STOFSKI
2 OS EXTERNOS
A saída da estação levou-os a uma passarela sustentada por pilares de tijolos creme, isentos de qualquer sujeira devido à recente inauguração. Fitas amarelas com listras pretas isolavam trechos ainda não terminados entre as ferrovias improvisadas. Mesmo que acidentalmente, o rapaz procurava dar atenção a qualquer coisa que não fosse a voz do tio, o qual aparentava falar diversas futilidades. Ao contrário de Stofski, a imersão dos outros homens era notável, não sabia se vinha do cargo de segurança, obrigando-os a puxar o saco do empresário, ou simplesmente a chatice compartilhada.
Edifícios em tamanho uniforme e exuberantes preenchiam o horizonte de Endápolis, saltando entre as lacunas o brilho intenso do sol até os olhos do rapaz, que por estar caminhando não conseguia cobri-lo por total. Os sobrados estavam decorados com muros de plantas coloridas e luzes provenientes das lamparinas, exaltando a riqueza dos residentes de cada prédio da região, de acordo com a quantidade de flores em suas sacadas. Aquele era o tão falado distrito de Tapuz, o rosto do reino nos cartões postais — e é claro, sem nenhum Externo.
Prosseguiram a caminhada pelas ruas espaçosas e movimentadas. As pessoas trajadas com peças entre ternos e saias de cores claras eventualmente esbarravam umas nas outras em decorrência da pressa, já que desde sua inauguração o reino tem estado bem agitado. Tudo ainda era muito novo e precisava de planejamento, o que atraiu a mão de obra em diversos segmentos, essas oriundas da saturação do mercado continental e consequentemente imigração para Endápolis.
Ao final do distrito encontraram-se com o carroceiro que os aguardava. Estava tudo pronto para partirem, então o fizeram assim que Borsht dispensou seus homens. O trajeto até ali foi o suficiente para deixar que o sol fosse embora e desse lugar à iluminação precária da lua, escondendo minimamente as imperfeições do próximo distrito, Limonn. As ruas não estavam totalmente preenchidas por pedregulhos, como em Tapuz, o que fazia a carroça balançar de forma constante dentre a mistura de terra e rochas soltas. Os edifícios não chegavam perto do tamanho do distrito anterior, e sequer demonstravam alguma característica adicional senão um grande cubo de concreto escurecido. O curto espaçamento entre as estruturas criava becos escuros e estreitos, onde em alguns deles pessoas dormiam ao lado de fogueiras improvisadas.
O caminho estendeu-se à divisa com o último distrito, Eshekolitt, tão deplorável quanto o seu anterior. Na verdade, até pior.
Tudo o que o distrito de Limonn podia apresentar de negativo, Eshekolitt conseguia superar. Stofski agradeceu internamente por não cruzar para o outro lado.
- Pare. — Ordenou o tio numa voz cansada. O carroceiro o fez. — É aqui. — Afirmou antes de sair do veículo com uma certa dificuldade.
- Um barraco? — Indagou o garoto.
- Os profissionais sempre começam de baixo, Stofski. Aliás, foi a melhor casa que eu encontrei pra você. — Reforçou o falso carinho com dois leves tapas no ombro do garoto — Finalmente terá a sua independência, também. — Finalizou com uma piscada. Stofski então recuou.
- Mesmo trabalhando com imóveis de luxo... — Cochichou para que Borsht não escutasse.
- Bom, amanhã à tarde nos falamos. Estou ansioso para te apresentar o projeto. — Sumiu em meio a neblina densa após retornar à carroça.
Nada naquele local era receptivo, nem mesmo o ar, que era tão pesado quanto uma pilha de aço sobre o corpo. A última vez que sentira tamanha hostilidade foi quando apresentou um de seus projetos para a Associação de Pesquisadores de Auroxl, em Kinches. Reprovou.
- Então é aqui que moro agora. — Suspirou enquanto encarava o casebre. O vento gelado o obrigou a entrar em casa sem delongas, sendo recebido por um irritante e longo rangido da porta. A sensação que dava é que nem ela queria fazer parte daquele cubículo. — Poderia ser pior. — Expressou ao analisar o interior. Estava levemente mobilhada — detalhe que Stofski não esperava. Havia uma poltrona na sala com um pequeno rádio acima da mesa. A cozinha era no mesmo cômodo, mas dividida por um balcão. No quarto havia apenas um armário de duas portas e uma cama de solteiro com um lençol branco que mais lembrava o cenário típico de um hospício. Decidiu por fim descansar, pois já não aguentava mais aquele dia cansativo.
