STOFSKI

1 Adeus, Krivia


O sujeito de semblante indiferente caminhava em passos corridos pela ponte Três Anjos, em Sacred Kingdom. Do outro lado aguardava o homem que solicitara sua presença, o grande general Zamui, que também era um de seus melhores amigos.

- Bom dia, Crav! Tá preparado? — Cumprimentou o camarada com um longo e movimentado aperto de mão. A personalidade neutra de Crav nunca retribuía aquele gesto de carinho, mas agora era diferente, as coisas finalmente estavam dando certo.

- Sem você não seria possível, General. — com as duas mãos sobre o gesto de cumprimento, expressou num rápido sorriso, logo retomando o rosto sério.

- Que isso! Não é pra tanto. — Coçou a nuca em gargalhadas. — Bem, não vamos demorar, né? O pessoal tá esperando a gente.

- Claro, mas por que me chamou aqui? Podíamos ir direto para a conferência. — Com o questionamento, o general ficou em silêncio por alguns segundos. As pupilas inquietas acusavam que estava tentando elaborar algo, mas acabou respondendo em gaguejos.

- Queria te apresentar um amigo. — pigarreou — Ele também apoia a causa, tanto quanto eu. — Crav olhou para a sua própria sombra. A luz da tarde refletia pelo corpo, reforçando sobre o chão sua silhueta alta e imponente, mas não tanto quanto a que estava atrás. Havia mais alguém ali, segurando o que parecia ser uma espada.

Crav encarou Zamui. Estava com receio de virar-se, mas não havia motivo nenhum para desconfiar do amigo. Desde sempre, o general o auxiliou com a luta contra a opressão de seu povo, os chamados de Externos.

- Paulie, você tá demorando. — Zamui sinalizou numa expressão contrária ao do cumprimento.

"Paulie", já ouvira falar neste homem, bispo da Sagrada Igreja, e secretamente membro dos anti-externos. Sequer um segundo tinha para questionar a presença dele ali, então retirou abruptamente do casaco um punhal de empunhadura feita com marfim. Virou de uma só vez, convicto em acertar a lateral do abdômen de seu oponente e o imobilizar no chão. Conseguiu acertar, mas não foi o suficiente.

Crav fora acertado diretamente na garganta, em uma linha horizontal perfeita. Rapidamente cobriu o corte com as duas mãos, mas o sangue fugia por todas as direções, atravessando entre seus dedos e escorrendo sobre o corpo. Afastou-se em passos incertos, mas ainda de pé, tentou resistir e continuar o embate, mas era impossível, seu corpo já não tinha mais nenhuma força. Enquanto o bispo caiu sentado, por conta do pequeno ferimento, Crav despencou de joelhos, perdendo a pouca visão turva que lhe restara, até que finalmente soltou seu último suspiro acompanhado do sangue tossido.

- Filho da puta, ainda me acertou. — Paulie resmungou em gemidos. Também segurava o ferimento com as mãos.

- Você deu sorte de sair vivo. Esse aí era duro na queda. — Virou o cadáver com o pé. Tudo o que restou foi a típica expressão sem vida de um morto. — E pensar que eu apertava a mão dele. — apertou os lábios, sentia que vomitaria a qualquer momento, mas se recobrou com um balançar de cabeça. — E aí, vai me pagar quando? — Questionou com a sola sobre o peito do corpo. Paulie ainda gemia.

- Já pode tirar o dinheiro do banco. Não depositei muito, já que só trouxe ele até mim, e não matou. — Estendeu a mão, solicitando a ajuda do general.

- Você é outro nojento. — Sorriu ironicamente enquanto levantava o bispo. Já estava com os lábios sustentando um cigarro. — Existem mil e uma formas de descobrirem que eu o matei, mas ninguém desconfiaria de você. — liberou a fumaça.

- Tem razão, general. — Concordou ao mesmo tempo em que limpava o manto azul e dourado com pequenos tapas. — De todo modo, nos livramos dessa pedra no sapato. Vai ser fácil acabar com o resto.

- Antes disso, tenta evitar furar esse bucho de novo, senão vai acabar vendo anjos cedo, vossa santidade.

Alguns dias depois.

Reino de Krivia, extremo leste de Auroxl.

"Conferência responsável por discutir os direitos dos Externos é adiada pela misteriosa morte do líder dos Valet" era o título do jornal da semana. No subtítulo seguia "Guarda Continental cogita assassinato envolvendo a oposição, mas caso segue em investigação pelas autoridades locais".

