O céu de Hogwarts, tingido por um tom alaranjado, estava prestes a se despedir do dia. O sol mergulhava no horizonte, e a luz suave do entardecer iluminava o castelo com uma tonalidade dourada. Lorcan caminhava pelos corredores silenciosos, em busca de um lugar onde pudesse se refugiar dos pensamentos que não o deixavam em paz. James Potter ainda ressoava em sua mente com as palavras cortantes que o haviam acompanhado desde a manhã:

"Se continuar desse jeito, vai acabar estragando as coisas sozinho."

Sentou-se pesadamente em uma cadeira afastada, no canto mais sombrio da biblioteca, mas o peso dos seus próprios sentimentos parecia mais denso do que o próprio ar ao seu redor. Ele precisava de uma resposta para o turbilhão dentro de si, mas nada vinha. Foi então que uma voz suave, quase melancólica, invadiu seu pequeno refúgio, interrompendo seus pensamentos.

— Você está vibrando uma energia muito ansiosa, irmãozinho.

Lorcan suspirou, mal acreditando no que estava ouvindo. Levantou os olhos e se deparou com Lysander, o irmão gêmeo que estava sempre, de algum modo, tranquilo, como se o mundo nunca o tocasse. Lysander estava ali, com um livro de Criaturas Mágicas descansando no colo, o olhar perdido nas páginas, mas com a atenção focada nele. Ele tinha uma maneira estranha de perceber tudo ao seu redor, como se fosse capaz de sentir até mesmo o que estava oculto.

— Lysander, eu sou mais velho que você por três minutos — Lorcan resmungou, tentando se afastar do olhar do irmão.

Lysander sorriu, um sorriso que parecia se estender do lado mais sonhador da família Lovegood. Ele fechou o livro com um leve estalo, colocando-o sobre a mesa, e olhou para Lorcan, com os olhos brilhando.

— Três minutos não mudam o fato de que você está cheio de tensão acumulada. Algum bicho-papão te assustou?

Lorcan bufou, cruzando os braços. As palavras de Lysander pareciam tão banais, mas de algum jeito, estavam acertando em cheio.

— Não é um bicho-papão.

Lysander inclinou a cabeça, agora com um interesse genuíno.

— Ah, então é algo pior.

— O que poderia ser pior que um bicho-papão? — Lorcan respondeu, desafiador.

— Seus próprios sentimentos — Lysander disse com um brilho brincalhão nos olhos. — Especialmente os que você está tentando esconder.

Lorcan se calou. Ele sabia que o irmão tinha razão, mas não queria admitir. O ar parecia denso, e ele não sabia o que fazer com isso.

— É sobre Roxanne, não é? — Lysander insistiu, com um tom calmo.

A pergunta fez o coração de Lorcan acelerar, e ele fechou os olhos por um momento, como se tentando afastar a verdade. Ele não conseguia mais suportar o peso disso, mas não sabia como lidar com isso.

— Por que todo mundo insiste em falar disso? — Lorcan respondeu com um suspiro pesado, tentando se esquivar de algo que sabia ser inevitável.

— Porque todo mundo vê. Exceto, talvez, Fred.

O nome de Fred Weasley fez seu estômago revirar. Não havia nada que o deixasse mais tenso do que imaginar a reação de Fred se soubesse do que ele sentia por sua irmã.

Lysander pareceu perceber o desconforto de imediato.

— Você tem medo de como ele vai reagir — observou com uma serenidade quase desconcertante.

Lorcan não pôde esconder o medo que o tomava. Seus dedos se entrelaçaram nervosamente sobre a mesa.

— Claro que tenho! — exclamou, baixando a voz para não chamar a atenção de Madame Pince. — Ele é meu melhor amigo! Se ele achar que estou traindo a confiança dele, nunca vou me perdoar.

Lysander permaneceu em silêncio por um momento, os olhos azuis fixos em Lorcan, como se estivesse tentando entender o que mais poderia ser dito.

— Você já considerou que ele pode reagir de forma diferente do que você imagina? — perguntou por fim.

Lorcan se endireitou na cadeira, uma sombra de desconfiança pairando em seu olhar.

— Sim. Mas também já considerei o que acontece se ele não reagir bem.

Lysander deu de ombros, sem pressa de chegar a conclusões.

— Você pode passar a vida toda evitando riscos, Lorcan. Mas, às vezes, o risco vale a pena. — Ele olhou para o irmão com seriedade. — Nunca saberá se não se arriscar.

Os olhos de Lorcan se estreitaram, pensativos. O irmão tinha um ponto. Ele não poderia continuar vivendo com essa indecisão. Talvez fosse hora de encarar o que estava em seu coração, não importasse o que acontecesse.

Roxanne Weasley caminhava pelos corredores de Hogwarts com uma determinação quase palpável. Ela já havia esperado o suficiente por Lorcan, que parecia perdido em seus próprios pensamentos. Se ele não ia tomar uma atitude, ela tomaria.

