​Os dias seguintes no apartamento de Londres foram uma dança silenciosa de esquiva e vigilância. Lucian cumpria sua promessa, mas seus olhos azuis seguiam Elise de longe a cada segundo em que ela cruzava a sala. Ele a observava segurar a barriga pesada, caminhar com passos lentos e ler seus livros sobre maternidade. Elise, por sua vez, mantinha a guarda alta; sempre que percebia a aproximação dele, desviava o caminho, entrava na cozinha por outra porta ou recolhia-se para o quarto. Ela evitava bater de frente com o homem que ainda desitabilizava todas as suas estruturas.

​No entanto, a imprensa de celebridades de Londres não descansava. Um paparazzo flagrou Lucian saindo do prédio para comprar café e, em menos de 24 horas, as revistas de fofoca descobriram a identidade do misterioso homem brasileiro: ele era o pai do bebê. Sabendo do impacto da notícia, a diretoria da revista de moda mais prestigiada da Europa entrou em contato com a assessoria da Royal Ballet, oferecendo uma proposta irrecusável: um ensaio fotográfico exclusivo de capa com a primeira bailarina e o pai de sua filha.

​Ao receber a proposta através de Lucinda, o primeiro instinto de Elise foi o de negar veementemente. Ela não queria expor sua intimidade, muito menos ao lado dele. Mas, naquela noite, sentada na penumbra do seu quarto, olhando para o ventre de trinta e oito semanas, Elise mudou de ideia. Ela pensou no futuro. Pensou na filha, quando estivesse mais velha, folheando um álbum e querendo ver registros bonitos de como os pais estavam ansiosos pela sua chegada, independentemente das tempestades que enfrentavam. Pela menina, ela faria aquilo.

​Com passos vagarosos, Elise caminhou até o final do corredor e parou em frente ao quarto de hóspedes. Ela respirou fundo e bateu duas vezes.

​A porta abriu-se imediatamente. Lucian estava sem camisa, usando apenas uma calça de moletom, com os cabelos levemente bagunçados. Ao ver a ruiva ali, voluntariamente na sua porta, seus olhos brilharam.

​— Elise... Aconteceu alguma coisa? Você está sentindo alguma dor? — ele perguntou com uma urgência genuína, dando um passo à frente.

​— Eu estou bem, Lucian. Só vim te dar um aviso — ela respondeu, mantendo a voz firme e o olhar fixo no rosto dele para não se distrair com o peito definido do namorado. — Amanhã de manhã, nós temos um ensaio fotográfico para uma revista de grande circulação aqui de Londres. Eles descobriram que você está na cidade. Eu ia dizer não, mas... decidi aceitar pela nossa filha. Quero que ela tenha essa memória. O carro passa aqui às nove. Esteja pronto.

​Lucian assimilou a informação e deu um meio sorriso contido, o cavanhaque emoldurando seus lábios de forma terna.

​— Se é por ela, e por você... eu topo qualquer coisa, baixinha. Estarei pronto.

​Elise apenas assentiu com a cabeça, segurando a barra do casaco.

​— Boa noite, Lucian.

​Ela virou as costas e retirou-se para o seu quarto, deixando o professor de educação física sozinho na penumbra, sentindo o peito aquecer com aquela pequena rachadura na armadura da mulher que amava.

​No dia seguinte, o estúdio fotográfico estava fervilhando de profissionais. Araras de roupas elegantes, luzes difusas de estúdio e uma enorme janela de vidro que revelava a névoa de Londres ao fundo criavam uma atmosfera de cinema. Elise usava um vestido longo de seda azul-marinho que fluía ao redor de suas curvas de gestante, enquanto Lucian vestia um terno cinza-escuro bem cortado, que ressaltava seus ombros largos e sua postura atlética.

​— Perfeito! Agora, por favor, fiquem mais próximos — o fotógrafo britânico pedia de trás da lente, gesticulando com as mãos. — Quero poses apaixonadas, o mais natural possível. Senhor Pavanelli, por favor, fique atrás dela. Envolva o ventre da sua esposa com as mãos e cole o seu rosto no dela. Fechem os olhos.

​Lucian seguiu as instruções. Ele deu um passo à frente e colou as costas de Elise contra o seu peito musculoso. Suas mãos grandes e quentes espalmaram-se sobre a enorme barriga de trinta e oito semanas, acariciando o ventre onde a filha deles descansava. Ele inclinou o rosto, enterrando o nariz na curva do pescoço ruivo de Elise, respirando o perfume de lavanda dela.

​No segundo em que o corpo dele tocou o dela, Elise sentiu um choque elétrico. Seu coração disparou de forma violenta, martelando contra as costelas. O calor das mãos de Lucian em sua pele parecia queimar o tecido do vestido. Ela tentou manter a postura profissional de primeira bailarina, mas a proximidade daquele homem a desarmava por completo.

​— Excelente! Agora olhem um para o outro... aproximem os lábios... sintam a conexão — o fotógrafo comandava, o som dos cliques da câmera preenchendo o estúdio.