Do outro lado, mais notícias se destacavam. "Ataque terrorista em Starite condena três Externos à forca."

- Esses pobres coitados adoram se meter em furada. — Expressou Kasinski após um gole de café. O barulho da xícara posta sobre a mesa deu sequência a opinião de sua esposa.

- Foram feitas diversas leis só para eles. Não sei o que querem mais. Por mim continuavam do jeito que estão. — enxugou as mãos no avental. Não muito tempo depois, um rapaz um pouco mais alto que a mulher roubou uma torrada do prato que estava no centro da mesa.

- Ô moleque, cê não vai dar bom dia pros seus pais? — Kasinski tirou a atenção do jornal para dar o sermão no filho.

- Desculpa, pai, mãe. Tô atrasado pro estágio. Se eu perder, vou acabar que nem tio Borscht. — Explicou-se de boca cheia. Solya, sua mãe, fez uma leve expressão de preocupação.

- Stofski, do que tá falando? Seu tio é o mais rico da família. — Acariciou o cabelo cheio e redondo do filho. A última vez que o cortou foi no mesmo ano onde aprendera a comer sozinho.

- Ele é cafetão! Além de ser burro feito uma pedra. — um pouco emburrado, retirou a mão da mãe de sua cabeça. — Todo mundo passa a perna nele.

- Olha o jeito que fala com a sua mãe! — Chamou a atenção de Stofski outra vez, mas agora sem desviar a atenção do jornal.

- Desculpa, pai... — terminou de engolir a torrada, e então saiu às pressas, mas sem antes voltar na cozinha para pegar a mochila que esqueceu no balcão. Despediu-se novamente e sumiu pelo branco infinito da neblina atrás da porta.

- Ele já foi... Nem deu tempo de conversar sobre aquilo. — Solya suspirou.

Na mesma rua que costuma aguardar o transporte, e junto a diversas outras pessoas, subiu no bonde que acabara de chegar. Não conseguiu lugar para sentar-se, como sempre, mas não se importava com isso, já que nunca gostou de ficar muito tempo parado. De pé podia apreciar a paisagem do percurso, majoritariamente composta por casas de granito ou variadas pedras escuras. Devido à baixa temperatura do local onde o reino fora construído, as residências não possuem mais do que duas janelas, por conseguinte todas as casas também comportam chaminés expelindo fumaça, a fim de amenizar os efeitos do frio com lareiras. É como se o ano todo fosse inverno.

Os civis caminhavam empurrando pequenos carros de madeira pela estrada de pedra coberta por uma fina camada de neve. Dentro transportavam-se vegetais, frutas e legumes, possivelmente destinados às feiras espalhadas pelo reino.

Imerso na apreciação, quase perdeu seu ponto de desembarque. Por sorte, pulou antes que o longo veículo partisse com ele. Subiu a ladeira em passos corridos e chegou até o destino, o qual era num edifício amarelo e estreito, imitando todos os outros ali próximos, diferenciados por outras cores secundárias. Aquela paisagem referia-se ao famoso centro de Krivia.

- Cheguei! — Anunciou assim que entrou no laboratório. A má iluminação e aparência de calabouço sempre o incomodava, entretanto ver o professor trabalhando amenizava o desconforto.

- Atrasado de novo. — respondeu secamente. — Tenho que te falar algo sério, Stofski. — o aviso seguiu o tom. Sequer encarou o rapaz, estava imerso em papeladas de pesquisas.

- Ah, não. Você vai me demitir? — o rosto rapidamente tomou a expressão de susto — prometo que não vou me atrasar mais! — entrelaçou os dedos das mãos, implorando. — não me jogue fora, professor Yakov! Prometo não me atrasar mais! — com lágrimas falsas em exagero, implorou ainda mais, entretanto o homem parecia indiferente quanto ao suplico.

- Bem que podia ser por esse motivo. — finalmente olhou para o pupilo. — Como bem sabe, Stofski. Nosso reino está passando por um momento difícil. O dinheiro está escasso, não consigo manter você trabalhando aqui.

- Mas...

- Temo que logo terei que fechar o laboratório, também.

- Não tem nada que possamos fazer, professor? — ele discordou com a cabeça.

- Você pode ficar hoje, mas por favor, não apareça aqui amanhã. — Voltou para a papelada. — Obrigado pelo seu trabalho. O dinheiro está no balcão.