Ela o encontrou saindo da biblioteca, com os ombros tensos, a expressão distante e os olhos fixos em algum ponto que só ele parecia ver. Ela se aproximou com passos firmes.

— Precisamos conversar — ela disse, a voz direta e sem rodeios.

Lorcan parou instantaneamente, como se estivesse congelado no tempo.

— Agora? — ele perguntou, sua voz carregada de surpresa.

— Sim, agora. Vem comigo. — Roxanne não deu espaço para mais questionamentos. Com um gesto rápido, ela o puxou pelo pulso e o conduziu até uma sala vazia, uma das muitas usadas para estudos em grupo.

Ela fechou a porta atrás de si com um suspiro, e, em seguida, cruzou os braços, olhando para ele com uma intensidade que fazia Lorcan se sentir vulnerável, como se não houvesse onde se esconder.

— Certo. Agora você vai me dizer — ela disse, desafiadora.

Lorcan piscou, sem saber como responder.

— Dizer o quê?

— O que está acontecendo com você. Por que você tem me evitado? — Roxanne insistiu, sua voz suave, mas firme.

Ele sentiu o coração apertar. A última coisa que ele queria era lidar com isso agora, mas não havia mais como fugir.

— Eu não estou te evitando — tentou desviar, mas ela o interrompeu com um olhar penetrante.

— Está sim — ela respondeu, intransigente. — E eu quero saber o porquê.

Lorcan desviou o olhar, o peso das palavras pesando sobre ele. Ele tentou reunir coragem, mas as palavras estavam presas na garganta.

— Rox, eu... — Ele começou, mas as palavras não saíam como ele queria.

— Lorcan. — Ela deu um passo à frente, e a maneira como ela disse seu nome fez seu estômago se revirar. Ele não podia mais adiar aquilo, o garoto fechou os olhos por um momento, tentando reunir forças para continuar.

— Eu só... estou tentando não estragar as coisas.

Ela franziu a testa, confusa.

— Que coisas?

Lorcan passou a mão pelos cabelos loiros já bagunçados, o gesto impaciente, frustrado consigo mesmo.

— Nossa amizade. A relação que tenho com Fred. Tudo.

Roxanne hesitou. Algo na voz dele a fez se perguntar o que estava por trás daquela tensão toda.

— O que Fred tem a ver com isso? — ela perguntou, a curiosidade estampada no rosto.

Lorcan soltou uma risada nervosa, sem humor.

— Você sabe. Ele é meu melhor amigo. Como acha que ele vai reagir se souber que eu gosto da irmã dele?

O silêncio entre eles se estendeu por um momento, pesado, e Roxanne sentiu uma onda de choque frio por todo o seu corpo. As palavras dele a atingiram com mais força do que ela imaginava.

— Você gosta de mim? — ela perguntou, a incredulidade na voz.

Lorcan arregalou os olhos, e foi só nesse momento que ele percebeu o que havia dito. Seus olhos se arregalaram, e ele se viu perdido.

— Eu...

Ela avançou em direção a ele, agora com a certeza em seus passos.

— Você gosta de mim... — ela repetiu, mais como uma afirmação do que uma pergunta.

Lorcan estava paralisado. Roxanne, então, sorriu, com uma leveza inesperada.

— E você estava tão ocupado se preocupando com Fred que esqueceu de considerar se eu gosto de você.

O coração de Lorcan disparou. Ele mal conseguia respirar, e, por um momento, sentiu como se o mundo tivesse parado.

— Você...? — Ele perguntou, quase sem ar.

— Gosto. — Roxanne respondeu, simples e clara, mas um pouco tímida enquanto se aproximava ainda mais dele. Ela pegou sua mão com delicadeza, entrelaçando seus dedos.

Lorcan observou aquela cena em câmera lenta, como se tudo estivesse acontecendo em um sonho. Roxanne encurtou ainda mais a distância entre eles, como se fosse possível.

— Então... — Sua voz estava quase um sussurro suave, mas misterioso. Lorcan achou aquilo extremamente atraente e um frio percorreu toda a sua espinha como se ele tivesse acabado de tomar um gole de Whisky de Fogo. — Se você está tão preocupado com meu irmão, acho que só nos resta uma alternativa.

Lorcan engoliu em seco, sentindo o coração disparar. Ele não conseguia mais controlar a ansiedade que o dominava.

— Qual? — ele perguntou, a voz baixa, tremendo.

Roxanne sorriu, seus olhos castanhos estavam cintilando com um brilho travesso.

— Nós podemos não contar isso para ninguém.

Lorcan piscou.

— Você quer... esconder isso? — Lorcan perguntou, a dúvida clara em sua voz. Nem ele sabia ao certo o que o "isso" significava, mas algo dentro dele dizia que estava, de alguma forma, se perdendo naquele momento. O cenário parecia surreal, como se tudo não passasse de um pensamento passageiro em sua cabeça, algo que ele ainda não conseguia processar.