Acordou um pouco mais cedo do que de costume. Queria conhecer os arredores de onde morava antes de partir para sabe-se lá o que o aguardava no trabalho. Mesmo a terrível aparência da nova casa não foi o suficiente para tirar a sua disposição. Quando saiu foi surpreendido pelo completo contrário da paisagem de ontem; as ruas já não estavam mais vazias e escuras, mas sim repletas de pessoas vindo de lá para cá. Foi seguindo a multidão apressada que Stofski chegou à zona comercial do distrito de Limonn, uma grande praça aberta com inúmeros estabelecimentos ao redor. Reconheceu o local pela sua fama nos outros reinos, ainda que não fosse tão grande coisa, se comparado ao distrito de Tapuz.
Mapeou todos os principais comércios que utilizaria ao longo de sua estadia; mercados, padarias, ferragens, e tantos outros. Por fim, após minutos de caminhada chegou a um pequeno complexo de ruas estreitas com seus arredores dominados pelos fundos de enormes edifícios. Já não era tão movimentado quanto na Praça Comercial, talvez nem pudesse devido ao espaço. Não percebeu de início, mas estava sendo atraído pelo delicioso cheiro misterioso, este que instigava a fome matinal que o dominava. O aroma o levou até uma taverna, ainda mais no interior dos becos. O som abafado de conversas mútuas vindo de dentro do estabelecimento se profanou intensamente para fora quando Stofski abriu a pequena porta, e logo a origem do cheiro atiçador se revelou: um empanado um tanto peculiar.
- Cenoura empanada? — Acidentalmente questionou em voz alta, desacreditado com a surpresa que presenciara. A iguaria estava em cima do balcão, exalando seu aroma pela fumaça, ressaltando estar fresco.
- Sai pedido da mesa onze! — Alertou o balconista ao pressionar o sino, ressoando o tom metálico entre o barulho da multidão. Logo após voltou apressado para a cozinha. Aparentemente não notou a presença de Stofski, mas outro o fizera.
- Você não é daqui, né? — Com uma voz arrastada indagou o sujeito sentado em um dos bancos. Ali estava um idoso de estatura baixa, o qual sua principal característica era a barba longa e pontiaguda que se estendia até a região da barriga. Estava prestes a acabar com a enorme caneca de cerveja, deixando o líquido espumante passar entre os espaços de sua banguela.
- Na verdade, não. — Respondeu um pouco sem graça.
- Então senta aí, jovem. Vou te mostrar um pouco de Endápolis. — Apontou rapidamente com a cabeça para o banco do lado. Stofski concordou. — Yeti, traz um pouco de Morpiper pro rapaz aqui do lado. — Solicitou ao balconista que acabara de retornar da cozinha. Ele olhou subitamente para o garoto, mas não o cumprimentou. Ao invés disso, encarou o velho.
- Por que veio? O que quer comigo? — Perguntou em tom seco. A altura de provavelmente 1,90 juntamente aos ombros largos responsáveis por quase rasgar a camiseta branca suja de óleo gerava uma certa intimidação.
- Você sabe bem, sabe muito bem. — Mostrou a sua banguela — Vim cobrar a segurança, ora. O que mais seria?
- Vocês vieram me cobrar de novo? — O homem expressou a discordância com um murro no balcão. Stofski sentiu sua alma saindo do corpo com o susto que levara. De um segundo para o outro iniciou-se a discussão.
- Como assim "de novo"? É a primeira vez que estou vindo aqui, rapaz! — O velho levantou o torso com as mãos sobre o balcão, e com as sobrancelhas grossas encarou o cozinheiro. — Cadê o meu dinheiro?!
O homem puxou o velho pela gola do uniforme, revelando que por trás da barba extensa havia insígnias da guarda endapoliense. A postura do idoso se foi como folha na água corrente — Foi aquele fodido do Aluat! Ele pegou o dinheiro sujo de vocês! — Arrastou-o pela gola até a porta, e então jogou seu corpo pequeno na rua — Agora cai fora da minha taverna! E leva seu amigo forasteiro junto, também! — por fim, berrou. O som pareceu estremecer as paredes ao lado.
