STOFSKI

4 SOPA DE LEGUMES


Dezenas de civis morrem em um atentado no reino de Kinches. Autoridade local suspeita que os provedores do ataque sejam Externos." O título se destacava em um jornal velho de 50 anos atrás. O papel desgastado estava misturado entre tantos outros jornais antigos amontoados numa gaveta, que após meses finalmente fora aberta. Alguns segundos depois fora fechada, pois não era a que Stuart procurava. A procura foi impedida por batidas na porta.

- Entre.

- Senhor, bom dia. — Uma garota franzina entrou na sala de cabeça baixa. Mesmo dentro do cômodo, não se distanciou muito da porta — Chegou uma carta da GCA direcionada ao senhor. — Estendeu a mão com o documento. Stuart recolheu um tanto desconfiado, logo após dispensou quem a trouxe.

A carta fora escrita a próprio punho pelo secretário geral de investigações da Guarda Continental. Nela, o responsável solicitava a ajuda de Stuart na investigação para encontrar o paradeiro dos dezesseis corpos. Explicou detalhadamente a importância dessa descoberta para entender quem assassinou o líder dos Valet. Álvaro não fazia ideia de que os corpos estavam no subsolo da L'essentiel.

"Entendo que esteja muito ocupado com a L'essentiel, mas reitero que precisamos desvendar o assassinato de toda a primeira divisão dos Valet o quanto antes. A realeza de Sacred nos cobra.

O edifício da L'essentiel é o local perfeito para sediar essa investigação, uma vez que nem o departamento da guarda local de Endápolis é confiável por enquanto. Entende o que quero dizer? Estamos no escuro. Qualquer um é suspeito.

Novamente, Stuart, precisamos da sua ajuda."

A complexa relação entre Álvaro e Stuart permitia que não somente trâmites burocráticos fossem facilitados na empresa, como também a GCA tivesse acesso privilegiado a um reino tão perigoso quanto Endápolis. Com isso, não seria a primeira vez que a L'essentiel apoiaria a Guarda Continental em uma investigação. Há onze meses atrás, quando os dezesseis membros da primeira divisão foram mortos, Stuart emprestou secretamente o edifício para a GCA gerenciar as atividades. Naquele cenário, esconder os corpos recém-chegados foi uma tarefa árdua, ainda mais com a visita repentina da Guarda Continental. Não sabe se terá a mesma sorte que da última vez.

- Como tudo saiu do controle tão rápido? — Com a mão sobre o rosto, o homem questionou-se internamente.

Na casa de Stofski ainda tentavam compreender o que se passava com a garota chamada Celine.

- Ela não falou nenhuma palavra desde que a encontramos. — De olhos semicerrados, Stofski apontou. O garoto e Vechi de braços cruzados encaravam a garota acanhada na poltrona. Ela não fazia contato visual com eles.

- 50% dos Externos não falam. Ela deve fazer parte dos azarados — Vechi supôs.

- Tem razão. Se for assim, fica mais complicado de entender o que foi que aconteceu — Resmungou Stofski em resposta — Mas, talvez... — Fora até o quarto e não demorou a voltar, entregando em seguida para a garota uma caneta e um papel apoiado numa prancheta — Senhorita Celine, tenta escrever pra gente porque estava correndo. — Pediu carinhosamente. A garota concordou com a cabeça.

Celine então iniciou todo o registro no papel. A concentração era tamanha que mal piscava os olhos. Em um dado momento nem a própria língua manteve dentro da boca.

- Não disse? Era só pedir para ela escrever. — Disse em tom convencido, mas Vechi pediu para que olhasse o trabalho recém terminado da garota.

- Um desenho? — Stofski decepcionado esperava um relatório escrito.

Vechi caiu em gargalhadas. Abraçou a própria barriga e lacrimejou. Por algum motivo aquilo era engraçado para ele.

- A Externo burra não fala e nem escreve! Que piada! — continuou rindo de forma aguda.

A garota, sentindo-se completamente ofendida, lançou a prancheta contra a testa de Vechi, o qual fora acertado em cheio.

- Mas sabe lançar coisas. — Stofski ironizou.

- Que coisa, hein? O que esperar dela? Tá sendo um problema desde o começo. — Reclamou acariciando a cabeça calva.

