Sabedoria Decaída

2 Sabedoria Decaída


Notas iniciais
Esse é o capítulo mais explicativo dessa história, provavelmente

Peguei o livro em mãos e o li o mais rápido que pude, fiquei impressionada com a facilidade com que a leitura fluía, também muito rápida, conhecimento puramente espiritual era bem mais eficiente, o corpo tem suas limitações. Vou contar resumidamente a história aqui:

Sophia era um anjo dos céus que lutou na única guerra entre Céu e Inferno da história, ela teve uma atuação heróica como grande guerreira e tornou-se muito respeitada nas alturas. Apesar de todo a admiração que provocava, ela não era feliz, não via propósito na própria existência e o passar dos anos a entediava, por esse motivo ela garantiu a sua própria queda, perdendo sua graça e despencando no meio do mundo espiritual, aquele que não é nem Céu e nem Inferno, onde os espíritos medianos geralmente ficam, a saber, a esmagadora maioria. Lá se envolveu em batalhas, e como estava com seu poder reduzido por ter perdido a força de anjo, quase morreu várias vezes, ela gostava de lutar e de sentir a morte próxima desde que ela não se concretizasse, a sensação de quase morte a fazia feliz e preenchia seu coração, aquilo era o contrário do tédio nos céus nos tempos duradouros de paz que vieram depois da grande guerra. Ela reencarnou algumas vezes, voltando a Terra, vivendo vidas normais, até que por volta do ano 600 conheceu o demônio Malbas.

Quando era um anjo, Sophia era capaz de criar materiais a partir do seu corpo e transformar sua própria estrutura, o que permitia que criasse ataques fulminantes contra seus inimigos, tinha uma regeneração tão impressionante que alguém que não a matasse de uma só vez não teria uma segunda chance e golpes não-mortais eram inúteis. Depois de cair, perdeu esses privilégios e teve que desenvolver sua própria técnica para sobreviver na arte da guerra, juro que quase fiquei horrorizada quando o livro descreveu a criativa técnica que ela inventou e a tornou forte entre os decaídos. Sophia, o anjo, era uma brilhante artesã capaz de criar verdadeiras obras primas com suas mãos abençoadas, especialmente hábil em trabalhar com madeira, isso não era um poder de anjo, era um dom natural, enquanto estava no céu usava esse dom em nome da arte, seus poderes permitiam controlar gelo e madeira livremente e ela fazia esculturas com esses materiais, era uma artista dedicada. Caída e distante dos céus, a capacidade de criar esses materiais à vontade foi perdida e ela teve que substituir por outros meios.

Ela conseguiu modificar as substâncias do seu sangue com um severo treinamento que fez no próprio corpo usando métodos que ninguém além dela mesma conhece, produzindo uma substância prateada que ela pode liberar do corpo através das pontas dos dedos. A substância pode ser facilmente injetada em outras pessoas com um mero toque ou contato, ao entrar no corpo espiritual da outra pessoa, ela serve para manter as habilidades dela mesmo depois da consciência estar completamente morta, resumindo, Sophia podia matar um espírito mas manter seu corpo espiritual intacto, ainda que sem vida, como um boneco capaz de usar os dons anteriores. Ao infestar o sistema circulatório do outro com o seu líquido prateado, Sophia tornava-o perfeitamente controlável, e podia controlar cada parte do seu corpo sem vida como se fosse uma marionete, a partir do movimento interno do líquido prateado irrigando cada vaso da vítima. O normal é que qualquer corpo espiritual se dissipe e desapareça quando tem sua vida destruída, com a habilidade de Sophia ela podia simplesmente impedir essa deteriorização imediata, depois podia trabalhar no cadáver espiritual como se trabalha em um artesanato qualquer, costurando e empalhando, substituindo a pele por materiais mais resistentes entre outras coisas. De acordo com o livro, a primeira vez que fez uma boneca desse tipo foi quando desceu ao Inferno pela primeira vez e caminhou pelo Círculo da Luxúria, lá brigou com um demônio e enfiou suas unhas pontudas (sempre muito bem polidas para furarem tão bem quanto facas, a resistência delas era herança do seu tempo de anjo) no pescoço do demônio, que recebeu o líquido prateado nos vasos sanguíneos enquanto morria, o cadáver ficou estendido no chão e ela o levou para um lugar isolado, um ponto deserto em na infinidade do mundo do meio, que ela encontrou e onde construiu um depósito para ser seu esconderijo e refúgio. Lá trabalhou no cadáver daquele demônio, substituiu sua cama mais externa de pele pele por madeira, retirou todos os órgãos internos exceto o coração e o cérebro, onde ficam armazenados os dons e as memórias respectivamente (embora não tivesse nenhuma forma de acessar as memórias de suas vítimas), e preencheu o resto do interior com palha para que não ficasse oco. Também tirou todo o sangue e preencheu os vasos sanguíneos completamente com o líquido prateado, assim que terminou o trabalho, a criatura ficou parecida com um manequim de madeira com extremas similaridades com um humano de verdade, Sophia testou se podia movê-lo com sua vontade e era facílimo, bastava pensar para que o líquido nas veias dele fizesse o trabalho e movesse cada parte daquele corpo sem vida, ela experimentou primeiro fazendo com que movesse os membros, depois os dedos, e com mais prática descobriu que podia controlar até as menores expressões como dos olhos (que foram mantidos) e o movimento da língua. Divertiu-se com aquilo, tinha criado uma boneca humana a partir de um cadáver, uma marionete perfeita, descobriu que poderia usar os dons que aquele espírito tinha enquanto ainda possuía uma consciência, fazendo com que atirasse projéteis de energia da ponta dos dedos como se fossem armas de fogo (sabe-se que as armas de fogo do mundo físico foram inspiradas nesse tipo de dom existente no mundo espiritual).