- Mas eu não tenho nada a...
- Foda-se! — cortou o rapaz em ignorância. Para finalizar lançou contra o rosto do guarda a sua boina que ficara na taverna.
Como se nada tivesse acontecido, o velho levantou-se e ajustou a boina na cabeça calva — Esse cara é um boçal. E o Aluat ainda mais. — Expressou resmungando — Chegou faz pouco tempo e já tá querendo sentar na janelinha...
- O que aconteceu? — Com os braços abertos, Stofski indagou incrédulo — Quem é você e por que eu tive que ser expulso dessa maneira deselegante por sua causa?! — Questionou num tom ainda mais hostil, contudo o sujeito não deu a mínima.
- Nesse distrito acontece muita coisa, rapaz. Muita! — Passou a caminhar de forma plena em sentido à Praça Comercial. O rapaz o seguiu em corrida.
- Significa que eu sequer vou ter o meu Morpiper?
- Pelo jeito que você se assustou, nem parece que se atraiu.
- Acontece que estou faminto. Faz tempo que não como nada e aquilo atiçou a minha curiosidade. O que é, afinal?
- Como você mesmo viu, é uma cenoura empanada. O segredo é o pó de uma pimenta que só é cultivada por aqui. Nós amamos nossa Morpiper tanto quanto aqueles metidos a besta de WaterHill gostam das orquídeas azuis. Aliás... — Parou de caminhar — Você perguntou sobre mim. Meu nome é Vechi, e como você pode ver, o papai aqui é da guarda de Endápolis! — Deu espaço para mostrar o uniforme caramelo com o símbolo no peito. Eram três cabeças entrelaçadas, possivelmente representando os três distritos do reino.
- Você é da guarda e estava pedindo dinheiro ao pobre coitado dono daquela taverna? — Desafiou Stosfki.
- "Coitado"? Você viu o tamanho dos bíceps dele?!
- Por que você, um agente da lei, estava cobrando o homem por "segurança"?! Não acredito que você seja tão corrupto. Logo um velhinho frágil...
Vechi suspirou e pediu para que o garoto se abaixasse, assim ficariam com a mesma altura. Depois iniciou em cochicho enquanto abraçava o pescoço de Stofski com um dos braços.
- Limonn é um lugar muito perigoso, jovem. E o salário dos guardas não passa de uma merreca. — Em meio a explicação surgiam gaguejos — Veja, não é corrupção; é uma troca de favores. Eu protejo as barraquinhas deles, e eles me pagam uma pequena taxa administrativa. — Stofski sentiu que bastava, com isso livrou-se dos braços do velhote e pôs-se a caminhar para longe.
- Velho nojento... — Expressou já distante do local. Procurou não se preocupar com a última situação que passara, já que possivelmente estava próximo do horário que deveria estar em seu novo trabalho. — Ah, sequer comi alguma coisa. Que primeiro dia desastroso... — Suspirou e caiu os ombros.
Caminhando há cerca de uma hora finalmente fora recebido com a enorme escuridão oriunda da sombra de L'essentiel, o prédio responsável por comportar a construtora de mesmo nome. A estrutura fazia questão de exalar a riqueza do edifício, afinal de contas estava em Tapuz. No teto, estátuas angelicais faziam pose acima de tríglifos e pilares; os oito andares de janelas contornavam-se com detalhes ornamentais e folhas de arbustos, assim como no portão, o qual seguia o luxo com folhas de ouro banhando qualquer aresta que fosse.
Da escadaria de cristal desceu Borsht acompanhado de outros quatro homens; três trajavam vestimentas que acusavam sua posição de guarda-costas, já o mais alto vestia um terno bege, gravata vermelha e portava um chapéu fedora com uma faixa de tecido vermelho em volta da base. Os cabelos de cordões grossos e emaranhados escapavam sutilmente da barra do chapéu. Tudo naquele homem era ameaçador, dez vezes mais do que o balconista que vira na taverna mais cedo. Era como se uma respiração mais profunda fosse o suficiente para rasgar o tecido no ombro, ou talvez um olhar ainda mais afiado do que já tinha, causasse uma combustão no corpo do aspirante a pesquisador.
