SOMBRAS - A Armadilha da Rainha

12 Capítulo 11 - A escola parece um sonho, agora


Ser os mais velhos estava sendo a pior coisa imaginável do mundo para os gêmeos. Os dois tinham dezoito anos, assistindo às aulas de crianças de doze. Andrew tentava manter suas atenções no professor à frente da sala, mas tudo que conseguia ouvir eram os sussurros e comentários aqui e ali, das crianças que os rodeavam. Claro, que não eram direcionados apenas para ele, mas ele era o mais velho dentre todos e obviamente o mais atrasado também. Era desconfortável assistir às aulas básicas com outras dez crianças.

Não teria como recuperar seis anos de estudos perdidos em seis horas, seis semanas ou até mesmo seis meses. E isso era a pior parte de sua nova realidade.

Depois de passado o tempo de uma aula, as gêmeas do Oráculo, levaram os cinco, finalmente, ao encontro de Preston.

— Estes são os novos Aliados? – Ele perguntou, enquanto secava o suor com uma toalha. Estava sem camisa e sua marca era bem visível, no peito, o símbolo de Áries

— Nem todos. – Katrina esclareceu. – Temos dois aliados. – Indicou Andrew e Alexandra. – Dois impuros. – Indicou Matthew e Isabel. – E um Sub. – Indicou Dylan, mais encolhido, ao lado de seus irmãos.

— Reinald disse que você seria o tutor deles. – Katharine já estava sem paciência e esperava que Preston fosse a maneira de deixar os Daddrien nas mãos de outra pessoa.

Ele concordou com um aceno, examinando os cinco a sua frente. – Parece que eu terei algum trabalho. – Comentou, sério e pensativo. – Adoro um desafio. – Sua expressão mudou, dando lugar a um sorriso, para Katrina. — Preferem começar com o teórico ou com o prático? – Ele perguntou, direcionando-se diretamente aos irmãos.

— Preston. – Katrina chamou. — Com o teórico. Temos que encaminhar os Impuros para os Lugares Salvos antes das onze horas de hoje. – Ela advertiu.

— Entendido, chefe. – Ele caçoou. — Sigam-me então.

Fizeram o caminho de volta, indo em direção as salas que passaram ao chegar. Entraram na terceira, onde haviam algumas bancadas, que reconheceram como sendo as utilizadas nos laboratórios de ciência em sua escola.

— Meu nome é Preston Thompson. – Ele se apresentou, parado em frente à sala, quando todos já haviam tomado seus assentos. – Sou um Aliado ariano. Mas também sou conhecido, por ser o melhor feiticeiro meio-sangue de todos os tempos. – Dizendo isso, Preston bateu as mãos contra as primeiras mesas, onde os cinco estavam sentados. Livros surgiram, materializando-se como se emergissem de dentro das mesas. – Estes são bestiários para iniciantes. Agora, eu darei a vocês, que continuaram aqui para serem os próximos protetores dos Sangue Normais, uma escolha: Podem seguir as turmas como iniciantes, mas temo dizer que terminarão seus estudos tão atrasados quanto já estão. O que significava aguentar as possíveis e quase certas, gozações dos Aliados, tanto mais novos quanto mais velhos. Ou podem acompanhar as aulas teóricas dos iniciantes, juntamente com as aulas teóricas e práticas adequadas para suas idades.

Andrew não precisava pensar muito, assim como Alex. Os dois se entreolharam por um momento e sabiam que os dois eram orgulhosos de mais para ficar para trás. — Podemos acompanhar nossa idade. – Andrew disse decidido, mesmo não estando tão certo com aquela afirmação.

— Exato. – Alex concordou, quando Preston a olhou questionador.

— Então, prosseguindo. As coisas aqui funcionam em harmonia como em qualquer escola. – Ele pegou um canetão e começou a escrever de maneira ágil na lousa atrás de si. — Vocês têm as Aulas Primordiais, que são para os iniciantes, de doze até os catorze anos. As Experimentais, onde é colocado e prática todos os seus conhecimentos, é quando vocês começam a treinar luta, e missões no Simulador Interdimensional, dos quinze aos dezoito anos. Em alguns casos, os melhores da turma são escolhidos para irem em missões como observadores e auxiliares. Depois vem as Aulas de Complexos Práticos, quando ao completarem dezenove começam a participar de missões, como verdadeiros protetores, e algumas das matérias estudadas são suspensas. E por último, todos passam por um teste, ao completar vinte e dois anos, para ser definido a área e tarefa que será designado.

O turbilhão de informações rodava na mente de Andrew, Alex e Dylan.

— Vocês contam com mais oito matérias, além daquelas já estudadas na escola normal. – Preston finalizou.

Matthew deixou escapar uma risada. — Bem simples. – Comentou, rindo para Isabel. – Parece que nos livramos de uma boa.

Andrew o olhou reprovador, mesmo estando do outro lado da sala.

— Os Impuros, por sua vez têm um programa um pouco diferente. – Preston continuou, nada satisfeito com a piada. – As Aulas Primordiais são iguais, dos doze anos aos catorze. As Aulas Experimentais têm uma dinâmica diferente, apesar do nome igual. A questão é que vocês têm uma necessidade maior em aprender disciplina e autocontrole, por conta da mistura de poderes em seu sangue. A faixa etária deste estágio, no entanto é igual ao dos Aliados, de quinze aos dezoito anos. Seu último estágio é A Delimitação, ao completarem dezenove anos, para que suas tarefas sejam divididas e o equilíbrio do Lugares Salvos se mantenha.

Izzie e Matt concordam.

Enquanto Preston os observava, alguns deles folheavam algumas das páginas dos livros a sua frente. Livros antigos, com folhas já amareladas. A textura do papel era diferente da conhecida folha sulfite. Tinha um cheiro estranho, quando aberto. E deviam ter aproximadamente novecentas páginas ou mais.

Matthew, curioso, tentou erguer o que foi designado para si, mas se debruçou sobre a mesa por conta do peso.

— Estes bestiários não saem desta sala. – Preston esclareceu. – São relíquias e contém praticamente todas as informações de todos os seres e criaturas do mundo. Incluindo nós.

— Quem os escreveu? – Andrew perguntou, não vendo nome algum na lateral.

— Muitos seres. A maior parte foi escrita pelas gerações de Oráculos. O espírito dele sabe de todas as informações. Suas visões têm um custo, mas não as informações. – De súbito se interrompeu e mudou de assunto. — Vou ser sincero com vocês. Já são onze horas da manhã. – Preston disse consultando seu relógio. – Não há como eu explicar tudo a vocês em horas, mas posso tentar adiantar o máximo possível. Como Katrina mesma afirmou, serei seu tutor. Teremos aulas extras para que possam chegar ao mesmo nível de seus companheiros, mas não depende apenas de mim. – Ele os observava sério. — Brincar com o poder não é fácil. Ainda mais quando se trata de combater aquelas coisas lá fora. A maioria, apenas quer te matar. É uma questão de vida ou morte. Mas para eles é apenas uma questão de dias, anos, séculos ou milênios até que possam escapar do Tártaro novamente e retornar para atormentar os Sangue Normais novamente. – Depois de uma grande pausa, Preston se fez mais amigável, retornou a lousa. – Então, vamos começar. Abram na décima terceira página. Criaturas Mágicas.

