- Só falta você ser a porra de um Externo. Aí que tudo vai fazer sentido, mesmo. — Com a mão que estava livre da prancheta invadiu o cabelo cheio do rapaz, procurando qualquer sinal de uma Umbra — Não, não é. — Concluiu quando nada encontrou.

- Impossível Stofski ser um suspeito. — Um homem negro de altura que atingia os dois metros e dez se aproximou. Era Stuart. — O garoto jamais faria isso. É um bom sujeito. — Sorriu de canto. O guarda pareceu hesitar com a acusação que acabara de fazer.

Pigarreou. — Bom dia, Stuart. — De cabeça baixa cumprimentou o homem sem o encarar. Stuart guardou um pouco do seu cabelo de cordão espesso dentro do chapéu bege, ficando ao lado de Stofski logo em seguida.

- Oficial Aluat, espero que sua equipe encontre uma resposta para o ocorrido. Não quero que a imagem da companhia seja manchada por... infortúnios. — Disse em voz grave, desdenhando completamente da vítima responsável pela visita de Aluat e os demais oficiais. O guarda concordou ainda acuado.

- É um caso estranho. A parte de cima do corpo simplesmente sumiu, como se tivesse sido arrancada. Precisaremos de tempo para apurar os fatos e...

- Eu vi... — O oficial e Stuart encararam Stofski após a declaração — Eu o vi sendo morto... — afirmou. Seus olhos estavam grandes o bastante para escapar das pálpebras.

Stuart intrigou-se, mas manteve a compostura. Chamou o elevador, o qual não demorou para chegar. Ao entrar, sutilmente puxou o rapaz pelo ombro. — Quer saber? Parece um problema da L'essentiel. — A contradição veio sem nenhuma sutileza enquanto permanecia com as mãos no ombro de Stofski, que seguia imóvel — Vou dar uma palavrinha com ele. Você... Bem, você pode cuidar para que esse ocorrido não caia nos veículos da imprensa. — Abaixou a cabeça, encarando Aluat por baixo com um semblante afiado — Consegue fazer isso por mim, oficial? — Voltou ao normal assim que recebera uma resposta forçadamente positiva. Em seguida as portas se fecharam automaticamente.

O uso exclusivo do elevador indicava a ausência de um grande fluxo de pessoas se comparado ao dia anterior. Era claro, aquilo tinha relação com o incidente da última madrugada; incidente esse que preocupara Stuart profundamente. Se há algo que este homem mais ama no mundo, é manter o controle. Tudo precisa estar em seu devido lugar, assim como deixou. Mas naquele momento, uma situação inesperada como aquela era o suficiente para causar o profundo desconforto que estava sentindo. Já em sua sala, uma inundada por mobílias de madeira foleadas a ouro maciço em suas arestas, questionou o ocorrido ao garoto, que levou um tempo para recobrar a atenção.

Stofski não respondeu de início. Os olhos estavam imersos em questionamentos internos; "por que ele quer saber disso?" "Já não era óbvio para ele?", pensava. Afinal, quem mais do que ele para saber os podres da empresa? Um homem que aparenta cuidar mais dos negócios do que o próprio dono, Borsht, seu tio.

- Não. Eu não esperava que isso fosse acontecer. — Stuart cortou o silêncio, adivinhando por acidente o que o garoto pensava — Eu te deixo um dia trabalhando sem supervisão, e é isso o que acontece: um segurança morto. — Suspirou lentamente, demonstrando a impaciência, mas sem movimentos bruscos — Como?

- "Não esperava que isso fosse acontecer"? Você deixou um monstro lá! Um... demônio, sei lá! — Levantou-se bruscamente, mas sem sair do lugar — Eu vi... eu vi aquele homem ser comido pela metade na minha frente! Eu vi o monstro saindo do chão como se fosse o próprio Goëtia vindo atrás de mim! — Proclamou ofegante para o chefe. O olhar confuso alternava entre as minúsculas pupilas de Stuart. O homem, desta vez, não conseguiu conter a surpresa.

- Você o viu? Nunca imaginei que... — pensativo, encarou a mesa encontrando direções aleatórias. Não demorou muito para voltar a atenção ao garoto assustado. — Stofski. — O rapaz respondeu com um olhar atento — Você conheceu um Exterior.

- Um Exterior...? — A surpresa se deu por muitos fatores, sendo o principal deles a raridade de encontrar com uma criatura como aquela.