- Ah, Stofski! Era de você mesmo que eu tava falando. — Borsht anunciou — Aqui, Senhor Puternic. Este é o garoto que te falei. — Se dirigiu com a mão ao rapaz como forma de apresentação. Com um olhar julgador o homem encarou Stofski por alguns segundos, mas que em sua mente pareceram horas. Até que dos lábios finos levantou um sorriso de canto e ergueu a mão esquerda.
- Muito prazer, Stofski. Sou o responsável pela L'essentiel, Stuart Puternic. — Apresentou-se com uma voz grave — Seu tio me falou muito de você. Espero que não desista, como o nosso último pesquisador.
- O que aconteceu com ele?
- Digamos que ele... não aguentou a pressão. — Sorriu de novo, dessa vez mostrando os dentes. O rapaz engoliu a própria saliva.
- Tá, tudo bem. Procurarei não decepcionar. — Também sorriu, mesmo ficando claro que era falso, já que as sobrancelhas não acompanharam a expressão tão bem.
Os guarda-costas cochicharam no ouvido de Borsht. O garoto deduziu ser algo ruim, dada a reação de seu tio, o qual o fez chegar em Stuart de maneira desajeita e em gaguejos. — Senhor Puterinc, é sobre os Valet. Eles estão solicitando novamente falar com você.
- Mantenha meu posicionamento. Tenho nojo só de pensar naquela raça me dirigindo uma palavra. — Virou de costas, retornando para a direção de prédio.
- C-Claro, senhor. — Concordou com a cabeça apressadamente — Mas por que está voltando? Não íamos para uma reunião?
- Borsht. — Subiu os degraus fazendo sinal para que Stofski o acompanhasse. — Você pode cuidar dela para mim, afinal é o dono da empresa. — Sorriu — Acredito que meu dever seja instruir o nosso mais novo funcionário, não? — Borsht concordou novamente.
Não demorou muito para chegarem à entrada. Quando as duas portas de cristal se dividiram automaticamente, Stofski presenciou um cenário onde nunca vira nada parecido antes; o hall era enorme, quase como um outro distrito. No chão de mármore pinturas referenciando a lenda de Goëtia e seus 72 daemons escureciam o espaço, que em contraste era iluminado por um lustre dourado, este sustentado por correntes de ouro que se estendiam até as mãos de inúmeros anjos no teto.
- Tudo isso feito em apenas alguns meses... — Com as mãos inquietas nos bolsos do jaleco, o garoto expressou. Os olhos maravilhados refletiam cada detalhe sendo apreciado.
- E agora você também faz parte disso. — A afirmação fez Stofski sorrir de leve.
Passou-se uma hora desde que Stuart iniciou a apresentação de todo o edifício. Visitaram todos os doze andares, cada um mais luxuoso que o anterior. A alegria dos funcionários era radiante o bastante para iluminar o ambiente. Talvez não fosse tão ruim trabalhar ali quanto imaginava.
- E por fim... O refeitório. — Sentou-se em uma mesa qualquer. Quem estava ali saiu quase que imediatamente. Stofski estranhou, mas estava feliz demais para se preocupar com aquilo, então apenas foi ao banco de frente para Stuart. — Há alguma pergunta, Stofski?
- Tem Morpiper aí?
- Perdão? Está com fome, garoto? — Questionou surpreso com a pergunta. Meio acanhado e de cabeça baixa, o rapaz fez que sim — Claro que tem. Aqui é Endápolis, porra. — A comida chegou tão rápido que sequer notara a espera. Ao finalmente experimentar o primeiro pedaço daquela iguaria, entendeu o porquê era a comida mais popular do reino. — Apenas isso de dúvida? — Stuart retomou o assunto.
- Não... — Respondeu enquanto ainda mastigava. Ao engolir, prosseguiu — Tem uma coisa que tá me incomodando. — Stuart semicerrou os olhos. — Por que uma construtora precisa de um pesquisador? Não faria mais sentido chamar um... Sei lá, engenheiro, arquiteto?
- É uma boa pergunta. — Levantou — Venha comigo.
- Pra onde vamos? — Levantou-se também.
- Te mostrei todo o prédio, mas acabei adiando lhe acompanhar até o seu local de trabalho. — Se dirigiu até o elevador. Stofski o seguiu.
- Já não vimos todos os andares?