Stofski suspirou em desânimo. As plantas de seus projetos inacabados estavam todas espalhadas pela mesa, implorando por algum progresso. O rapaz não sentia nada além de angústia.

Mas era compreensível.

O reino realmente passava por uma crise financeira, assim como muitos outros. Isso se deve à expulsão de todos os Externos devido ao ataque terrorista em Starite. O povo de Auroxl sempre foi muito cauteloso quanto aos metade humano, metade exterior — externos -. O medo dos monstros intitulados como Exteriores deu sequência ao ódio pelos humanos dessa raça. Ódio esse que persistiu, mesmo após os duzentos anos depois da descoberta de sua existência.

Muitos foram os reinos que se pronunciaram contra o ataque em Starite, reafirmando o perigo que os Externos trazem para a sociedade, e em como eles, em comparação aos Exteriores, não se diferem em nível de ameaça. Isso acarretou na demissão em massa de milhares de Externos por todos os 34 reinos de Auroxl, junto a perda do status de cidadão. Sem exceção alguma, cada homem, mulher e criança encontrado pela Guarda Continental fora levado para o reino de Endápolis, reino recém construído, localizado no sudoeste do continente, envolto às últimas montanhas da Santa Cordilheira.

"Não temos tempo nem recursos para lidar com este tipo de problema." foi a declaração do rei de Krivia, Vutin, sobre a expulsão dos Externos.

"Este tipo de problema."

Stofski não conseguia tirar da cabeça aquelas palavras que ouvira no rádio dias atrás.

Com a saída dos Externos, muitos reinos ficaram sem o trabalho braçal, afetando diretamente a produção nas fábricas. Não havia mais a base da pirâmide, o que gerou desestabilidade econômica por todo o continente. Ainda assim, nenhum voltou atrás na decisão. O ódio e o medo pelo povo Externo atravessavam qualquer sanidade por parte das realezas e conselhos.

Stofski não era diferente, também compartilhava genuinamente do medo deles. Cresceu escutando histórias e avisos sobre o que podiam fazer, e como poderiam destruir tudo o que tocassem em somente alguns segundos. Ainda assim, não concordava com a decisão dos reinos. Considerava ilógica, irracional, inocente.

Mas ele não era ninguém, ainda mais agora que não tinha mais futuro.

O último dia de trabalho foi melancólico. A despedida foi como a de todos os outros dias, senão pelo fato de ser a última. Colocar os materiais de volta na mochila se tornou uma tarefa amarga.

Chegado em casa, sentou-se no sofá e fechou os olhos. O cansaço que consumia o seu corpo não o deixou notar que já haviam se passado vinte minutos desde a acomodação.

"Pensamentos felizes, pensamentos felizes, pensamentos felizes..." O rapaz sempre foi alguém de sorriso frouxo. A todo momento uma risada sua se era emitida, mas isso não tirava o fato de ser alguém repleto de preocupações. Repetia as mesmas palavras toda vez que sua mente estava quase que para explodir. Mas agora não haviam motivos.

- Filho. — abriu os olhos, era Solya. Nas poltronas vazias agora estavam seus pais. — Aconteceu alguma coisa? — a pergunta acompanhou o mesmo olhar preocupado de sempre.

Stofski fechou os olhos de novo, desta vez com a cabeça em direção ao teto. — Fui despejado. Yakov não tem dinheiro pra me manter no laboratório. — Os dois pais se encararam por um segundo, talvez aquela fosse uma péssima hora, mas decidiram o fazer.

- Sobre isso... — Solya iniciou em gaguejo, mas vendo a dificuldade de sua esposa, Kasinski prosseguiu.

- Sua mãe e eu também não temos como te manter aqui. — A proclamação fez o garoto quase pular do sofá.

- O quê? Vocês também vão me demitir? — Perguntou indignado. — Não podem fazer isso! Nem tenho pra onde ir. — o olhar alternava entre os pais.

Solya e Kasinski encararam-se outra vez.

- Nós falamos com o seu tio Borscht, ele tem um pequeno casebre disponível e uma vaga para pesquisador no projeto que iniciou recentemente. Disse que poderia ficar lá até que resolvesse a vida. — Explicou Solya. Era visível que estava com o coração apertado, mas já não havia o que fazer. — Só que o trabalho não paga muito bem.

- Não tem mesmo outro jeito? Posso procurar algum emprego mais simples. Não quero ficar longe de vocês. — relutou, mas seu pai negou com a cabeça.