​Elise virou o rosto para o lado, e seus olhos azuis colaram-se nos de Lucian. A distância entre eles era de milímetros. Ela viu a verdade crua, o desejo e a adoração estampados no olhar dele. O clima de romance planejado virou realidade pura. Quebrando qualquer barreira de estúdio, Lucian eliminou o espaço restante e colou seus lábios nos dela.

​O beijo começou suave, carregado de uma saudade implacável, mas logo se aprofundou. Elise soltou um suspiro baixo contra a boca dele e correspondeu, esquecendo-se das câmeras, dos flashes e dos profissionais ao redor. Era o gosto dele, o toque dele.

​No entanto, assim que o fotógrafo soltou um murmúrio de aprovação, a realidade bateu na mente de Elise como um balde de água fria. O pânico de reviver toda a dor do passado a dominou. Ela afastou-se abruptamente de Lucian, com a respiração arfante e o rosto corado.

​— Chega... Eu preciso ir — ela balbuciou para a equipe, recolhendo a saia do vestido.

​Sem dar explicações, Elise caminhou apressada até o camarim, trocou de roupa em tempo recorde e correu para a saída do estúdio. Ela pegou o carro alugado e dirigiu de volta para o apartamento em alta velocidade, as lágrimas borrando sua visão. Ao entrar em casa, correu direto para o seu quarto e trancou a porta com duas voltas na chave, desabando no choro contra a madeira.

​Cerca de meia hora depois, a porta principal do apartamento bateu. Passos largos e decididos cruzaram o corredor. Lucian havia pegado um táxi logo atrás dela. Ele parou em frente à porta trancada de Elise, com o peito subindo e descendo com força, recusando-se a ser afastado outra vez.

​Ele apoiou as duas mãos na madeira da porta e, mesmo sabendo que ela estava trancada lá dentro, começou a falar. Sua voz saiu grave, embargada por uma emoção que ele guardava há anos.

​— Elise... eu sei que você está aí me ouvindo. Por favor, não foge de mim outra vez — ele pediu, a voz colada à fresta da madeira. — Aquele beijo no estúdio... nada daquilo foi encenação. Você sabe disso. Eu te amo, baixinha. Eu te amo desde a época em que a gente era jovem, desde quando você era aquela menina tímida que dançava pelos cantos da escola e eu fazia de tudo para chamar a sua atenção com o meu jeito ranzinza. Eu passei os últimos cinco anos fingindo que te odiava só porque a dor de te ver ir embora arrancou um pedaço do meu peito. Eu não aguento mais essa distância entre a gente.

​Lá dentro, Elise estava sentada na beira da cama, com as mãos cobrindo a boca, ouvindo cada palavra. Seu peito subia e descendo com força, os soluços suavizando diante da declaração dele.

​— Abre essa porta, por favor... — Lucian suplicou, a voz rouca de emoção.

​Um suspiro profundo escapou dos lábios de Elise. Ela levantou-se devagar, caminhou até a porta e girou a chave. Ao abrir a madeira, ela deparou-se com o homem da sua vida, com os olhos azuis úmidos e o semblante totalmente desarmado de qualquer orgulho.

​Elise cruzou os braços sobre a barriga, olhando-o com uma maturidade dolorosa.

​— Eu não quero você aqui só porque eu estou grávida, Lucian — ela confessou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Eu não quero que você sinta a obrigação de me amar ou de estar comigo só porque nós vamos ter uma filha. Eu sou uma mulher independente agora, eu sei me virar sozinha. Se for por pena ou por dever, você pode voltar para o Brasil amanhã.

​Lucian deu um passo à frente, entrando no quarto sem pedir licença. Ele segurou o rosto de Elise com as duas mãos grandes, os polegares limpando as lágrimas das bochechas dela com uma delicadeza extrema.

​— Olha bem para mim, Elise — ele determinou, o olhar azul penetrante fixo no dela. — Você acha mesmo que eu cruzei o oceano, que aguentei o seu gelo e que estou aqui agora por obrigação? Eu largo tudo no Brasil por você, baixinha. Largo o meu emprego no colégio, largo a minha rotina, largo tudo. É o que eu deveria ter feito desde o começo, há cinco anos, quando você me estendeu a mão e eu fui um covarde orgulhoso. Eu quero construir a minha vida aqui com você, ou em qualquer lugar do mundo, desde que seja do seu lado. Eu amo você. Não pela gravidez... mas porque você é a dona do meu coração.

​O impacto daquelas palavras quebrou a última resistência que Elise sustentava. O amor que sobrevivera ao tempo, à distância e à mágoa finalmente venceu o orgulho mútuo.

​— Lucian... — ela sussurrou, entregando-se.

​Lucian a puxou para os seus braços com possessividade e cuidado, colando seus lábios em um beijo profundo, lento e cheio de promessas de recomeço. Com movimentos cuidadosos por conta das trinta e oito semanas de gestação, ele a conduziu até a cama de casal. Na penumbra do quarto de Londres, as roupas caíram como as velhas mágoas do passado. Eles se amaram com uma entrega madura, intensa e repleta de carinho, selando de uma vez por todas o ritmo perfeito da união que o destino havia desenhado para eles.