- Todos não. — Sorriu maliciosamente. Haviam doze andares para escolher, como vira antes. Todavia, ao levantar um pequeno quadrado abaixo dos indicadores de andar, quatro novos botões surgiram; "S1, S2, S3 e S4". Stuart selecionou o último. Stofski encarou o homem, que agora não esboçava nenhuma reação. Contraiu os lábios e suspirou em preocupação.
- Eles não são chiques como os outros, não é?
- Depende do ponto de vista. Pra mim são melhores. — O tom de voz na resposta fez com que Stofski apertasse a alça da bolsa. — Construtora é apenas um dos segmentos da L'essentiel -- Claro, é o seu principal. Mas não o único. — A porta do elevador abriu. De frente para a saída estava uma sala vazia, iluminada por uma luz azulada e intensa. O homem saiu com um passo. Stofski fez o mesmo. — Com o intuito de aumentar o nosso auto-desenvolvimento, nós optamos por abranger nossas especialidades. Afinal de contas... — caminhou até uma das paredes, até ficar cara-a-cara com o papel de parede listrado — ...não é garantido que manteremos os lucros após a construção de todos os edifícios em Endápolis. — A coroa do chapéu em sua cabeça emitiu uma luz sutil, em seguida duas figuras humanóides com cerca de um metro surgiram do piso. Seus corpos tinham a mesma textura que o chão de granito, e os olhares eram tão sem vida quanto estátuas. Com os dedos rochosos faziam inúmeros símbolos que o rapaz nunca viu, estes possivelmente responsáveis por fazer a parede sumir.
- Cacete... Não tô gostando disso, não. — Resmungou em cochicho.
- Não esquenta, não terá essa dificuldade toda para acessar a sala de testes. Manterei aberto enquanto for funcionário. — "Não é isso que me preocupa", foi o que Stofski pensou.
- Faz tempo que não vejo magia de perto. Acho que por isso estou tão impressionado. — Gargalhou sem graça, contudo Stuart se manteve sério, o que fez Stofski parar com o fingimento no mesmo instante. Os minutos seguintes foram de passos ecoantes pelas demais salas vazias, até que finalmente aquela sequência terminou. As paredes, o teto e o chão eram feitos de algum metal profundamente escuro. O frio ali presente colocava o inverno de Krivia no chinelo. Stofski caminhou lentamente ao redor da sala, até chegar a uma mesa de ferro com diversos materiais e papéis em sua superfície. Noutro canto uma cortina de coloração ciana ocultava o que havia por detrás. A iluminação precária juntamente à aparência sinistra fez com que o calabouço do estágio que antes trabalhara fosse o paraíso dos laboratórios.
- Eu tenho uma terceira dúvida, Senhor Puternic. — Levantou a mão acanhado. O homem o olhou no fundo dos olhos. — Bem, eu... — Pigarreou de leve — Queria saber se dá para reconsiderar a vaga. Quer dizer, o período de experiência serve para tanto a empresa, quanto o candidato decidirem se é aquilo mesmo que eles querem, e... — Stuart pegou em seu ombro, o que deixou Stofski paralisado, tão imóvel quanto a cabeça de um cervo empalada na parede de uma cabana.
- Seu tio me contou o seu sonho. Diz ele pra mim, por favor. — O pedido mais pareceu uma ordem.
- Me tornar pesquisador -- o melhor pesquisador. — Respondeu engolindo o medo.
- Conheci muitos pesquisadores. Uns bons, outros nem tanto... — a voz grave entrou em seus ouvidos como o rugido de um raio — ... quero que me mostre do que é capaz, Stofski. Acredite em minhas palavras: eu sou a pessoa que você mais vai querer orgulhar. — O rapaz permaneceu de cabeça baixa. Não entendia o porquê daquilo tudo, nunca fora um covarde, sempre enfrentou toda e qualquer injustiça que ameaçasse sua dignidade. Mas aquilo era diferente; sentia que finalmente havia encontrado o que a realidade podia oferecer como ameaça. — Aquilo dentro da sua bolsa. O que é? — Referiu-se ao que Stofski colocou em cima da mesa.
- É um calibrador de EMS... — explicou num baixo tom — Desenvolvido por mim para facilitar pesquisas com energia mágica.
