SOMBRAS - A Armadilha da Rainha

14 Capítulo 12 - Um adeus indeterminado


Eles estavam esperando do lado de fora da escola. O mesmo lugar que tiveram que cruzar para chegar a sala de Simulações Interdimensionais. A noite já havia caído a cerca de quatro horas. De acordo com as instruções de Preston, depois que assistissem à continuação das aulas Primordiais Teóricas, Matthew e Isabel deveriam partir as dez horas em ponto. Por esse motivo, esperavam.

A brisa que soprava era gelada. A grama verde do chão, aos olhos deles, parecia um tanto amarelada, mesmo soando ilógico por estarem em maio. A primavera sempre melhorava o ambiente, mas naquele momento, tudo aprecia nebuloso.

Os cinco esperavam sentados em círculo na grama úmida. Isabel remexia nela, arrancando folhas aqui e ali, sem nada para dizer. A tensão era tanta que era quase possível palpá-la. Não havia palavras suficientes para descrever o que Andrew, Alex e Dylan estavam sentindo. Nenhum deles havia sido separado desde que nasceram. Não importava o quanto alegassem se odiar, não podiam se imaginar um sem o outro.

— Como viemos parar aqui? – Isabel perguntou baixo, sem tirar sua atenção dos seus dedos, enquanto brincavam com a grama.

— Nossa mãe mentiu para nós. – Andrew disse sério, olhando para o nada.

— Ela achou que estava nos protegendo. – Dylan retrucou, na defensiva.

— Não me sinto muito protegida agora. – Alex murmurou, puxando um punhado de grama, frustrada.

O pouco da conversa morreu ali. Ninguém apareceu por um tempo e foi quando ao longe ouviram dez badaladas de algum relógio. A lua estava no seu auge. A lua cheia era a fonte de luz da noite.

— Estão preparados? – A voz de Katrina atraiu as atenções. Ela vinha calmamente, iluminada pela luz da lua. Sua beleza, pouco admirada antes, era bem visível e delicada.

Logo atrás dela, vinham Katharine, Preston, Reinald e uma mulher a quem ainda não tinham sido apresentados. Ela tinha feições dóceis, mas marcantes, assim como misteriosas. Sua toga prateada e rosa, reluzia sob a lua. Seus cabelos castanhos sedosos caiam como cascatas, completadas com uma coroa de flores. Ela era alta, esguia e esbelta. Havia detalhes em prata por sua pele, era como se brilhasse, repleta de purpurina.

Ela atraiu a atenção dos garotos, até mesmo de Andrew, que não mostrara grande interesse por qualquer uma antes. Ela era como um imã.

Os cinco se levantaram, com certa relutância.

— Adianta se falarmos que não? – Isabel perguntou, com ignorância e um sorriso forçado.

— Não. – Katharine disse com um sorriso petulante nos lábios. A situação parecia divertir seu coraçãozinho maldoso.

— Quem é ela? – Matthew perguntou, indicando com um movimento de cabeça a mulher ao lado de Reinald.

— Meu nome é Hérnia. Também conhecida como deusa das fadas e das ninfas. – A mulher respondeu. Sua voz era angelical e melodiosa. Rodopiou pelos ouvidos de todos, como uma bela melodia. – Sou a responsável por toda a Casa Marcada.

O queixo de todos caiu. Não podiam acreditar no que estava bem diante de seus olhos. Uma deusa. Era muito para se assimilar.

— Deusa? – Andrew questionou, para ninguém em específico, sem tirar os olhos da mulher a sua frente.

Todos concordaram com um aceno. Para eles não havia nada de diferente naquele processo. Todos os dias podiam cruzar, durante suas atividades, com um deus ou deusa. E de acordo com as descrições de todos, os irmãos Daddrien sabiam que haveria coisas muito mais aterrorizantes.

— Querem um minuto para se despedir? – Reinald questionou, apoiando-se ligeiramente em seu cajado.