Exterior.

Mais raro do que encontrar um, é sair com vida deste encontro. Por mais que sejam monstros temidos e um dos maiores empecilhos que Auroxl precisa lidar, a chance de encontrar com um Exterior é mínima, quase como qualquer outra entidade lendária. São criaturas residentes do outro lado da Barreira, local deveras distante de qualquer povoado do continente — a não ser, por algum motivo, Endápolis.

Stuart também se levantou, mas ao contrário de Stofski, o fez de forma plena. Encarando a vista de sua janela para os distritos, prosseguiu com a explicação. — "Guiri" é o seu nome. Um Exterior oriundo de dezesseis Umbras.

- Dezesseis? De onde vêm tudo isso?


- São corpos de Externos. Estão atrás da cortina. — O silêncio tomou conta da sala. Stofski já imaginava algo do tipo, desde quando fora apresentado àquele laboratório macabro, mas a princípio optou por sequer pensar a respeito. Agora, tudo o que mais desejava era voltar para dez minutos atrás, onde ainda não sabia sobre o segredo sujo da L'essentiel.

Em meio aos pensamentos incertos de ambos presentes, memórias de Stuart borbulhavam entre preocupações. Mais profundamente, se encontravam há onze meses antes da conversa que tinha com Stofski.

Onze meses atrás:

Assim como revelado por Stuart, haviam dezesseis cadáveres pálidos no subsolo do prédio. Todos enfileirados em uma plataforma fria de metal, isentos de qualquer peça de roupa. O extremo frio artificial interrompia a decomposição dos pobres coitados, assim impedindo que odores ou demais condições gerassem alguma evidência.

- Tânia Monffer... Bernard Bous... Kinsey Bayer... — Uma voz rouca, ainda que jovem, listava os nomes na prancheta, conferindo os rostos dos cadáveres recém chegados com os retratos de cada fichário. Não podia evitar a aflição que sentia ao encarar os rostos inexpressivos dos mortos enquanto citava seus nomes, nomes esses que pertenciam a pessoas; indivíduos que agora já não eram nada mais do que cascas vazias daquilo que já foram um dia.

- Confirma que estão todos aqui? — Questionou Stuart no mesmo instante em que fechava as paredes utilizando dos selamentos. Não gostaria de ser pego de surpresa naquela tarefa.

- É... Estão. — Vaieliel respondeu. Em meio ao cabelo de cor lilás, agarrou a própria umbra rígida, branca assim como a sua pele pálida. Sabia que em qualquer deslize poderia ser a próxima pessoa ali deitada.

- Espero que essa quantidade seja suficiente para os seus estudos. — Finalizou o selamento das paredes. Já próximo aos cadáveres, o desacordo de Vaieliel era tão claro quanto a luz da lâmpada refletida sobre o ferro polido.

- É, sim. — Vaieliel respondeu amenamente.

Stuart, numa complacência enigmática pontuou.

- Eles já estão mortos, jovem. Os dê ao menos a honra de não ter sido em vão. — Vaieliel sentiu seu estômago revirar com aquelas palavras de consolo. Não havia escolhido aquilo, preferia qualquer outra coisa. Contudo, a Umbra em sua cabeça era a maior representação da falta de opções. Precisava agarrar qualquer oportunidade para que não acabasse como os seus semelhantes: à beira da morte, em condições deploráveis em meio a tamanha miséria. Com isso, engoliu a seco e concordou.

As demais horas que ambos passaram foram responsáveis por teorizar o início dos possíveis projetos que poderiam ser levantados a partir da nova "encomenda" de Sacred. Tudo ainda era muito nebuloso. Devido a cultura arisca do povo de Auroxl acerca dos Externos, nunca se houve um estudo aprofundado acerca deste assunto. Desse modo, Vailiel seria a pessoa que inauguraria esta pesquisa, trazendo à tona, mesmo que em documentos secretos da L'essentiel, as primeiras conclusões científicas, baseadas totalmente em experimentos fundamentados.

Surgiram resultados relevantes logo nos primeiros testes. Fora onde obtiveram as conclusões nas páginas de início.

"A Umbra de um Externo cadáver não se desativa. Persiste em um funcionamento que não se difere com a de um Externo vivo."