- Olha, só! — Sorriu, dessa vez genuinamente — Quando Borsht disse que lhe traria de Krivia, pensei que seria um idiota igual a ele. — Deu dois leves tapas no ombro do rapaz. — Mas posso ver que você é alguma coisa. Espero que seja tão útil quanto Pérski — Citou o filho de Borsht. Realmente o seu primo havia se tornado um homem digno de respeito, como Stofski previa.
- O que eu preciso fazer aqui?
- Há um uniforme no armário abaixo da mesa. É um jaleco, também. Cê vai gostar. — juntou as mãos por detrás das costas. Estava naquela postura de superioridade novamente.
- Apenas prossiga com o trabalho do seu antecessor. O relatório está na mesa. Eu preciso ir agora. — Deu meia volta e passou a caminhar em direção ao elevador — Garoto. — Stofski olhou, já de longe. Stuart não parou de caminhar e não olhou para trás — Eu tenho o poder de te abençoar, mas posso amaldiçoar, também. — Olhou de canto quando chegou de frente ao elevador — Não se esqueça: me orgulhe. — Sumiu segundos depois quando a porta do cubo metálico se fechou, deixando o ambiente ainda mais escuro.
- Deus! Como eu queria voltar pra minha terrinha... — Suspirou e caiu os ombros, mas rapidamente ergueu-se. Com o punho direito cerrado deu leves batidas na testa. — Que isso, homem! Pensamentos felizes... Pensamentos felizes! — Foi para a mesa. Sentia que estava na hora de começar a trabalhar — Tudo bem, tudo bem. Meu pai também tem um chefe difícil. Não é o fim do mundo. — Ajuntou os papéis, percebeu pelo rodapé que felizmente estavam em ordem numérica. Os relatórios não eram difíceis de entender, as aulas no estágio valeram muito, no fim das contas. Gráficos e descrições apontavam o projeto que estava sendo feito. Aquilo para Stofski era ouro, já que Stuart não foi tão claro no que pretendia e o rapaz não sentia vontade de ir confirmar.
"Amplificação de Externo; Anulação de Externo" eram títulos para trabalhos distintos, mas convergentes no que se diz respeito ao Projeto Externos. Dentre algumas linhas, a que se destacou durante a leitura de Stofski foi "[...] Ainda que um Externo morra, a sua Umbra permanecerá ativa. Caso a energia Diabolus seja suficiente, o Exterior residente se manifestará do órgão [...]"
"Umbra"... Stofski já ouvira falar neste nome antes. Trata-se de um órgão que apenas os Externos possuem. Uma espécie de chifre que pode crescer em qualquer lugar na região da cabeça, comumente no topo. Características como tamanho, cor ou textura são individuais, ou seja, se diferem dentre os indivíduos. As Umbras comportam os Exteriores, seres de forma não-definida que se alimentam de energia negativa e, dependendo da energia que os manifestou, podem causar destruição em massa. Poucos são os casos onde o Externo perde o controle de seu Exterior. Ainda menores são os casos onde um Exterior se manifesta. A verdade é que um Externo que seja capaz de invocar e controlar livremente o Exterior presente na Umbra, é considerado uma raridade. Ainda assim, o medo destes seres permeia a sociedade atual. Outro detalhe responsável por criar pânico entre as pessoas, é a famosa doença conhecida como Diaboluscemia, uma condição que é contraída quando se tem contato direto com um Exterior. Teorias indicam que Externos também podem ser responsáveis por transmitir essa doença, contudo nunca foi comprovada pelo reino Arbosalút, conhecido em toda a Auroxl pela forma variada de cura, seja por magia, ervas ou outros métodos medicinais.
Stofski prosseguiu com a leitura, desta vez em foco na seção de amplificação.
"[...] Há métodos para forçar uma manifestação do Exterior pela Umbra, contudo as chances são baixas; fatores como idade, personalidade e convivência são essenciais para avaliações mais precisas, e consequentemente, ao sucesso da tentativa. [...]"
Mais abaixo estavam desenhos anatômicos de algumas das cobaias. Riscos e triângulos acima de órgãos específicos eram responsáveis por categorizar ferimentos causados pelos testes.
"[...] Com as análises acima, no momento a amplificação segura não é possível. Não sem uma segurança ainda mais reforçada."
