​O tempo em Londres parecia correr na mesma velocidade que as batidas de um metrônomo. Duas voltas completas no calendário se passaram. As folhas de outono começavam a tingir os parques da capital britânica de tons avermelhados e dourados. Para Elise, a rotina de ensinar tornara-se o seu bálsamo. Focar nos passos alheios era a única maneira que encontrava de não pensar nos seus próprios tropeços amorosos.

​Enquanto isso, do outro lado do oceano, na mansão dos Pavanelli, o clima era de um inverno eterno. Letícia não aguentava mais ver o filho se afundar naquela amargura gélida. Numa noite de terça-feira, ao ver Lucian entrar na cozinha jogando as chaves do carro sobre o balcão com sua típica carranca ranzinza, a psicóloga decidiu intervir.

​— Lucian, nós precisamos conversar — Letícia começou, a voz mansa, mas firme, enquanto servia um copo de água para ele. — Eu não posso mais ignorar o jeito que você está vivendo. Esse mau humor com seus alunos, esse isolamento...

​Lucian travou os movimentos, a mandíbula sob o cavanhaque desenhando uma linha rígida. Ele olhou para a mãe com seus olhos azuis faiscando de cansaço e irritação.

​— Mãe, eu já disse — ele cortou, a voz grave e ríspida ecoando pelo cômodo. — Se você quiser conversar sobre as contas da casa, sobre o meu trabalho na escola ou sobre qualquer outra coisa banal, eu sento e te escuto a noite inteira. Mas se o assunto for a Elise... eu não quero saber. Para mim, essa história morreu na noite em que ela pegou aquele avião. Não repita o nome dela.

​Letícia soltou um suspiro profundo, vendo o filho pegar o copo e subir as escadas pisando fundo. O orgulho de Lucian continuava sendo uma muralha impenetrável, mantendo-o prisioneiro da própria mágoa.

​Em Londres, o talento e a dedicação de Elise haviam chamado a atenção da diretoria da Royal Ballet School. Em pouco tempo, ela deixara as turmas de iniciantes e fora promovida para lecionar para o grupo de nível avançado. Eram alunos de dezoito a vinte e quatro anos, praticamente a mesma idade dela, jovens que buscavam a perfeição técnica que apenas uma primeira bailarina poderia transmitir.

​O estúdio de dança estava aquecido, com as grandes paredes de espelho ligeiramente embaçadas pelo esforço físico do grupo. Piano clássico tocava ao fundo.

​— Lembrem-se do eixo! — Elise orientava, caminhando entre as alunas, corrigindo a postura de uma delas. — O segredo da pirueta não está na força dos braços, está no controle do abdômen e no foco do olhar. Olhem para o ponto fixo.

​Para demonstrar a precisão do movimento, Elise caminhou até o centro do linóleo. Ela respirou fundo, preparou a postura em quarta posição e impulsionou o corpo para uma sequência de piruetas. Um, dois, três giros perfeitos.

​No quarto giro, no entanto, o mundo ao redor de Elise simplesmente desabou.

​O ponto fixo no espelho distorceu-se em um borrão cinzento. Uma tontura avassaladora e violenta atingiu sua cabeça, fazendo o teto e o chão trocarem de lugar. Elise perdeu completamente o equilíbrio e, antes que pudesse tentar se segurar na barra, seu corpo desabou no chão, o som do impacto silenciando o piano.

​— Professora Clark! — duas alunas gritaram, correndo em sua direção.

​Elise tentou se levantar, mas uma onda de náusea a dominou, e suas pálpebras pesaram. Os alunos, desesperados ao verem a primeira bailarina totalmente pálida e sem forças, chamaram a ambulância imediatamente.

​O cheiro de antisséptico e as paredes brancas do St Thomas' Hospital trouxeram Elise de volta à realidade. Ela estava deitada em uma maca confortável, com um acesso de soro no braço. Lucinda Clark entrou no quarto em passos rápidos, o jaleco médico aberto e o semblante transbordando uma preocupação que ia além do profissional.

