Como se o relógio tivesse voltado no tempo, mais uma vez eu estava naquele beco escuro onde tudo começou. Era como se a desventura quisesse cair mais uma vez sobre mim. Aquela fita vermelha, que eu passei a carregar todos os dias em meu bolso, por um segundo pareceu pesar dez vezes mais.

-Acho que estaremos seguros aqui — Gabriel arfou, caindo sentado no chão e olhando de relance para mim.

Sacudi a cabeça, expulsando os pensamentos que dominavam minha mente. Tentei retribuir seu sorriso, mas pela expressão preocupada dele eu sabia que não havia conseguido.

-Hei... Você está bem, Cris? — as palavras dele, todas meticuladas e tão certinhas... Por um segundo de desespero, eu quis voltar ao passado, sentindo aquela saudade terrível de conversar com ele como nos velhos tempos...

Eu sabia que precisava lhe dizer quem eu era logo, senão, que sentido tinha eu estar ali?!

-Hm, acho que estou sim — respondi, um sorriso bobo brincando em meu rosto.

Gabriel me encarou em silêncio, um suspiro longo atenuando sua expressão um minuto depois.

-O que foi? — perguntei, me aproximando dele.

-Eu que devia perguntar isso — ele devolveu, extremamente sincero e receoso — Você não é o Cris que eu conheço.

Arregalei os olhos, o poder de observação dele me deixando sem palavras.

Olhei em volta, mapeando se estávamos mesmo à sós. E diante da afirmativa, voltei minha atenção a ele, me aproximando ainda mais de Gabriel.

-E se eu te dissesse, Gabriel, que você tem razão...? Que eu não sou mais esse Cris que você conhecia?

O garoto me fitou, me analisando da cabeça aos pés. Esperei, ansioso. A resposta dele podia mudar tudo agora.