- Esses registros datam de dois meses atrás... — Folheou mais dos desenhos. — Parece que desistiram da Amplificação, mas seguiram os testes em cobaias mesmo que não dessem em nada... — o sadismo daqueles experimentos podia ser notado pelos desenhos perfeitamente precisos. Uma das cobaias teve o olho esmagado, e pela expressão do cadáver registrado ainda estava vivo quando aconteceu — Chega. — Sentiu um suspiro invadir o seu rosto quando fechara a seção de amplificação com força — Olhou assustado para a cortina. Neste ponto, já sabia o que provavelmente havia por detrás do tecido tactel.
Retirou da mochila o seu calibrador, colocando-o em cima da mesa logo em seguida. Estranhamente não captou nenhum sinal. Quando estimulado por 1 de ESM, capta teus sinais e transmite para o rolo de papel através da ponta de uma caneta. O sinal é apontado pelo gráfico criado em tempo real. Contudo, até aquele momento a linha se mantinha reta, informando que não havia nenhum sinal de magia por ali. O garoto resmungou.
- Isso não faz o menor sentido. A sala está rodeada por magia, mas essa droga não tá captando! — Bufou — Deve ter quebrado na viagem. — Decidiu portanto seguir com os demais documentos deixando pelo antigo pesquisador. Ora ou outra pensamentos acerca de tudo o que presenciou até ali o atormentavam. Os desenhos, ainda que não fossem de fato as pessoas que sofreram, já eram o suficiente para causar pequenos pesadelos em momentos de distração.
Sentiu seus olhos queimarem. Não tinha a menor noção do tempo, porém sabia que desde o início das pesquisas já haviam se passado horas. Sentiu-se encurralado com toda a informação que consumira, já que estava tão perdido quanto o autor dos documentos. Os testes contidos na seção "Anulação de Externos" pareciam não levar a lugar algum. Afinal, nem mesmo mortos os Externos se livravam de seus poderes. Mesmo após tanto tempo desde sua descoberta, as forças provenientes destes seres eram um mistério. Algo tão indecifrável e nebuloso que desafiava a própria realidade. Tudo estava lá, naqueles papéis com relatórios desesperados e confusos. Foi quando Stofski finalmente notara; o antigo pesquisador não foi saiu por medo ou terror das pesquisas, mas sim por entrar no beco sem saída que se tornou aquele projeto. Foi como dar um tiro na própria cabeça, mas sentindo as consequências da maneira mais lenta e agonizante possível. Coçou os cabelos em confusão, foi quando um som o interrompeu. A linha responsável por registrar as medidas de energia mágica já não estava mais reta, e sim promovendo rabiscos instáveis, acusando de que o nível de magia naquele ambiente estava tão intenso quanto o transmitido por um guerreiro da classe mais alta. Mas era impossível. Não havia nenhuma força que chegasse a um por cento do que estava sendo apontado no papel. Com a intensão de verificar o motivo daquele equívoco, Stofski cuidadosamente aproximou-se do dispositivo, contudo não conseguiu mover sequer um dedo a mais quando notou. Aquilo não era tinta, era sangue. Sangue fresco deslizando entre a linha inquieta. A máquina deixou de registrar a energia mágica por segundo para dar lugar a outra força, algo responsável por cobrir qualquer vestígio do que poderia se considerar como magia — Algo que desafia a realidade... — Afastou-se em passos cambaleantes. Não sabia sequer onde sustentar os seus próprios pés. Estava assustado e confuso, pois já era claro o que estava acontecendo. Por algum motivo, o calibrador de energia estava transmitindo ondas da Energia Diabolus. Contudo, este não era o motivo de seu medo, e sim a origem de toda aquela energia descontrolada.
Escutou o som de tecido da cortina. Era sútil, mas amedrontador. Em sequência gemidos fracos e interruptos iniciaram-se. Stofski podia sentir os corpos se debatendo por trás da cortina, a qual balançava inquietamente. Entre o barulho angustiante de carne e os gritos de dor, uma mão sem pele alguma surgiu pela aresta escura. Era o dobro de tamanho s comparada a um braço humano. Dentro da carne cinzenta haviam diversos olhos inquietos, com pupilas movimentando-se para direções distintas. Correu o máximo que pôde para o elevador, diante do tremor do chão já tinha total ciência que estava sendo perseguido por aquela criatura aterrorizante. Os gemidos de angústia aumentavam gradualmente rápido, acompanhando a velocidade do monstro que expelia sangue e lágrimas de seu corpo.