O rapaz se dirigiu até a prancheta caída, assim recolhendo o papel — Mas o desenho não é de todo mal — Celine sorriu — Tem aqui o que parece ser um homem. Ele não tá com a cara muito boa, não.

- Lembro de que aqueles Externos disseram algo sobre isso. "Se ele nos ver perto dela [...]", algo assim.

- Agora que falou, a mulher que a perseguia também apontou isso — Stofski levou o indicador dobrado ao queixo — Tem alguém atrás de você, então? — Olhou para Celine. Ela, ainda um tanto dominada pelo medo, confirmou.

"Manter ela aqui pode dar um problemão... Mas não dá para simplesmente mandá-la embora. O que eu faço? Droga, agora são três problemas que podem me matar. O Stuart, seja lá quem esteja envolvido com essa garota, e os "admiradores" do Vechi. O que eu fiz pra merecer tudo isso, afinal?"

- O que cê tá pensando aí, moleque? Tá querendo morrer cedo, é? Chuta ela daqui logo! Esse cara que tá atrás dela pode chegar a qualquer momento e acabar com a gente!

- Pra um guarda você é bem covarde!

- Pra um cientista você é bem burro!

- Eu não sou "cientista", sou pesquisador!

- Que seja! Você não vai ser nada se estiver morto. Sou um guarda, sei bem o que caras perigosos podem fazer com quem não gostam!

- Escuta, Vechi. Eu não vou deixá-la por aí. Você mesmo disse: se alguém ver uma Externo andando fora do distrito dela, pode dar problema. Ela ajudou a gente, não se lembra? É só por causa dela que estamos vivos.

O idoso relutou com uma expressão amarga, mas não durou muito tempo.

- Tá. Você tem razão. Mas ainda não sabemos o que fazer com ela.

- Talvez a primeira coisa a se fazer seja comprar roupas novas. — Sugeriu Stofski. Havia somente um vestido branco simples e curto cobrindo o seu corpo. O tecido estava amarelado, indicando o desgaste — Vechi, pode fazer isso por mim? Não posso deixa-la sozinha aqui.

- Eu tô queimado em todos os comércios do distrito. Não vai dar não, moleque.

- Claro que estaria... — Suspirou — Nesse caso, seria interessante você comprar em Tapuz — Sugeriu Stofski. Sabia que o velho jamais teria coragem de chantagear alguém do distrito mais poderoso. Outro detalhe é que Vechi já indicara que Tapuz não fazia parte de sua jurisdição.

- Tá maluco, é? Sabe quanto custa uma calcinha em Tapuz?

O garoto sem paciência alguma apontou para o velho.

- Como assim, "calcinha"? Por que eu saberia algo assim? Aliás, por que você sabe? — Indagou Incrédulo — Você me deve, Vechi! Te salvei daquela multidão e te dei onde dormir.

- E eu te livrei de morrer pros delinquentes! — O velho engrossou a voz.

- Mas foi você que me colocou naquela situação.

- Droga, tu é ligeiro, moleque. — Sem argumentos a utilizar os ombros caíram — Tudo bem, eu vou lá... — em passos arrastados se dirigiu à porta — Ai, ai. Meu precioso dinheirinho.... — Resmungou cabisbaixo antes de ir embora.

O pedido, por mais que genuíno, também foi uma desculpa para que finalmente pudesse descansar. Desse modo, por algumas horas iria desfrutar do sossego, fingindo que todos aqueles infelizes incidentes em sequência nunca aconteceram. Com isso em mente decidiu dirigir-se ao quarto, onde finalmente dormiria como uma criança recém-nascida, ignorando totalmente a Externo em sua sala, contudo o seu plano foi impedido por um estranho som grave e borbulhante.

- O que foi isso? Um rugido? — Olhou para Celine. Ela parecia mais tímida do que o comum — Ah, já sei... — soltou uma leve risada — Você está com fome, não é?

Ela não respondeu, ao invés disso permaneceu quieta.

- Tudo bem. Vou aceitar que você é estranha. — Cruzou os braços. Estava pensando no que iria fazer para ela comer — Que tarefa árdua, não é como se eu cozinhasse bem...

A situação era ainda pior, pois devido à chegada recente e a cadeia de desgraçadas que enfrentou, não teve sequer um minuto para abastecer sua cozinha.