Sophia tratou de arranjar novos bonecos para sua coleção, ela matava espíritos mal-feitores que não fariam falta ao mundo e levava seus cadáveres para o esconderijo, lá fazia o processo para tranformá-los em bonecos e os guardava em ganchos em algo que parecia muito com um mostruário de loja de roupas. Aquilo foi um hobbie nos primeiros anos, depois começou a utilizá-los nas suas lutas, conseguia controlar até três marionetes por vez sem ficar com a mente sobrecarregada, ela podia manter distância deles e lutar sem se expor, desde que as marionetes estivessem no campo de visão, ela podia trazê-los do seu esconderijo para o lugar onde estivesse com um simples pensamento, o que os tornava incrivelmentr portáteis.

Em cem anos, Sophia juntou mais de cem marionetes,mas aquilo já começava a entendiá-la, então parou de adicionar números à sua coleção e tratou de estudar uma forma de criar bonecos melhores, foi assim que descobriu que poderia usar borracha no lugar da madeira para fazer a parte exteriordos bonecos ( a borracha não era conhecida no mundo material na época, mas havia sido usada em ciclos anteriores da humanidade, Sophia a conhecia e podia utilizá-la), o trabalho ficou excelente, a madeira descaracterizava a aparência humana de seus bonecos, era rígida e inexpressiva, com borracha podia imitar melhor as feições humanas. Ela construía seus bonecos com todo cuidado para manter a maior semelhança possível com a aparência que eles tinham antes do processo, isso não tinha utilidade para guerras, mas era sua arte e precisa ser bem feita, ser estética e elegante.

Depois de trocar a madeira por borracha em todas as suas bonecas, Sophia foi para uma caçada árdua, procurando marionetes com poderes melhores, conseguiu matar e roubar o corpo de um poderoso deus dos ventos, Éolo, que se tornou sua melhor marionete, porque tinha poderes superiores a qualquer outra, era capaz de voar e uma velocidade surpreendente e produzir fortes ventanias que poderiam resultar em furacões sem dificuldade, chegou a encher o corpo dele de ataduras, deixando ele todo coberto e apenas os olhos de fora, só para garantir que nem mesmo poeira sujasse aquela sua obra prima.

Com Éolos ela caçou muitos outros espíritos, não se limitava mais a malfeitores, não tinha mais nenhuma problema em matar inocentes, o que importava era os dons que se tornavam disponíveis a ela no momento que os transformasse em bonecos. Ao menos passou a caçar com seletividade, levava dias espionando uma possível vítima que lhe parecesse uma boa aquisição, armava um plano para garantir uma captura eficiente e sem testemunhas e então fazia, geralmente passando por sérias dificuldades na batalha, já que escolhia vítimas que obviamente tinham muita capacidade para se defender, só assim era divertido, o sabor de lutas árduas em que sua vida quase se esvaísse.

No ano de 612 D.C, estava planejando fazer a captura da deusa Tétis, a mais poderosa deusa das águas em todo o mundo espiritual, ela a havia observado e a achara tão bela que se sentiu a irresistível necessidade de adicioná-la à sua coleção, não deixou de pensar em um material ainda mais realista que a borracha para quando fosse tranformar aquela linda deusa em boneca, assim inventou uma espécie de borracha muito mais semelhante à pele humana, algo parecido com o que os cientistas do século XXI usariam em bonecas infláveis de luxo no mundo físico. Tétis estava almoçando em um elegante restaurante na Cidade Gastronômica, um dos locais do mundo espiritual onde os espíritos se reúniam para comer, Sophia a observava discretamente de uma mesa mais ou menos próxima, até que um homem a abordou, ela Malbas, presidente do Círculo da Mentira no Inferno: — Estava te observando desde que você chegou.