- Queremos que continue fazendo o que gosta, Stofski. Além do mais, por conta da crise fui regredido de cargo. Teremos que vender esta casa e comprar uma menor.

- Bem menor. — Solya completou.

- Eu não sei... Não tenho experiência o suficiente para ser pesquisador. Além do mais, não há mérito nenhum em um emprego conquistado por parentesco. — expressou. O rapaz estava completamente averso com aquela ideia, todavia sentia que nada podia fazer. Antes que pudesse prosseguir com qualquer outro argumento infrutífero, seu pai o cortou.

- Não me venha com papo de moral agora, Stofski! Eu e sua mãe quase nos humilhamos por essa chance. — os dois foram em direção a escada que levava ao corredor dos quartos. Stofski continuou no sofá, olhando para uma direção aleatória. — Não é um conselho, é um aviso. Esteja pronto até amanhã de manhã. — disse após desaparecer em meio aos degraus com Solya.

O desânimo estava alto o bastante para o impedir de manter a cabeça erguida. Tudo mudou de repente, sem nenhum aviso. Todos os seus planos foram jogados fora, assim como folhas secas do outuno sendo arrancadas dos galhos.

"Pensamentos felizes..."

O próximo dia chegou tão rápido quanto a luz. Já era hora de partir.

A despedida de seus pais foi breve, procurou não demorar muito, pois sentia que a qualquer momento acabaria implorando de joelhos para ficar. Sempre fora apegado com eles, e sinceramente não entendia o porquê de desistirem tão facilmente de sua companhia. Os próprios questionamentos distraíram sua mente durante o trajeto até a fila do serviço mágico de transporte de cargas, este pago por seu tio, devido ao custeio exorbitante. Era incrível a quantidade de pessoas que também partiam do reino, cada uma levando consigo uma caixa de papelão carregada de itens que consideram importantes. Para Stofski não era diferente, dentro da caixa estavam todos os seus materiais para pesquisa, sendo estes microscópios, pequenos computadores de energia mágica, e outros utensílios semelhantes; entretanto, mesmo que amasse todos aqueles projetos igualmente, havia um que considerava especial: o calibrador de EMS (Energia Mágica por segundo). Era a sua invenção mais preciosa, a qual ainda não teve chance de mostrar para o mundo. Aquilo com certeza revolucionaria o método de estudo da magia, assunto que sempre fora de seu interesse. Atualmente os processos eram extensos e complexos, entretanto, com a ajuda do calibrador, muitas etapas poderiam ser puladas sem nenhuma consequência.

A fila estava dividida em duas, o lado comercial e o pessoal, ambos gerenciados por uma só pessoa, o que deixava a espera infinita. Duas horas depois, quando finalmente chegou a sua vez de despachar a carga, a funcionária responsável advertiu.

- Senhor, o valor pago comporta no máximo dez itens, e a conferência nos mostrou que está com onze. — De cabeça baixa ela encarou Stofski, deixando os olhos escaparem detrás dos óculos quadrados.

- O quê? Como assim? É só um item a mais! — reclamou, mas como em todas as outras vezes, não adiantou de nada.

- Se quiser adicionar esse item... — Apontou para o calibrador. — Terá que pagar o plano mínimo, de dez itens.

- Vou ter que pagar mais um plano só pra adicionar um item? — a indignação aumentou, entretanto a moça continuou com a mesma expressão de indiferença.

- Pensamentos felizes... — cochichou para si mesmo.

- O que disse?

- Nada.

- Bem, se não quiser, pode deixar um deles aqui. Vão para o setor de aguarde. — "Jamais", pensou o rapaz.

- Quanto é, então? — Perguntou enquanto metia a mão nos bolsos, a carteira sempre estava em um aleatório.

- 45 Kinchats, senhor.

- 45?! — A carteira quase caiu da mão, mas conseguiu pegar. — Isso não é um assalto, é latrocínio! — Um pouco relutante, contou as notas; duas de vinte, e uma de cinco, sobrando apenas 10 Kinchats. Não havia muito o que ser feito, as transportadoras são uma das áreas de serviço que mais lucram, isto porque carregar qualquer item fora das fronteiras dos reinos é praticamente pedir para sofrer um ataque de grupos saqueadores, além do tempo e esforço que demandam esta atividade.

A funcionária recebeu o dinheiro, e então deu início a coleta da carga. Com uma fita, escreveu o endereço de entrega e colou sobre o papelão, fechando-o em seguida. A caixa seria posta sobre a plataforma à frente, e com apenas alguns segundos um brilho azulado a consumiu, fazendo-a sumir de repente, surgindo assim no local designado. Provavelmente seu tio receberia nas próximas horas.

