​O som das turbinas do avião finalmente cessou quando a aeronave pousou no Aeroporto de Heathrow, em Londres. O céu britânico, fiel à sua fama, estava coberto por uma camada densa de nuvens cinzentas e uma garoa fina que insistia em esfriar o asfalto. Para Letícia e Lucian, aquela viagem não era a turismo; era uma missão de resgate de laços rompidos.

​Assim que passaram pela alfândega e pegaram as malas, Lucian já tateava o bolso à procura do celular, com os olhos azuis compenetrados e o maxilar rígido sob o cavanhaque. Ele estava ansioso, com os músculos dos braços tensos sob o casaco de couro.

​— Vou chamar um táxi direto para o endereço dela — Lucian cortou o silêncio, a voz grave e ríspida pela falta de sono. — Não vou perder tempo.

​Letícia parou de andar abruptamente no meio do saguão do aeroporto, segurando o braço do filho com firmeza. Ela olhou bem no fundo dos olhos dele, assumindo sua postura mais séria, tanto como mãe quanto como psicóloga.

​— Não, Lucian. Você não vai a lugar nenhum agora — ela determinou, a voz mansa, mas inabalável. — Nós vamos para o hotel. Você vai fazer o check-in, tomar um banho e ficar trancado naquele quarto. Eu preciso ir conversar com a Elise sozinha primeiro.

​— O quê?! Nem pensar! — ele rebateu, a postura ranzinza voltando com força total enquanto ele gesticulava com irritação. — O filho é meu, mãe! Eu cruzei o oceano para olhar na cara dela e...

​— E fazer o quê, Lucian? — Letícia o interrompeu, elevando sutilmente o tom. — Vai gritar com ela? Vai despejar mais esse seu orgulho ferido em cima de uma mulher grávida de sete meses? Olhe para você, está uma pilha de nervos! Se você aparecer na porta dela desse jeito, ela vai mandar a segurança te expulsar e nunca mais vai te deixar ver essa criança. A Elise está machucada por causa das coisas que você disse no telefone. Deixe que eu, como mãe, faça a ponte. Você fica no hotel. É a minha última palavra.

​Lucian travou os dentes, soltando o ar pelo nariz com força. Ele odiava admitir, mas a mãe estava certa. Ele passou a mão pelo cabelo, derrotado.

​— Tá... — ele rosnou, ríspido. — Eu fico no hotel. Mas não demore, mãe. Eu estou sufocando aqui.

​Mais tarde, o táxi deixou Letícia em frente ao condomínio de alto padrão onde Elise morava, com vista para o Rio Tâmisa. Com o coração batendo compassado, a psicóloga subiu pelo elevador e tocou a campainha do apartamento.

​Lá dentro, Elise estava esticada no grande sofá de linho da sala de estar. Ela vestia um moletom oversized cinza que cobria perfeitamente a sua enorme barriga de sete meses. Uma bacia de pipoca estava apoiada em suas pernas e a televisão exibia um programa britânico qualquer. O ambiente estava calmo, silencioso.

​Quando a campainha tocou, Elise franziu o cenho. Ela apoiou as mãos no sofá, impulsionando o corpo para levantar devagar devido ao peso da gestação, e caminhou até a entrada. Ao girar a maçaneta e abrir a porta, todo o sangue pareceu fugir do seu rosto. Ela ficou completamente pálida, os lábios entreabertos em puro choque.

​— Letícia... — Elise balbuciou, os olhos azuis arregalados. — O que... o que você está fazendo aqui em Londres?

​Letícia deu um sorriso terno, embora cansado, e estendeu as mãos para a filha adotiva.

​— Oi, minha menina. Posso entrar?

​Ainda atordoada, Elise deu um passo para trás, permitindo a entrada da mãe. Elas caminharam até a grande sala. Elise sentou-se na poltrona, abraçando uma almofada contra a barriga de forma defensiva, enquanto Letícia acomodou-se no sofá à sua frente.

​— Ele veio com você, não veio? — Elise disparou, a voz trêmula de mágoa e ansiedade. — O Lucian está aqui em Londres?

​— Sim, Elise, ele veio — Letícia confessou com franqueza. — Mas ele está no hotel. Eu exigi que ele ficasse lá porque sabia que você precisava de espaço. Elise, nós precisamos conversar sobre essa situação. O Lucian está destruído. Ele sabe que errou com você no telefone, mas ele é o pai.

​A menção ao nome dele acendeu uma faísca de revolta no peito de Elise. A maturidade que havia conquistado deu lugar a uma postura rígida de proteção à filha que carregava.

​— Ele está destruído, Letícia? E como você acha que eu me senti? — Elise questionou, as lágrimas de frustração começando a arder em seus olhos. — Ele passou cinco anos me culpando por ter ido embora, me chamando de egoísta, e na última vez que eu tentei uma trégua, ele mandou eu ir para o inferno! Ele me descartou como se eu não fosse nada! E agora que descobriu a gravidez por terceiros, ele acha que pode pegar um avião, bater na minha porta e exigir direitos de pai? Não é assim que as coisas funcionam!