— Malbas, presidente do Inferno. — Sophia o conhecia, ele era um dos espíritos mais famosos de toda a criação, era um famoso intelectual e muito respeitado como líder, diziam que era o menos cruel dentre os presidentes do Inferno. — O que quer comigo?

— Sinto resquícios de energia divina em você. — Sentou-se à mesa dela. — Você foi um anjo, não foi? Como conseguiu caiu? Minhas habilidades sensoriais são muito fortes.

— Sim, eu era, caí porque quis, o Paraíso é muito chato. Pode se retirar, por favor? É que estou realmente ocupada no momento, conversaremos mais tarde.

— Olha, eu sou realmente bom em linguagem corporal. — Falava baixo. — Você está espionando a Tétis ali e deve ter algum plano contra ela, como o rei das ilusões eu preciso ser bom em desvendar os corações alheios apenas de olhar para eles, não é?

— O que? — Ela pensou em fugir mas percebeu que não era uma boa ideia. — O que você quer comigo? Ela é sua amiga? — Não tentou mentir, seria perda de tempo.

— Não, não é, vamos conversar, te achei interessante e quero alguns minutos do seu tempo, quero que venha comigo até o Círculo da Mentira para que eu faça minha proposta.

— Você me conhece? Está me espionando?

— Hahaha, sim, mas vamos para onde eu falei, lá poderemos conversar sem que ninguém nos incomode ou possa ouvir nossa conversa que é completamente privada. Vai vir? — Estendeu a mão para ela, ele estava com um luva grossa.

— Tão prevenido, então sabe muito mais do que imaginei. — Se referia ao fato daquela luva não permitir que injetasse o líquido prateado nele no momento em que pegasse na mão dele, mas a segurou, ele riu e os teletransportou para a mesma biblioteca onde estou lendo isso agora.

— Sempre estou um passo a frente dos outros, é por isso que tenho a honra de ser o presidente do Círculo da Mentira, ótimo com truques. Eu tenho espiões por todo o Círculo da Mentira. — Apontou seu dedo indicador e um corvo surgiu usando-o como poleiro. — Sou o rei dos corvos e vejo tudo o que eles veem, vi pelos olhos desse corvo quando você matou Diantha, uma demoniazinha com poderes de lava que vivia por aqui, mandei essa ave te seguir e a observei por meses, sei mesmo onde é seu esconderijo, onde você guarda os corpos.

Sophia ficou aterrorizada diante da descoberta, mas se conteve como sempre fazia. — Então o que você quer?

— Eu admiro o seu trabalho, quero ser seu sócio.

— Sócio? Para que? Meu trabalho é completamente pessoal, só meu, o que tem a ver com você?

— Talvez eu tenha me expressado mal. Eu gostaria muito da sua companhia, até te chamo para viver no meu Palácio, sabe, é um dos locais mais luxuosos fora do Paraíso, como sócio eu irei te ajudar a fazer capturar e fazer suas marionetes com espíritos que normalmente você não seria capaz de abater. Não subestime minha força, em troca eu só peço sua ajuda, é uma espécie de aliança militar, mas você se tornará também a rainha do Círculo da Mentira, a segunda do comando por aqui. Realmente gostei de você, quero sua amizade.

— Isso até parece um pedido de casamento, se eu não fosse tão feinha diria que você está interessado em mim. Mas por que confiar em mim? Não é provável que eu te transforme em boneco na primeira oportunidade, com você de guarda-baixa?

— Isso é praticamente certo se você tiver oportunidade, mas não te darei nenhuma, estou sempre muito atento ao que podem fazer comigo. Você conhece os meus poderes?

— Não, para ser sincera, mas um presidente do Inferno não pode ser pouca coisa, já lutei com muitos de vocês na época que eu era anjo, você é uma criança perto de mim.

— Sim, como você sabe o Inferno tem 8 círculos, lidero o Círculo da Mentira, meu dom é de criar ilusões e controlar os corvos, eles são criaturas caóticas ao meu serviço que carregam o atributo da escuridão em seus corpos.

— Você acha que passarinhos são uma grande arma? Isso não me impressiona...

