SOS - Em má companhia
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Constava 14 horas no relógio de Petra quando eles se reuniram de novo. Annie saiu do jatinho, onde ficava o máximo que podia, evitando ficar sobre o sol ardente; Connie vinha atrás dela, o que fez faíscas saltarem dos olhos de Jean quando ele percebeu, mas em uma atitude muito fora do padrão para ele, preferiu calar. Armin conversava com Eren, Mikasa andava na beira do mar, perto de uma rocha que se agigantava à sua esquerda e fazia sombra, tentando pensar em uma estratégia que a fizesse agir por conta própria; Jean, chateado por algo que nem mesmo ele entendia, juntou-se a ela por impulso.
– Mommy e Daddy estão chamando. — Disse ele a modo de cumprimento.
– Uhum… — Ela respondeu vagamente.
– Mikasa Ackerman, sempre em seu próprio mundo… — Provocou com um risinho.
– Jean Kirstein, sempre inconveniente… — Ela se agachou, pegando uma concha marrom da areia, e voltou a andar.
– É o meu charme. — Ele piscou.
– Se isso é tudo o que tem, então agora sim eu entendo. Não deveríamos zombar tanto de você, pobre Jean.
– Zombar? É disso que chamam? Não chega nem a fazer cócegas. — Ele conteve um sorriso enquanto olhava seu perfil e levou seu dedo indicador até a orelha dela, de leve.
– Sai! — Ela guinchou, batendo em seu braço.
– Tá vendo, isso são cócegas. — Ele tornou a repetir o gesto, enquanto, frustrada, Mikasa tentava se desvencilhar. — E eu, rindo de você agora por estar brava, isso é zombar. — Ele riu tanto para provar o ponto quanto porque estava se divertindo.
Em algum momento que ela não soube dizer qual, admitiu pra si mesma que o sentimento era mútuo, ela também estava achando engraçado.
– Bocó. — Ela disse após tentar uma última vez tirar a mão dele, e deixou um sorriso escapar. Tinham parado perto do rochedo e ele se encostou ali na pedra, cruzando os braços.
– Você é muito mais simpática longe daquele mala. — Ele disse suavemente.
– Você não é simpático de forma alguma.
– Ai! Quanto amor reprimido. — Queixou-se, ao que ela deu um risinho.
– Mikasa! — Gritou Armin, chamando-a. Eles estavam um pouco afastados, mas o vento se encarregou de levar o chamado até ela. Mikasa virou-se para encontrá-lo, e Armin balançou a mão, gesticulando para que ela voltasse. Ela suspendeu o polegar para responder e suspirou.
– Como eu disse, mommy e daddy. — Tornou Jean.
– Só que eles não são nada meus, ficaria muito grata que agissem como tal. — Ela cedeu, indo até os outros, enquanto ele vinha atrás pensando porque não tinha se aproximado de Mikasa Ackerman antes.
Petra e Reiner esperaram todos chegarem ao círculo para começarem.
– Mais uma busca? — Petra perguntou como sugestão.
– Pra quê? — Perguntou Mikasa inocentemente.
– Pra coletarmos alimento e procurarmos por nativos, Mikasa, como viemos fazendo até agora. — Respondeu Petra, como que explicasse a uma criança.
– Ah, é, claro… — Mikasa deu um sorriso que transbordava sarcasmo.
Jean sorriu, surpreso, com a afronta e quando ela notou que ele a olhava, ele gesticulou “disco arranhado” com os lábios, sem som, o que a fez revirar os olhos, mas sorrir.
– Três horas dessa vez, certo? Pra avançar por meia horinha e depois voltar independente do que aconteça? — M voltou a provocar.
– Certo, 3 horas. — Reiterou Reiner, ignorando a provocação, e fez o caminho em direção ao desconhecido, deixando que os outros o seguissem.
Três horas mais tarde todos voltavam, alguns aliviados, outros frustrados. Mikasa, ainda em um humor de cão, tinha sugerido durante a caminhada que começassem a colher os alimentos que viam pelo caminho, para ver se assim aquela andada toda tinha alguma finalidade. Petra dava sorrisinhos condescendentes, Jean colocava mais lenha na fogueira e Armin coçava a nuca, desconfortável. Quando enfim voltaram à praia, Petra era uma das que mais estavam aliviadas por poder sair da linha de fogo.
Mais um dia ia embora… Por mais que a despensa do jatinho não estivesse abastecida, tinha alguns poucos talheres que serviram na hora de limpar o peixe. Os meninos e Annie, do grupo de alimentos, tinham trazido galhos que somados ao isqueiro de Reiner proporcionaram luz e calor com a fogueira. Tentaram fazer um suporte com “grelha” usando a madeira, e dispuseram os dois peixes ali. Nunca uma carne sem tempero ou sal tinha soado tão apetitosa.
Para alegria de Annie, não houve canto ou uma confraternização forçada, poucas conversas soaram, baixinho, entre os participantes, e ao término, alguns preferiram voltar para o conforto do avião. Outros preferiram ficar mais um tempo ao ar livre, já que tava cedo, aproveitando a iluminação da fogueira, dentre eles Mikasa e Armin, que pegaram seus livros. Não dava para dormir àquela hora, sobrava um longo tempo que faria parecer o passar da eternidade até que seus olhos fechassem, no escuro do jatinho, após ouvirem a respiração dos outros e nenhuma conversa ou consolo poder ser tirado daquilo.