As mesmas palavras surgiram no quadro atrás dele.

“Feiticeiros, fadas, vampiros, lobisomens, todas as lendas são verdadeiras.

Sua história começa a muitos milênios atrás. Em um tempo que nem mesmo o Oráculo pôde datar. Durante a luta entre deuses e titãs, Zeus foi advertido por Gaia, de que não conseguiria derrotar seu pai, Cronos, sem a ajuda dos Gigantes e Ciclopes. E com essa informação ele foi até o Tártaro para liberta-los. Mesmo com tais criaturas ao seu lado, durante a batalha, as fadas ofereceram sua ajuda. Isso tudo vocês já sabem.

Ao fim da batalha, o mundo ficou divido para os Três Grandes. Zeus ficou com os céus e terra; Poseidon ficou com as águas; e Hades ficou com o submundo, as profundezas. No entanto, os monstros e criaturas estavam à solta, descontrolados. E uma vez, lembrando da lealdade das fadas protetoras, Zeus as convocou. O restante dos Representantes foi criado, quando sua essência foi misturada ao poder dos demais deuses. As constelações, foram a maneira de homenagear a sua importância para os nascimentos humanos, e logo, os Representantes receberam seus nomes.

Com a combinação do sangue dos deuses e da essência das fadas, os Representantes tinham poderes necessários para serem os novos mantenedores da paz. O equilíbrio.

Assim como os deuses, os Representantes também desciam a terra, tendo casos, muitas vezes, com os sangue-normais, ou mortais. No entanto, o que diferenciava os nascimentos de Semideuses dos Aliados era que, para ser um semideus, um dos deuses geraria a criança, já os Representantes não precisavam mais descer a terra para que um aliado nascesse. O poder das fadas, havia sido passado hereditariamente por entre crianças. As fadas então, escolhiam quais crianças eram dignas, e poderosas o bastante. Isso trouxe à tona, os sub aliados, e os impuros. Por conta da miscigenação entre diversos Aliados e sangue-normais.

Mesmo com esse novo fato, apenas ter pais Aliados não era o necessário para ser um. Havia casos em que o sangue de fada não se manifestava e nunca iria, é necessário que seu Abençor o escolha, ativando sua Sombra, a chave para enxergar nosso mundo. Tudo que vemos, depende do que podemos ou não encarar. Cada um tem um limite, e para aqueles que não conseguem encarar tal realidade, a Sombra os mantêm afastados de tudo. Sua dimensão fica paralela à nossa.

Junto com o nascimento dos Representantes, nasceram as Siras. São a comprovação e os libertadores do seu poder. A sira principal é a dos Representantes, aquela talhada no teto da Corte de Osgs e a mesma presente nas costas de todos eles. Suas siras, ou que vocês chamam até o momento de marcas, são o que libertam seus poderes, possibilitando que possam ser mais rápidos, mais habilidades, com melhores reflexos e até mesmo dons especiais. O que os mantêm vivos em um campo de batalha. No entanto, as siras não têm nenhum poder. Elas são apenas um símbolo, do real poder que há em vocês.

O local sagrado dos deuses é o Olimpo. O dos Representantes chamamos de Afira. Na hierarquia universal, estão os deuses, no topo, em seguida os Representantes, seguidos dos semideuses e nós, os Aliados. A diferença dos semideuses é que eles matam monstros quando estão em suas missões, mas o fazem para que não morram. Os semideuses são rastreados pelos monstros. Eles sentem seu lado divino. A nós também, mas o nosso propósito é servir a Corte e proteger os Sangue Normais. Nascemos para isso. Somos o que os mortais chamam de anjos da guarda, de uma forma simplificada. Embora haja certa rixa de alguns semideuses conosco, já trabalhamos juntos, para que os inocentes não sofressem.

Ao final da primeira hora de explicações, Matthew sentia que seu cérebro estava derretendo lentamente, assim como Dylan. Os outros três, por outro lado, tentavam processar o máximo de informação possível. Não seria fácil rever todos os conceitos de mitos e realidade em algumas horas.

— Essa é a introdução que vocês estavam precisando, acredito eu. – Preston comentou, bebericando um pouco de água.

— Isso não faz sentido. – Alex despejou, fechando o livro com raiva. O som encheu o ambiente, mas Preston não parecia surpreso com a reação dela.

— Alexandra, acalme-se.

— Eu estou calma. – Ela respondeu, levantando-se para parar entre as duas mesas. – Mas não faz sentido. Quero dizer, os doze deuses e os semideuses são até fáceis de engolir, agora signos? Sangue de fada? Parece história de criança.

— Sei que pode parecer um pouco confuso, mas preciso que você se acalme. – Preston estava com as mãos erguidas, como se Alex pudesse perder o controle a qualquer momento e atacá-lo.

— Não. Não, você não sabe. – Ela mexia na cabeça, como quem perde a sanidade aos poucos. — Os signos são apenas uma besteira que as pessoas criaram para ter a quem culpar por seus problemas de personalidades. Eles foram baseados nas constelações, por conta de seus malditos formatos. — Ela estava histérica.

— Alex, respire. – Andrew comandou, ficando de pé também.

— Eu estou respirando, Andrew. – Ela gritou em sua direção. – Mas pense comigo. Você também já estudou isso. Como por exemplo, o signo de Touro. Ele surgiu quando Zeus se encantou por uma mulher, e para seduzi-la ele se transformou em um touro branco. – Alex falava rápido demais, e já estava se enrolando ao engolir saliva, falar e respirar. – Ela estava na praia, quando o touro apareceu, acariciando-o e ela o mantou em seguida. Ele fugiu para alguma ilha, onde descobriu amar a garota. Orgulhoso do seu feito, Zeus colocou seu toura nas estrelas. – Com uma pausa, ela continuou. – Pronto, é isso. Fim. História de criança. – Enfatizou zombeteira.

Depois da gozação, no entanto, uma lufada de ar invadiu a sala, e o som de uma bufada veio junto com um raio do lado de fora. Exatamente como a um touro.

— Cuidado como o modo que zomba dos signos, ou dos deuses. – Preston advertiu, aproximando-se cautelosamente. – Esse foi o surgimento da constelação, mas qual seria a associação, com a personalidade de cada ser humano que nasce, em um determinado mês, regente por cada uma das constelações?

