SAGA PAVANELLI LIVRO 2: O REENCONTRO
10 O Retorno do Capitão
O retorno ao Brasil foi um teste de resistência para o temperamento de Lucian. De volta à sua rotina como professor de educação física no colégio, ele parecia ainda mais distante e ranzinza, descontando sua ansiedade nos treinos pesados que aplicava aos alunos. Cumprindo a promessa feita a Letícia e a Elise, ele não ligou, não mandou mensagens e tentou respeitar o espaço dela, aguardando o aviso do nascimento.
No entanto, manter um segredo daquele tamanho no mundo do balé internacional era impossível. Duas semanas após a partida de Lucian de Londres, a imprensa britânica finalmente descobriu a gestação da primeira bailarina da Royal Ballet School. A notícia correu o mundo.
Numa tarde de sexta-feira, Lucian estava sentado na sala dos professores, com o cenho franzido, corrigindo alguns relatórios. O burburinho ao redor cessou quando o canal de entretenimento na televisão suspensa no canto da sala focou em uma coletiva de imprensa ao vivo em Londres.
— Olha lá, Pavanelli, não é a sua irmã adotiva? — um dos professores comentou, apontando para a tela.
Lucian ergueu os olhos azuis rapidamente. Seu coração deu um solavanco. Elise estava na tela. Ela havia quebrado o isolamento para dar uma entrevista sobre o novo projeto de caça a novos talentos da escola de dança. Trajando um vestido de tricô longo e elegante que abraçava perfeitamente o seu barrigão imenso de reta final de gestação, ela irradiava uma beleza madura e serena.
No final da entrevista, a repórter britânica sorriu, direcionando o microfone para a ruiva:
— Bailarina Clark, o mundo inteiro está encantado com a sua nova fase. Já sabemos que é uma menina, mas os fãs querem saber: o nome já foi escolhido?
Elise sorriu para a câmera, levando a mão delicadamente à curva do ventre, os olhos brilhando.
— Ainda não escolhi o nome oficial. Quero olhar para o rostinho dela primeiro. Mas prometo que assim que ela nascer, o mundo vai saber — Elise respondeu com doçura. Ela posou para mais algumas fotos dos jornalistas, esbanjando simpatia, e seguiu saindo do local escoltada pela segurança.
Lucian continuou olhando para a televisão, completamente encantado e hipnotizado. Ela estava grávida, linda e carregava a filha dele nos braços cênicos da televisão. Naquele exato segundo, a promessa de esperar no Brasil virou fumaça diante do instinto de proteção e da saudade avassaladora. Ele fechou o caderno de notas com um estrondo, levantou-se da cadeira e pegou sua jaqueta.
— Pavanelli? Onde você vai? Ainda tem o treino do terceiro ano! — o diretor chamou.
— Cancele o treino. Eu preciso pegar um voo — Lucian disparou, a voz grave e determinada enquanto marchava para fora da escola. Ele não ia esperar mais nenhum segundo.
Mais de onze horas de voo depois, Lucian desembarcou em Londres. Ele pegou um táxi direto para o condomínio de alto padrão de Elise. Graças à intervenção anterior de Letícia, ele tinha o código de acesso do andar.
Quando o táxi o deixou, ele subiu pelo elevador com o coração parecendo uma bateria de escola de samba no peito. Ao tocar a campainha, quem abriu a porta foi a doutora Lucinda Clark. Ao ver o rapaz alto, forte, de barba feita e olhar azul desesperado na sua frente, a médica suspirou, reconhecendo o rosto que a filha tanto tentava esquecer.
— Você deve ser o Lucian — Lucinda disse com a voz mansa, dando espaço para ele entrar. — A Elise não está. Ela foi até a academia de dança resolver as últimas burocracias do afastamento da maternidade. Pode esperar na sala.
Cerca de quarenta minutos depois, o som da fechadura da porta principal indicou que a dona da casa havia chegado. Elise entrou no apartamento segurando uma pasta de documentos. Ela vestia um casaco leve e uma calça de moletom confortável, a barriga de impressionantes trinta e oito semanas deixando seus passos visivelmente mais lentos e cansados.
— Mãe? Cheguei — Elise chamou, deixando as chaves no aparador.
Lucinda apareceu no corredor com um semblante cauteloso.
