SOMBRAS - A Armadilha da Rainha

11 Capítulo 10 - Adentrando o portal


— Eu não uso uniformes. – Isabel disse para as gêmeas aprendizes, enquanto segurava suas roupas, como a um pano de chão.

— Que pena, flor. – Katharine respondeu com deboche. – Esse é o uniforme de todos os que chegam. É obrigatório.

— Estaremos esperando vocês no corredor, com os garotos. – Katrina disse de maneira amigável.

Elas saíram do quarto, deixando Alex e Izzie sozinhas.

— Ela é uma vadia. – Izzie resmungou. – Boa sorte.

— Boa sorte, por quê? – Alex questionou.

— Você é que vai ficar no mesmo lugar que ela e dois dos nossos irmãos. – Ela esclareceu. – Irmãos bonitos, garota oferecida. Vamos lá, você é a prodígio da matemática. Faça as contas. Acha mesmo que não tem nada com que se preocupar?

Alex entendeu o que ela quis dizer e com isso enfiou a cabeça em meio a suas próprias roupas, praguejando. – Vamos resolver um problema de cada vez.

Isabel continuava a olhar com cara de poucos amigos para suas novas peças de roupa. Vestiu o short branco, do mesmo tecido de uma legging. A camiseta, no entanto, era exageradamente larga, de um azul bem escuro.

— Cabem duas de mim aqui. – Ela reclamou, quando já estavam vestidas. – Isso é ridículo...

Indo em direção à porta, pronta para abri-la, Alex respondeu. — Você é criativa, de um jeito.

Izzie a impediu de sair. Alex reconheceu aquele brilho repentino em seus olhos e já previu o que viria. — Preciso da sua ajuda. — Com um sorriso pensativo, Isabel tirou a camiseta e segurou uma das mangas. – Puxe. – Ela orientou, fazendo força na direção contrária. Depois de muita força, a manga rasgou. Elas repetiram o movimento dos dois lados, resultando em uma regata.

Com ajuda de um dos pingentes de sua pulseira, Izzie rasgou o centro da camiseta, ficando com duas partes. Quando a vestiu novamente, sua barriga ficava a vista. Com as duas partes, ela deu um nó, fazendo com que o tecido ficasse um pouco mais justo ao seu corpo.

— Como? – Alex perguntou, sem acreditar que ela tinha realmente fazer algo decente com o material disponível.

Satisfeita, Izzie caminhou junto com a irmã. Encontrando com os outros no corredor, já a frente.

Assim que Matthew as viu chegando, ele assoviou, para Izzie, que piscou divertida, em sua direção. Katharine por outro lado, apenas a encarou, incrédula. – Por aqui. – Ela disse, indicando o caminho à sua frente, a contragosto. Katrina, teve de segurar o riso depois da expressão irritadiça de sua gêmea.

Prestando atenção no caminho, Alex tentava lembrar de cada um dos corredores, por onde entravam. Direita. Reto por quinze passos. Esquerda, mais sete. Direita, até chegarem ao elevador. Mesmo não vendo real utilidade com suas informações.

— Gostaríamos de pedir que vocês esperem, até que estejamos na Casa Marcada, para que comecem suas perguntas. – Katrina começou, enquanto esperavam pelo elevador. – Imagino como as coisas devem estar confusas, mas não teremos como explicar nada, sem deixá-los mais confusos. Então, — O elevador chegou e eles entraram. – Sejam pacientes. – Ela completou, ao apertar o botão do quarto e último andar.

Havia nove botões no painel do elevador. Andrew sabia que já haviam estado no segundo e terceiro andar, assim como no primeiro subsolo, de onde estavam saindo. O que os esperava no quarto ainda era um mistério. — O que tem nos outros andares? – Ele perguntou. Quebrando o silêncio.

Antes que pudessem responder, as portas se abriram, revelando uma extensão de todo o andar para um grande portal. Uma mistura de matéria, energia, cores e poder. Havia seis pilares dentro do andar, até chegar ao portal, efetivamente. Elas davam a sustentação necessária.

O portal, era uma grande massa, de cor indefinida em movimento constante, girando em um movimento horário e anti-horário, alternados, como água sendo mexida constantemente dentro de uma gigantesca panela. Atrás do portal, havia uma área vazia, pela grande largura do mesmo.