— Eu não sei. – Ela gaguejou em resposta. – Talvez nenhuma. Mas por favor. Anjos da guarda?

— Foi apenas uma metáfora. – Preston explicou. – Os Aliados são os protetores dos Sangue.... Dos humanos. – Ele se corrigiu. – As fadas, não são apenas o que vocês veem nos contos de fadas, como a Sininho. Existem fadas malignas, boas, até mesmo muito poderosas. E por isso mesmo, por serem motivo do nascimento dos signos, que cada um deles possui uma fada de proteção.

A mente de Alex girava. Ela não conseguia mais dividir o que era verdadeiro ou fictício. Eram muitas informações para serem processadas de uma só vez.

— Alex... – Izzie chamou carinhosa. – Olha para seu pulso. – Sua irmã pediu. Alex o fez, receosa. – Essa marca, sira, é o que mostra que isso é real. Que importa o que aconteceu a milênios atrás? Estamos aqui, agora.

Alexandra se acalmou, respirando fundo, contando até cinquenta, mentalmente. Era falho na memória dos quatro a última vez que Alex havia tido um ataque como aquele.

Foi em uma noite tempestuosa de outono. Ela deveria ter seus onze anos. Estava estudando para um teste avançado. Todos estavam em casa, assistindo televisão na sala, enquanto do lado de fora, não se via nem mesmo a grama, já amarelada com a mudança de estação. O vento soprava forte, que juntamente com a neblina dificultava a distinção de qualquer coisa mais ao longe.

A casa estava silenciosa, só se ouvia o som dos gritos do filme de terror que saiam da televisão. No entanto, um raio atingiu a casa, detido apenas pelo para raios. A energia, acabou, e o próximo grito que ouviram, não veio da televisão, mas sim do andar de cima, onde Alexandra queimava seus neurônios de preocupação, ao invés de estudando.

Foi complicado para acalmá—la, mas depois de muita gritaria e algumas lágrimas derramadas, Alex ficou cansada e simplesmente se deitou, abraçada a Matthew, que resmungava algumas palavras em seu ouvido.

— Acho que todos vão associar as informações melhor em prática. – Preston disse finalmente. – Há um bom jeito para testar a primeira das nossas tecnologias a que vocês foram apresentados. – Ele enfiou a mão no bolso, retirando de lá, um pin, igual ao que Katharine entregou a eles, antes de atravessarem o Portal. – Digam o nome do local. Exatamente como eu farei. Não deem pausas quando falarem. Não vão querer acabar em outro lugar, ainda mais sem saberem lutar. – Ele deu uma piscadela, para ninguém em específico. Apertando o pin ele disse. – Centro de Simulações Interdimensionais, Casa Marcada, Nova York.

Ao chegar ao final da sentença, Preston despareceu diante dos olhos de todos. Nenhum deles estava acostumado com aquela visão. Era como um truque da mente.

— Quem quer ser o próximo? – Matthew perguntou, olhando primeiramente para Andrew.

Ele não estava tão confiante, mas concordou em ser o primeiro. – O que ele disse, exatamente?

— Centro de Simulações Dimensionais, Casa Marcada, Nova York. – Dylan respondeu de prontidão.

Andrew olhou sério para os irmãos, erguendo o pin a sua frente. Foi a primeira vez que realmente o analisou. Era dourado, com a mesma sira do teto da Corte. Virando-o havia um novo símbolo, dos deuses olimpianos. Reconheceu duas letras gregas intercaladas, mas não a volta que as ligava. Era um triskelion.

Imitando o movimento de Preston, Andrew colocou o indicador atrás do pin, e o polegar na frente. Matthew, Alex e Dylan, estavam tranquilos e curiosos, olhando para seu irmão, esperando que dissesse as palavras. O único som que se ouvia era de conversas mais distante. Isabel por outro lado, estava inquieta, as palavras de Dylan ressoavam em sua mente, embora parecesse que alguma coisa faltava, e foi quando Andrew abriu a boca para começar a falar, que ela se lembrou.

— Espera. – Ela gritou, assustando a todos.

— Mas que droga, Izzie. – Matthew e Dylan disseram, praguejando.

— Não foi isso que ele disse. – Ela explicou. – Ele disse: Centro de Simulações Interdimensionais, Casa Marcada, Nova York.

Andrew respirou fundo olhando para seu pin. – Vamos todos juntos. – Ele disse. – Se errarmos, acabaremos todos no mesmo lugar. – Explicou. – Não que isso ajude. – Andrew sussurrou mais para si.

Todos retiraram seus pins, de seus locais seguros. O mais intrigante, foi Izzie, que retirou o seu de dentro do sutiã. – O que? – Ela perguntou, quando viu o olhar intrigado de sua irmã. – Ninguém mexeria ali.

— Não tenha tanta certeza. – Matthew comentou, fazendo Dylan rir.

— Babaca. – Izzie disse, desferindo um tapa em sua direção.

Erguendo os pins a frente dos rostos, todos repetiram. Foi quando tudo ficou preto por um momento. O chão sumiu e o ar ficou mais condensado.

Um segundo depois, tudo voltou ao normal. Sua visão, entretanto, demorou um pouco mais até se adaptar por completo.

— Primeira lição, cumprida. – Preston disse, atraindo a atenção. Fazendo-os virar. – Parabéns. Não são todos que conseguem fazer certo da primeira vez.

Eles estavam em uma grande sala, com paredes metálicas e um imenso tatame, onde pisavam, que abrangia todo o território. Eram apenas quatro paredes e um imenso painel na parede a sua frente.

— Sabe, os deuses não são muito fãs da Era Tecnológica, salve algumas exceções. – Preston comentou, de modo casual, enquanto digitava alguma coisa no grande painel. – No entanto, conforme os tempos mudavam, proteger aos Sangue Normais virou nosso maior objetivo. Ou seja, os Representantes fizeram um acordo.

— Qual? – Alex perguntou, analisando tudo ao seu redor.

— A Casa Marcada tem permissão para o uso da tecnologia, contanto que contenha os monstros. Mas os Lugares Salvos não possuem este privilégio. Os deuses acreditam que os Impuros, somente podem atingir disciplina e autocontrole, sem a tecnologia.

— O que? – Isabel e Matthew reclamaram em uníssono.

Preston os ignorou, pressionando o último botão. As paredes de metais ganharam forma. Estavam nas ruas de Novar York. As luzes iluminavam tudo durante a noite. Mesmo sabendo que estavam em uma sala selada por quatro paredes, uma brisa fria soprava, balando o cabelo das meninas.

— Bem-vindos a sala de simulações. Teoricamente vocês poderiam participar de uma, apenas quando completassem as aulas Primordiais. Mas convenhamos que sua idade diz o contrário. – Preston explicou. – Antes de lutarem com armas, vocês devem aprender a se defender com seus angapes. – Ele retirou do seu bolso traseiro, seus três cristais. – Eles se conectaram, formando um bastão de aproximadamente cinquenta centímetros. – Façam. – Ele ordenou.