Continuou correndo pela sua vida, mas pouco confiando que conseguiria sair dali. Semicerrou os olhos pela fadiga, foi quando notou que o elevador estava em seu andar, abrindo as portas lentamente. Dentro havia alguém. Uma silhueta de asas comprimidas, cabelos encaracolados e pose de guiança iluminada pela luz amarelada do elevador. Quando adentrou o cubo, já não havia mais ninguém, apenas o monstro atacando as portas que já haviam se fechado.
- O que tá fazendo aqui a essa hora? — A luz emanada das mãos do segurança invadiram seus olhos quando chegara ao térreo.
- Um monstro...
- O quê? — Sacudiu o punho para desativar a magia de luz.
- Um monstro! Lá em baixo! — O homem continuou não entendendo. Antes que Stofski continuasse tentando convencer ao segurança, metade do corpo grotesco da criatura que o perseguia surgiu em meio ao piso pintado de demônios. A sua cabeça não tinha um formato definido, passando longe de algo que lembrasse uma pessoa. Se desvinculou do chão como se estivesse saindo da superfície de um lago.
- Puta merda! — Expressou o segurança em susto. Não demorou muito para que entrasse numa postura hostil. Das mãos que antes iluminavam o ambiente, agora emitia um intenso facho luminoso, este direcionado ao monstro que os ameaçava. O ser recebeu o ataque de forma certeira, contudo, como Stofski podia prever, a magia não funcionou tão bem quanto podia. — O que é aquilo, moleque?
- Eu não sei! Juro que não sei! — Respondeu em desespero.
- Ele está resistindo ao ataque. Nunca vi algo assim an... — Como um predador, o monstro feito de olhos surgiu por detrás do segurança. Stofski presenciou a mandíbula daquela criatura se abrindo a um espaço maior do que o seu próprio torso. De um segundo para o outro, metade do corpo do homem sumiu, restando apenas um resquício do abdômen e pernas. O rapaz caiu sentado. Completamente tomado pelo terror, se distanciou com as mãos pelo chão, até que levantou-se ao encontrar uma parede. O ser acabava de mastigar a recente refeição. Correu cambaleante para a porta, mas quando chegou notou que encontrava-se bloqueada por diversas fechaduras. Com uma respiração trêmula e ofegante, olhou para trás pausadamente. O monstro estava pronto para matá-lo.
- Eu não pensei que seria assim... — Fechou os olhos. Lágrimas se misturavam com o suor frio em suas bochechas. O som carnal dos passos acusou o que aconteceria nos próximos segundos. Stofski já estava preparado, contudo balançou a cabeça — Ao menos eu quero morrer lutando! — Inspirou o máximo do medo que conseguiu. Com o peito estufado, avançou contra o oponente, destemido a causar nem que fosse um arranhão. No instante em que acertaria aquele monstro, sua testa chocou-se contra a mesa de ferro.
- Ai! — Gemeu de dor enquanto acariciou a cabeça. Notou rapidamente, estava no laboratório outra vez — Um sonho... — Levantou-se da cadeira com preguiça. Realizou o mesmo caminho que no pesadelo, atravessando as diversas salas vazias até o elevador. Demorou um pouco para descer, e quando finalmente chegou, Stofski saltou para dentro quase que desesperado. Já estava no hall quando foi abordado por um guarda que notara sua presença. Estava com uma prancheta nas mãos e trajava o mesmo uniforme que o velho que conheceu mais cedo. A diferença gritante era a idade do homem, a qual não parecia passar dos trinta.
- Você! — Obstruiu a saída do elevador antes que Stofski pudesse retirar-se. — Há quanto tempo está aqui? — Perguntou num tom hostil.
- Eu não sei... Eu... — Ainda estava imerso no pesadelo que tivera — ...tô aqui desde ontem, eu acho. — O guarda arqueou a sombrancelha.
- Então você é o principal suspeito. — Anotou na prancheta.
- Me desculpe. Principal suspeito de quê?
- Assassinato. — Stofski arregalou os olhos — Na madrugada de hoje rasgaram um pobre coitado ao meio e você é um dos únicos que estava no prédio.
- Rasgado... ao meio? — sequer conseguiu respirar. Questionava-se internamente se de fato foi o segurança do sonho. E se realmente foi, como aquilo poderia ser possível?
Fale com o autor