— Vamos lutar, se você puder me derrotar poderá me tranformar em uma das suas marionetes, se perder, eu não te mato mas você será obrigada a aceitar minha proposta de parceria. Parece justo para você?

— Estou com uma pequena vantagem, mas vamos, se eu for capaz de te submeter aos meus poderes, não há porque precisar da sua aliança ao invés de simplesmente te transformar em uma ferramenta sem vida. — Dos bonecos surgiram teletransportados dos lados dela. — Te apresento Éolos e Diantha, você já os viu já que me espiou, os dois serão minhas armas hoje.

— Muito bem. — Abriu os braços como se fosse cruficicado e corvos surgiram pousados em cada parte deles, a imagem dele daquela forma era no mínimo assustadora. — Sinceramente esse não parece um local apropriado. — Fechou os braços e os corvos sumiram. — Vamos para uma arena de batalha que tenho aqui, estamos na biblioteca de meu Palácio, a arena fica no subterrâneo, me siga. — Saiu andando a passos longos, Sophia o seguiu, as marionetes andavam ao lado dela como se fossem pessoas normais e livres. Andaram um longo caminho, passando por lindos corredores e descendo uma exaustiva quantidade de escadas, no subterrâneo chegaram até o estádio, que era uma arena mais ou menos grande com rígidas paredes de pedra e iluminado por tochas penduradas.

— Isso parece um altar para sacrifício... Eu adorei, Malbas. — Sophia ficou de pé em uma das extremidades daquela arena retangular e Malbas da outra, a por onde entraram.

— Podemos começar. — Foi coberto por corvos, muitos deles voaram na direção de Sophia como mísseis, ela fez com que Éolo criasse um furacão que destruiu todas as aves e ainda chegou perto de atingir Malbas, que desapareceu deixando apenas uma sombra, a anjo caído sentiu uma dor violenta no meio da sua nuca e viu-se envolvida por trevas. Teve a impressão de desmaiar, acordou imediatamente e estava amarrada em uma estaca com quatro cães enormes latindo ao seu redor. Ficou aterrorizada, Sophia era uma pessoa corajosa, mas tinha uma principal fobia que fazia seu sangue gelar, e essa fobia era por canídeos. Enquanto ainda vivia no mundo físico, era uma escultora que fazia obras em madeira, um dia foi na floresta para colher material e foi atacada por lobos, foi assim que morreu de forma terrivelmente dolorosa e violenta, o terror de morrer assim lhe acompanharia por toda a eternidade, não queria ver cães, lobos ou raposas nem pintados de ouro. Malbas a arremesou naquele mundo de ilusões com seus poderes, era capaz de criar as ilusões que causassem mais terror em seus inimigos, seu dom de controle mental permitia entrar no íntimo das emoções do inimigo e assim saber que falsas impressões causariam o maior efeito psicológico nele. Ela gritou doentiamente de dor quandos os cães a morderam e arrancarem pedaços de sua carne, ela chorava mas não implorava por perdão, sabia que era uma ilusão e tentava fugir dela, embora estivesse paralisada de terror. Com toda a sua força mental pôde superar o desespero pela qual sua mente e seus sentidos passavam, voltou à realidade e viu Malbas próxima dela, rapidamente tentou fazer com que Diantha atirasse um tiro de lava nela, mas vários corvos pregaram se arremesaram nas costas dela com os bicos enfiados na carne como facas, caiu para a frente sem nenhuma força restante diante de um ataque daqueles, o demônio desviou da lava falou:

— Assume sua derrota ou posso te matar?

— Eu... — Tentou se mover suas marionetes mas não pôde.

— Esses corvos estão enfiados em pontos que te paralisam quase completamente, acho que você só vai mesmo conseguir mover a boca e os olhos.

— Não entendo, eu devia conseguir mover esses bonecos com meus pensamentos.

— Haha, ondas mentais? Meus poderes de hipnose e ilusão não vão deixar que você mande seus comandos aos bonecos, estou soltando minhas próprias ondas mentais para garantir completa interferência da sua habilidade. Não é espetacular? Aposto que você nunca enfrentou um adversário capaz disso.

— Não, acho que é meu fim mesmo. Como soube tanto sobre meu dom?

— Te espionei e estudei, criei essa técnica de interferência especialmente para te combater, também pensei em como você pode fazer para superar essa sua clara fraqueza, mas só poderei te ensinar se se unir a mim, obviamente.

— Tudo bem, tira essas coisas de mim, está doendo. — Pediu, sentia-se insuportavelmente humilhada, Malbas fez os corvos desaparecerem e ela se levantou, sentia dor, mas aquilo não era algo que não pudesse suportar sem muita dificuldade.