Um tanto inseguros, os cinco levaram as mãos ao bolso de trás. Não lembravam de ter guardado os angapes, depois de sua cerimônia, e muito menos de tê-los colocado em suas novas roupas. No entanto, estavam lá.

— Como isso aconteceu? – Dylan questionou, esperando respostas de qualquer um dos presentes.

— Seus angapes estão conectados com suas almas. Não vão abandona-los a não ser que alguém os retenha. – Preston esclareceu. – Quando precisarem deles, eles estrão lá.

— Sempre dá para ficar mais estranho. – Alex resmungou, esperando mais instruções, com seus três angapes já em mãos.

— Apenas pressionem as pontas de cada um dos menores no seu angape fundamental. – Preston mostrou com um ágil movimento de mãos, como havia feito com o seu próprio. Era como um jogo de montar.

Sem saber como aquilo poderia acontecer, eles obedeceram. E no momento em que fizeram pressão, um formigamento passou por seus braços, como uma corrente elétrica, que fluía dos angapes para seus corpos. Os bastões estavam formados, unidos como um só. As iniciais de cada, apareciam ao meio.

— Quando estão nas ruas, o nosso sistema de rastreamento serve apenas para monitorar a movimentação da aura sobrenatural. – Preston começou a explicar.

— Ou seja, os monstros que devemos matar. – Isabel interrompeu.

— Sim. Fazemos uso das câmeras da cidade para nos auxiliar nas ruas. – Ele respondeu a contragosto, pela interrupção. – Estamos na famosa Manhattan. É um dos mais antigos e mais povoados bairros de toda Nova York. Então, alguém poderia me explicar o porquê de este ser um dos bairros mais atacados? – Preston parou, esperando por uma resposta.

— Porque as criaturas podem se misturar? – Matthew arriscou.

— Eles conseguem ao mesmo tempo se misturar e arranjar presas com mais facilidade. – Andrew completou com uma voz firme. – As ruas sempre estão cheias de gente.

— Certo. – Preston confirmou. – No entanto, este também é um problema para vocês. Por que?

— Mais vítimas em um confronto. – Isabel afirmou, com o olhar perdido, olhando para o que seria a continuação da rua em que estavam. – Ainda mais quando eles não sabem do que devem fugir.

— Certo. – Confirmou mais uma vez. – Por isso, é necessário, na maioria das vezes, atrai-los para longe das multidões.

Todos estavam pensativos, quando sem aviso prévio, Preston os atacou. Andrew foi jogado no chão, enquanto o joelho de Preston ia de encontro ao estômago de Matthew, que se dobrou com a súbita dor, isso tudo, antes que pudessem prever sequer qualquer movimento de seu tutor. Dylan ao ver a cena, atrapalhou-se com seu anape e tudo que Preston precisou fazer foi acerta-lo uma vez com um soco. Isabel e Alexandra caíram ao mesmo tempo, quando ele deslizou uma das pernas pelo chão, em um círculo completo, empurrando as delas, fazendo com que perdessem o equilíbrio em um segundo.

— Mas que droga foi essa? – Isabel perguntou, enquanto levava uma das mãos de encontro a cabeça que acertou o chão com força no momento de sua queda.

— Isso, foi um ataque surpresa, e vocês são horríveis em autodefesa. – Ele debochou, ajudando-a a se levantar.

— Não sou não. Só não esperava que meu tutor fosse me atacar. – Alex reclamou se ponto novamente de pé.

— Por acaso conhece alguma coisa de luta? – Preston questionou, aproximando-se dela. A diferença de altura dentre os dois, era significativa, o que fazia com que durante o confronto, ela olhasse para cima, enquanto ele olhava para baixo.

— Conheço. – Ela respondeu desafiadora. – Fiz karatê durante quatro anos, judô por um, e nos últimos dois anos estava no grupo de luta greco-romana da escola.

Como se não acreditasse, seu tutor se afastou, olhando-a de cima a baixo, conferindo sua fisionomia. Ele diria que ela estava mentindo, tudo nela indicava uma garota do Upper East Side que sonhava em ser modelo.

— Está duvidando. Por que? Por que sou garota? – Ela questionou indignada com os olhares de análise que ele lançava em sua direção.

— Não. – Respondeu de prontidão.

— Tudo bem. – Ela disse, não acreditando muito. Abrindo um pouco de espaço com os braços ela continuou. – Ataque-me.

Sem acreditar na exigência, Preston avançou para cima da garota. O primeiro golpe ela conseguiu se proteger utilizando o bastão em sua mão direita, mas o segundo não. Ele acertou seu rosto, desorientando-a por um momento. Quando avançou novamente, ela se esquivou, empurrando-o pelas costas, como resultado ele acabou no chão úmido da rua.

Sem esperar por outro golpe, Alex se pôs sobre ele, socando seu rosto, como ele havia feito antes. No entanto, não durou muito, quando ele prendeu seu braço, com uma das mãos, e usou seu peso contra o dela. Ele ficou por cima dela. Em um movimento ágil ele tomou o angape das mãos dela, posicionando-o alguns centímetros acima do peito de Alex, que ofegava, com pânico estampado em seus olhos.

— Nada mal. – Preston elogiou, levantando-se. Ele se ofereceu para ajudar Alexandra. No entanto, não significava que ela aceitaria. Seu orgulho ficou ferido por um momento. — Acho que está na hora de ver o que vocês podem fazer com adrenalina livre em sua corrente sanguínea. – Preston caçoou.

Ele se apressou para uma das paredes da rua, certo de que o painel estaria ali. Era como se ele enxergasse algo que os demais não fossem capazes de ver. Entretanto, ele apenas tinha conhecimento. Já era sabido que quando entrava em uma simulação, o painel não ficava no mesmo local, mas sempre levaria consigo a sira dos Representantes, que no caso, marcava a parede como uma pequena rachadura.

Depois de pressionados alguns botões, ele se afastou novamente. – Finjam que eu não estou aqui.

Dito isso, no final da rua, pessoas começaram a circular, assim como uma criatura não identificada, que começou a ataca-las. Sua mira eram os pescoços, na maioria das vezes, mas qualquer contato com a carne de suas vítimas era satisfatório.

Sangue jorrava, quando Dylan teve coragem de falar. – Aquilo é um vampiro?

Aquele comportamento não era o que esperavam da criatura. Mais e mais pessoas surgiam, enquanto eles pensavam se era possível ou não, e com isso mais mortes. Mais desperdício de tempo. Menos ação, e menos heroísmo.

— Ele é um Stringla, e seu objetivo, como Aliados, é pará-lo. – Preston orientou.