"A energia oriunda de Umbras assemelha-se com a dos Exteriores, portanto, não se pode considerar como magia, sendo o mais correto classificá-la como Diabolus."

Tantas outras estavam registradas, isto apenas nas horas seguintes à chegada dos corpos. Stuart notou tamanha competência quando visitou o laboratório na manhã seguinte.

- Sempre soube que lhe trazer seria uma ótima ideia. Olha só... — foleou os registros — tantos resultados em tão pouco tempo. — Vaieliel não respondera. O homem, curioso, aproximou-se daquele sujeito. Vaieliel estava de costas para Stuart, sentado com as mãos sobre os próprios cabelos. Quando finalmente virou-se, expôs seu olhar desesperado, contrário daquele indiferente que sempre carregava.

- Senhor Stuart, não sei se quero continuar. — Escutou tal afirmação em uma voz duplicada. Vaieliel e Stofski disseram a mesma coisa, todavia o rapaz fora responsável por puxar o homem de volta ao presente, na sala onde conversavam. Stuart Pigarreou.

- Eu já disse: não me decepcione. Pretendo não repetir o pedido. — Stofski suspirou com a resposta. — Sobre o Guiri, ele não voltará a aparecer.

- Você me garante?

- Não garanto. Mas ele servirá para encorajá-lo a terminar o serviço mais rápido. — Stuart sorriu falsamente. — De todo modo, é melhor voltar para casa. Foi uma noite e tanto, eu imagino. Bom trabalho hoje. — Despediu-se ainda na mesa, onde segundos depois viu Stofski sair pela porta do escritório.

- "Não garanto". Esse cara vai me matar, isso sim. — Já caminhava pelas ruas do distrito de Tapuz. Emburrado chutava pedras soltas. Enfim, suspirou. — Como que tanta coisa foi acontecer tão de repente... — Olhou para o céu. Era um dia nublado, com nuvens carregadas e tão escuras quanto o vazio da noite. De repente, sentiu na superfície da pele um calafrio o dominar por completo. Não sabia se provinha do frio repentino ou das memórias aterrorizantes daquele Exterior. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo — Nao dá pra fugir. Ou o Stuart me encontra com todo o seu poder e influência, ou o "Guiri" vai me rasgar ao meio. Nenhum desses destinos é bacana. Nem um pouco. — Apertou os passos quando sentiu um pingo de chuva mais grosso sobre os cabelos — Mas do que estou reclamando? Se eu conseguir avançar naquelas pesquisas, talvez eu até ganhe um aumento. — Com o punho, bateu de leve na própria testa — Tá doido, é? Arriscar a própria vida por dinheiro? Possivelmente por merreca, ainda! — As pessoas ao redor tomavam lados diferentes da rua para não cruzar com o garoto que falava sozinho. — Só que eu não tenho escolha! É morrer ou morrer! Prefiro morrer tentando me dar bem na vida! Pensamentos felizes, pensamentos felizes! — Repetiu a frase de sempre.

Stofski continuou a caminhada, mesmo sob a chuva espessa cobrindo praticamente toda a área do reino de Endápolis. Antes que chegasse perto de sua residência, escutou um pedido de ajuda estridente. Estranhou, pois reconheceu aquela voz falha e cansada. O policial do dia anterior, ou melhor, o velhote caloteiro, do horizonte se aproximava numa impressionante velocidade. O garoto sentiu o chão estremecer de leve, e não fazia ideia do porquê.

- Me ajuda, forasteiro! Pelo amor de Deus! — Suplicou o idoso numa intensa corrida ofegante. Não demorou muito para surgir dezenas de outros corredores vindos da paisagem nebulosa. Até aquele ponto já era claro: Vechi estava sendo perseguido por pessoas furiosas.

- Olha lá! É o ninfeto que estava com o velho broxa ontem! Eles estão juntos nessa vagabundagem! — O dono da taverna que Stofski — por infelicidade — estava ontem apontou num tom de voz grave.

- Hã? Eu? Eu não fiz nada! — Gritou de longe, mas sem sucesso. O garoto, no desespero de ver tamanha multidão se aproximando, procurou por qualquer saída que pudesse correr, mas tudo o que encontrou foi a continuação da estrada. Sem escolha, passou a correr também. Sabia bem que jamais conseguiria convencer tanta gente furiosa assim, principalmente pelo fato de que ser persuasivo nunca fez parte da sua personalidade.