Armin pensou, sinceramente, se valeria de alguma coisa ter pego o livro que estava agora em suas mãos. Por um momento de atordoamento, congelou no lugar ao passar por sua cabeça que nunca sairia dali e por isso de nada valia estudar.
– Armin, o que foi? — Perguntou Eren ao ver que o amigo parara no ato de sentar na areia. — Armin! — O puxou pelo braço.
– Eu quero sair daqui, Eren. Quero sair daqui logo. — Respondeu Armin, um pouco sem fôlego, como se não pudesse respirar.
– Ei! Ei, ei, ei. — Mikasa levantou a cabeça do livro e segurou a outra mão dele. — Você vai. Nós vamos, Armin. Logo, você vai ver.
Armin sentou lentamente entre seus dois amigos, olhando para o fogo como que hipnotizado. Eren ainda tinha uma mão em seu braço, apertando, e Mikasa alisava suas costas. Os três ficaram ali, olhando para o fogo. Algum segundos se passaram até Armin sentir seu rosto molhado.
– Eu garantirei isso, Armin. — Mikasa disse ferozmente, mas quando Armin a olhou, ela ainda encarava a fogueira. — Sairemos daqui.
Mikasa não saberia dizer se dormiu, pois quando acordou parecia que tinha acabado de deitar. Pássaros cantavam lá fora, e o sol parecia surgir timidamente. Deu uma olhada em volta para verificar se todos estavam ali, ainda no mundo dos sonhos. Satisfeita com a confirmação, foi até a cozinha silenciosamente e pegou algumas facas de ponta e um saca rolhas rústico, bem simples, que na hora certa tinha certeza que seria útil.
Voltando à poltrona, recolheu seu cortador de unhas e o spray de pimenta que sempre levava consigo, retirando os objetos da mala e guardando-os no bolso. Colocou algumas calcinhas, um blusão, uma calça de moletom e seu casaco na mala menor, de mão. Foi até Armin e o acordou, com um gesto de cabeça indicou que deviam ir embora. Armin pegou sua mochila e foi até Eren, que não sabia o que estava acontecendo. Querendo fazer o menor barulho possível, disse em seu ouvido.
– Eu e Mikasa estamos indo.
Eren olhou-o, confuso, e para a porta do jato, onde estava Mikasa, mas não precisou mais do que essas palavras para expulsar a sonolência e segui-los até a mata. Quando iam quase desaparecendo na vegetação, uma voz os impediu.
– Para onde estão indo?
Os três viraram bruscamente, pedindo a sei lá quem que isso não arruinasse seus planos.Quando notaram que era Jean, metade do peso da ansiedade se foi. Mikasa ia responder, mas Eren tomou a frente.
– Além de idiota é burro? Pra onde você acha que estamos indo?
– Dizem que as duas características andam lado a lado. — Disse, respondendo suavemente à primeira pergunta de Eren, e então olhou pra Mikasa, encarando, esperando que ela lhe respondesse.
– Vamos agir. — Foi só o que ela respondeu.
– Certo, iremos. — Jean se incluiu no pacote.
– Não vai mesmo. — Eren contrapôs.
– Sabemos que vou. — Jean disse em um tom que ele quase não usava de tão discreto.
– Ele vai. — Mikasa afirmou, ignorando a olhada que Eren lhe designou em seguida. — Se quer, então não posso fazer nada, não é mesmo? — Ela deu de ombros e virou-se, pretendendo voltar a andar.
– Ok, espera só eu chamar os outros.
– Não, você não vai. — Mikasa, ainda de costas, suspirou.
– Pensei que não pudesse me impedir.
Ela voltou a encará-lo.
– Volte a essa máquina e dificilmente voltará a encontrar a gente. — Ela cruzou os braços.
– Vai deixá-los para trás? — Jean arqueou a sobrancelha.
– Sim, e deixaria você também caso não tivesse acordado. — Olhou pra Armin. — Armin sempre faz muito barulho. — Completou, sorrindo debochada. Armin revirou os olhos, aceitando a brincadeira.
– Como pode? Estamos na mesma.
– Olha só, Jean, não sei de onde surgiu essa sua noção de solidariedade repentina, mas vou dizer isso, e vou dizer rápido, porque o tempo tá passando e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçá-lo com conversas tolas. Você volta àquele jato e a chance de acordar Reiner e Petra é grande demais. Você vai tentar explicar à Annie e Connie, vai haver um debate, julgando prós e contras, vai tentar convencê-los e pode conseguir, ou não, porque sabemos bem que a Annie não vai se arriscar “à toa” — fez as aspas com os dedos. — Tempo precioso passando, barulho inconveniente. Petra e Reiner à segundos de acordar, se já não tiverem, indagando o por quê que eu, Armin e Eren não estamos lá. — Ela fez um pausa para garantir que todos acompanhavam. — Não estamos abandonando ninguém, estamos fazendo isso para ter uma chance, mínima que seja, de conseguirmos qualquer coisa. Qualquer coisa que não teremos se nos enquadrarmos na política enfadonha daqueles dois. Voltaremos, e voltaremos com ajuda e tiraremos todos daqui. Agora, diante apenas dessa mínima demonstração da minha falta de fé no seu retorno, você vem ou fica?
Mikasa continuou encarando-o, indagando também com os olhos, impaciente.
– Você é sexy pra porra — Jean finalmente disse, sério, e após um segundo, deu um sorriso de matar.
Mikasa revirou os olhos e riu, chamando-o de “bocó”, passando despercebida pelo muxoxo de Eren, que parecia puto. Mas, finalmente, sem outras distrações, os 4 seguiram para a missão.
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