— Não sabemos como. – Isabel gritou de volta, eufórica.

Andrew não esperou pelos demais quando disparou em direção a multidão. Conforme se aproximava, percebia que realmente estava em Manhattan, ou no que ele reconhecia do pouco que tinha visto pela televisão. Há alguns quarteirões, ele identificou, o que tinha quase certeza ser o Central Park.

As pessoas à sua frente gritavam em pânico e ele gostaria de poder ver o que elas acreditavam estar acontecendo diante de seus olhos.

Antes mesmo que Andrew tivesse tempo o suficiente para atingir o que ele supunha ser o vampiro, com grande dificuldade, já tinha sido avistado. Seus olhos vermelhos, da cor sangue, que sujava suas mãos, boca e roupas, observaram-no, antes de correr na direção contraria.

— Como ele sabe quem somos? – Alex perguntou, quando se aproximou do irmão.

— Como você acha que eu saberia? – Ele retrucou, pondo-se a correr, novamente.

Seus irmãos o seguiram, as cegas, sem saber em que ruas estavam virando.

Aquela coisa era rápida. Era a única coisa que conseguiam pensar. Passava por entre as pessoas como se não houvesse nada que impedisse sua travessia. Os cinco, por outro lado, eram empurrados e xingados por cada pessoa que lhes bloqueava o caminho. Eles não eram rápidos o suficiente.

— Como vamos alcançá-lo? – Alex perguntou, apertando o passo para ficar lado a lado com Andrew.

— Vocês são mais rápidos do que isso. – A voz de Preston penetrou em seus cérebros. – Mas precisam correr como Aliados, não como Sangue Normais.

Dylan lembrou dos dois lutando mais cedo, e em como eles conseguiam se mexer mais rápido do que eles conseguiriam acompanhar.

— E como diabos nós fazemos isso? — Matthew gritou olhando para os céus, como se Preston tivesse se transformado misteriosamente em um anjo, vigiando-os.

Algumas pessoas ao seu redor o observavam com olhares questionadores, como se ele fosse louco. Talvez fosse.

— Usem seus angapes. Eles são a conexão com seu lado divino. – Sua voz ecoava, passando por seus tímpanos, como uma melodia preenchendo o ambiente. – Sintam o poder correndo por suas veias, misturado ao seu sangue. Alcance-o.

Todos seguraram seus angapes. Fecharam os punhos, envolta do que antes era apenas o angape fundamental, localizado exatamente entre os outros dois.

— Onde ele está? – Matthew perguntou, já quase sem fôlego.

Andrew tentou localizar o que estava em seu campo de visão pouco antes de pegar seu angape, mas não o via mais.

— Droga. – Praguejou para si.

— Usem os angapes. – Preston orientou a todos mais uma vez.

Eles não conseguiam se concentrar. Tinham que correr e desviar das inúmeras pessoas que praticamente surgiam à sua frente, pareciam brotar do chão. E além disso tinham de se concentrar no poder fluindo.

Andrew parou bruscamente na rua. Quase sendo atingido pelos outros que vinham logo atrás. Sua respiração estava ofegante. Suas batidas cardíacas ressoavam em seus ouvidos. Ele simplesmente parou e apoiou os braços nos joelhos, ficando inclinado. Quando se recompôs fechou os olhos e se concentrou no contato da palma de sua mão e dedos com o cristal. Sabia que alguma coisa tinha que acontecer. Tinha que sentir algo.

Respirou fundo, imaginando uma corrente elétrica passando do angape para seu braço, como um verdadeiro cabo de eletricidade.

Tudo ao seu redor desacelerou por um segundo, como se o mundo girasse para trás para que seu tempo fosse recompensado. E então veio a fisgada. Foi como se uma agulha tivesse entrado em contato, rapidamente, em seu quadril.

A Marca. Ele pensou.

Voltando seu olhar para seus irmãos, ainda correndo frustrados, para um destino desconhecido, ele o avistou, talvez a um quarteirão de distância, meio desorientado. Uma aura escurecida o revestia, como um semáforo. Era ele. O mesmo sangue, os mesmos olhos monstruosos e sem piedade que o encararam anteriormente, analisando tudo ao seu redor sem um verdadeiro objetivo.

O esboço de um sorriso cruzou o rosto de Andrew. Ele pôde sentir.

Co um alvo, ele se pôs a correr. Suas pernas se mexiam mais rápido do que ele podia imaginar. Não o suficiente para se considerar o velocista, mas era surpreendente. Com agilidade e algumas trombadas, ele desviava daqueles que surgiam a sua frente, até que ultrapassou seus irmãos, ainda com tentativas sem êxito.

— Parem e se concentrem. – Ele gritou, aconselhando seus irmãos, diminuindo um pouco, ao olhar para trás.

O vento estava contra seu rosto, aumentando a emoção e a adrenalina, que fluíam por seu corpo. Ele imaginava o que poderia ser melhor do que aquele momento. Andrew sentia aquela vontade de sorrir.

No entanto o sentimento não se prolongou por muito mais tempo. Quando se deu por si, já estava praticamente cara a cara com seu adversário. Não tinha ideia de onde seus irmãos estavam, mas também não tinha a menor noção se teria outra oportunidade para um confronto. Era como se seu cérebro não se lembra de que aquilo era somente uma simulação. Tudo indicava que com estratégia ou não, deveria atacar.

— Mate-o. – A voz de Preston disse, soando forte e impotente, dentro da cabeça de Andrew.

Então, naquele momento, Andrew percebeu que, simulação ou não, ele teria que reunir a coragem necessária e suficiente para tirar uma vida. E por um segundo ele hesitou.

— Ele não é mais humano. – A voz de Preston advertiu, notando a incerteza.

Andrew respirou novamente, e foi quando, sem expressão, avançou. O vampiro o avistará, com seus olhos ágeis, em resposta, mostrou as presas e as garras ensanguentadas. Era o incentivo de que Andrew precisava.

Os dois lutaram, desferindo e defendendo golpes. Pela primeira vez, Andrew sentiu a conexão a qual Preston se referia antes. Era como se ele pensasse e seu angape agisse. Não tinha nada de fácil em manuseá-lo, mas era menos complicado do que ele temia instantes atrás.

Entretanto um movimento em falso e ele recebia um soco após o outro. Depois que isso aconteceu, não demorou muito para que Alex aparecesse, seguida de Isabel e Matthew. Os quatro tentavam lutar lado a lado, mas ainda era seu primeiro confronto. O vampiro era mais rápido, mais feroz e mais experiente. Até que os quatro estavam nocauteados.

Com um último grito, quase como um uivo, semelhante ao utilizado por alcateias, para se comunicar, o vampiro se virou para correr, e foi quando uma lâmina atravessou seu peito. O Stringla se desfez em cinzas e o cheiro de enxofre se espalhou. Parado atrás dele, com a arma em mãos, estava Preston. Os quatro, caídos no asfalto só o encaravam, ofegantes e doloridos.

