SAGA PAVANELLI LIVRO 2: O REENCONTRO

8 Segredos Revelados no Eco do Tempo



​A barriga de sete meses já pesava no corpo de Elise, mudando seu centro de gravidade e o próprio eixo que ela tanto defendia nos palcos. Para evitar os holofotes da mídia europeia, ela tomou uma decisão drástica: cancelou todas as aparições ao vivo, não dava mais entrevistas e recusava qualquer participação em coletivas de imprensa da companhia de Londres. Usava casacos de lã largos e sobretudos escuros sempre que precisava sair. Ela queria proteger aquele segredo com todas as suas forças.

​Naquela tarde de quinta-feira, Elise estava deitada na maca de uma clínica ginecológica particular de Londres. O gel gelado sobre seu ventre plano de outrora a fez dar um leve arrepio. Lucinda estava ao seu lado, segurando firmemente sua mão esquerda, com o olhar focado no monitor preto e branco.

​A obstetra movimentava o transdutor com paciência, até que a imagem borrada ganhou nitidez. O som do coraçãozinho ecoava pelo quarto, rápido e forte como o galopar de um cavalo selvagem.

​— Bem... vamos ver o que temos aqui — a médica disse com um sutil sotaque britânico, sorrindo ao congelar a imagem na tela. — Olhem aqui. É uma menina, senhorita Clark. Uma menininha perfeitamente saudável.

​Elise sentiu o peito explodir em uma emoção genuína. As lágrimas, que ela tanto prendeu nos últimos meses, rolaram livres pelo seu rosto, molhando as bochechas.

​— Uma menina, mãe... — Elise sussurrou, a voz embargada, apertando os dedos de Lucinda. — Eu vou ter uma filha.

​— Ela é linda, meu amor. Você vai ser uma mãe maravilhosa — Lucinda respondeu, também emocionada, limpando o rosto da filha com carinho.

​Uma semana depois, a necessidade de espairecer levou Elise a caminhar por um shopping de alto padrão no centro de Londres. Ela vestia um casaco cinza-claro bem folgado, mas que, dependendo do ângulo e do vento, deixava o formato arredondado de sua gestação evidente.

​Enquanto olhava a vitrine de uma loja de sapatos, uma voz feminina, carregada de sotaque carioca e total espanto, cortou o ar:

​— Elise?! Meu Deus... é você mesma?

​Elise virou-se assustada e deu de cara com Larissa. A amiga segurava duas sacolas de grife e tinha os olhos castanhos arregalados, fixos na silhueta da bailarina.

​— Larissa! Que surpresa... O que você está fazendo em Londres? — Elise perguntou, tentando instintivamente fechar mais o casaco ao redor do corpo.

​— Eu estou fazendo uma viagem curta de negócios pela empresa de moda da minha tia — Larissa explicou, mas sua atenção foi totalmente capturada quando o casaco de Elise se abriu ligeiramente, revelando a curva inconfundível de sete meses. Larissa levou a mão à boca, em puro choque. — Elise... você está grávida?! Meu Deus, você está enorme! Está quase ganhando, não está?

​Elise percebeu que não dava mais para esconder. Ela deu um sorriso contido, acariciando a barriga por cima do tecido.

​— É... estou sim, Larissa. É uma menina. Mas, por favor... eu te peço como amiga, não comente isso com ninguém no Brasil. É algo pessoal, estou vivendo essa fase de forma reservada aqui.

​Larissa, embora curiosa e cheia de perguntas, respeitou o semblante maduro e sério da ruiva.

​— Tudo bem, Elise. Seu segredo está guardado comigo. Mas você está linda, sério. Uma grávida radiante. Parabéns.

​Elise agradeceu e, após uma conversa rápida e superficial sobre os velhos tempos da escola, despediu-se, pegando um táxi de volta para o apartamento.

​O problema é que segredos guardados por amigos íntimos têm prazo de validade. Uma semana depois, de volta ao Rio de Janeiro, Larissa estava em uma festa de aniversário em uma casa noturna na Barra da Tijuca. A música estava alta, e ela conversava animadamente perto do balcão do bar com Murilo e Enzo.

​Lucian também estava lá, mas, fiel ao seu estilo ranzinza, permanecia um pouco afastado, encostado no balcão com um copo de uísque, observando o movimento com tédio.

​— Cara, vocês não sabem quem eu encontrei em Londres na semana passada — Larissa soltou, após dar um gole em seu drink. — A Elise!

​Ao ouvir o nome dela, Lucian travou o copo no ar. Seus olhos azuis focaram imediatamente em Larissa.

​— A Clark? Como ela está? Continua metida? — Enzo brincou, rindo.

​— Não, Enzo. Ela estava maravilhosa... e grávida! — Larissa revelou, sem notar a proximidade de Lucian. — Gente, a barriga dela está enorme. Uma grávida linda, já está com uns sete meses, quase ganhando o bebê. Fiquei em choque.