- Ah, não tenho comida... — Olhou para a garota, parecia cabisbaixa. Suspirou — Eu acho que tem uma feirinha na rua de trás. Vou ver o que dá para trazer.

Antes que pudesse pisar fora de casa, sentiu seu jaleco ser puxado com força.


- Celine?! Pra quê isso? — Indagou assustado. Ela o encarou com um olhar indecifrável, de cabeça baixa. Ele não compreendeu muito bem, mas deduziu que ela não queria ficar só — Vai ser perigoso se você sair assim. Acho que na minha mala veio um manto de chuva, tem um capuz lá. — Após o observado, não demorou a retomar à saída da casa com a vestimenta.

O capuz foi o suficiente para cobrir a Umbra de Céline, mas ainda assim sair com ela não seria uma tarefa fácil.

Celine caminhava de um jeito esquisito, de cabeça baixa e passos inseguros ela tentava seguir Stofski.

- Você é meio desengonçada. Não aprendeu a andar ou isso é o último estágio da fome? — Ela ignorou a pergunta.

A noite havia chegado há minutos atrás, mas algumas barracas ainda atendiam. Os moradores locais as consideram sem qualidade, mas Stofski não sabia disso, era novo no distrito de Limonn. As tendas azuis estavam amontoadas numa rua estreita, não muito longe da casa do rapaz. A falta de iluminação não permitia enxergar muito bem, contudo algo ocorria no fim da pequena feira.

- São gritos? O que tá acontecendo lá? Logo agora? — Era uma mulher sendo contida por dois guardas locais, ela se debatia e reclamava, mas sem adiantar. Com certo receio, Stofski se aproximou, afinal precisava chegar na tenda de alimentos. O rapaz procurou ignorar a situação à frente, pois não queria se envolver em mais problemas, mas Celine não deixou de encarar a cena.

- Ali! É ela! Ela é quem procuro! — Celine se virou de uma vez, tentando disfarçar. Stofski, encarando quem apontava para a direção onde estava, reconheceu aquela figura feminina; tratava-se da mulher que perseguia Celine mais cedo.

Stofski disfarçou junto a garota, ficando de frente a uma tenda de revistas exóticas, onde mulheres posavam de forma atraente em retratos que destacavam seus corpos. Celine também foi submetida a essa visão. De longe ainda conseguiram escutar resmungos dos guardas. "Do que essa Externo tá falando?", "Não dá bola para ela, é louca o suficiente para ter saído de Eshekolitt. Não deve bater bem da cabeça."

- Não adianta ficar aqui, Celine! Ele vai encontrar você uma hora ou outra. Você sabe o que acontece quando se enfurece! — O aviso emitido por gritos enfraqueceu-se conforme a mulher era escoltada à força para longe. Stofski olhou para a garota, ela estava petrificada, olhando para uma direção aleatória naquela barraca de conteúdo explícito.

- E aí? Vão levar a revista? — De sorriso malicioso, um velho tão semelhante ao Vechi perguntou. Stofski e Celine caminharam feira adentro, ignorando o homem.

- "Ele"... é o homem que você desenhou? — Ela assentiu com a cabeça.

Eles não demoraram a retornar para o casebre com os alimentos. Agora outro desafio se iniciara: cozinhar.

A garota, sentada na poltrona e quieta, não parecia ter se animado ainda.

- Você sabe cozinhar? — Perguntou sem olhar para ela. Já estava cortando os legumes.

Ainda na poltrona, Celine esticou seu corpo para cima para que pudesse ver além do balcão. Ela afirmou positivamente que sabia — mesmo que não soubesse -. Fez isso pela curiosidade, pois mal se lembrava da última vez que havia preparado algum alimento.

Já no balcão, ao lado de Stofski, a garota manuseava de forma desajeitada as cenouras até a panela. Fez isso também com a batata e a beterraba. Alguns dos cubos cortados saltavam de suas mãos.

Com duas figuras isentas de dotes culinários, o prato servido para ambos não se mostrou muito apetitoso. Mas a garota por algum motivo aparentava estar excitada com aquilo. Talvez tenha sido a sensação de cozinhar.

Vechi chegou durante a preparação do jantar. Elogiou o cheiro que era emitido da panela suspensa acima da fogueira. Assim como os dois, estava morrendo de fome.