​Letícia ouviu tudo em silêncio, balançando a cabeça em compreensão, mas não recuou.

​— Eu sei, meu amor. Eu não tiro a sua razão. O Lucian é ranzinza, é orgulhoso e age de forma estúpida quando está com medo de ser rejeitado. Eu dei uma bronca tremenda nele. Mas pense na sua filha, Elise. Você realmente quer que ela cresça sem saber o que é o amor de um pai porque vocês dois são orgulhosos demais para conversar? O Lucian ama você, ele só não sabe como lidar com a distância.

​— Isso não é amor, Letícia, isso é posse! — Elise rebateu, a discussão elevando o tom na sala. — Eu não vou deixar ele entrar aqui, com aquela cara ranzinza, estragar a paz dos meus últimos meses de gravidez. Eu não quero estresse perto da minha filha! Eu mudei, eu cresci, eu não sou mais a menina boba do orfanato que aceitava qualquer migalha de atenção!

​A discussão se estendeu por quase uma hora. Elise desabafava toda a mágoa acumulada, enquanto Letícia, com paciência e sensibilidade, desarmava as defesas da bailarina, lembrando-a de que, apesar de todos os defeitos, Lucian nunca seria um pai ausente por escolha própria.

​Por fim, exausta e com o peito subindo e descendo pelo esforço da conversa, Elise passou a mão pelo rosto, limpando as lágrimas. Ela olhou para a mãe adotiva com um semblante firme e resoluto.

​— Tudo bem, Letícia. Eu vou te dar uma única resposta, e você vai levar exatamente isso para ele — Elise determinou, a resposta na ponta da língua. — Eu aceito o Lucian perto. Mas somente quando o bebê nascer. Até lá, eu quero paz. Eu não quero ele me ligando, não quero ele vindo na minha porta e não quero ele nos meus ensaios. Quando a minha filha estiver nos meus braços, ele pode vir e exercer o papel dele. Antes disso, não. É pegar ou largar.

​Letícia olhou para a determinação nos olhos de Elise e soube que aquela era a maior concessão que conseguiria. Ela se levantou, caminhou até a jovem e a abraçou com carinho.

​— Obrigada por isso, Elise. É um começo. Vou falar com ele.

​Mais tarde, no quarto do hotel, Lucian andava de um lado para o outro como um leão enjaulado. A calça jeans e a camiseta escura pareciam apertadas demais para a sua ansiedade. Quando a porta do quarto finalmente se abriu e Letícia entrou, ele praticamente voou na direção da mãe.

​— E então? — ele exigiu, a voz grave e trêmula de expectativa. — Como ela está? O que ela disse? Ela me deixou ir lá?

​Letícia fechou a porta, suspirou profundamente e jogou a bolsa sobre a cama. Ela olhou para o filho com uma expressão séria.

​— Sente-se, Lucian.

​— Não quero sentar, mãe! Me diz logo! — ele rosnou, o gênio ranzinza falando mais alto.

​— Pois deveria, porque a resposta não é a que você quer — Letícia disparou, fazendo-o travar. — A Elise aceitou que você fique perto da criança. Mas com uma condição inabalável: só quando o bebê nascer. Até lá, ela não quer te ver, não quer te ouvir e quer total distância de você. Ela quer paz para os últimos meses de gestação.

​A resposta atingiu o orgulho de Lucian como um soco. Seus olhos azuis faiscaram de revolta e ele sentiu o sangue subir para o rosto.

​— O quê?! Só quando nascer? Ela enlouqueceu?! — ele gritou, revoltado, desferindo um soco contra o colchão da cama. — Ela vai me proibir de acompanhar o final da gravidez do meu próprio filho? Isso é um absurdo! Eu estou aqui em Londres, eu tenho o direito de...

​— Você não tem direito a nada, Lucian! — Letícia o cortou com autoridade, fazendo-o calar a boca. — Você colheu o que plantou quando mandou ela para o inferno no telefone. A Elise não é mais aquela menina indefesa que você controlava com o seu mau humor. Ela é uma mulher madura, mãe, e está protegendo a filha dela. Se você quebrar essa promessa e for atrás dela agora, você destrói qualquer chance de futuro. É a condição dela. Você aceita ou volta para o Brasil sem nada.

​Lucian travou o maxilar com tanta força que os músculos de seu rosto desenharam-se nitidamente. Ele respirou fundo, os punhos cerrados contra as coxas. O ódio por ser obrigado a esperar misturava-se com a dor da distância, mas, no fundo de sua alma, o amor por Elise e por aquela nova vida falou mais alto do que seu gênio difícil.

​— Tá... — ele murmurou por entre os dentes, a voz rouca e cheia de uma raiva contida. — Eu aceito. Eu espero essa criança nascer. Mas depois disso... ela vai ter que me ouvir.

​Lucian caminhou até a janela do hotel, olhando para a chuva de Londres que caía lá fora, com o coração acelerando de revolta, mas aceitando que, pelo bem do seu filho, o homem ranzinza teria que aprender a dançar no ritmo do tempo de Elise.