— Nunca me senti tão fraca.

— Fique tranquila, eu estudei e me preparei, você não.Você é uma boa estrategista, não é? Geralmente é você que está um passo a frente.

— Sim, sou muito cuidadosa antes de arrumar uma briga.

— Vamos conversar, se eu descobrir que você não é tão interessante quanto supus, te mato.

— Me matar? Por que não faz logo isso? Você me irrita, é arrogante e tem esse jeito educado de falar o tempo inteiro, mesmo quando está dizendo que vai me matar. — Levantou-se, olhou para ele com desprezo que não disfarçou.

— Você é muito orgulhosa, típico de anjo. Eu vou adorar te ajudar a perder todos esses hábitos idiotas de anjo e se tornar um verdadeiro demônio, a vida de um demônio é muito mais divertida, ela é livre e intensa, sem regras nem limitações além daquelas que nos são convenientes e que podem satisfazer nossos anseios.

— Estou me lixando para as leis celestiais, mas perder para um homem corvo me deprime, eu deveria estar morta, quem perde morre, essa deveria ser a regra do universo.

— Nem essa regra que você supôe necessária precisa existir. Por que você seguiria uma regra que, se honradamente seguida, irá te matar e apagar para sempre sua existência do universo? Por que manter sua honra e desaparecer? Eu acho que é muito mais nobre trapacear e mentir para se manter vivo e obter as vitórias desejadas a qualquer custo, isso que um verdadeiro demônio deve fazer, sem regras, sem falsa honradez.

— Trapaça né? Então é por isso que é o senhor do Círculo das Mentiras, é um grande mentiroso.

— Sim, eu trapaceei ao te espiar e observar cada uma de suas técnicas, mas você também trapaceia quando persegue suas vítimas e as persegue até locais onde possam ser pegos indefesos. A vida é trapaça, o próprio conceito de trapaça é relativo e algo que você consideraria trapaça possa ser considerado legítimo por mim, como nada disso é exato, prefiro aceitar que tudo é válido para realizar meus fins. Por isso, se quiser quebrar a nossa aposta e fugir, faça isso agora, porque é válido.

— Não, eu não farei, não tenho interesse nisso, agora que você venceu, quero ver o que irá me ensinar e que utilidade terei para você, se decidir me matar não pense que vou deixar que o faça sem apresentar resistência, e a menos que você decida fazer isso hoje, eu já terei pensado em uma forma de te contra-atacar.

— Você é confiante, gosto disso.

— Hm. — Ela sorriu, ele não parecia tão detestável agora, não sabia exatamente o porquê. — Eu só exijo que você seja sincero e me diga porque está tão interessado em mim, seja sincero, não quero saber se você é o rei das mentiras, quero apenas a verdade.

— Bem, eu realmente estou interessado na sua arte e quero tê-la a meu serviço, o segundo interesse é por você ser um anjo caído, anjos caídos mentalmente saudáveis são muito raros, a maioria caiu por algum motivo terrível e acaba se deteriorando tanto que afunda em algum lugar imundo do mundo espiritual, aqueles abismos sujos que ficam abaixo mesmo do Inferno, onde as almas loucas e condenadas vivem como vermes se retorcendo na terra. Mas você continua cheia de classe e a nobreza de anjo, embora tenha se tornado cruel como um demônio, ainda podemos ver uma luz intensa em você. Bem, quero apagar essa luz, mas não para te tornar sem brilho, apenas para substituí-la por uma escuridão de tamanha intensidade que a torne completa no caminho que decidiu experimentar.

— Nunca falei que queria ser um demônio...

— Não com palavras, mas seja sincera também, que tipo de anjo mata espíritos aleatórios e transforma seus cadáveres em marionetes? O processo que você faz faria os demônios menos cruéis tremerem de horror, a forma como esfola e arranca os órgãos não é para ninguém de estômago forte. Seja sincera, suas ações são de demônio, e você sabe que se quiser continuar com sua bela e cruel arte, será um demônio. Aliás, como você se chama? Você é tão solitária, não falou sem nome para ninguém e não interagiu com nenhuma pessoa que não ticesse matado em seguida.

—Meu nome é Sophia, eu era um anjo da sabedoria. Nunca serei um demônio.

— Por que não?

— Demônios são seres baixos e fracos.