— Oi, querida. Que bom que chegou. Você... tem uma visita te esperando na sala.
Elise franziu o cenho, caminhando devagar até a grande sala de estar. Assim que seus olhos cruzaram o ambiente e pousaram na figura de Lucian, que se levantou imediatamente do sofá, o impacto foi violento. O rosto de Elise perdeu a cor por um segundo, sendo substituído logo em seguida por uma onda de puro estresse e indignação.
— O que você está fazendo aqui?! — Elise explodiu, a voz subindo de tom, as mãos trêmulas de pura raiva enquanto ela jogava a pasta sobre a mesa de centro. — Você enlouqueceu, Lucian?! Eu te dei uma ordem clara através da Letícia! Eu disse que só queria você perto quando o bebê nascesse! Você quebrou o nosso acordo! Eu juro que tenho vontade de te matar!
Lucian deu dois passos à frente, mantendo as mãos abertas em um sinal de paz. O olhar ranzinza havia desaparecido, dando lugar a uma expressão de profunda vulnerabilidade e arrependimento.
— Elise, por favor, me escuta! — ele pediu, a voz grave e trêmula, os olhos azuis fixos na imensidão daquela barriga que guardava a filha deles. — Eu vi a sua entrevista na televisão hoje cedo no Brasil. Eu vi você falando dela, vi o quanto você está linda... e eu simplesmente não consegui ficar longe. O meu peito parecia que ia rasgar. Eu sei que fui um idiota completo no telefone naquelas últimas vezes. Eu te tratei mal porque o meu orgulho estava sangrando por você ter ido embora de novo. Eu te peço perdão, Elise. De joelhos, se você quiser. Eu só quero estar aqui para proteger vocês duas.
Elise respirou fundo, levando a mão às costas, sentindo o peso das trinta e oito semanas de gestação. O estresse fazia sua cabeça latejar, mas ver o arrependimento sincero nos olhos do homem que ela amava desarmou parte de sua fúria, embora o orgulho dela continuasse firme.
— Você não tem noção do que faz, Lucian... — ela disse, a voz mais controlada, mas cheia de uma seriedade madura. — Eu estou na reta final, posso dar à luz a qualquer momento e a última coisa que eu precisava era do seu gênio ranzinza testando os meus limites. Mas já que você cruzou o oceano e está aqui... eu não vou te expulsar no meio dessa garoa de Londres. Você pode ficar na mansão. Mas com uma condição: bem longe de mim. Você vai ficar no seu canto, vai respeitar o meu espaço e só vai se aproximar quando essa menina nascer. Entendido?
Lucian engoliu em seco, sentindo um alívio imenso cobrir seu peito. Ele assentiu com a cabeça rapidamente.
— Entendido, Elise. Eu vou respeitar o seu tempo, eu prometo. Obrigado por me deixar ficar.
Sem dizer mais nada, mantendo a postura firme de primeira bailarina e futura mãe, Elise virou as costas lentamente e caminhou em direção ao corredor, entrando em seu quarto e trancando a porta com um estalo seco, buscando o seu próprio refúgio.
Lucinda, que assistia a tudo da copa, aproximou-se de Lucian com um sorriso compreensivo. Ela tocou o ombro do rapaz com carinho.
— Venha, Lucian. Vou te mostrar o quarto de hóspedes onde você vai ficar — a médica disse, guiando-o pelo lado oposto do apartamento. Ao abrir a porta de um cômodo amplo, aconchegante e com uma bela vista da cidade, ela se virou para ele. — O que você precisar, seja comida, toalhas ou apenas conversar, é só falar comigo. Sei que o começo é difícil, mas o amor de vocês é forte demais para ser quebrado por orgulho.
— Obrigado, doutora Lucinda. De verdade — Lucian agradeceu, deixando sua mala no chão.
Sozinho no quarto de hóspedes, Lucian caminhou até a janela. O reflexo do vidro mostrava o seu rosto maduro, o bigode e o cavanhaque sexy, mas seus pensamentos estavam todos no final daquele corredor. Ele estava sob o mesmo teto que ela. O bebê estava prestes a nascer, e o professor ranzinza do Brasil sabia que, a partir daquele momento, a sua vida ganharia o ritmo mais importante de todos. Ele estava pronto para o recomeço.
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