Nas laterais do andar, haviam diversas prateleiras. Ali, estavam armazenadas, armas, alguns livros antigos desordenados, e já próximo do portal, havia sequências e mais sequências, do que aparentavam ser moedas douradas.

— Este é o andar do Portal Pri-ma. – Katharine esclareceu.

— O último subsolo servia de base para manter as armas, no entanto, a anos ele foi destruído, ficando terminantemente proibido qualquer contato, para não afetar a estrutura do restante do prédio. – Katrina começou. Parando com todos no centro do andar, como em uma grande excursão. – O quarto subsolo é a caverna de Delfos; o terceiro, é referente aos laboratórios da corte, o segundo e o primeiro são alojamentos para os novos integrantes que chegam. Ficariam surpresos com a quantidade que pode chegar a cada mês. O térreo é um andar vazio, para a visão dos Sangue Normais. O primeiro andar é correspondente aos seres que moram na Corte. Já o segundo corresponde ao salão dos tronos, a Corte propriamente dita, onde todos vocês fizeram suas cerimônias de sangue. O terceiro andar é o auditório, para a transmissão do canal Olimpiano. E aqui estamos nós no quarto andar. É aqui que as viagens são feitas. — Depois de dada a explicação, Katrina olhou para cada um deles, mais especificamente para Andrew, quem fez a pergunta, tempos antes.

— Para que possam cumprir a viagem, vocês não precisam necessariamente atravessar o Portal. – Katherine, continuou. Andando até as prateleiras que continham os pins. – Cada um de vocês têm direito a um desses. – Ela disse indicando as moedas. – Estes são os pins de Transporte. Basta vocês apertarem, pensarem ou dizerem, em alto e bom som, o que é mais recomendado, o nome do local que desejam ir. Não percam seus pins, porque caso alguém que não deveria tê-lo, pegar de vocês, as consequências serão severas.

— Mas... – Katrina interrompeu. – Todas essas regras serão esclarecidas quando chegarem à Casa Marcada. – Chegando até o Portal, Katrina se virou para os cinco, séria. – Peço agora, que deem as mãos. Quando atravessarmos, não soltem por nada pelo bem dos véus. A não ser que queiram se perder em uma dimensão nova. – Aquilo foi uma tentativa de piada, mas por conta da tensão do momento, não funcionou muito bem. Os únicos risos que ecoaram pelo local foi o dela mesma, de sua irmã e o de Matt.

Dylan, por sua vez, estava mais intrigado com o ‘pelo bem dos véus’.

Antes de todos darem as mãos, Katharine entregou de mão em mão um pin. Guardando-os em locais que cada um julgou ser seguro, eles deram as mãos. Esperando por mais instruções.

— No momento que eu entrar, sigam-me. – Katrina indicou. – Não precisam pular ou nada do tipo. Será como andar para dentro de uma nova sala.

Katharine deu uma mão para sua gêmea e com a outra, de forma rápida e sem discrição, puxou a de Matthew. Isabel e Alexandra reviraram os olhos, mas Andrew e Dylan não pareceram realmente se importar.

— Casa Marcada. – Katrina disse. Ela subiu os três degraus para alcançar o Portal definitivamente. Os outros apenas a seguiram, respirando o mais fundo possível, para parecerem seguros.

— Incrível! – Foi a primeira coisa que Matthew disse, ao pisarem em solo novamente.

Olhando em volta, os cinco estavam boquiabertos. Em um minuto estavam no último andar de um edifício desconhecido, e em outro, estavam em algum lugar subterrâneo, de mais um local desconhecido.

— Aqui, é a matriz do Portal Pri-ma. – Katrina explicou. – Fica no subsolo.

— Onde estamos? – Izzie perguntou, analisando as poucas coisas que haviam ao seu redor. Ela ainda sentia um resquício da vertigem de viajar pelo portal.

— Nova York. – Katharine respondeu.

— Espera. – Dylan pediu. – Não estamos tão longe de casa. Quero dizer não estamos a um oceano de distância, pelo menos. – Era sua maneira de ser otimista.

— Não haveria como Dylan. – Katrina reconfortou. – Quero dizer, existem maneiras de viajarmos em outros territórios, com os pins ou pelo Portal. Entretanto, só nos movemos na América do Norte. É o que chamamos de nossa ‘área de trabalho’. Mas não estávamos em Nova York a minutos antes.

— Então onde estávamos? – Andrew quis saber.

