos juntos, derrotando tudo que nos corrompem e nos destrói, juntos, um para o outro. Como sempre foi, e como deve ser!
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