Roxanne observou-o com uma calma que contrastava com o turbilhão de emoções que ele estava tentando controlar. Seus olhos estavam tão seguros, tão determinados. Como se soubesse exatamente o que estava fazendo.

— Por enquanto. Até você ficar confortável em conversar com meu irmão, já que para você isso é tão importante — ela respondeu com uma serenidade que parecia dar a ele um pouco de alívio. Como se, de alguma forma, ela estivesse mais certa de tudo do que ele.

Lorcan hesitou, olhando para ela. Ela estava ali, diante dele, com uma paciência quase mágica, como se entendesse todas as suas incertezas e ainda assim estivesse disposta a esperar, sem pressa, sem pressões. Ele já havia se segurado por tempo demais. Era impossível continuar naquele dilema, naquela indecisão.

— Isso parece uma péssima ideia — disse, embora, em algum lugar dentro de si, soubesse que era exatamente o oposto.

— Provavelmente é — Roxanne riu suavemente, como se gostasse de saber que ele ainda tinha dúvidas. Como se o medo e a confusão dele fossem parte do que tornava aquele momento mais real.

— Mas você acha que devemos fazer mesmo assim? — Ele questionou, sem realmente querer ouvir a resposta, mas sabendo que não havia mais saída.

Ela sorriu de um jeito que parecia compreender tudo o que ele não conseguia dizer, a energia ao seu redor irradiando confiança.

— Eu tenho certeza de que devemos fazer mesmo assim.

Lorcan não teve tempo de refletir mais. Ela se aproximou do loiro, um movimento suave, e ele deu um passo se encostando na mesa atrás dele, ainda assim ficava mais alto que a garota a sua frente, sentindo a tensão no ar. Então, no espaço de um segundo, o mundo ao redor deles desapareceu. Seus lábios se encontraram em um beijo que parecia interromper o tempo, um momento que era apenas deles. O perfume de jasmim dos cabelos de Roxanne invadiu seus sentidos, e o toque quente de suas mãos segurando seu rosto fez com que o chão sob seus pés desaparecesse.

Ele nunca havia sentido algo tão profundo, tão certo, e, ao mesmo tempo, tão avassalador. Ela sorriu contra seus lábios, um sorriso travesso e cheio de promessas, antes de aprofundar o beijo. Tudo dentro dele parecia incendiar. Como tinham conseguido esperar tanto tempo para aquele momento? Como ele havia ignorado esse desejo, esse desejo que agora parecia inundá-lo completamente?

Lorcan deslizou os braços ao redor da cintura dela, puxando-a para mais perto. O corpo de Roxanne se encaixou perfeitamente no dele, como se, finalmente, ele pudesse se permitir sentir tudo o que tinha guardado para si durante todos aqueles anos.

Quando finalmente se separaram, os olhos de Roxanne estavam brilhando, travessos, com um olhar que ele reconheceu como uma mistura de diversão e certeza.

— Bem — ela sussurrou, com um brilho malicioso no olhar —, acho que agora você não pode mais fugir de mim.

Lorcan riu suavemente, seus dedos tocando o rosto de Roxanne enquanto a testa dela encostava contra a dele. A proximidade deles, a suavidade daquele momento, fazia com que tudo parecesse mais real do que jamais poderia ter sido.

— Agora eu tenho certeza de que isso é uma péssima ideia — ele disse, com uma risada baixa, quase inaudível, como se estivesse tentando convencer a si mesmo, mas sem conseguir.

Roxanne não se moveu, seus olhos ainda brilhando de forma desafiadora e cativante. Ela sabia que ele não estava realmente questionando o que estavam fazendo. Era apenas o medo do desconhecido que ainda o prendia.

— Mas você não vai recuar — ela respondeu, sua voz tranquila, mas com uma firmeza que Lorcan não conseguiu ignorar.

Ele suspirou, o peito apertando, e um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios, o coração ainda acelerado por tudo o que acabara de acontecer.

— Nem se eu quisesse — ele murmurou, mais para si mesmo do que para ela.

Roxanne apertou a mão dele com mais força, como se estivesse marcando o momento, selando aquilo com um pacto silencioso que os unia mais do que qualquer palavra poderia.

— Então é um segredo. Só nosso — ela afirmou, e havia algo de precioso e inevitável na maneira como disse isso. Como se fosse a única maneira que fazia sentido.

Lorcan olhou para ela, sentindo uma mistura de excitação e apreensão, mas quando seus olhos encontraram os dela, ele soube que nada mais importava. Ele estava se metendo em uma confusão enorme, algo que poderia mudar tudo ao seu redor, mas, olhando para Roxanne, ele não se importava nem um pouco. O que importava agora era que, finalmente, ele estava ali, com ela, e não havia mais caminho de volta.

E, de alguma forma, ele não queria que houvesse.