— Esse demônio aqui acabou com você, querida espírito do meio, você sabe que essas classificações não consistem com a realidade, anjo, demônio e espírito do meio são rótulos criados para classificar da melhor forma possível os espíritos de acordo com o plano que podem habitar, Céu, Meio e Inferno, mas sejamos sinceros que nem sempre funcionam. A juíza Ereshkigal reina no Círculo da Ira no Inferno, mas não há quem diga que ela não seja um nobre anjo que aceitou viver nas profundezas para poder combater o mal de forma mais eficiente. E você, embora não viva no Inferno, pratica mais crimes que a maioria dos que aqui habitam.

— Você argumentou bem, vou aceitar suas lições, quem sabe eu goste. Espero que realmente tenha muito para me mostrar, mas não me ache uma ignorante e não tente me ensinar tolices básicas, eu era um anjo erudito e com grande conhecimento.

— E nos Céus vocês estudam as coisas infernais?

— Sim.

— A fundo?

— Sim, nós conhecemos bem como podemos combater o mal.

— Mas lá existemlivros ensinando o ponto de vista do mal e como praticá-lo bem?

— Não.

— Pois é isso, eu te mostrarei como se tornar uma boa praticante do mal e a essência real do mal, depois de conhecê-lo entenderá porque o Inferno está lotado e os Céus com uma população estupidamente pequena, você aceitou sair de lá em nome da liberdade, mas eu te mostrarei uma liberdade que você ainda não conhece.

— Qual?

— A de não ter nenhuma moral.

— Me leve para onde quiser, então, perdi meu direito a me recusar no momento em que você me derrotou. — Ela falou com feições de desgosto no rosto, Malbas esticou seu braço para que ela o segurasse, Sophia segurou na mão dele. Ele sentiu algo furando sua mão e uma dor violenta que logo foi sucedida por um dormência que subiu da mão até os braços e espalhou-se pelo corpo todo, ele caiu no chão sem conseguir se mexer,completamente paralisado, havia um buraco do tamanho de um dente de tubarão na palma de sua mão.

— Ah Malbas, você não vai ter que me ensinar nada. Sim, já sou um demônio e posso trapacear de qualquer forma sem me sentir culpada. Te enganei muito bem, não foi? Você não reparou que eu fiz no meu próprio braço direito o que fiz com todos aqueles bonecos?Ele é de madeira e revestido com borrachan imitando pele humana, há um adorávem mecanismo, olha. — Mostrou o espinho de ferro pontudo que saía da mão direita dela. — Esse espinho fica cheio de veneno paralisante. Ah, vamos lá, jura que achou que eu injetava o líquido prateado diretamente nas vítimas? Ele precisa ser injetado em grande quantidade para fazer efeito, primeiro eu enveneno para que fiquem paralisados, depois vem o líquido prateado para começar a marionetização. Você é menos esperto do que imaginava. Ah, eu sei que você não vai conseguir me falar e daqui a pouco sequer vai poder me ouvir ou ver qualquer coisa, vai desmaiar, então torça para que eu seja legal e que tenha a chance de acordar novamente.

Malbas rapidamente perdeu a consciência, Sophia invocou a marionete do espírito de Fubuki, que era capaz de criar cipós e troncos, ela usou os cipós dele para amarrar Malbas, enfiou seus dedos na nuca dele para injetar-lhe líquido prateado, levava cerca de meio minuto até haver quantidade suficiente do líquido para poder controlá-lo de dentro para fora, mas ele ainda estava vivo.

— Vou esperar que acorde, não teria a mínima graça te matar assim inconsciente.

Sentou em cima do corpo dele e esperou, ele acordou uns vinte minutos depois, o veneno era forte mas tinha efeito de pouca duração,ela havia o produzido como uma forma de neutralização, não de assassinato, precisava ser de efeito curto e sem sequelas. Viu que ele tinha acordado quando sentiu um fraco movimento das costas dele, ela se levantou e suspendeu o corpo dele utilizando o líquido nas veias dele para mantê-lo perfeitamente subjugado. — Acordou? Ótimo, agora você já sabe que eu sou muito melhor que você em trapaças, não sabe?

— Você deu um golpe de sorte.

— Não há golpes de sorte quando se trata de vencer a qualquer custo. Já enchi seu corpo de líquido prateada e você está sob meu controle se eu quiser. Te darei a chance de me convencer a te deixar viver, se for convincente, removo o líquido das suas veias, te liberto e me uno a você.

— Posso começar a minha defesa?

— Não, eu especificarei o que deve falar. Primeiro me diga qual é o seu maior sonho.

— Não tenho sonos, se eu definir um sonho, cedo ou tarde acabarei realizando-o, quando esse dia chegar minha vida terá perdido o propósito e acabará, já que já terei cumprido minha suposta missão. Tenho gostoso, e meu gosto é acumular conhecimento e informação, sou um intelectual compulsivo.