A multidão começou a se dispersar, proporcionando visibilidade para Dylan e enquanto corria ao encontro de seus irmãos, observou a rua desaparecer, deixando-os na mesma sala de simulações do início de sua primeira lição.

Antes de chegar, ele viu a cabeça de Andrew pendendo para o lado, ainda com os olhos abertos. — Andrew.... – Dylan chamou, sacudindo seu irmão.

Ele não se mexeu.

— Matt? – Ele arriscou, mas tão pouco houve resposta.

Ele temia se aproximar de suas irmãs, mas Alex e Izzie começaram a se levantar. E foi quando Preston surgiu ao seu lado.

— O que você fez com eles? – Dylan não olhava diretamente para seu instrutor.

— Eles morreram na simulação. – Preston esclareceu, sem nenhum pudor. — O vampiro os matou.

— O que?— Ele não podia acreditar no que acabara de ouvir. – Isso é impossível.

Izzie olhava para seus irmãos sem saber o que doía mais.

Preston ignorou a negação do mais novo, e se ajoelhou ao lado de Andrew. Com seu angape fundamental em mãos, a alguns centímetros do peito dele, ele murmurou uma única palavra. Um pequeno brilho surgiu do contato da mão de seu instrutor e seu cristal. E como por milagre, Andrew buscou por ar novamente. A sensação que lhe restara era a de afogamento. E mesmo assim, tentou, fracassadamente se sentar. Tudo que lhe vinha à mente era a escuridão. O desespero crescente, juntamente com a impotência que sentira, ao perder a consciência.

Sem mais cerimônias, Preston fez o mesmo com Matthew. E ele buscou por ar de forma mais desesperada. — O que diabos acabou de acontecer? – Matt perguntou, irritado. Conseguindo finalmente se recompor o mínimo possível para murmurar tais palavras.

— Vocês morreram. – Dylan sussurrou em resposta, um tanto em choque.

— O que?— Andrew perguntou aturdido. Não parecia real.

— Durante a simulação, o Stringla, matou vocês. – Preston esclareceu, calmamente. – E isso afeta sua vida aqui. Vocês falharam na missão. No entanto, não é uma morte irreversível, por ser simulada. – Ele escolhia as palavras cuidadosamente.

— Você disse alguma coisa quando os ressuscitou. – Dylan constatou.

— Epoúlosi. – Preston esclareceu. – É a palavra grega para cura. Mas o que vocês têm que entender é que, lá fora, não é simples assim. Não poderão usar seus poderes para ressuscitar alguém. Lá fora é vida ou morte. – Havia determinação e raiva em sua voz. – A cada dia que estiverem aqui, seus dias para estarem lá fora em uma missão por conta própria, aumentam.

Isabel ergueu uma mão. Com a permissão concedida por Preston para falar, ela perguntou. — O que é um Stringla?

— Antigamente, um Stringla era um vampiro sem auto controle. Ele atacava crianças durante a noite, para drenar seu sangue fresco. O mais perigoso de todos, por perder sua consciência ao se transformar. São agressivos e assassinos. Eles se diferem em pequenos fatores, dentre os cinco tipos de vampiros. Após um tempo, começamos a atribuir o termo Stringla para todos os vampiros que perde sua consciência humana e logo devem ser caçados e mandados de volta para as profundezas do Tártaro. São consumidos pelas trevas, tornando-se cinzas ao morrer. A maioria dos Stringla não consegue voltar para sua forma humana, atacando não somente crianças.

— Outros cinco? – Dylan questionou.

— Tártaro? – Matthew perguntou, aproveitando a deixa.

— Callicantzaros, lâmia, liahennen-shee, stringla e dhampir. Dentre eles, apenas os stringlas perdem sua consciência por completo.

Antes que Preston tivesse a chance, Alex começou a explicar. — Tártaro são as profundezas do submundo. Seria a pior definição do inferno. Há vários monstros aprisionados lá, assim como já aprisionou os ciclopes e titãs. Quando matavam um monstro ele não morria efetivamente, mas sim, era mandado de volta para o Tártaro e poderia voltar a renascer na terra, com um tempo indeterminado.

Todos olhavam para ela incrédulos.

— Eu já estudei mitologia. – Ela se explicou. – Não me olhem como se eu fosse uma aberração.

Seus irmãos e Preston voltaram a si. Preston limpou a garganta e continuou. — Vocês têm muito o que aprender. Mas antes de tudo, temos algumas regras a serem seguidas na escola. A principal delas é: Não saiam daqui a não ser que tenham uma missão. Não tentem ser heróis. Na situação de vocês, mais vale um covarde vivo do que um herói morto.

Atônitos, quando Preston se dirigiu para a saída, eles o acompanharam.Quebra de Página

Capítulo 12

Um adeus Indeterminado

Eles estavam esperando do lado de fora da escola. O mesmo lugar que tiveram que cruzar para chegar a sala de Simulações Interdimensionais. A noite já havia caído a cerca de quatro horas. De acordo com as instruções de Preston, depois que assistissem à continuação das aulas Primordiais Teóricas, Matthew e Isabel deveriam partir as dez horas em ponto. Por esse motivo, esperavam.

A brisa que soprava era gelada. A grama verde do chão, aos olhos deles, parecia um tanto amarelada, mesmo soando ilógico por estarem em maio. A primavera sempre melhorava o ambiente, mas naquele momento, tudo aprecia nebuloso.

Os cinco esperavam sentados em círculo na grama úmida. Isabel remexia nela, arrancando folhas aqui e ali, sem nada para dizer. A tensão era tanta que era quase possível palpá-la. Não havia palavras suficientes para descrever o que Andrew, Alex e Dylan estavam sentindo. Nenhum deles havia sido separado desde que nasceram. Não importava o quanto alegassem se odiar, não podiam se imaginar um sem o outro.

— Como viemos parar aqui? – Isabel perguntou baixo, sem tirar sua atenção dos seus dedos, enquanto brincavam com a grama.

— Nossa mãe mentiu para nós. – Andrew disse sério, olhando para o nada.

— Ela achou que estava nos protegendo. – Dylan retrucou, na defensiva.

— Não me sinto muito protegida agora. – Alex murmurou, puxando um punhado de grama, frustrada.

O pouco da conversa morreu ali. Ninguém apareceu por um tempo e foi quando ao longe ouviram dez badaladas de algum relógio. A lua estava no seu auge. A lua cheia era a fonte de luz da noite.

— Estão preparados? – A voz de Katrina atraiu as atenções. Ela vinha calmamente, iluminada pela luz da lua. Sua beleza, pouco admirada antes, era bem visível e delicada.

