SAGA PAVANELLI LIVRO 2: O REENCONTRO
5 O Palco da Alma
O camarim principal do Teatro Municipal do Rio de Janeiro exalava uma mistura de perfume francês, laquê e o cheiro característico de madeira antiga. Diante do grande espelho cercado por luzes quentes, Elise observava o próprio reflexo. Ela já usava o figurino clássico de sua apresentação principal: um corpete de veludo azul-escuro texturizado com detalhes em tule transparente e uma saia que flutuava levemente. Em seu pulso, a pulseira de prata com a bailarina em pleno voo era o seu único amuleto.
Apesar da imponência do lugar, as mãos de Elise tremiam. O peso da última discussão com Lucian e a pressão de dançar em sua terra natal pareciam sufocar seus pulmões. O pânico de palco ameaçava se instalar.
Instintivamente, Elise fechou os olhos. Ela respirou fundo, puxando na memória o único porto seguro que conhecia. Sua mente viajou no tempo, voltando para os bastidores do festival do colégio, cinco anos atrás. Ela se lembrou nitidamente do toque firme das mãos de Lucian em seus ombros, do olhar azul e protetor dele focado inteiramente nela, e de suas palavras sussurradas com convicção:
"Você não precisa provar nada para ninguém aqui, baixinha. Quando você entrar naquele palco, esqueça o mundo. Só dança. Dança o seu ritmo, porque você é perfeita."
Sempre que a ansiedade tentava derrubá-la em Londres, Elise fechava os olhos e repetia mentalmente aquelas mesmas palavras, como um mantra sagrado. E funcionava. O compasso do seu coração acalmou. Ela abriu os olhos azuis, agora cheios de determinação. Estava pronta.
Quando as cortinas de veludo vermelho se abriram, o Teatro Municipal prendeu a respiração. A iluminação cênica transformou o palco em um cenário mágico, e a orquestra começou a ditar uma melodia clássica e profunda.
Elise entrou. Ela não apenas dançava; ela voava. Cada pirueta era executada com uma precisão cirúrgica, e seus saltos pareciam desafiar a gravidade, arrancando suspiros da plateia. Ela colocou no palco toda a sua dor, a sua saudade e a imensidão do amor que carregava no peito. Era um espetáculo lindo, avassalador.
Na penumbra da última fileira do balcão nobre, parcialmente escondido pelas sombras e usando um boné escuro, estava ele. Lucian havia ido. Sem que Letícia, os amigos ou a própria Elise soubessem, ele comprou um ingresso de última hora na bilheteria. Ele não podia deixá-la dançar sozinha.
Observando-a através da escuridão do teatro, a armadura de homem ranzinza de Lucian desmoronou por completo. Um sorriso orgulhoso e involuntário desenhou-se em seus lábios sob o bigode. Seus olhos azuis brilhavam, fixos na silhueta ruiva que dominava o palco com tanta soberania. Ela era perfeita. O mundo inteiro aplaudia a mulher que ele, no silêncio de sua alma, continuava chamando de sua.
Após o encerramento estrondoso, com a plateia de pé aplaudindo por longos minutos, Elise voltou para o camarim, exausta, mas com a alma lavada. Não demorou muito para que a porta fosse aberta com entusiasmo.
— Parabéns, meu amor! Você foi absolutamente divina! — Letícia entrou primeiro, com os olhos marejados, envolvendo a filha adotiva em um abraço transbordante de orgulho.
— Elise, você destruiu tudo! Que espetáculo foi esse, garota? — Enzo exclamou, entrando logo atrás ao lado de Larissa, que trazia um enorme buquê de rosas vermelhas.
— Você estava maravilhosa, Elise. Parecia flutuar sobre a música — Larissa elogiou, entregando as flores e dando um beijo na bochecha da bailarina.
— Uma execução técnica impecável, digna da Royal Ballet — Murilo pontuou, ajeitando os óculos com um sorriso contido, orgulhoso da amiga.
Elise agradecia a cada um, sorrindo e abraçando os amigos, mas seus olhos azuis buscavam discretamente o corredor atrás deles. Havia uma ausência que doía mais do que qualquer músculo fadigado.
Aproveitando que Enzo, Murilo e Larissa conversavam animados perto da arara de figurinos, Elise aproximou-se de Letícia. Ela segurou as mãos da mãe adotiva, tentando manter a voz firme.
— Mãe... e o Lucian? Ele... ele não veio com vocês?
O sorriso de Letícia vacilou por um segundo, sendo substituído por uma expressão de profundo pesar. Ela apertou as mãos de Elise, suspirando com tristeza.
— Ah, minha querida... Infelizmente, não. Quando eu fui chamá-lo no quarto antes de sairmos, ele estava trancado. Ele... ele rasgou o ingresso na minha frente, Elise. Disse que não queria ver e que tinha coisas mais importantes para fazer na escola de educação física. Sinto tanto, filha.
A revelação foi como um golpe frio no peito de Elise. Ela sentiu um nó doloroso apertar sua garganta, e o brilho em seus olhos diminuiu sensivelmente.
— Tudo bem, mãe... — Elise respondeu em um fio de voz, engolindo o choro para não estragar a maquiagem na frente dos amigos. — Eu já sabia que seria assim. O orgulho dele sempre foi maior do que qualquer outra coisa.
Ela deu um sorriso forçado para disfarçar a dor. Mal sabia Elise que o homem ranzinza e orgulhoso que ela julgava estar distante havia assistido a cada segundo de seu voo, guardando no peito a certeza de que, não importava a distância, o ritmo dela continuaria sendo o único capaz de mover a vida dele.
Fale com o autor