​Os dias que se seguiram ao reencontro pareceram correr em um compasso de pura magia. Lucian e Elise aproveitavam cada minuto juntos no apartamento de Londres, tentando recuperar o tempo perdido. O professor ranzinza havia se transformado no grude mais ciumento e protetor do mundo: ele cozinhava (ou tentava), massageava os pés inchados de Elise e conversava com a barriga todas as noites, fazendo a ruiva rir com suas teimosias sobre futebol e educação física.

​Até que, no meio de uma madrugada fria, o compasso mudou.

​Elise acordou com uma pontada aguda e uma sensação de humidade nos lençóis. Ela sentou-se devagar, sentindo o abdômen endurecer como pedra.

​— Lucian... — ela chamou, cutucando o ombro do namorado, que dormia pesado ao seu lado. — Lucian, acorda.

​— Hum... que foi, baixinha? Quer água? Pipoca? — ele resmungou, meio sonolento, com o braço cobrindo os olhos.

​— Não, Lucian. A bolsa estourou. A nossa filha vai nascer.

​O efeito daquelas palavras foi instantâneo. Lucian deu um salto da cama como se tivesse levado um choque elétrico. Em sua mente de professor de educação física, o "modo pânico" foi ativado, mas de um jeito totalmente atrapalhado.

​— Estourou?! Meu Deus! Calma, não entra em pânico! — ele gritava, correndo em círculos pelo quarto, vestindo a calça de moletom ao avesso. — Onde estão as malas? Onde está a doutora Lucinda? Cadê a minha jaqueta? Elise, respira em quatro tempos! Inspira, expira!

​Elise, apesar da dor da primeira contração real, não conseguiu conter a risada diante do desespero dele.

​— Lucian, para de correr! A mala está no closet e a minha mãe está no quarto ao lado. Vai chamar ela, por favor!

​— Certo! Chamar a sogra. Pegar a mala. Não desmaiar — ele murmurou para si mesmo, tropeçando no próprio chinelo antes de sair voando pelo corredor, gritando por Lucinda.

​O trajeto até o hospital foi uma comédia à parte. Lucian tentava acalmar Elise fazendo os exercícios de respiração que usava com seus atletas no Brasil, respirando tão alto e de forma tão exagerada que a própria médica plantonista no hospital teve que pedir para ele se acalmar para não hiperventilar.

​O trabalho de parto na sala de maternidade do hospital de Londres foi longo e exaustivo, mas repleto de uma emoção avassaladora. Lucian não soltou a mão de Elise por um único segundo. Sempre que uma contração mais forte vinha, ele esquecia o gênio ranzinza, colava sua testa na dela e sussurrava palavras de incentivo, do mesmo jeito que fazia nos bastidores do teatro.

​— Vamos lá, baixinha... você é a primeira bailarina. Você comanda esse palco. Força, meu amor — ele pedia, com os olhos azuis marejados.

​Após um último esforço focado, um choro alto, agudo e cheio de vida ecoou pela sala de parto, silenciando o cansaço do ambiente. A médica limpou a recém-nascida rapidamente e a colocou direto sobre o peito nu de Elise.

​O mundo simplesmente parou para os dois.

​A bebê era pequenina, de pele rosada, com alguns fios de cabelo que já davam indícios de que seriam ruivos como os da mãe, e os olhos, ao se abrirem minimamente, revelaram a mesma tonalidade azul-intensa de Lucian. Elise desabou em um pranto copioso de pura gratidão, acariciando as costas minúsculas da filha.

​Lucian inclinou-se sobre as duas, com as lágrimas rolando livres pelo seu cavanhaque. Ele beijou a testa de Elise e depois tocou o pezinho da filha com o dedo indicador, completamente bobo e hipnotizado.

​— Ela é perfeita, Elise... Minha nossa, ela é a coisa mais linda do mundo — ele sussurrou, com a voz embargada.

​A enfermeira aproximou-se sorrindo, preparando a pulseira de identificação da maternidade.

​— Congratulations! She is beautiful. Do you have a name for her? (Parabéns! Ela é linda. Vocês já têm um nome para ela?) — a profissional perguntou em inglês.

​Elise olhou para Lucian. Eles não haviam fechado um nome oficial, mas a resposta parecia estar desenhada no destino deles desde o primeiro dia.

​— Lucian... o que você acha de Beatriz? — Elise sugeriu, a voz mansa e carinhosa.

​Lucian franziu o cenho de leve, processando o som do nome, e um sorriso terno se abriu em seus lábios.

​— Beatriz... — ele repetiu, sentindo o peso e a beleza da palavra. — Significa 'aquela que traz felicidade', não é? E que 'viaja pelo mundo'.

​— Sim — Elise sorriu, limpando o rosto com a mão livre. — Ela é a nossa felicidade depois de tanta tempestade. E ela viajou comigo pelo mundo, esteve comigo nos palcos de Londres e me trouxe de volta para os seus braços no Brasil. O nome dela é Beatriz Pavanelli Clark.

​Lucian colou seus lábios nos de Elise em um beijo terno, cheio de amor e cumplicidade, antes de se inclinar e segurar a filha nos braços pela primeira vez.

​— Bem-vinda ao mundo, Beatriz — Lucian sussurrou contra o ouvidinho da bebê, que parou de chorar ao reconhecer a voz grave que a acompanhara nas últimas semanas. — O papai ranzinza promete que nunca mais vai largar o compasso de vocês duas.

​A nova saga da família Pavanelli finalmente encontrava o seu acordo mais perfeito. Não havia mais distância, não havia mais passado ou mágoa; ali, naquele quarto de hospital em Londres, o ritmo do coração de Lucian e Elise batia uníssono, embalado pelo sopro de uma nova vida.