— Qual é seu maior medo?

— A morte, eu desejo viver para sempre para sempre poder fazer o que gosto, o vazio da mortre eterna me aterrorriza, por isso sempre tento ser cuidadoso.

—E por que você arriscou sua vida me chamando para uma luta?

— Calculei mal, não achei que eu estivesse me arriscando, meus poderes de ilusão seriam mais do que o bastante para te subjugar com a maior facilidade, achei que as luvas que eu estou usando seriam o bastante para evitar aquele seu líquido prateado estranho.

— Hahahahaha, nunca imaginaria o espinho venenoso dentro do meu braço, né?

— Não exatamente por não achar que tivesse algum truque, mas achei que não fosse tentar mais nada depois de ter sido derrotada, achei que tivesse a tola honra de anjo.

— Eu não tenho. Honra é interessante em competições e jogos com regras, não tem utilidade em uma situação como essa. Se eu matava todas aquelas pessoas de forma honrada e sem surpresas, era porque isso me entretinha melhor e aumentava o desafio, mas eu as trairia e agiria com covardia sem hesitar a partir do momento em que fosse necessário para conseguir completar minha caça ou salvar minha vida. Você certamente não tem nada a me ensinar sobre amoralidade e justificar os meios pelos fins, mas fui com sua cara, é um homem inteligente, sem dúvida, ainda é a mente limitada de um demônio que nunca viu a luz do Céu, mas é inteligente. Eu vi a luz do Céu e ela nos revela muitas coisas, nada do que esperamos, o Senhor do Paraíso não tem a resposta para nossas perguntas, ela não dá um sentido justo para nossas vidas. Quem sabe sua filosofia barata de Rei do Inferno possa me ajuda a encontrar as respostas que procuro, sou levada a acreditar que elas não existem, mas não desistiria antes de ter certeza. Minha última pergunta para você, a que define se você deve viver ou morrer, é essa: Qual é o sentido definitivo da vida?

— Nenhum, para haver um sentido definitivo pra vida, seria necessário que todos os seres vivos seguissem um mesmo destino, a realidade prova que isso é impossível, cada ser escolhe seu sentido, não há um sentido natural ou único.

— E seu sentido é adquirir conhecimento?

— Sim, é o sentido que escolhi, mas posso escolher outro a qualquer momento quanto me cansar desse. Nenhum sentido é vazio, vazia é a tentativa de forçar os outros a compartilhar de sua visão pessoal.

— Eu gostei das suas respostas, me unirei a você, mas só para garantir deixarei o líquido no seu corpo, você é um bom trapaceiro e não há porque simplesmente confiar em você.

— Exatamente como deveria, pode me desamarrar?

— Sim. — Estalou os dedos e os cipós sumiram, deixaram que ele se levantasse, estava bastante fraco, o veneno não matava mas enfraquecia o corpo.

— Parece que acertei em te espionar, nunca conheci alguém como você, há tanta dor nos seus olhos que mal dá para acreditar que você tenha sido um anjo um dia.

— Como pode saber? Consegue ver dentro do meu coração?

— Sim, posso ver se é feliz ou não, e você parece tão vazia e triste, são os olhos de uma mulher faminta que não pode se sentir satisfeita, uma mulher que tem fome mas sequer sabe do que.

— Então você é bom. Tem alguma coisa que possa tirar esse vazio do meu peito?

— Não, mas posso tentar, sou bom em descobrir coisas.

— Irei com você de qualquer forma, só peço qu me esconda e me deixe ser a rainha do Círculo da Mentira de forma secreta, atuando nas sombras, não quero que ninguém além de você saiba da minha existência...

— Por que tanto sigilo?

— Acha que alguém no mundo sabe de uma mulher que transforma cadáveres em marionetes? Aposto que não, se souberem serão cuidadoso, o elemento surpresa ainda é minha maior arma, além do mais, ninguém sabe sequer do meu nome ou da minha aparência, sou uma existência invisível nesse mundo, é essa minha força.

— Eu sei que você é um anjo chamado Sophia, e sei que você é essa mulher alta de cabelos castanhos e pele clara que estou vendo agora.

— Sim, é por isso que vou mudar minha aparência, trabalhar em mim mesma é uma das coisas mais difíceis do meu artesanato, já que agora somos parceiros, vou te falar da obra prima que estou tentando produzir desde que comecei a fazer bonecos com cadáveres, você irá me ajudar a criá-la.

— Diga, sou seu servo...