​— Elise! Minha filha, como você está se sentindo? — Lucinda perguntou, segurando a mão da jovem com força.

​— Minhas... minhas pernas, mãe... — Elise balbuciou, o pânico de bailarina falando mais alto. — Eu sofri alguma lesão? Eu caí feio...

​— Calma, meu amor. Suas pernas estão perfeitamente bem. Não há nenhuma fratura, nenhuma distensão — Lucinda acalmou-a, passando a mão pelos cabelos ruivos da filha antes de olhar para o médico plantonista que aguardava com a prancheta. — Doutor Thomas, por favor, explique a ela.

​O médico aproximou-se com um sorriso acolhedor, ajeitando os óculos.

​— Senhorita Clark, os seus exames de imagem estão limpos. A sua queda e a tontura severa não foram causadas por exaustão física decorrente do balé. O seu hemograma revelou uma alteração hormonal muito clara. A senhoria está grávida. De aproximadamente três meses.

​O quarto pareceu perder o som por alguns segundos. Grávida. Três meses.

​A mente de Elise fez uma viagem instantânea no tempo, cruzando o Atlântico e parando exatamente naquela noite chuvosa no Brasil. O antigo quarto na casa dos Pavanelli... o calor dos braços de Lucian... a entrega absoluta e desesperada que os unira após cinco anos de saudade. Fora ali. Na única noite de amor que compartilharam no reencontro.

​Elise fechou os olhos com força, respirando fundo enquanto levava a mão trêmula de encontro ao próprio ventre, ainda perfeitamente plano. O fruto daquela paixão avassaladora e proibida estava crescendo dentro dela.

​O médico despediu-se com um aceno cortês e saiu, deixando mãe e filha sozinhas. Lucinda sentou-se na beirada da maca, observando o turbilhão de emoções no rosto da filha.

​— Elise... é dele, não é? Do Lucian — Lucinda deduziu com suavidade, sem julgamentos. — O tempo bate exatamente com a sua viagem ao Rio de Janeiro.

​— É, mãe... É dele — Elise confessou, a voz embargada, abrindo os olhos cheios de lágrimas.

​— Você precisa contar para ele, querida — Lucinda disse com firmeza maternal, apertando a mão de Elise. — Por mais que as coisas entre vocês tenham terminado de um jeito difícil, ele é o pai. Ele tem o direito de saber, e você tem o direito de não carregar esse peso sozinha. Deixe o orgulho de lado e ligue para o Brasil.

​Elise engoliu o choro, o semblante amadurecido e endurecido pela última lembrança que guardava do namorado. Ela balançou a cabeça negativamente, a resposta na ponta da língua, firme e decidida.

​— Não, mãe. Eu não vou ligar para ele. Eu não vou contar nada.

​— Mas, Elise...

​— Mãe, na última vez que eu liguei para o Lucian, na praia, tentando ter uma despedida digna, ele me tratou como se eu fosse um lixo — Elise relembrou, a voz trêmula de mágoa. — Ele me mandou ir para o inferno e desligou na minha cara. Ele deixou claro que não precisa de mim e que me odeia. Eu não vou atrás de um homem ranzinza implorar por atenção ou usar um bebê para prendê-lo a mim.

​Elise limpou a lágrima que escorria pelo rosto e olhou para Lucinda com uma determinação inabalável.

​— Esse bebê é meu. Eu tenho uma carreira, tenho estabilidade, tenho o seu apoio e tenho todo o amor do mundo para dar a ele. Se o Lucian me mandou ir para o inferno, eu vou construir o meu próprio céu aqui. Eu vou cuidar desse bebê sozinha.

​Lucinda olhou para a filha e, embora sentisse o peito apertar pela complexidade da situação, não pôde deixar de admirar a força e a soberania da mulher que Elise havia se tornado. Ela apenas a abraçou de lado, selando um pacto silencioso de proteção. O destino havia desenhado um novo compasso, e Elise estava pronta para dançar o ritmo da maternidade, mesmo que isso significasse guardar o segredo do pai de seu filho a sete chaves.