​O retorno ao Brasil foi um teste de resistência para o temperamento de Lucian. De volta à sua rotina como professor de educação física no colégio, ele parecia ainda mais distante e ranzinza, descontando sua ansiedade nos treinos pesados que aplicava aos alunos. Cumprindo a promessa feita a Letícia e a Elise, ele não ligou, não mandou mensagens e tentou respeitar o espaço dela, aguardando o aviso do nascimento.

​No entanto, manter um segredo daquele tamanho no mundo do balé internacional era impossível. Duas semanas após a partida de Lucian de Londres, a imprensa britânica finalmente descobriu a gestação da primeira bailarina da Royal Ballet School. A notícia correu o mundo.

​Numa tarde de sexta-feira, Lucian estava sentado na sala dos professores, com o cenho franzido, corrigindo alguns relatórios. O burburinho ao redor cessou quando o canal de entretenimento na televisão suspensa no canto da sala focou em uma coletiva de imprensa ao vivo em Londres.

​— Olha lá, Pavanelli, não é a sua irmã adotiva? — um dos professores comentou, apontando para a tela.

​Lucian ergueu os olhos azuis rapidamente. Seu coração deu um solavanco. Elise estava na tela. Ela havia quebrado o isolamento para dar uma entrevista sobre o novo projeto de caça a novos talentos da escola de dança. Trajando um vestido de tricô longo e elegante que abraçava perfeitamente o seu barrigão imenso de reta final de gestação, ela irradiava uma beleza madura e serena.

​No final da entrevista, a repórter britânica sorriu, direcionando o microfone para a ruiva:

​— Bailarina Clark, o mundo inteiro está encantado com a sua nova fase. Já sabemos que é uma menina, mas os fãs querem saber: o nome já foi escolhido?

​Elise sorriu para a câmera, levando a mão delicadamente à curva do ventre, os olhos brilhando.

​— Ainda não escolhi o nome oficial. Quero olhar para o rostinho dela primeiro. Mas prometo que assim que ela nascer, o mundo vai saber — Elise respondeu com doçura. Ela posou para mais algumas fotos dos jornalistas, esbanjando simpatia, e seguiu saindo do local escoltada pela segurança.

​Lucian continuou olhando para a televisão, completamente encantado e hipnotizado. Ela estava grávida, linda e carregava a filha dele nos braços cênicos da televisão. Naquele exato segundo, a promessa de esperar no Brasil virou fumaça diante do instinto de proteção e da saudade avassaladora. Ele fechou o caderno de notas com um estrondo, levantou-se da cadeira e pegou sua jaqueta.

​— Pavanelli? Onde você vai? Ainda tem o treino do terceiro ano! — o diretor chamou.

​— Cancele o treino. Eu preciso pegar um voo — Lucian disparou, a voz grave e determinada enquanto marchava para fora da escola. Ele não ia esperar mais nenhum segundo.

​Mais de onze horas de voo depois, Lucian desembarcou em Londres. Ele pegou um táxi direto para o condomínio de alto padrão de Elise. Graças à intervenção anterior de Letícia, ele tinha o código de acesso do andar.

​Quando o táxi o deixou, ele subiu pelo elevador com o coração parecendo uma bateria de escola de samba no peito. Ao tocar a campainha, quem abriu a porta foi a doutora Lucinda Clark. Ao ver o rapaz alto, forte, de barba feita e olhar azul desesperado na sua frente, a médica suspirou, reconhecendo o rosto que a filha tanto tentava esquecer.

​— Você deve ser o Lucian — Lucinda disse com a voz mansa, dando espaço para ele entrar. — A Elise não está. Ela foi até a academia de dança resolver as últimas burocracias do afastamento da maternidade. Pode esperar na sala.

​Cerca de quarenta minutos depois, o som da fechadura da porta principal indicou que a dona da casa havia chegado. Elise entrou no apartamento segurando uma pasta de documentos. Ela vestia um casaco leve e uma calça de moletom confortável, a barriga de impressionantes trinta e oito semanas deixando seus passos visivelmente mais lentos e cansados.

​— Mãe? Cheguei — Elise chamou, deixando as chaves no aparador.

​Lucinda apareceu no corredor com um semblante cauteloso.