Acenos discretos foram dados como respostas. Eles voltaram a formar um círculo, evitando grandes distancias entre si. Ignoravam os outros presentes e toda sua atenção estava voltada uns para os outros.

— Não quero dizer adeus. Não quero ver vocês irem embora. – Dylan começou, deixando que as palavras saíssem de maneira desajeitada. – Realmente não quero. – Ele quebrou o círculo, puxando Isabel pelo pescoço, curvando-se para poder enterrar seu rosto, já marcado com algumas lágrimas, entre os cabelos sedosos de sua irmã.

As palavras não saiam da boca de nenhum deles. Dylan chorava baixo ainda abraçado com Izzie, que deixava suas lágrimas caírem sem preocupação, de maneira silenciosa.

— Eu te amo. – Ela disse finalmente, abraçando-o mais forte. – Eu amo todos vocês.

Com pesar, desfez o abraço com seu irmão caçula. Seus olhos estavam avermelhados pelo choro. Ela secou rapidamente seu rosto antes de continuar. — Não importa para onde eu for. Estarei sempre ligada a vocês.

Andrew se desfez de seu orgulho. A passos largos, acabou com distância entre ele e sua irmã. Assim que passou os braços ao redor de Izzie, um soluço escapou de sua garganta, e ele chorou. Não era algo rotineiro.

Não foi necessária nenhuma palavra sequer. Isabel pode sentir a dor da perda que Andrew sentia. Seus ombros sacudiam de forma nada discreta, ainda abraçado a ela. Foi isso que fez com que seu choro se desenrolasse com mais afinco. Se não houvesse mais ninguém para se despedir, ele poderia ter ficado ali pelo resto da noite.

Recompondo-se, Andrew respirou fundo. Mas isso não desfazia o pequeno inchaço do seu rosto, molhado pelas lágrimas.

Alex se aproximou de sua gêmea, enquanto Andrew se aproximou de Matthew.

— Você me deve cinco pratas. – Isabel murmurou, para sua irmã, com um sorriso fraco. – Ele chorou.

Sem mais comentários, Alex soltou uma risada, reprimida e dolorida, misturada ao choro. — Vou sentir sua falta. – Ela retrucou, puxando-a para um abraço.

Matthew também chorava, assim como Andrew, mas não tanto quanto antes. Separados, pararam para se olhar. O clima estava mais depressivo, tristonho e abalado. A plateia se retorcia inquieta e incomodada, sem muitas reações a cena que se passava a sua frente. Katrina tentava não se envolver com as emoções da despedida. Só podia imaginar pelo o que eles estavam passando, mas não podia se dar ao luxo de se abalar. Já era sabido as consequências do envolvimento lógico e sentimental.

Hérnia a chamou, e ela sabia que teria que interromper. Katrina se aproximou cuidadosamente. – Precisamos continuar.

Os irmãos concordaram, pensando em suas últimas palavras.

— Nós vamos nos encontrar de novo. – Matthew disse por fim.

Selaram um abraço grupal. Para depois se dispersarem e observarem aos olhos curiosos e cheios de pena dos outros.

— O que devemos fazer? – Matthew perguntou, destemido, recompondo sua postura.

Katharine explicou que não haveria nenhum tipo de cerimônia muito elaborada. Deveriam apenas cruzar o portal junto com Hérnia. Ela os acompanharia e instruiria com todas as necessidades dos Lugares Salvos. Bem ali onde estavam, a deusa girou sua destra, modelando o novo centro de matéria, que se mostrou o portal que cruzariam.

Como se em segredo, quando foram entregar seus pins, Katrina empurrou suas mãos de volta, e seus olhos pediam para que guardassem rápido. Foi o que fizeram.

Pouco antes de atravessarem, Isabel e Matthew deram uma última olhada para seus irmãos. Com um leve sorriso no rosto.

