Notas iniciais
Esse capítulo é como misturar vodka com vinho
Acordei às quatro da tarde, primeira coisa que penso ao sair da cama com uma incrível dor de cabeça é que nunca mais irei beber, aposto que até o final do dia eu mudo de ideia, basta que a dor acabe para que eu possa querer mais. Estava em casa e me lembrava com estranheza do sonho bizarro que tive,ele parecia tão realista, havia um homem todo vestido de preto que tentava me iniciar em supostos mistérios sobrenaturais de sabedoria antiga, eu definitivamente bebi demais, só estranho que me lembre tão perfeitamente de tudo aquilo. Um dia de ressaca precisa ser passado de forma tranquila e moderada, fiquei até tarde da noite lendo livros, preferi não ver filmes ou ficar no computador já que meus olhos não estavam aguentando o brilho elétrico e desagradável. Quando estava na cama novamente, ouvi aquela voz estranha e arrogante no meu ouvido, achei que já estivesse dormindo, abri os olhos e olhei ao redor, nada, e estava acordada, fechei os olhos novamente e pude identificar a frase perfeitamente:
— Anjinho, você consegue me ouvir?
Ignorei achando que era efeito de drogas que eu tivesse usado em outros dias e tivessem seus efeitos colaterais posteriores, fiquei levemente perturbada quando ele prosseguiu: — Victoria, você não pode mesmo me ouvir? Sei que não me vê, mas ao menos achei que minha voz chegaria até você.
Parecia tão real que respondi totalmente: — Quem é?
— Sou eu, Malbas, aquele que te revelou os segredos da espiritualidade.
— Malbas? — Sim, o sonho havia sido com um auto-denominado demônio chamado Malbas, o homem vestido de preto, realmente eu podia me lembrar da voz, era como aquela, e parecia não ser de ninguém mais que eu conhecesse. No sonho ele havia me revelado a existência do mundo espiritual e me contado sobre a possibilidade de transitar nele sem se estar morto, supostamente estávamos no Inferno e ele me conhecia de outras vidas. — Aquilo é só um sonho, droga, nunca mais uso LSD.
— Ah, você pode me ouvir então? Não pare com o LSD, eu sou real, aquilo não foi um sonho, realmente te levei até o mundo espiritual,
— Que estupidez, isso não pode ser real. — Estava quase convencida de que não era um delírio, isso certamente não me assustava. Inferno, mundo dos espíritos, demônios no meu quarto? Hm, poderia ser interessante e matar meu tédio, adicionei: — Me dê uma prova de que você é real, cante uma música que eu não conheça e nem poderia conhecer de forma alguma.
Ele obedeceu e cantou alguma coisa em francês, meu francês era fraco mas pude compreender a letra, eu certamente não a conhecia realmente, aceitei aquilo como prova convincente, meu coração se acelerou diante daquela novidade assustadora na minha vida. — Tudo bem, acredito em você. Mas o que deseja, Malbas?
— Somos parceiros desde velhos tempos, Victoria, desde os tempos em que você era simplesmente a Sophia, uma criatura tão discreta e brilhante, quero que passe suas noites comigo no mundo espiritual, irei fazer com que reaprenda as coisas que sempre soube. Sabe, quando a alma entra no corpo, encarnando, a pessoa esquece das lembranças das vidas passadas e da vida incorpórea, depois que ela morre e volta pro mundo espiritual, ela lembra de tudo, mas quero te relembrar de tudo sem que precise morrer.
— O que preciso para ir ao mundo espiritual sem morrer?
— Deite-se de barriga para cima e feche os olhos, farei o resto, seu corpo descansará como no sono, mas sua alma virá comigo para o mundo espiritual.
— Haha, que divertido, faça isso. — Deitei de barriga para cima e fechei os olhos bem fechados, aquilo sim seria uma boa prova da existência daquele ser. Senti algo frio envolvendo meu corpo e deixei que fizesse, a sensação de formigamento veio em cada parte minha e logo vi que estava flutuando, o homem segurava nas minhas duas mãos, parecia um adulto jovem de uns vinte e tantos anos, com cabelos encaracolados e uma barbinha de bode que parecia um pouco cômica, ele certamente não parecia um demônio, era até simpático e com um jeito de piedade nos olhos tão negros quanto seus cabelos.
— Não acredito que essa droga é real. — Fiquei com um frio na barriga na hora, parecia que eu tinha morrido, me assustei ainda mais quando ele me puxou e fomos instantaneamente para uma biblioteca, estávamos entre duas estantes.
— Que lugar é esse, Malbas?
— Minha biblioteca, aqui poderemos conversar à vontade e te mostrarei as fontes que revelam como é esse mundo e quem você foi.
— Tudo bem. — Saí do meio das estantes e sentei na frente de uma mesa de leitura feira de madeira, ele veio e se sentou próximo de mim, trouxe um livro na mão. — Onde a gente se conheceu?
— Leia esse livro. — Virou a capa para mim, o título era "Sabedoria Decaída".
Segurei ele nas mãos, abri na última página para ver quão grosso era, era pequeno, 210 páginas exatamente, poderia ler em uma noite se fosse bem concentrada.
— Sobre o que é?
— Conta a história de Sophia, o nome que você adota quando está no mundo espiritual no decorrer dos anos, eu escrevi e é um pouco resumido, mas tem o suficiente para compreender a base de sua trajetória, sabe, escrevi esse livro para te mostrar quando fosse a hora certa... ah, leia e você entenderá...
— Certo.
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