​O silêncio que se seguiu ao turbilhão de paixão era denso, quase sufocante. A penumbra do antigo quarto de Elise era cortada apenas pelos feixes de luz da lua que atravessavam a janela. Deitados lado a lado na cama de solteiro, que parecia pequena demais para abrigar a imensidão do que sentiam, os dois olhavam fixamente para o teto de gesso, com as respirações ainda tentando encontrar o compasso normal.

​Lucian estava com um dos braços sob a cabeça, o peito nu subindo e descendo devagar. O calor do corpo de Elise ainda estava impregnado em sua pele, mas a calmaria pós-amor durou pouco. A realidade bateu à porta, trazendo de volta os fantasmas que eles haviam tentado calar com beijos.

​Querendo quebrar o gelo e buscando uma certeza para o turbilhão que estava em seu peito, Lucian virou o rosto de lado, observando o perfil delicado da ruiva.

​— E agora, Elise? — ele puxou o assunto, a voz saindo grave, ecoando suavemente pelas paredes do quarto. — O que a gente faz depois disso?

​Elise continuou olhando para o teto por alguns segundos. Ela engoliu em seco, sentindo o peso da pergunta. Lentamente, ela virou a cabeça para encará-lo, os olhos azuis carregados de uma melancolia profunda.

​— Eu não sei, Lucian... — ela confessou em um fio de voz. — Amanhã eu tenho o ensaio geral no Teatro Municipal e, depois da apresentação de sábado, a companhia segue viagem.

​Lucian franziu o cenho, o cavanhaque desenhando uma linha rígida em seu maxilar. Ele mudou de posição, apoiando-se no cotovelo para olhá-la de cima.

​— Segue viagem? Como assim? Elise, a gente acabou de se entregar depois de cinco anos longe. Você não está sugerindo que a gente simplesmente finja que isso aqui foi só uma recaída e você pegue um avião de volta para Londres como se nada tivesse acontecido, está?

​Elise sentou-se na cama, puxando o lençol contra o peito para se cobrir. A maturidade que havia adquirido na Europa assumiu o controle, endurecendo sua postura, embora seu coração estivesse sangrando.

​— Lucian, por favor, seja realista — ela pediu, a voz mansa, mas firme. — O que você quer que eu faça? Que eu jogue tudo para o alto? A minha vida não é mais aqui no Brasil. Eu tenho um contrato com o teatro, tenho apresentações agendadas por toda a Europa, tenho uma carreira que ralei muito para construir.

​A palavra "a minha vida não é mais aqui" atingiu Lucian como um soco no estômago. O brilho ranzinza e defensivo voltou com força total aos seus olhos azuis, mascarando a dor da rejeição que começava a queimar novamente. Ele soltou uma risada amarga, ríspida, e sentou-se na beirada da cama, dando as costas para ela.

​— Claro. A sua vida... — ele rosnou, passando a mão pelo cabelo com força. Ele virou o rosto por cima do ombro, fulminando-a com o olhar. — É sempre sobre a sua vida, sobre os seus palcos, sobre Londres. Engraçado como cinco anos não mudaram nada em você. Você continua sendo a mesma pessoa egoísta de antes. Veio aqui, me usou para lembrar dos velhos tempos, e agora vai embora de novo dizendo que o Brasil é pequeno demais para você.

​— Eu não te usei, Lucian! — Elise elevou o tom de voz, os olhos marejando de raiva e frustração com a injustiça da acusação. — Você sabe muito bem que o que aconteceu aqui foi real! Mas eu mudei, sim. Eu cresci. Eu não sou mais aquela menina dependente que precisa se anular para fazer os caprichos de um homem. Eu te amo, mas eu também amo a minha profissão. Por que a escolha tem que ser sempre minha? Por que você nunca pensa em vir comigo?

​Lucian levantou-se da cama de um salto, pegando sua calça de moletom no chão e vestindo-a com movimentos bruscos e violentos.

​— Eu ir com você? Para fazer o que em Londres, Elise? Ser o seu assistente de palco? O namorado troféu da primeira bailarina? — ele gritou, a voz alterada ecoando pelo corredor vazio da casa. — Minha vida está aqui! Meu trabalho como professor está aqui, a minha mãe está aqui! Eu construí a minha história no Rio de Janeiro enquanto você batia palmas para gringo ver!

​— Então pronto! — Elise gritou de volta, levantando-se também, enrolada no lençol, com as lágrimas finalmente rolando pelo rosto. — Você acabou de dar a resposta! Você não quer abrir mão da sua vida aqui, mas exige que eu abra mão da minha lá! Isso não é amor, Lucian, isso é posse! Você quer uma boneca de pano para ficar guardada na sua gaveta, e não uma mulher de verdade!

​— Chega, Elise! — Lucian disparou, apontando o dedo na direção dela, a expressão de homem sexy dando lugar a uma carranca gélida e implacável. — Eu fui um idiota por acreditar que hoje seria diferente. Você fez a sua escolha há cinco anos e está fazendo a mesma escolha agora. Sabe de uma coisa? Pega as suas coisas e vai embora da minha casa. Vai pro seu hotel cinco estrelas, vai para Londres, vai para onde você quiser. Mas não me procura mais.

​O impacto das palavras dele congelou a alma de Elise. O orgulho e a mágoa mútuos haviam erguido a mesma barreira intransponível de antes. Sem dizer mais nada, mantendo o queixo erguido apesar do pranto, ela pegou suas roupas do chão e entrou no banheiro do quarto para se vestir.

​Minutos depois, Elise saiu do quarto sem olhar na cara de Lucian, que continuava de pé perto da janela, de braços cruzados, encarando a escuridão do jardim. Ela desceu as escadas correndo, bateu a porta principal da mansão e entrou no carro alugado, acelerando pela noite sob o som do próprio pranto. O amor deles havia se transformado, mais uma vez, em um campo de batalha.