Vechi não demorou para alcançar o rapaz, o qual claramente estava dominado por um medo inconsciente. Stofski corria de um jeito engraçado, seus membros estavam tão rígidos quanto um boneco de madeira.

- Ô moleque, não para de correr, não. Eles tão vindo! — Alertou.

- Como que você me alcançou tão rápido?! — Indagou com um olhar de ódio. Lágrimas saltavam dos olhos e eram levadas pela ventania da corrida. — Você me envolveu na sua de novo! Eu não tinha nada a ver com isso e agora tão querendo me matar de graça! O que você fez pra eles estarem tão bravos com você?!

- Eu só tava cobrando a taxinha... Mas aí todo mundo se juntou do nada e começaram a me perseguir. — A própria barba de vez em quando batia contra o rosto do velho.

- "A taxinha"! — bufou em corrida — Eu odeio você!

Após algumas dezenas de minutos correndo, as ruas tornaram-se mais estreitas. Constantemente olhando para trás, perceberam que a quantidade de perseguidores diminuía, até que finalmente sobrou apenas um. Por uma infeliz coincidência, era o dono da taverna. Aquele com quase dois metros de comprimento e bíceps do tamanho da cabeça dos dois pobres coitados. Sem pensar duas vezes, adentraram uma estrutura composta majoritariamente por uma fina camada de metal enferrujado. Era cercada por uma muralha espessa de blocos de pedra, como um grande portão. Mas assemelhando-se com um galpão abandonado. Naquele ponto, o homem já não mais os perseguia.

- Ele desistiu? — Questionou Sotfski num cochicho.

- Espero que sim, filho. — Respondeu Vechi no mesmo tom.

Naquele ponto, tudo o que ouviam era o som dos pingos de chuva tocando a superfície metálica do telhado. O barulho desesperador de passos rápidos e gritaria cessaram por completo. Foi quando o garoto se permitiu por fim perguntar.

- E onde é que a gente tá agora? — Questionou olhando em volta. A escuridão impedia alguma análise precisa, tudo o que conseguia ver eram caixotes velhos empilhados. Vechi com sua voz banguela gritou, assustando Stofski.

- O que foi, hein?

- É óbvio que eles não nos seguiram! Nós estamos em...

- Eshekolitt. — Uma terceira voz surgiu, proclamando o nome do distrito que os dois acabaram de cruzar. Era um rapaz de cabelos negros com idade próxima a de Stofski. Jogava e agarrava constantemente a faca em sua mão, a pegando sempre pelo punhal. No instante em que anunciou a sua presença, lâmpadas ascenderam, mostrando os demais dois indivíduos que acompanham o rapaz. Os três em sua testa continham Umbras. A textura de cor escura e cinzenta faziam assemelhar-se com pedras.

- Externos. — Pensou Stofski. Era a primeira vez que via uma umbra ao vivo. No seu reino, assim como tantos outros, os Externos eram obrigados a cortar a umbra fora, mesmo que crescesse depois de alguns meses. Endápolis era o único local que não tinha essa regra.

- O que os dois maricas fazem aqui? Achei que a galera do outro lado não gostasse de passar pra cá. — Outro daqueles três indivíduos Indagou. Estava confortavelmente apoiado na parede, expelindo fumaça pela boca e nariz. O terceiro, mesmo que não emitisse uma palavra sequer, conseguia transmitir medo apenas sorrindo para o chão com umas das pernas inquietas. Os três trajavam vestes sujas e rasgadas, algumas não condizentes com seus respectivos tamanhos.

- Foi acidental, tá bom? Nós já estamos de saída. — O idoso puxou o rapaz para fora, contudo o mais quieto dos três obstruiu a saída, permanecendo de cabeça baixa diante Stofski e Vechi.

- Opa, opa. Acho que... — O garoto de cabelos negros aproximou a lâmina próxima a garganta de Stofski — infelizmente vocês não vão mais sair daqui. — Sorriu de maneira maliciosa.

O sentimento era de tensão. Stofski tentou relutar com tudo aquilo, mas já estava cansado de tantos problemas repentinos. Não enfrentou o opressor, apenas fechou os olhos e aguardou uma possível piedade.

- Forasteiro! — O velhote gritou. Quando Stofski abriu os olhos novamente, presenciou aquele garoto que o ameaçava sendo jogado a uma direção contrária ao chute de dois pés realizado por Vechi. — Corre! — Stofski o fez, agarrando o policial pelo uniforme e disparando à saída contrária a que um deles fechou.