— Antes que eu me esqueça. – Katharine deu um passo adiante, pondo-se a frente de Matthew. Sem mais delongas, ela o puxou, beijando-o. Mesmo que espantado, ele não protestou. Apenas retribuiu.

Os outros presentes, com exceção de Hérnia, que se manteve inabalada, estavam espantados, as meninas, mais precisamente, inconformadas. Katharine, quando se afastou, com um sorriso triunfante, mais do que satisfeita. Katrina parecia envergonhada pela atitude inapropriada da irmã, mas não havia nada que ela pudesse fazer.

Respirando profundamente, Isabel e Matthew trocaram um olhar. Hérnia esticou uma mão para cada, guiando-os através do portal. Foi quando o silêncio se alastrou sobre o local.

Eles haviam acabado de sair do subsolo do Centro de Formações. Atravessaram o campus, deixando que a luz da lua iluminasse seu caminho mais uma vez. As únicas que se mantiveram com eles foram as gêmeas aprendizes.

No entanto, mais atentos do que antes, repararam em uma ponte de conexão entre o Centro de Formações e seu destino. Ela era de aço, para aguentar o peso, mas as paredes eram de vidro, que possibilitava a visão de quase todo o território. Era muito extensa, e os irmãos Daddrien se sentiram inconformados em não terem reparo antes, em tamanha construção.

— É a ponte de conexão principal. – Katrina disse, com um sorriso amigável nos lábios, andando próxima de Andrew. Ele concordou, mesmo já tendo deduzido. – Ela leva do Centro para o primeiro andar de cada prédio dos Dormitórios.

Distanciando-se do Centro, passaram próximos por uma construção de mármore branco, a alguns metros depois do Simulador, havia uma palavra talhada na entrada, que os três deduziram ser grego antigo, mesmo não sabendo seu significado.

— Aquela é a enfermaria. – Katharine orientou. – Lá fica o refeitório. – Ela indicou uma construção mais ao fundo, a noroeste. Era bem maior do que a enfermaria.

— Casa marcada, é apenas o nome de toda a região. – Katrina explicava, guiando Dylan, Andrew e Alexandra. – Dentro dela, estão os Dormitórios divididos em alas. São praticamente dois prédios, conectados, e cada um com sete andares, permitidos. Os térreos são as áreas de recreação. Há um pátio, em seu centro. O Centro de Formações, onde também está a diretoria. A enfermaria. O Simulador Interdimensional. E o Refeitório. Há também o Bosque e o cemitério.

— Isso tudo, em um pedaço de Nova York? – Alex perguntou, incrédula.

— Tecnicamente, sim. – Katrina respondeu com um sorriso brincalhão. – A Sombra nos proporciona mais do que os sangue-normais podem ver. Para eles, existe apenas um prédio abandonado, que seria a entrada do Centro de Formações, quando na verdade, existe toda essa extensão.

— Incrível. – Dylan comentou maravilhado.

Katrina concordou com o mesmo sorriso. Katharine por outro lado parecia entediada e mais do que ansiosa para se desfazer dos irmãos Daddrien remanescentes. Eles subiram as escadas do prédio um, adentrando o primeiro andar. Fizeram uma pequena curva a direita e estavam de frente para um imenso corredor, com diversos quartos, de ambos os lados.

No final do corredor, duas portas de madeiras adornadas estavam fechadas. Eles atravessaram toda a extensão até chegar a elas, virando à esquerda em outro corredor, chegaram ao banheiro. Depois de virar novamente à esquerda, seguiram reto até chegar ao elevador, a sua direita.

— Talvez vocês queiram saber que poderíamos ter simplesmente seguido reto de lá. – Katharine indicou as escadas, no final do corredor, que naquele momento estava atrás deles. – Mas ela queria mostrar a vocês o andar. – Ela completou quando Katrina pareceu sem graça.

Eles entraram no elevador e seguiram para o quinto andar. Ignorando o corredor com um peitoril, que permitia visualizar o exterior, seguiram e viraram a esquerda entrando em um dos dois corredores com quartos, de ambos os lados.