Guardou as compras em um lugar improvisado, e mesmo que não tivesse ajudado a preparar a comida, foi o primeiro a sentar na pequena mesa de madeira farpada. Com as tigelas generosamente servidas — mais de água do que qualquer outra coisa — o jantar estava pronto para ser consumido. O sorriso banguela do velho se desfez gradualmente enquanto percebia que talvez a refeição não seria tão apetitosa quanto estimara. Stofski, tentando se comunicar por expressões rápidas e olhares de avisos, procurou sinalizar Vechi para que não demonstrasse a sua decepção e desanimasse a garota, que desde seu encontro não parecia muito feliz.

Celine encarava o rapaz com um olhar atento. Parecia ansiosa com a opinião de Stofski. Ele então desceu a colher sobre a tigela e levou os legumes à boca. A água era tanta que transbordava pelas beiradas da colher.

- Está... delicioso! — Expressou com um sorriso de boca cheia, mas aquilo não era o que o garoto realmente pensava. "Está... sem sal!", "Está... cozido demais!", "Está... com muita água", seriam suas palavras se fosse um homem de sinceridade.

A mentira alegrou ainda mais Celine, que mesmo de maneira sutil, expressava seu entusiasmo.

Vechi tomou a sopa, também.

- Isso aqui tá sem sal! Tá cozido demais! Tá com muita água! — reclamou em desgosto. — Que isso, é castigo por eu ter feito você passar por tudo aquilo? — Questionou ao mesmo tempo que tomava outra vez. Ainda estava com fome.

Stofski bateu na mesa.

- Você não tem noção não, é? Sinceramente, velhote!

- Noção? Que porcaria é essa que vocês fizeram? Você desperdiçou alimento!

Prosseguiram com a discussão, emitindo um contra o outro ofensas soltas. A garota encarou os dois de olhos arregalados, e notando a confusão que se instaurara ali, deixou escapar uma sútil e quase inaudível risada, mas que se tornou tão contínua que acabou perdendo o fôlego algumas vezes. Stofski e Vechi pararam de brigar quando notaram.

- Ela riu? — Disseram ao mesmo tempo.

- Ela riu. — Responderam ao mesmo tempo.

Após a refeição, Celine retornou para o amontado de papel que tinha organizado anteriormente. De forma concentrada contornou figuras cuidadosamente pintadas e deu vida a formas que se assemelhavam aos três presentes. Era uma representação clara dos três sobre a mesa, onde a discussão foi destacada, com Stofski preparando um soco contra Vechi, enquanto o velho o segurava pela gola.

A manhã do dia seguinte se iniciara com o noticiário do rádio. Quem ouvia era um carpinteiro de Limonn, preparando-se para começar mais um dia de trabalho.

"Eleições. Zamui propõe o aumento de valores reclamados para os empregos de baixo nível, como também a diminuição da idade mínima para o ingresso no mercado de trabalho; a seguir, o seu discurso: 'Com a saída dos Externos nos reinos, temos uma grande lacuna na base da estrutura de produção. Sem atuantes para produzir, não há como desenvolvermos os reinos de maneira próspera. Em um cenário desses é crucial investirmos em estratégias que estimulem o trabalho, ao invés de esperarmos uma nova fase da catástrofe econômica que estamos lidando' discursou hoje perante aos populares e ao conselho de Sacred, na praça do Anjo Nobre Sá. Em uma nota exclusiva para nosso jornal, Zamui desenvolveu seus pensamentos acerca dos Externos e da recente polêmica envolvendo o atentado terrorista em Starite; 'Claro, defendo que os Externos devam viver em apenas um reino, assim os riscos de incidentes como esse irão diminuir. Mas não é certo classificar todos eles como terroristas. Veja, os condenados faziam parte do grupo Umbras Unidas, esses sim são perigosos e vão contra os valores e as leis de nosso continente. Meu plano é erradicar todos os seus membros e levá-los à justiça. Minha luta a favor dos Externos não diminuirá, e meu querido e honroso parceiro, Crav, será vingado.'"

Foi a resposta que Zamui forneceu ao Jornal Continental, mas que não fora ouvida inteiramente pelo carpinteiro. Ele mudou para outra estação assim que ouvira a defesa que Zamui fazia aos eternos. A voz do candidato se distorceu ante ao chiado do dispositivo, que procurava através de sinais de rádio outra estação.