- Você deu uma voadora nele?! — Incrédulo, o rapaz perguntou. Vechi parecia cansado demais para responder. Correr após aquilo tudo se tornou uma tarefa árdua.

- Eu acho que despistamos eles. — Disse ofegante com as mãos sobre os joelhos. Stofski olhou em volta daquela rua estreita, haviam apenas sobrados colados e improvisados.

- Vocês dois! — Os três surgiram, sabe-se lá de onde — Fugir não é uma opção. — Já sem paciência, o que manuseava a faca apontou para ambos. — Vejam o que eles têm de valor, depois pode matar.

Silêncio.

Por alguns segundos nenhum som foi emitido. Nada. A chuva até aquele ponto já havia cessado, e as nuvens restantes no céu se separavam, dando lugar a pilares luminosos da luz do dia diante ao reino.

De repente, daquele cenário desesperador onde Stofski presenciava a aproximação ameaçadora dos homens, emergiu de um salto a figura de uma mulher. A silhueta de braços abertos fazia um lindo contraste com o brilho intenso do sol, que se intensificava com o dispersar das nuvens. A figura não proclamou nenhuma palavra, apenas continuou na mesma posição, impedindo que os dois saqueadores se aproximassem.

- É só a Celine. — Desdenhou um dos saqueadores, logo sendo advertido pelo seu parceiro.

- O problema não é ela. Se o dono da Celine ver ela próxima de alguém, é morte na certa para o azarado.

- Tem razão, eu é que não vou me meter nessa furada! — Desistiu da intimidação, afastando-se em seguida. Os outros dois fizeram o mesmo, até que sumiram entre os becos.

A garota, quando notou que já não havia mais ameaça alguma, retomou a corrida que estava antes, se enfiando pelos interiores do distrito de Eshekolitt, em direção à saída.

- Celine, você não pode cruzar para lá! Se ele te ver fugindo de novo, vai estar em problemas! — Com o semblante preocupado, uma outra mulher, um pouco mais velha, corria atrás da garota. Não conseguia acompanhar o ritmo da fugitiva, mas seguia em perseguição.

- Aquela Externo tá indo pra Limonn? Ela é louca? Se um guarda pegar ela, já era! — O velhote apontou acariciando a própria barba.

Stofski, completamente intrigado com aquela figura que o protegera, e notando a quantidade de problemas ao redor da garota, decidiu por fim partir na direção em que ela correu.

- Vamos também, Vechi!

- Eu estou cansado de correr! — Resmungou de forma infantil o velho.

- Deixa de ser mal agradecido! Ela salvou a nossa vida e agora parece estar com problemas. É o mínimo que devemos fazer. — Explicou já em correria. Sem escolha, Vechi acompanhou.

Aquela perseguição em larga escala culminou na chegada de volta ao distrito de Limonn. A mulher que antes procurava a garota pareceu ter se perdido entre os inúmeros becos de Eshekolitt. Stofski e Vechi também não tiveram sucesso na busca.

Estavam ofegantes, correram demais e por muito tempo. Stofski sentia que o seu coração sairia pela boca a qualquer momento. Seu peito também doía.

"Quem era aquela?" "Por que estão atrás?", questionava-se em pensamentos enquanto recuperava o ar em respirações ofegantes.

- Moleque, ali! — Vechi puxou de leve o jaleco do garoto, em seguida apontando para uma direção onde encontravam-se muitos barris empilhados. No pequeno vão entre um amontoado daqueles objetos, cabelos bagunçados frequentemente saltavam para fora. Era volumoso e castanho, e a cor se camuflava na textura de madeira, contudo, o esconderijo improvisado não deixava de parecer idiota.

- A há! — O velho puxou um dos barris para cima, assustando a garota, a qual permaneceu no chão numa posição arisca. Celine era tão magra que mal podia se dizer que era tridimensional. A pele parda reluzia a luz intensa da tarde, e os olhos marrons como chocolate fitavam o garoto e o idoso. Em contraste, a Umbra na testa era branca e pontuda, e a textura era lisa como uma pedra polida. Ela se afastou ainda mais. Estava amedrontada.