— Canadá. – Katharine respondeu mais uma vez. – Toronto, para ser mais específica.

— Queria ter prestado mais atenção nas aulas de geografia... – Dylan lamentou, arrependido e até um pouco constrangido com o fato.

Katrina sorriu. — Não se preocupe.

As gêmeas os orientaram até a escada, mais há direita de todos ao se virarem. Ela facilitava o acesso até o alçapão no teto. Depois uma continuação, que se seguia, por aproximadamente uns três metros, até que se alcançasse a superfície terrestre.

Andrew foi a frente, deparando-se primeiro com um alçapão. A claridade passava pelas frestas, e quando o empurrou, esperava uma lufada de ar gélido ou algo do tipo, mas o que recebeu foi apenas um ar menos condensado.

Assim que saíram, Katrina os deu as boas-vindas, indicando o local através da porta, com as mãos esticadas. — Sejam bem-vindos à Casa Marcada.

O buraco de onde saíram, ficava em uma sala, ao lado de uma grande mesa retangular, de madeira. De certa forma, era como o escritório do presidente, o que fez com que deduzissem que provavelmente não eram apenas aos Representantes que eles deveriam responder.

— Essa é a sala dos diretores. – Katharine disse, ajudando Dylan a sair, fechando em seguida a passagem.

Era igual a uma porta secreta, igualando-se ao chão, com apenas uma alavanca giratória de metal em uma extremidade. Em paralelo, havia uma grande mesa de carvalho escura e envernizada. Ao fundo da sala, uma grande janela iluminava todo o ambiente, por conta das cortinas beges, que estavam abertas. À baixo, havia um banco acolchoado, junto a parede. Logo em seguida da mesa, já próximo da janela, havia um sofá e duas poltronas, virados um de frente para o outro, como o consultório de um analista. Além disso ainda havia, a esquerda, próxima da porta, uma grande estante, com cinco prateleiras, repletas de livros antigos e empoeirados. Além de uma parte, dando suporte a plantas e pergaminhos.

— Venham. – Katrina chamou, já indo em direção a porta.

Entreolhando-se, os irmãos concordaram com um aceno de cabeça. Acompanhando o ritmo de sua guia, eles analisavam tudo a sua volta, da melhor maneira possível.

Saindo da sala em que estavam, viraram à esquerda e seguiram por um corredor, com alguns quadros antigos. Em geral, tudo era modelado em um estilo mais rústico, embora parecesse que a arquitetura e elaboração do local fosse recente.

Não tiveram que andar muito, até virarem à direita e se depararem com uma grande sala. Depois de três pequenos degraus, acreditavam estar, no que deveria ser o centro de trabalho daquele lugar. Havia grandes mesas com bordas metálicas e o que parecia, de longe serem grandes telas, ao invés de vidro no centro, espalhadas por toda a extensão. Nelas algumas pessoas trabalhavam em pé, outras sentadas e algumas se movimentavam de um lugar a outro. Eram oito mesas no total, algumas com painéis erguidos, como lousas digitais, dividindo a extensão da mesa em dois.

À direita, ao lado dos degraus, começava um pequeno palanque, que se estendia como um retângulo. Pegava a borda da sala toda, onde se encontrava apenas um pedestal de palestrante, vazio. O mesmo símbolo que avistaram no teto da corte, estava talhado na madeira dele.

— Este é o centro de informações. – Katrina explicou, adentrando a sala. – A maior parte dos sub aliados fica aqui, monitorando a movimentação nas ruas. Caso haja uma missão, os Aliados são alertados, para que possam sair. Há três entradas para o Centro, uma utilizada para as missões, ida e vinda, uma outra é aquela logo atrás de onde viemos.

Olhando para trás puderam identificar a entrada a qual ela se referia. Os sete vieram de um corredor a esquerda, mas caso não entrassem nele, andando mais dois metros, havia duas grandes portas pretas, com grades nos vidros que possibilitava a observação do lado de fora.

– A terceira é a que vem do próprio campus para o interior do Centro de Formações. – Katrina retomou. — Ali é onde os avisos são dados, como podem ver, é uma sala grande, onde na maioria das vezes, todos podem ficar. – Ela se referia, no momento, ao palanque, já ficando para trás conforme andavam.