Logo atrás dela, vinham Katharine, Preston, Reinald e uma mulher a quem ainda não tinham sido apresentados. Ela tinha feições dóceis, mas marcantes, assim como misteriosas. Sua toga prateada e rosa, reluzia sob a lua. Seus cabelos castanhos sedosos caiam como cascatas, completadas com uma coroa de flores. Ela era alta, esguia e esbelta. Havia detalhes em prata por sua pele, era como se brilhasse, repleta de purpurina.

Ela atraiu a atenção dos garotos, até mesmo de Andrew, que não mostrara grande interesse por qualquer uma antes. Ela era como um imã.

Os cinco se levantaram, com certa relutância.

— Adianta se falarmos que não? – Isabel perguntou, com ignorância e um sorriso forçado.

— Não. – Katharine disse com um sorriso petulante nos lábios. A situação parecia divertir seu coraçãozinho maldoso.

— Quem é ela? – Matthew perguntou, indicando com um movimento de cabeça a mulher ao lado de Reinald.

— Meu nome é Hérnia. Também conhecida como deusa das fadas e das ninfas. – A mulher respondeu. Sua voz era angelical e melodiosa. Rodopiou pelos ouvidos de todos, como uma bela melodia. – Sou a responsável por toda a Casa Marcada.

O queixo de todos caiu. Não podiam acreditar no que estava bem diante de seus olhos. Uma deusa. Era muito para se assimilar.

— Deusa? – Andrew questionou, para ninguém em específico, sem tirar os olhos da mulher a sua frente.

Todos concordaram com um aceno. Para eles não havia nada de diferente naquele processo. Todos os dias podiam cruzar, durante suas atividades, com um deus ou deusa. E de acordo com as descrições de todos, os irmãos Daddrien sabiam que haveria coisas muito mais aterrorizantes.

— Querem um minuto para se despedir? – Reinald questionou, apoiando-se ligeiramente em seu cajado.

Acenos discretos foram dados como respostas. Eles voltaram a formar um círculo, evitando grandes distancias entre si. Ignoravam os outros presentes e toda sua atenção estava voltada uns para os outros.

— Não quero dizer adeus. Não quero ver vocês irem embora. – Dylan começou, deixando que as palavras saíssem de maneira desajeitada. – Realmente não quero. – Ele quebrou o círculo, puxando Isabel pelo pescoço, curvando-se para poder enterrar seu rosto, já marcado com algumas lágrimas, entre os cabelos sedosos de sua irmã.

As palavras não saiam da boca de nenhum deles. Dylan chorava baixo ainda abraçado com Izzie, que deixava suas lágrimas caírem sem preocupação, de maneira silenciosa.

— Eu te amo. – Ela disse finalmente, abraçando-o mais forte. – Eu amo todos vocês.

Com pesar, desfez o abraço com seu irmão caçula. Seus olhos estavam avermelhados pelo choro. Ela secou rapidamente seu rosto antes de continuar. — Não importa para onde eu for. Estarei sempre ligada a vocês.

Andrew se desfez de seu orgulho. A passos largos, acabou com distância entre ele e sua irmã. Assim que passou os braços ao redor de Izzie, um soluço escapou de sua garganta, e ele chorou. Não era algo rotineiro.

Não foi necessária nenhuma palavra sequer. Isabel pode sentir a dor da perda que Andrew sentia. Seus ombros sacudiam de forma nada discreta, ainda abraçado a ela. Foi isso que fez com que seu choro se desenrolasse com mais afinco. Se não houvesse mais ninguém para se despedir, ele poderia ter ficado ali pelo resto da noite.

Recompondo-se, Andrew respirou fundo. Mas isso não desfazia o pequeno inchaço do seu rosto, molhado pelas lágrimas.

Alex se aproximou de sua gêmea, enquanto Andrew se aproximou de Matthew.

— Você me deve cinco pratas. – Isabel murmurou, para sua irmã, com um sorriso fraco. – Ele chorou.

Sem mais comentários, Alex soltou uma risada, reprimida e dolorida, misturada ao choro. — Vou sentir sua falta. – Ela retrucou, puxando-a para um abraço.

Matthew também chorava, assim como Andrew, mas não tanto quanto antes. Separados, pararam para se olhar. O clima estava mais depressivo, tristonho e abalado. A plateia se retorcia inquieta e incomodada, sem muitas reações a cena que se passava a sua frente. Katrina tentava não se envolver com as emoções da despedida. Só podia imaginar pelo o que eles estavam passando, mas não podia se dar ao luxo de se abalar. Já era sabido as consequências do envolvimento lógico e sentimental.

Hérnia a chamou, e ela sabia que teria que interromper. Katrina se aproximou cuidadosamente. – Precisamos continuar.

Os irmãos concordaram, pensando em suas últimas palavras.

— Nós vamos nos encontrar de novo. – Matthew disse por fim.

Selaram um abraço grupal. Para depois se dispersarem e observarem aos olhos curiosos e cheios de pena dos outros.

— O que devemos fazer? – Matthew perguntou, destemido, recompondo sua postura.

Katharine explicou que não haveria nenhum tipo de cerimônia muito elaborada. Deveriam apenas cruzar o portal junto com Hérnia. Ela os acompanharia e instruiria com todas as necessidades dos Lugares Salvos. Bem ali onde estavam, a deusa girou sua destra, modelando o novo centro de matéria, que se mostrou o portal que cruzariam.

Como se em segredo, quando foram entregar seus pins, Katrina empurrou suas mãos de volta, e seus olhos pediam para que guardassem rápido. Foi o que fizeram.

Pouco antes de atravessarem, Isabel e Matthew deram uma última olhada para seus irmãos. Com um leve sorriso no rosto.

— Antes que eu me esqueça. – Katharine deu um passo adiante, pondo-se a frente de Matthew. Sem mais delongas, ela o puxou, beijando-o. Mesmo que espantado, ele não protestou. Apenas retribuiu.

Os outros presentes, com exceção de Hérnia, que se manteve inabalada, estavam espantados, as meninas, mais precisamente, inconformadas. Katharine, quando se afastou, com um sorriso triunfante, mais do que satisfeita. Katrina parecia envergonhada pela atitude inapropriada da irmã, mas não havia nada que ela pudesse fazer.

Respirando profundamente, Isabel e Matthew trocaram um olhar. Hérnia esticou uma mão para cada, guiando-os através do portal. Foi quando o silêncio se alastrou sobre o local.

Eles haviam acabado de sair do subsolo do Centro de Formações. Atravessaram o campus, deixando que a luz da lua iluminasse seu caminho mais uma vez. As únicas que se mantiveram com eles foram as gêmeas aprendizes.