Mesmo com tal tecnologia disponível, transportar humanos daquele modo não era algo que se encontra por aí, sendo assim tomou um trajeto diferente de suas coisas; a Estação de Leningrad, ainda em Krivia.

Passou-se cinco dias desde o embarque, finalmente chegara em Endápolis, o reino da ascensão prometida. Seu tio, de paletó tamanho GG e chapéu, ambos marrons, o aguardava na passarela junto a outros dois homens bem vestidos, possivelmente seus seguranças.

- Stofski! — Ergueu os pequenos braços, o ato quase expulsou o charuto de sua boca. — Quanto tempo, filho. — recebeu o sobrinho num abraço aconchegante — mas só para ele. — Olha só, está do tamanho do pai! — disse em gargalhadas ao mesmo tempo em que esmagava o rapaz.

- Bom te ver tio. — respondeu um tanto incomodado. A voz transmitia desânimo, mas também poderia ser cansaço por conta da viagem.

Já em caminhada, o tio continuou com a cordialidade.

- Nós da família temos que nos ajudar, não é mesmo? Não pude negar o pedido do Kasinski, ele já me ajudou tanto... — "igual àquela vez onde pegou um empréstimo gigantesco no nome dele e nunca devolveu sequer um centavo?" Era o que queria perguntar, mas no lugar permaneceu quieto encarando os ladrilhos iluminados pelo brilho laranja da tarde. Por essa e outras situações não conseguia gostar do tio, entretanto, não podia dizer o mesmo de seu filho, Pérski. Durante a infância brincava quase que todos os dias com o primo mais velho. A imponência e respeito que Pérski transmitia eram características que Stofski queria adquirir quando crescesse. Reflete até hoje se pelo menos está perto desse desejo.

- Vem cá tio, e o Pérski? Tem um tempo que não falo com ele.

- Ah, o Pérski. Ele está bem! Não pôde vir porque está cuidando de alguns assuntos para mim, mas mandou saudações! — explicou.

- Ele já está cuidando da sua empresa? Que prodígio... — bateu um pouco de inveja, mas no geral estava feliz pelo primo.

- Você sabe, estão vindo muitas pessoas para cá desde a expulsão daqueles Externos, e como o reino foi desenvolvido por Sacred, então para que possamos ter mais autorização na construção de novos imóveis, o Pérski está lá para resolver a parte burocrática. — explicava gesticulando com o charuto entre os dedos.

Endápolis. O reino fora criado há poucos anos, e agora já comporta quase cem mil habitantes. Borsht abriu uma construtora e levantou inúmeros imóveis, sendo a mais bem sucedida do reino, conseguiu isso graças aos contatos que possui com alguns políticos de Sacred Kingdom. Para manter a ascensão, constantemente reencontra alguns deles com o objetivo de sustentar seus acordos privilegiados.

Mesmo antes do ataque terrorista em Starite, muitos externos se mudaram para o reino a fim de ganhar a vida, mesmo com a lei que impede um externo de abrir qualquer comércio. A verdade é que em um novo reino teria bem menos concorrência, fato que dificulta a ingressão de muitos Externos em novos trabalhos.

A permanência da construtora de Borsht em Endápolis estava em risco naquele ano, pois este era de eleição em Sacred — reino com maior influência no continente. Normalmente, o filho da autoridade mais poderosa do reino — o rei ou rainha, é quem assume o poder, e isso é por escolha da população, uma vez que o herdeiro cresce com ensinamentos sobre liderança e gestão do poder, entretanto, o filho de Arthomis, atual rei, tinha como promessa acabar com Endápolis, o que ameaçava os negócios da construtura. Do outro lado, um forte concorrente para conquistar o cargo de Rei era o general Zamui, o qual apoiava abertamente os Externos e reafirmava seus direitos como cidadãos de Auroxl. Não só isso, também propunha inúmeras ideias positivas para os problemas econômicos que estavam passando naquele período.

Até o momento, Zamui estava atrás de Arthomis II, com 49% de aprovação, isso decorrente ao recente ataque, mas era questão de tempo para que recuperasse o apoio da população, uma vez que tem como habilidade principal o carisma e a facilidade de persuasão.



Notas finais
Se você chegou até aqui, por favor, me deixe saber. Considere continuar na obra para conhecer novos personagens!