​— Oi, querida. Que bom que chegou. Você... tem uma visita te esperando na sala.

​Elise franziu o cenho, caminhando devagar até a grande sala de estar. Assim que seus olhos cruzaram o ambiente e pousaram na figura de Lucian, que se levantou imediatamente do sofá, o impacto foi violento. O rosto de Elise perdeu a cor por um segundo, sendo substituído logo em seguida por uma onda de puro estresse e indignação.

​— O que você está fazendo aqui?! — Elise explodiu, a voz subindo de tom, as mãos trêmulas de pura raiva enquanto ela jogava a pasta sobre a mesa de centro. — Você enlouqueceu, Lucian?! Eu te dei uma ordem clara através da Letícia! Eu disse que só queria você perto quando o bebê nascesse! Você quebrou o nosso acordo! Eu juro que tenho vontade de te matar!

​Lucian deu dois passos à frente, mantendo as mãos abertas em um sinal de paz. O olhar ranzinza havia desaparecido, dando lugar a uma expressão de profunda vulnerabilidade e arrependimento.

​— Elise, por favor, me escuta! — ele pediu, a voz grave e trêmula, os olhos azuis fixos na imensidão daquela barriga que guardava a filha deles. — Eu vi a sua entrevista na televisão hoje cedo no Brasil. Eu vi você falando dela, vi o quanto você está linda... e eu simplesmente não consegui ficar longe. O meu peito parecia que ia rasgar. Eu sei que fui um idiota completo no telefone naquelas últimas vezes. Eu te tratei mal porque o meu orgulho estava sangrando por você ter ido embora de novo. Eu te peço perdão, Elise. De joelhos, se você quiser. Eu só quero estar aqui para proteger vocês duas.

​Elise respirou fundo, levando a mão às costas, sentindo o peso das trinta e oito semanas de gestação. O estresse fazia sua cabeça latejar, mas ver o arrependimento sincero nos olhos do homem que ela amava desarmou parte de sua fúria, embora o orgulho dela continuasse firme.

​— Você não tem noção do que faz, Lucian... — ela disse, a voz mais controlada, mas cheia de uma seriedade madura. — Eu estou na reta final, posso dar à luz a qualquer momento e a última coisa que eu precisava era do seu gênio ranzinza testando os meus limites. Mas já que você cruzou o oceano e está aqui... eu não vou te expulsar no meio dessa garoa de Londres. Você pode ficar na mansão. Mas com uma condição: bem longe de mim. Você vai ficar no seu canto, vai respeitar o meu espaço e só vai se aproximar quando essa menina nascer. Entendido?

​Lucian engoliu em seco, sentindo um alívio imenso cobrir seu peito. Ele assentiu com a cabeça rapidamente.

​— Entendido, Elise. Eu vou respeitar o seu tempo, eu prometo. Obrigado por me deixar ficar.

​Sem dizer mais nada, mantendo a postura firme de primeira bailarina e futura mãe, Elise virou as costas lentamente e caminhou em direção ao corredor, entrando em seu quarto e trancando a porta com um estalo seco, buscando o seu próprio refúgio.

​Lucinda, que assistia a tudo da copa, aproximou-se de Lucian com um sorriso compreensivo. Ela tocou o ombro do rapaz com carinho.

​— Venha, Lucian. Vou te mostrar o quarto de hóspedes onde você vai ficar — a médica disse, guiando-o pelo lado oposto do apartamento. Ao abrir a porta de um cômodo amplo, aconchegante e com uma bela vista da cidade, ela se virou para ele. — O que você precisar, seja comida, toalhas ou apenas conversar, é só falar comigo. Sei que o começo é difícil, mas o amor de vocês é forte demais para ser quebrado por orgulho.

​— Obrigado, doutora Lucinda. De verdade — Lucian agradeceu, deixando sua mala no chão.

​Sozinho no quarto de hóspedes, Lucian caminhou até a janela. O reflexo do vidro mostrava o seu rosto maduro, o bigode e o cavanhaque sexy, mas seus pensamentos estavam todos no final daquele corredor. Ele estava sob o mesmo teto que ela. O bebê estava prestes a nascer, e o professor ranzinza do Brasil sabia que, a partir daquele momento, a sua vida ganharia o ritmo mais importante de todos. Ele estava pronto para o recomeço.