No entanto, mais atentos do que antes, repararam em uma ponte de conexão entre o Centro de Formações e seu destino. Ela era de aço, para aguentar o peso, mas as paredes eram de vidro, que possibilitava a visão de quase todo o território. Era muito extensa, e os irmãos Daddrien se sentiram inconformados em não terem reparo antes, em tamanha construção.

— É a ponte de conexão principal. – Katrina disse, com um sorriso amigável nos lábios, andando próxima de Andrew. Ele concordou, mesmo já tendo deduzido. – Ela leva do Centro para o primeiro andar de cada prédio dos Dormitórios.

Distanciando-se do Centro, passaram próximos por uma construção de mármore branco, a alguns metros depois do Simulador, havia uma palavra talhada na entrada, que os três deduziram ser grego antigo, mesmo não sabendo seu significado.

— Aquela é a enfermaria. – Katharine orientou. – Lá fica o refeitório. – Ela indicou uma construção mais ao fundo, a noroeste. Era bem maior do que a enfermaria.

— Casa marcada, é apenas o nome de toda a região. – Katrina explicava, guiando Dylan, Andrew e Alexandra. – Dentro dela, estão os Dormitórios divididos em alas. São praticamente dois prédios, conectados, e cada um com sete andares, permitidos. Os térreos são as áreas de recreação. Há um pátio, em seu centro. O Centro de Formações, onde também está a diretoria. A enfermaria. O Simulador Interdimensional. E o Refeitório. Há também o Bosque e o cemitério.

— Isso tudo, em um pedaço de Nova York? – Alex perguntou, incrédula.

— Tecnicamente, sim. – Katrina respondeu com um sorriso brincalhão. – A Sombra nos proporciona mais do que os sangue-normais podem ver. Para eles, existe apenas um prédio abandonado, que seria a entrada do Centro de Formações, quando na verdade, existe toda essa extensão.

— Incrível. – Dylan comentou maravilhado.

Katrina concordou com o mesmo sorriso. Katharine por outro lado parecia entediada e mais do que ansiosa para se desfazer dos irmãos Daddrien remanescentes. Eles subiram as escadas do prédio um, adentrando o primeiro andar. Fizeram uma pequena curva a direita e estavam de frente para um imenso corredor, com diversos quartos, de ambos os lados.

No final do corredor, duas portas de madeiras adornadas estavam fechadas. Eles atravessaram toda a extensão até chegar a elas, virando à esquerda em outro corredor, chegaram ao banheiro. Depois de virar novamente à esquerda, seguiram reto até chegar ao elevador, a sua direita.

— Talvez vocês queiram saber que poderíamos ter simplesmente seguido reto de lá. – Katharine indicou as escadas, no final do corredor, que naquele momento estava atrás deles. – Mas ela queria mostrar a vocês o andar. – Ela completou quando Katrina pareceu sem graça.

Eles entraram no elevador e seguiram para o quinto andar. Ignorando o corredor com um peitoril, que permitia visualizar o exterior, seguiram e viraram a esquerda entrando em um dos dois corredores com quartos, de ambos os lados.

Andaram por entre portas, e nem todos estavam ocupados. Foi quando finalmente pararam em frente a um quarto. Katrina o indicou para Andrew. Ele ficaria ali, oitava porta a esquerda, no segundo corredor, correspondente a casa de Virgem, masculina, quinto andar.

— Seu horário deve estar sobre a escrivaninha. – Katharine orientou a contragosto.

Eles voltaram para o elevador e subiram para o sétimo e último andar indicado no painel do elevador. Katrina explicou, conforme andavam que ali era onde dormiam ambas as gêmeas e todos os sub aliados, logo, o primeiro corredor correspondia aos garotos e o segundo, as garotas. Dylan foi deixado a frente da décima porta, a direita, assim como Andrew.

Antes de entrar ele murmurou um ‘boa noite’ para sua irmã, e bateu a porta atrás de si. As três, por sua vez voltaram, mais uma vez, para o elevador e desceram para o segundo andar.

Onde no andar anterior não havia nada ao lado do elevador, no segundo andar havia outro corredor, com o mesmo peitoril, deixando a luz da lua iluminar o local. Elas seguiram pelo corredor, e Alex pôde ver o pátio, com seus adornos, bancos e estátuas de pedra. Também havia folhas espalhadas pelo chão e umas arvores com galhos finos e ressecados, típico do outono.

Virando à direita, formando um quadrado. Passando pela abertura, entrando no andar. O quarto de Alex ficava no segundo corredor, a quinta porta a direita, correspondente a casa de Escorpião, feminina.

Entrando ela pode notar, que mesmo que a estrutura de todo o local parecesse mais rústica, em homenagem aos tempos antigos, tudo ali estava mais do que no século XXI. Um relógio na parede, em cima da cabeceira da cama, marcava meia noite. Já estava na hora de se despedir daquele dia perturbador.

Os quartos, tanto dos meninos quanto das meninas eram semelhantes. Na parede a esquerda havia um grande painel eletrônico, onde se lia alguns avisos. Logo abaixo havia uma escrivaninha, equipada com um notebook. A cama ficava no centro do quarto, com o relógio acima. Ela era menor que uma de casal, mas maior do que uma de solteiro. Ao lado da mesma, um criado mudo, com um abajur. Ao lado da porta, havia uma estante, com alguns livros. A direita, havia um guarda roupa. Não era um quarto tão grande quanto o que tinham em casa, mas era bem melhor do que o esperado.

Eles foram direto para a escrivaninha, onde teoricamente seus horários os esperavam. Era um pequeno caderno, com sete páginas. Uma para cada dia da semana.

Analisando suas aulas, a ficha caiu, quando viram o horário da primeira. 7 horas da manhã. Deveriam dormir, mas estavam muito ansiosos.

Dylan se jogou na cama, olhando para o teto, com os pensamentos embaralhados. Andrew analisava o quadro eletrônico. Enquanto Alexandra espiava sua estante.

Quando de repente, com um apito, tanto para Alex quando para Andrew, uma mensagem surgiu no painel.

Um lembrete.

Comparecer

Amanhã às 5h30min da manhã

Simulador Interdimensional

Treinamento extra com Preston Thompson

Depois disso, para os três, sem mais nem menos, o quadro eletrônico mostrou uma imagem, atraindo sua atenção. Em total e boa qualidade, olhando diretamente para eles, havia uma foto de família. Todos sorrindo, ainda em casa. Um aperto no coração desceu sobre eles. E um cumprimento do Oráculo, como boas-vindas.

— Boa noite, Izzie, Matt, Andie e Dy. – Alex murmurou para si mesma, sabendo que nenhum deles poderia ouvi-la.

Notas finais
** Esse sim foi um capítulo longo!! Mas espero que tenha deixados vocês curiosos para o resto!! Tem muito mais vindo *risos* aahh, não se esqueçam de votar e comentar, significa muito para a minha pessoa! Amo vocês ♥ **