Stofski não só percebeu o medo que a garota sentia, como pôs-se a aproximar com cautela, para não intensificar ainda mais o desespero. Com um sorriso acolhedor, gentilmente estendeu sua mão para Celine, que relutou de início, mas diminuiu o medo no olhar, dando lugar a uma expressão confusa.

- "Celine", não é? — manteve o sorriso — Meu nome é Stofski, prazer em te conhecer! — Ele não podia negar: ela era linda. A cabeça minúscula junto ao rosto delicado eram responsáveis por ressaltar ainda mais a beleza que era transmitida.

- Ô jovem, vamos sair daqui. Se alguém ver ela, pode denunciar, aí já viu. — Alertou Vechi. Até Celine passou a compreender, uma vez que finalmente aceitou a ajuda do rapaz.

Juntos seguiram por becos e outras ruas estreitas no distrito de Limonn, sempre evitando a Avenida Conexão, responsável por interligar de maneira oficial os três distritos de Endápolis — há outras entradas clandestinas, uma delas onde houve a emboscada anteriormente.

Por fim, não levaram muito tempo para chegar à casa de Stofski. Conduziram Celine até a poltrona da sala, único lugar de aconchego na minúscula casa.

- Ainda não entendo porque devemos trazer ela pra minha casa. A sua não é segura, já que é policial? — Stofski Indagou inconformado. Era claro que estava incomodado por ter que abrigar uma Externo, mas por algum motivo se sentia na obrigação para tal.

- Nem eu posso ir para a minha casa agora. Deve tá cheio de louco querendo minha cabeça. — Respondeu Vechi num tom preocupado.

- Ué, e onde você vai ficar?

- Aqui!

- Aqui? Aqui não!

- Mas Stofski, não tenho onde ficar. — Reclamou forçando a voz de velho, intensificando o coitadismo.

- Isso tudo é culpa sua. Não me envolva nos seus problemas, velho maldito. — Expressou em fúria. Mas logo desistiu da briga e aceitou a estadia forçada de Vechi.

1ª Secretaria de Crimes da GCA — Sacred Kingdom

Álvaro, o responsável pelo departamento daquele dia aguardava com certa ansiedade a chegada dos investigadores. Com a morte de Crav, líder dos Valet, muita coisa ainda precisava de ajuste, contudo conclusões eram necessárias para tal. Os investigadores prometeram trazer consigo mais informações acerca do maior caso do ano até então. A luz ensolarada da saída do sol já invadia a gigante janela do escritório, até que por fim batidas na porta foram ouvidas.

Na sala entraram um homem e uma mulher, ambos bem vestidos. Traziam consigo uma série de documentos, possivelmente ligados ao caso dos Externos.

- Marta Tyffani, investigadora e coordenadora de combate a crimes da Guarda de Sacred. — Cumprimentou-se a Álvaro, que levantou-se da cadeira de couro para atender. O homem, Leonor Gro, dispensou a apresentação, pois já era conhecido pelo responsável da Secretaria, atuava no cargo de Investigador e coordenador também, mas na GCA (Guarda Continental de Auroxl).

Não perderam tempo com delongas. Leonor logo separou os papéis diante da mesa, destacando os principais pontos a serem discutidos.

- Há onze meses foram mortos os dezesseis membros da primeira divisão dos Valet. Os corpos sumiram sem nenhum vestígio. Há uma semana e dois dias, Crav Amagiel foi assassinado próximo a ponte dos Três Anjos, seu corpo foi recuperado e encaminhado à autópsia. No mesmo dia de sua morte ocorreria a Conferência dos Externos. — Com um rápido relatório geral, Iniciou Leonor após coçar a garganta.

- Suspeitos? — Questionou Álvaro.

- Era um Externo, então o assassino pode ser qualquer um. — Marta brincou, mas não houve risadas, prosseguiu então — Mas em lógica, tínhamos como principal suspeito do assassinato a sua rival Lisette, líder do grupo Externo supremacista Umbras Unidas. Aos poucos diminuímos essa possibilidade.

- Embasados em quê? — Indagou o secretário.

- Os membros das Umbras Unidas adoram fazer barulho, como no ataque em Starite que ocorreu dias atrás. Outro ponto é que Lisette não costuma matar seus semelhantes. Evita ao máximo acabar com a vida de Externos. — Marta seguiu a explicação.