— A coisa mais próxima que tenho de um "sonho" é poder isolar minha consciência de forma a poder transferi-la para quer outro corpo vazio que não tenha consciência.

— Não entendi.

— Eu quero poder mudar de corpo espiritual quando quiser, assim poderei habitar uma de minhas marionetes, deixarei de usar esse corpo que você vê agora e usarei o que for mais conveniente, quando eu capturar algum espírito extraordinário, poderei roubar seu corpo e me tornar ele, é esse o próximo passo de minha arte.

— Transferir sua mente para outro corpo espiritual?

— Sim, e poder repetir o processo quantas vezes quiser.

— Mas para isso você precisaria manter o corpo que você vai tomar intacto, destruindo apenas a mente, como isso seria possível?

— Não sei. Você não quer me ajudar a descobrir?

— Prometeq ue não vai fazer isso em mim?

— Prometo sim.

— Ajudo, e sugiro que só capture Tétis depois que descubramos como.

Os dois juntos fizeram um demorada pesquisa que levou 150 anos, eles utilizavam a biblioteca do palácio de Malbas para leituras e buscas, além de outras grandes bibliotecas do mundo espiritual. Malbas ia com Sophia até seu esconderijo, ela ensinou para ele algumas das técnicas de conservação do cadáver, já ele descobriu que os dons de cada espírito ficavam armazenados no cérebro e que era possível colocar o cérebro de um boneco em outro sem afetar suas habilidades,isso seria útil mais tarde. Os estudos culminaram quando descobriram como Sophia poderia marionetizar uma pessoa viva sem ter que matá-la, bastava que injetasse o líquido prateado diretamente no cérebro dela, isso era o bastante para desligar a consciência dela e torná-la controlável de uma forma muito mais eficiente que a que Sophia controlava anteriormente, enquanto com o líquido nas veias o espírito morto era controlado como uma marionete puxada de dentro para fora, com o líquido no cérebro a pessoa viva se tornava um perfeito escravo da vontade dela, não mecanicamente, mas mentalmente. Depois disso foi rápido para descobrirem como ela poderia transferir sua consciência através do líquido e subjugar completamente a da pessoa que desejava, era um processo impressionante em que a mente de Sophia invadia o cérebro da vítima e passava a habitá-lo permanentemente, controlando todo o corpo e os dons daquela pessoa.

quisesse (ela não precisou fazer isso nenhuma vez, ele colaborava) e a ela parecia que ele só a ajudava O relacionamento entre os dois ficou muito bom com o passar do tempo,nos primeiros anos Malbas sentia um medo constante daquela mulher que tinha o poder de controlá-lo quando para não ser morto. Posteriormente a confiança entre os dois cresceria por causa do contato constante que tinham, como companheiros inseparáveis em uma pesquisa revolucionária e nem um pouco humanitária. A alegria dele foi legítima quando Sophia testou a sua nova habilidade e transferiu sua mente para o boneco de Éolos. Então ela também podia entrar nos bonecos sem vida e usá-los como corpo, de qualquer forma não gostou daquilo, habitando um corpo sem vida apenas com o cérebro vivo e animado, ela não podia sentir nada, nem dor, nem frio e nem prazer, por isso apressou-se em caçar Tétis e entrar no seu corpo vivo. Malbas a ajudou a conseguir atrair Tétis para a armadilha, para um local isolado onde ela e Sophia (usando o corpo de Éolos lutaram, foi uma batalha muito difícil e Sophia foi deixa a um passo do abismo da morte tantas vezes que, posteriormente, por causa daquela luta, ela se lembraria com tédio das batalhas de que participou quando era um anjo, na grande guerra entre o Céu e o Inferno.

Ela conseguiu envenenar Tétis e injetar o líquido no cérebro dela, poucos minutos depois já era a nova dona do corpo dela, mas aconteceu algo que não imaginava e a mente da deusa lutou para retomar o controle, Sophia teve um pouco de dificuldades para combatê-la inicialmente, mas logo a sua vontade venceu e a consciência da Tétis verdadeira desapareceu para sempre. Ela foi encontrar-se com Malbas em seguida e ele ficou encantado ao vê-la naquele corpo belíssimo, Tétis era tida como uma das mulheres mais belas no mundo dos mortos (tirando o Céu, inacessível para a maioria, Sophia costumava ser uma das anjos menos belas dentro do padrão celestial), era uma beleza nórdica, daquele tipo que é muito raro de se ver na maior parte do mundo, os olhos verdes eram tão grandes que seu excesso de expressividade chegava a ser um constrangimento para quem os fitava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.