Andaram por entre portas, e nem todos estavam ocupados. Foi quando finalmente pararam em frente a um quarto. Katrina o indicou para Andrew. Ele ficaria ali, oitava porta a esquerda, no segundo corredor, correspondente a casa de Virgem, masculina, quinto andar.

— Seu horário deve estar sobre a escrivaninha. – Katharine orientou a contragosto.

Eles voltaram para o elevador e subiram para o sétimo e último andar indicado no painel do elevador. Katrina explicou, conforme andavam que ali era onde dormiam ambas as gêmeas e todos os sub aliados, logo, o primeiro corredor correspondia aos garotos e o segundo, as garotas. Dylan foi deixado a frente da décima porta, a direita, assim como Andrew.

Antes de entrar ele murmurou um ‘boa noite’ para sua irmã, e bateu a porta atrás de si. As três, por sua vez voltaram, mais uma vez, para o elevador e desceram para o segundo andar.

Onde no andar anterior não havia nada ao lado do elevador, no segundo andar havia outro corredor, com o mesmo peitoril, deixando a luz da lua iluminar o local. Elas seguiram pelo corredor, e Alex pôde ver o pátio, com seus adornos, bancos e estátuas de pedra. Também havia folhas espalhadas pelo chão e umas arvores com galhos finos e ressecados, típico do outono.

Virando à direita, formando um quadrado. Passando pela abertura, entrando no andar. O quarto de Alex ficava no segundo corredor, a quinta porta a direita, correspondente a casa de Escorpião, feminina.

Entrando ela pode notar, que mesmo que a estrutura de todo o local parecesse mais rústica, em homenagem aos tempos antigos, tudo ali estava mais do que no século XXI. Um relógio na parede, em cima da cabeceira da cama, marcava meia noite. Já estava na hora de se despedir daquele dia perturbador.

Os quartos, tanto dos meninos quanto das meninas eram semelhantes. Na parede a esquerda havia um grande painel eletrônico, onde se lia alguns avisos. Logo abaixo havia uma escrivaninha, equipada com um notebook. A cama ficava no centro do quarto, com o relógio acima. Ela era menor que uma de casal, mas maior do que uma de solteiro. Ao lado da mesma, um criado mudo, com um abajur. Ao lado da porta, havia uma estante, com alguns livros. A direita, havia um guarda roupa. Não era um quarto tão grande quanto o que tinham em casa, mas era bem melhor do que o esperado.

Eles foram direto para a escrivaninha, onde teoricamente seus horários os esperavam. Era um pequeno caderno, com sete páginas. Uma para cada dia da semana.

Analisando suas aulas, a ficha caiu, quando viram o horário da primeira. 7 horas da manhã. Deveriam dormir, mas estavam muito ansiosos.

Dylan se jogou na cama, olhando para o teto, com os pensamentos embaralhados. Andrew analisava o quadro eletrônico. Enquanto Alexandra espiava sua estante.

Quando de repente, com um apito, tanto para Alex quando para Andrew, uma mensagem surgiu no painel.

Um lembrete.

Comparecer

Amanhã às 5h30min da manhã

Simulador Interdimensional

Treinamento extra com Preston Thompson

Depois disso, para os três, sem mais nem menos, o quadro eletrônico mostrou uma imagem, atraindo sua atenção. Em total e boa qualidade, olhando diretamente para eles, havia uma foto de família. Todos sorrindo, ainda em casa. Um aperto no coração desceu sobre eles. E um cumprimento do Oráculo, como boas-vindas.

— Boa noite, Izzie, Matt, Andie e Dy. – Alex murmurou para si mesma, sabendo que nenhum deles poderia ouvi-la.

Notas finais
** Só passando para dar um 'Oi' e dizer que vocês são muito importantes para mim ♥ obrigada a todos que estão acompanhando **