- O fato é que o assassinato já estava premeditado há muito tempo. — Leonor aproximou os papéis com desenhos da autópsia, em seguida apontou para o ferimento na garganta — Foi uma lâmina. Cortaram em linha reta.

- Nada de magia. — Álvaro complementou a observação.

- Com o sistema de detecção mágica, qualquer uso de magia no território de Sacred Kingdom é rapidamente identificado e devidamente registrado para a Força de Inteligência. A localização exata é encaminhada para a guarda local, que chega quase que imediatamente para averiguação. — Apontou Marta — Somente as autoridades sabem disso. Sendo assim, o assassino tinha informações privilegiadas.

- Guardas, guerreiros, políticos... Tem muita gente que sabe disso. Muita gente também queria Crav morto. Se for assim, ainda estamos no escuro... — Álvaro suspirou.

- Nem tanto. — Outro papel foi destacado — Era um desenho ainda mais detalhado da autópsia, mas de um local em específico: o pescoço. Nele, amontoados de sangue estavam espalhados pela pele, contudo, em um curto espaço, um Z ou N parecia desenhado usando sangue como tinta.

- Uma letra... Z ou N, mas acreditamos que seja Z. Crav provavelmente escreveu esse símbolo para ajudar nas investigações. O corpo foi encontrado com as mãos cobrindo o pescoço. Ele realmente tinha intenção naquilo, não foi um símbolo feito por coincidência. — Marta por um momento pausou para tomar um gole d'água.

- Z nos remete a Zamui, candidato ao título de rei para este ano. — Álvaro apontou um pouco confuso. — Ele apoia a luta dos Externos, por isso não creio que tenha sido ele. Inclusive, foi um dos que mais lamentaram a morte.

- Também acreditamos nisso. A morte de Crav afetou negativamente os números da eleição, e eles eram amigos próximos. Mas é certo que Zamui saiba de algo, precisamos focar nisso por agora.

- Deixem disso, investigar um candidato ao reinado de Sacred logo agora será visto como perseguição. Poderemos todos perder o emprego. Por mim, Lisette segue sendo a principal suspeita. — O secretário responsável levantou irritado. Era um homem de idade e peso elevados. Caminhava corcunda pela sala, resmungando um pouco mais — Diferente dos Valet, que buscam por direitos. Os criminosos das Umbras Unidas não possuem sede, matam sem dó nem piedade e não realizam negociações. Eles são a verdadeira face dos Externos; quem realmente são se tiverem o mínimo de poder. Descubram o paradeiro de Lisette, de qualquer maneira essa mulher deve ser levada à justiça o quanto antes.

Reino de Krivia, 50 anos atrás.

- Você está linda, Lisette. — A mulher delicadamente saía da sala de banho. A toalha branca era a única coisa que cobria o corpo molhado com água quente. Seu marido, Vance, não tirava os olhos do corpo de curvas atenuadas da esposa.

- Não acha que estou meia caída para uma quarentona? — Brincou, sorrindo com o charme de sempre. O homem se aproximou, agarrando-a pela cintura em seguida. — Minha velhinha gagá preferida. — Beijaram-se em sorrisos.

Já estavam para sair do quarto do hotel, quando Lisette advertiu — Querido, não esquece do seu chapéu. — Algo crucial para que suas Umbras não fossem identificadas e gerassem alguma confusão no estabelecimento. Era a última noite do mês, então decidiram tirar uma folga da sede dos Valet de Kinches, lugar que trabalham por anos.

O cronograma especial para o casal comemorar o tempo junto terminaria em um dos restaurantes mais requintados do reino, contudo uma notícia no rádio mudou seus planos por completo.

"[...] A Guarda junto a Equipe Médica de Kinches segue no combate às chamas e explosões no leste do distrito Diamante. Autoridade acredita que o motivo do ataque culmina dos boatos sobre Externos viverem em uma das residências [...]"

Leste do Distrito Diamante, era onde ambos moravam. Naquele dia deixaram seu filho de nove anos Bênio sob os cuidados de Adina, uma Externo de dezesseis anos que trabalhava de babá. Com dezoito anos poderia finalmente entrar para os Valet e ajudar seus tios na luta pelo direito de seu povo, mas até lá optou por guardar dinheiro e ajudar na construção de seu futuro.