Virando à esquerda, e deixando para trás ainda uma parte da sala sem ter sido visitada, havia duas pessoas lutando, com bastões de madeira, que se chocavam e cortavam o ar. Estavam dentro de um dos tatames azuis que cobriam o chão. A mulher e o homem que lutavam, não pareciam ser muito mais velhos que Andrew e Matthew, mas sabiam o que estavam fazendo ali, diferentemente deles.

— Luta com bastão Bo. – Alex identificou. – São utilizadas em lutas marciais.

Pelo ponto onde estavam, era possível ver as pequenas partículas de poeira circulando pelo ar ao redor deles, contra os raios de sol, enquanto se movimentavam com grande agilidade e rapidez. Eles eram mais rápidos do que pessoas normais.

A luz, que iluminava o novo local, vinha de um grande vitral, que continha os doze deuses, no Olimpo, de forma triunfante. Zeus tinha em suas mãos seu raio mestre, Poseidon seu tridente, erguido, e neste, havia até mesmo Hades, com uma expressão de fúria, ao erguer seu capacete da invisibilidade. Acima de suas cabeças, em vinho, estavam os símbolos gregos de cada signo.

— Aqui é onde os Aliados treinam suas habilidades de luta, na maioria das vezes. – Katharine se pôs à frente do grupo, depois de muito tempo quieta. Ela indicou os outros tatames no chão, com uma distância significativa dos dois que se encontravam lutando. – Grande parte de suas aulas práticas serão aqui.

Seguindo com o tour, após passarem pelos dois lutadores, que os ignoraram, eles seguiram até chegar a uma grande escadaria a sua esquerda. Subindo-a atingiram o primeiro andar, onde havia mais e mais salas.

— Cada uma delas servem para diferentes atividades. Algumas serão onde vocês terão aulas teóricas, outras, lutas e manuseio de armas. Essas aulas podem variar entre o primeiro e o segundo andar. – Katharine explicou. – Mas seus orientadores explicaram melhores.

Katrina procurava por algo dentro das salas. — Onde está Preston, Katharine?

— Eu não teria como saber, Katrina. – Sua irmã respondeu com um sorriso forçado. – Dê-me sua mão.

Ela obedeceu. E já de mãos dadas, as duas fecharam seus olhos e sussurraram algumas palavras, uma para a outra. Instantaneamente, quando abriram seus olhos novamente, seu olhar estava perdido. Os olhos cinzas, que antes indicavam cegueira, agora eram os únicos que lhes dava o dom da visão.

Como se andassem por todo o Centro de Formação, as duas, como um único ser, podiam ver, sem serem vistas. Estavam à procura de Preston, um homem negro, com corpo definido pelas longas horas de trabalho, dando aulas de lutas e resistência; com 1,92 de altura, que seria o tutor dos cinco irmãos Daddrien.

Correndo por entre os corredores, não o acharam em lugar algum, então saíram do Centro, pela porta que dava acesso ao campus, a qual indicaram a alguns minutos. Seguiram pela área aberta, com um terreno de vegetação rasteira e amarelada. Encontraram-no no Simulador Interdimensional. Preston lutava contra uma quimera do lado de dentro. Estava suado e concentrado, mas quando sentiu a presença das gêmeas olhou diretamente para onde estavam e quase foi pego pelo monstro.

Poucos aliados podiam senti-las, mas Preston era o exemplo do Aliado perfeitamente treinado para as surpresas de seu mundo.

Separando as mãos de forma rápida, as duas voltaram a realidade, paradas em frente a cinco adolescentes assustados. — Achamos. – Katharine comentou, como se nada fora do normal tivesse acontecido. Mantinha um sorriso tímido no rosto.

— Antes que se perguntem. – Katrina voltou a falar, andando novamente. – Como quaisquer gêmeas, nós duas temos uma forte ligação. Porém, como, ao nascermos, o Oráculo de Delfos nos escolheu como aprendizes, temos dona especiais. Nossos olhares se completam, podendo ser usado como um localizador, não só para o que acontece no momento, mas para previsões ou visões. Por esse motivo eu não enxergo com o olho esquerdo e ela não com o direito. – Uma pausa se seguiu. — Nos completamos.

— Eu sou a melhor metade dela. – Katharine exclamou, dando uma piscadela na direção dos gêmeos logo atrás.

Notas finais
** Fiquei um tempinho sem postar, mas espero que estejam gostando!! Vejo vocês no próximo capítulo ♥ **