-Eu sei quem você é — para minha surpresa maior, um sorriso de vitória brilhava na face de Gabriel.

Endireitei a postura, como se suas palavras anteriores me tivessem atingido como um soco.

-Quem eu sou então? — perguntei, a esperança parecendo não caber dentro de mim se libertava através de cada poro do meu corpo.

-Você é a Crystal.

E foi então que meu mundo parou.

-Diga alguma coisa — Gabriel interrompeu meus devaneios mais profundos, a descoberta dele quase me deixando sem ar.

Agora eu sorria, como imaginei nunca mais conseguir sorrir outra vez.

Abracei o garoto, com aqueles braços fortes que agora eram meus.

-H-hei, hei... — Gabriel disse, realmente sem ar.

-Como descobriu isso, Gab?! — na pressa e na euforia, acabei criando um apelido só meu para ele.

-Então eu estou certo, você é mesmo a Crystal?! — ele me perguntou, quase sem acreditar.

Sacudi a cabeça infinitas vezes, concordando com ele.

-Cara... — aquela palavra era nova em seu vocabulário super-correto. E eu havia sido o primeiro a ouvil-a. Ponto pra mim, há.

-Você fez um contrato com algum ser dotado de poderes?!

-Com uma velha cigana. E m troca de algo que ela ainda não me disse, eu vim parar no corpo desse garoto morto.

Pela expressão que assombrara o rosto de Gabriel, percebi que eu havia falado demais.

-Você tem noção do que sacrificou para estar aqui comigo, Crystal...?!! — como facadas, as palavras dele começaram a me ferir — Toda a sua existência nesse mundo foi apagada... A velha não deve ter te contado isso, mas é a verdade. Seus pais, amigos e qualquer pessoa que você conhecia, todas elas se esqueceram de você. Somente eu, Crystal... sou aquele que se lembra da sua existência.

-Como pode saber disso? — falei, minha voz saindo assustada e confusa — A cigana não me disse nada!

As mãos de Gabriel chegaram rápidas em meu ombro, como um apoio que naquele momento eu tanto precisava.

-Eles nunca dizem, nunca... E esse preço que ela não te falou, é a sua alma, Crystal... Quando você morrer, ela pertencerá a essa mulher.

-Isso não pode ser verdade... Como sabe sobre tudo isso? — latejando, latejando sem parar... minha cabeça parecia querer explodir.

-Bem... — Gabriel baixou os olhos por um instante — Eu pesquiso sobre essas coisas, é meu hobby secreto.

Ele tentou sorrir, mas aquela situação não merecia sorriso algum.

-Você encontrou alguma coisa quando veio parar aqui, nesta cidade. Alguma coisa que parecia não ter explicação?

-S-sim... — pus a mão no bolso, retirando de lá a fita vermelha.

-Essa é tudo que sobrou de você, se perder isso... Sua alma abandona esse corpo e você morre.

Encarei a fita vermelha, apertando-a com força antes de voltar a encará-lo.

-E se eu te dissesse... Gabriel... que você vale esse sacríficio que fiz, que eu não teria voltado atrás mesmo se soubesse de tudo isso?