A fumaça das chamas intensificaram-se, sendo possível observasá-las do outro lado do reino. A aproximação foi difícil, principalmente por conta do tumulto desesperado de quem tentava fugir das chamas. Sequer a intensidade do fogo conseguia iluminar as ruas escuras pela cortina de fumaça. Levaram muito tempo para enfim chegar em casa.

Era difícil de enxergar, mas puderam ver os destroços do que antes chamavam de lar.

- Lisette, achei a Adina! — Vance reportou enquanto tossia.

- Meu Deus, Adina! Você está bem? — O corpo da garota estava jogado entre os escombros, mal podia se ver o rosto. Estava completamente manchado de fuligem. A tia desesperada tentava acordar com leves tapinhas na bochecha, mas sem resposta alguma. Foi olhando mais atentamente para o corpo ferido que percebeu — Ela não respira, não tem pulso... Está morta.

- Lisette! — Escutou a voz do marido em gritos desesperados novamente. Ele estava com Bênio desacordado nos braços, rapidamente ela realizou a mesma análise que fez com Adina. O menino estava vivo — Lisette, ele tem que ir para um hospital rápido. Não tá dando bem.

- Me desculpa mesmo, Adina. Me desculpa. Me desculpa. — Desceram os escombros com a criança no colo. A mulher não deixava de sentir culpa pelo desastre. Talvez se tivesse chegado mais cedo, a garota estaria viva.

Desceram as ruas do distrito até encontrar a primeira coleta das vítimas. Era uma enorme caixa metálica com uma rampa estendida diante da base. Camas comportavam inúmeros pacientes do recente ataque. Se dirigiram com pressa para um dos médicos.

- Doutor, por favor! Meu filho está morrendo! — O homem de roupas azuis atendeu o pedido, pegando a criança dos braços de Vance. Por conta da movimentação, a boina do garoto caiu, revelando a Umbra avermelhada na testa. O médico devolveu a criança.

- Lamento, a orientação é que pessoas devem ser priorizadas. Não temos vagas, também. A Caixa 3 já está cheia.

- O quê?! Você já estava alocando ele! — Vance entregou Bênio para sua mulher, então em fúria agarrou o médico pelas camisa. — Tem gente ali que está muito melhor do que o meu filho! Eu exijo que você trate ele! — Apertou o tecido da roupa junto a pele do homem.

- Algum problema, doutor? — Um dos guardas se aproximou. O olhar desconfiado transitava entre o casal.

- Esse Externo está querendo que eu desrespeite a regra de prioridade. Tá pedindo que eu passe o filho dele na frente dos outros. — Reportou. O guarda subitamente apartou a investida de Vance, mas a discussão continuou.

- Mamãe... — A voz doce do garoto invadiu os ouvidos de Lisette. Era uma voz fraca, acompanhada do olhar turvo e desorientado. Ele parecia estar piorando rapidamente — Mãe... eu não vejo nada... — os olhos da criança estavam abertos, mas as pupilas não encontravam nenhuma direção. Não demoraram para as lágrimas aparecerem.

- Meu pequeno, eu tô aqui. Por favor, meu pequeno. Fica comigo, tá? — As lágrimas saíram ainda mais grossas. Constantemente balançava Bênio nos braços em adulação, cantarolando a sua canção de ninar favorita com um assovio falho — Eu amo você, tá? Fica comigo. — Bênio segurava com força no braço da mãe, de um modo que apertava a sua pele. Contudo, aos poucos o aperto foi ficando mais leve, até que não houvesse mais nenhum estímulo por parte do menino. A mãe tentou reanimá-lo, mas assim como aconteceu com Adina, não houve sucesso. Bênio morreu antes que pudesse ser atendido.

Lisette não conseguia mais ouvir nada. Nada mais senão um zumbido interminável. Seu marido, ainda sem saber do que ocorreu, brigava contra o guarda e o médico. A cena seguinte que presenciara foi tão chocante quanto a anterior. Vance foi brutalmente atacado pelo guarda, que o fez utilizando magia. Agarrou o homem pela cabeça e o jogou contra o chão. Quando já parecia desmaiado, preencheu as mãos com a Umbra do Externo e ativou uma descarga elétrica responsável por comprometer por segundos a visão de qualquer um ali próximo. Tudo aconteceu muito de repente. Num intervalo de apenas uma hora tudo o que a mulher tinha já não existia mais.

Com seu falecido filho nos braços e o cadáver do seu marido à sua frente, ela se levantou. Permaneceu de cabeça baixa.