Zamui não estava somente no assunto popular, mas também era um debate sério na reunião da CPI — Conselheiros da Política Interna — daquela manhã. A reunião era realizada uma vez por semana.

- Creio que é impossível Zamui vencer a eleição. Ninguém supera a família real. — Desdenhou um dos membros, Drayton, membro do conselho e dono das mais prestigiadas fábricas de ferraria. Outros pareciam apreensivos.

- Eu não sei... Ele tem jeito de maluco. Essa história de defender Externo pra mim é marmelada. — Expressou Zenzo enquanto dispersava pela boca a fumaça do charuto. Zenzo comanda os serviços de expedição à base de teleportes. O mesmo que Stofski utilizara para enviar sua bagagem à Endápolis.

- Defendendo Externos ou não, as propostas deles estão deixando os donos da indústria furiosos. Da onde vão tirar dinheiro para aumentar os recebimentos dos funcionários? Ele tá é querendo destruir a economia ainda mais. — Resmungou numa voz rabugenta Ahmet, rei oficial do reino de Voranka e dono de quinze fábricas espalhadas pelo continente.

A discussão fora subitamente interrompida pelo som contínuo da caneta de Leonor batendo sobre a mesa. A sala era amplamente espaçosa, então o barulho ressoou pelas paredes, como uma voz diante a catedral.

- Estão olhando para mim por quê? — Questionou irritado, mas não transpareceu. Leonor era um homem da Central de Investigações de Auroxl, célula da GCA, sendo assim precisava conter as suas emoções e atuar sob plenitude.

- Veio só para marcar presença, Leonor? — Zenzo perguntou, depositando o charuto no cinzeiro.

- Se eu me ausentasse hoje, daqui com certeza não sairia nada de útil. — Respondeu secamente.

- Como é? Seu arrogante desgraçado. — Zenzo levantou-se de seu assento para desafiar o homem, mas fora impedido pelo colega ao lado.

Leonor ignorou a ofensa, começando em seguida com suas opiniões.

- Zamui conhece muito bem a política de Auroxl. Em todas as últimas eleições, somente os membros da realeza conseguiram o título de rei. Por que dessa vez seria diferente?

- Onde quer chegar? — Indagou Ahmet com a voz rouca.

- A defesa aos Externos foi a sua primeira investida. Ele precisava de atenção. E conseguiu, não foi? — Pressionava o tampo da caneta sem parar. Click. Click. Click. Leonor não conseguia conter a sua ansiedade, a qual surgia de maneira súbita e inexplicável — Lembramos que a recepção dessa ideia foi negativa, até que, com aquele holofote, ele utilizou de propostas e promessas a favor das massas para se promover ainda mais no assunto dos civis. Santificando-se em suas promessas de aumento dos recebimentos, e mantendo o apoio aos Externos e aos Valet, grupo que há um tempo já não tinha mais nenhum apoio evidente por parte do governo.

- Mas agora, com o ataque de Starite, a popularidade dele está decaindo. — Élio observou.

- Élio tem razão. Não faz sentido a defesa dele agora. Ele já tem visibilidade, então por que continua apoiando os Externos? Isso só está diminuindo a aprovação dos populares. — Do outro lado da enorme mesa que trazia os membros do Conselho, Dayio apontava. Dayio era o general da infantaria de Cossumer, reino militar.

- Não é óbvio? Com a pressão dele ante Sacred para a Conferência dos Externos, é mais do que claro que pretendia aplicar o direito ao voto para os Externos. Com eles possuindo somente um apoiador, seu voto seria mais do que garantido. Sem os votos dos Externos Zamui empata com o seu concorrente em popularidade, mas caso os Externos entrem na jogada, a vitória será certa.

O silêncio da espaçosa sala deu lugar a uma cacofonia de conversas misturadas e baixas demais para se decifrar. Alguns concordavam e discordavam da tese, e em casos mais extremos eram lançados olhares de conflito contra Leonor.

O resultado foi que a reunião terminou acalorada, mas que um padrão não mudou: Leonor saira sozinho do Palácio dos Conselheiros, diferente de todos os outros, que estavam acompanhados pelo menos por uma pessoa.