​O copo de uísque quase escorregou dos dedos de Lucian. O mundo ao seu redor pareceu silenciar. Sete meses.

​Ele deu um passo à frente, a mente trabalhando em uma velocidade assustadora, fazendo as contas cronológicas. Há exatamente dois meses e meio, eles haviam passado aquela noite ardente de amor e entrega no antigo quarto dela. Sete meses de gestação significavam que a concepção havia acontecido exatamente... naquela época. No Rio de Janeiro. Naquela única noite em que foram um do outro.

​O peito de Lucian inflou com uma mistura de choque, posse e uma urgência desesperada. Sem dizer uma palavra aos amigos, ele virou as costas, saiu da boate pisando fundo e entrou em seu carro.

​Ao chegar na mansão dos Pavanelli, Lucian subiu as escadas correndo e trancou-se em seu quarto. Ele pegou o celular com as mãos trêmulas, o maxilar sob o cavanhaque travado ao ponto de doer. Ele discou o número internacional de Elise. Sabia que em Londres já era madrugada, mas ele não se importava.

​O telefone chamou quatro vezes até que a voz sonolenta, mas firme, de Elise atendeu:

​— Alô... Quem é?

​— Sou eu, Elise — Lucian disparou, a voz grave, trêmula de adrenalina e autoridade. — Eu já sei. A Larissa te viu em Londres e me contou. Eu fiz as contas, Elise. Você está grávida de sete meses. Esse bebê... esse bebê é meu, não é? Responde!

​Houve um silêncio cortante do outro lado da linha. Elise sentou-se na cama, o coração martelando contra as costelas. O momento que ela tanto temia havia chegado. Ela respirou fundo, puxando a maturidade que o sofrimento lhe dera, e firmou a voz.

​— Esse bebê é meu, Lucian. Somente meu — ela respondeu, a voz fria como o inverno londrino.

​— Como assim seu, Elise?! — ele gritou no telefone, levantando-se e começando a andar pelo quarto, os músculos dos braços tensos. — Se você está de sete meses, você engravidou na noite em que a gente ficou junto aqui no Brasil! Eu sou o pai dessa criança e eu tenho o direito...

​— Você não tem direito a nada! — Elise o cortou, elevando o tom de voz, as lágrimas de mágoa acumulada transbordando. — Você quer falar de direitos agora? Esqueceu da nossa última conversa? Esqueceu que quando eu liguei para me despedir, tentando ser madura, você me tratou como um lixo? Você me mandou ir para o inferno, Lucian! Você gritou que me odiava e desligou na minha cara! O pai desse bebê mandou a mãe dele ir para o inferno. Então eu fui. E construí a minha vida aqui. Não me procura mais.

​Click.

​A ligação caiu. Lucian olhou para a tela do celular, o rosto vermelho de ódio, frustração e uma dor lancinante que rasgava seu peito.

​— Droga! — ele berrou, jogando o celular na parede com toda a sua força, fazendo o aparelho se espatifar em pedaços.

​Tomado por uma fúria cega, ele descontou a raiva desferindo um soco violento contra a porta de madeira do armário, fazendo a estrutura estalar. Ele escorou a testa contra a madeira, respirando arfante, os punhos cerrados sangrando levemente.

​O barulho estrondoso assustou Letícia, que estava no corredor. Ela abriu a porta do quarto do filho rapidamente, com o semblante tomado por uma profunda preocupação.

​— Lucian! Meu Deus, o que foi isso? Que destruição é essa no quarto? — ela perguntou, correndo até ele e tentando segurar suas mãos feridas.

​Lucian virou-se para a mãe, os olhos azuis inundados de lágrimas de puro desespero, a máscara de homem ranzinza totalmente destruída pela dor.

​— A Elise, mãe... — ele desabafou, a voz falhando em um sussurro embargado. — A Elise está grávida. Está esperando um bebê de sete meses. É meu, mãe... O filho é meu.

​Letícia cobriu a boca com as mãos, os olhos arregalados em choque diante da revelação.

​— Meu Deus, Lucian... E o que ela disse?

​— Ela disse que o bebê é só dela — Lucian rosnou, a amargura voltando a endurecer suas feições enquanto ele limpava o sangue do punho. — Ela disse que eu mandei ela pro inferno e que ela não me quer perto da criança. Ela me odeia, mãe... E ela vai ter o meu filho longe de mim.

​Letícia abraçou o filho com força, deixando que ele chorasse seu orgulho ferido contra o seu ombro. O destino havia lançado a carta mais difícil do jogo, e na mansão dos Pavanelli, o eco daquela briga do passado agora cobrava o preço mais alto de todos: a distância de uma nova vida que estava prestes a nascer.