O investigador era solitário no Conselho, e isso muito vinha da sua origem civil, onde não se provinha de riquezas, status ou poder. A ausência destes provocou o isolamento de Leonor diante as pautas discutidas nas reuniões. Os semelhantes ao guarda não se manifestavam nas reuniões, com medo de perderem seus cargos e alto salário da corte, entretanto Leonor insistia em desafiar a oligarquia nas reuniões em cenários onde as pautas iam contra os seus valores.

Na sede da Secretaria de Crimes da GCA, Álvaro recebera Leonor com um longo aperto de mãos. O investigador parecia mais abatido que o de costume, e Álvaro notara seu semblante.

- Ora, Leonor. O que foi? Você sempre volta das reuniões com essa cara, mas hoje está pior. — Questionou ao sentar em sua cadeira, um estofado macio de couro, de longo acostamento e madeira polida em sua estrutura.

Leonor se confortou na cadeira simples e sem muitos adjetivos. A sua mesa não era um terço maior do que a de seu chefe, mas o investigador não se incomodava. Só visitava aquela sede quando ocorriam as reuniões em Sacred, do mais optava por não ter um escritório definido.

- O jornal divulgou hoje. O Conselho de Políticas Internas pautou sobre o Zamui. — Retirou os papéis antigos anexados na escrivaninhas e os trocou por novos.

- E o que disseram no encontro?

- Nada de útil, pelo menos não deles.

- Mas o quê? O que você fez, Leonor? — Questionou em tom de advertência. Álvaro sabia bem da personalidade teimosa do subordinado.

- Eu apenas disse o que está acontecendo: fatos. — Disse enquanto registrava notas importantes da reunião. Precisou colocar os óculos velho e sujo para tal — Zamui tá aprontando alguma coisa. Ele é esperto e sabe como conseguir o que quer. Quem o odeia, odeia pelo motivo errado.

- De novo esse papo?

- Agora mais do que nunca. Aquele "Z" no pescoço do Crav era o estímulo que eu precisava.

- Já disse para esquecer isso. Não me ouviu ontem? Todo guarda que ousa mexer com qualquer político, por mais odiado que seja, perde seu cargo e todos os direitos que nele se vinculam. Eles se acham os chefões, Leonor. Não gostam que interfiram. — Leonor não parecia dar atenção a Álvaro. Isto o fez suspirar — Afinal, o que tem tanto contra Zamui?

O investigador interrompeu a escrita.

- Ele nunca foi general, soldado, guarda ou qualquer coisa semelhante. Os pais sumiram quando era adolescente, desde do desaparecimento mora sozinho numa mansão longe de qualquer reino e vilarejo — Encarou seu chefe através dos óculos — Um aristocrata como ele no governo é uma baita bandeira vermelha. Eu tenho muito medo do que ele quer de verdade, mas não quero pagar pra ver.

- Sério mesmo que está dizendo algo assim? — Álvaro gargalhou de voz rouca.

- O que quer dizer?

- Leonor, um homem metódico, segue cada linha e inciso da Lei. Mora sozinho; não tem amigos, namorada, família. Não tem nada. Só uma moral impecável e estranhamente polida. Único guarda da GCA que não aceita nenhum agrado de Sacred e nem participa das confraternizações. Se achar uma moeda de 1 Kinchat no chão, fará questão de encontrar o dono. É ESSE o homem que está com medo de um aristocrata.

Leonor continuou encarando o chefe sem esboçar qualquer reação.

- Leonor, não acha que está sendo um pouco hipócrita? — Continuou gargalhando. Leonor não respondeu à provocação do chefe.

Os dois voltaram a escrever em suas respectivas máquinas. O som dos botões das letras se repetiu incansavelmente por longas horas, até que Leonor finalmente quebrou o silêncio.

- Cuidado com a L'essentiel, Álvaro.

- O quê? Você tá investigando a minha vida, também?! — Indagou irritado.

- Imbecil, você falou para mim quando estava escrevendo. — Bufou. Álvaro gaguejou.

- Vai me dizer que desconfia deles também?

Leonor colocou sobre a mesa do chefe um papel. Era a cópia de uma cópia de um atestado de óbito. Silver era o primeiro nome do falecido.

- O que tem isso aqui?

- Há alguns dias morreu um segurança de madrugada. A perícia da guarda local foi estranhamente muito rápida, e o caso foi encerrado como acidente de trabalho. Acidente de trabalho numa imobiliária?

Álvaro encarava o papel com muita apreensão. Se nem a L'essentiel era confiável, então quem poderia ser?

- Está sugerindo que eu cancele a operação?

- Não. Melhor. — Leonor sorriu, seu chefe mal se lembrava da última vez que o viu levantar os lábios — Vamos investigar, Álvaro.

Fora decidido ali mesmo: se poderiam começar com algo, que fosse no próprio reino dos Externos, Endápolis. Zamui só poderia estar planejando algo por lá, e a L'essentiel era a maior suspeita.

- Do Stuart não temos nada? — Questionou Leonor enquanto revirava alguns arquivos. Já havia se passado uma hora desde a decisão.

- Não. Não sabemos da onde veio, de quem veio, a que veio. Não sabemos de porra nenhuma. É como se o homem tivesse surgido das cinzas. — Respondeu secamente. A voz sofrida vinha de longe e meio abafada. Seu corpo velho e gordo o fazia gemer toda vez que se agachava para pegar mais uma pasta nos inúmeros armários da sala de arquivo.

- Tem que ter algo de útil. Algo sobre a L'essentiel. — Não foi respondido. A falta de resposta se perpetuou por mais alguns minutos, até que o chefe apareceu repentinamente.

Álvaro colocou um arquivo em cima da mesa de Leonor. Era um relatório antigo, datado de onze meses atrás. Leonor abriu o arquivo e começou a ler, seus olhos se moviam rapidamente pelas linhas e desenhos técnicos; era o relatório da última estadia da GCA quando sediada secretamente pela L'essentiel.

- Isso serve? — Álvaro perguntou, mesmo que já soubesse a resposta.

O início da manhã em Limonn era silencioso, mas não tranquilo. Stofski, sentado na poltrona da sala e preparado para mais um dia de trabalho, observava Celine enquanto ela dormia enrolada em um cobertor velho. Seus pensamentos eram muitos, mas sem nenhum encontro com uma decisão. A garota levou tempo para dormir, e deixá-la sozinha não seria uma boa ideia.

Vechi havia saído mais cedo, dizendo que precisava "resolver uns assuntos", mas Stofski desconfiava que o velho só queria evitar mais problemas. Ele não podia culpá-lo. A presença de Celine já havia trazido mais complicações do que ele poderia imaginar.

De repente Celine acordou, parecia recém despertada de um pesadelo horrível. Sua respiração estava muito ofegante, como se estivesse acabado de escapar de um afogamento. Stofski rapidamente se aproximou para tentar acalmá-la, mas sem muito sucesso. Questionando o que estava acontecendo, fora respondido com o levantar trêmulo do braço de Celine, onde em seguida apontou para a porta.

Não demorou para subitamente a textura de madeira vibrar com uma sequência bruta e barulhenta de batida. Alguém aguardava do outro lado.

A garota pareceu ainda mais assustada, estava sentido algo horrível daquela direção, e percebendo isso Stofski a pediu para se esconder. Celine assim o fez.

- Uma visita a essa hora? — Em passos curtos e furtivos o rapaz se dirigiu até a porta, esperando que por um milagre aqueles zunidos abafados da madeira fossem cessados, mas não foram.

Abriu a porta, dando de cara com um uma gravata vermelha acompanhada de um terno bege. Esse alguém era mais alto do que ele.

- Perski?! — Perguntou surpreso ao reconhecer o homem. Tratava-se do filho de Borsht, Perski. Quando crianças, Stofski brincava com seu primo mais velho quando sua família era visitada pelo tio. Perski sempre fora um garoto radiante e doce, responsável por moldar parte da personalidade que Stofski possui. Era a maior referência de bondade e justiça, sendo até mesmo invejado pelo rapaz. Ele cobiçava a sua índole.

- Stofski. — Mas agora era diferente. O sorriso esperançoso que sempre carregava não estava mais consigo, no lugar detinha de uma expressão amedrontadora. Séria, mas amedrontadora. Aquele olhar enigmático era lançado contra Stofski de maneira tão intensa que o garoto não pôde sentir mais nada senão o corpo petrificado — Um passarinho me contou que você está com uma das minhas putas. É verdade? — Questionou em tom de ordem. A voz era a mesma que Stofski reconhecia, mas desta vez profunda e estridente.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.