​A luz suave do entardecer londrino filtrava-se pelas grandes janelas do apartamento, iluminando o berço de madeira clara posicionado no canto da sala. O ambiente exalava aquele cheiro inconfundível e doce de bebê, misturado com o aroma de chá de camomila recém-passado. Beatriz estava com apenas uma semana de vida, dormindo um sono tranquilo, envolta em uma manta cor-de-rosa.

​A campainha tocou suavemente, quebrando o silêncio aconchegante. Lucian, que estava sentado no sofá observando a filha com um olhar bobo, levantou-se rapidamente para abrir a porta. Quando girou a maçaneta, deparou-se com Letícia. A psicóloga trazia uma mala de viagem em uma das mãos e, no rosto, uma expressão que misturava a exaustão do voo transatlântico com uma ansiedade transbordante.

​— Mãe! — Lucian exclamou, com a voz grave falhando de emoção enquanto a envolvia em um abraço apertado.

​— Ah, meu filho... Onde ela está? — Letícia perguntou, afastando-se do abraço com os olhos já brilhando de lágrimas.

​Elise apareceu no corredor da sala, caminhando devagar, com um sorriso radiante e acolhedor.

​— Letícia, que bom que você chegou! Venha conhecer a sua neta — Elise chamou, a voz mansa guiando a sogra até o centro da sala.

​Letícia largou a mala no chão e caminhou até o berço como se estivesse pisando em solo sagrado. Ao se inclinar e ver o rostinho sereno de Beatriz, com seus traços delicados e os poucos fios de cabelo ruivos herdados de Elise, a avó desabou em um choro silencioso de pura gratidão. Ela levou as mãos à boca, completamente emocionada.

​— Meu Deus... ela é a coisa mais linda que eu já vi na vida — Letícia sussurrou, estendendo um dedo trêmulo para tocar de leve a mãozinha minúscula da bebê, que instintivamente fechou os dedinhos ao redor do dela. — Olá, minha princesinha. A vovó finalmente chegou.

​Lucian aproximou-se, passando o braço ao redor dos ombros da mãe, com o orgulho de pai estampado em cada traço do rosto.

​— O nome dela é Beatriz, mãe — ele contou, o cavanhaque se movendo com o sorriso terno. — Beatriz Pavanelli Clark.

​Letícia limpou as lágrimas das bochechas, olhando de Lucian para Elise, e uma faísca do seu típico bom humor de psicóloga brilhou em seus olhos. Ela ajeitou a postura e olhou para os dois com uma falsa seriedade:

​— Um nome lindo, com certeza. Mas eu quero deixar uma coisa bem clara para vocês dois: não importa se o nome oficial é Beatriz, de qualquer jeito eu farei questão de ter o meu nome garantido como a avó coruja dessa bebê! Se vocês não colocaram "Letícia" na certidão, eu vou registrar meu título de 'Vovó Lê' no coração dela e ninguém me tira!

​Lucian soltou uma risada ríspida e gostosa, o gênio ranzinza desarmado pela descontração da mãe.

​— Pode deixar, mãe. O seu cargo de avó mandona e psicóloga oficial da Babi já está mais do que garantido — ele brincou, puxando Elise para perto de si pelo quadril.

​— Com certeza, Letícia — Elise concordou, rindo e encostando a cabeça no ombro de Lucian. — Nós vamos precisar muito da sua ajuda para aguentar esse pai babão e ciumento aqui.

​O resto da noite foi preenchido por risadas, histórias de fraldas trocadas ao avesso por Lucian e o calor de uma família que, após tantas idas e vindas, finalmente encontrava o seu porto seguro.

​Uma semana se passou. Letícia já havia retornado ao Brasil para resolver suas pendências, prometendo voltar logo. Lucian passara os últimos dias saindo para reuniões misteriosas por Londres, deixando Elise curiosa, embora ela estivesse focada demais nos cuidados com a amamentação e na sua recuperação.

​Naquela noite de sexta-feira, Elise acabou de colocar Beatriz para dormir no quarto e voltou para a sala. O ambiente estava à meia-luz, iluminado apenas por algumas velas aromáticas que Lucian havia aceso. No centro da sala, uma pequena mesa estava posta com uma tábua de queijos e frutas.

​Lucian estava em pé perto da janela, olhando para a névoa de Londres, vestindo uma camisa de botões escura que realçava seus ombros largos. Ao ouvir os passos da ruiva, ele se virou. O olhar azul dele estava sério, compenetrado, mas transbordava uma determinação madura.

​— Elise, vem aqui por favor. Eu preciso te contar uma coisa — ele pediu, a voz grave e firme ecoando pelo cômodo.

​Elise caminhou até ele, franzindo o cenho de leve, mas com o coração começando a acelerar diante da atmosfera do lugar.

​— O que foi, Lucian? Você está com uma cara estranha... Aconteceu alguma coisa no Brasil?

​Lucian deu um passo à frente, segurando as duas mãos de Elise entre as suas. O calor do toque dele a fez arrepiar.

​— Não é sobre o Brasil, baixinha. É sobre o nosso futuro aqui — ele começou, o semblante amolecendo em um sorriso de puro alívio. — Eu passei os últimos dias em reuniões e entrevistas. Eu fui até a London Metropolitan University e... eu consegui, Elise. Eu fui contratado como o novo preparador físico principal do departamento de atletismo da faculdade local. Eu começo no próximo mês.

​Os olhos azuis de Elise se arregalaram em puro choque e alegria. Uma onda de alívio e emoção invadiu seu peito.

​— Meu Deus, Lucian! Isso é sério?! — ela exclamou, a voz falhando. — Você... você conseguiu um emprego aqui? Em Londres?

​— Sim, meu amor. Eu disse que largaria tudo por você, e eu cumpri — ele respondeu, a voz embargada pela emoção enquanto soltava uma das mãos dela para alcançar o bolso da calça. — Eu não quero mais passar um único dia da minha vida longe de você ou da nossa filha. O meu lugar é onde você estiver.

​Lucian respirou fundo e, quebrando qualquer rastro do homem ranzinza que um dia fora, ele ajoelhou-se no tapete da sala, bem na frente dela. Da caixinha de veludo preto que tirou do bolso, revelou-se um anel de ouro delicado, com uma pequena pedra de brilhante que reluzia sob a luz das velas.

​Elise cobriu a boca com as duas mãos, as lágrimas inundando seus olhos instantaneamente.

​— Lucian... — ela sussurrou, o peito subindo e descendo com força.

​— Elise Clark... você foi a menina que me ensinou o que era o amor quando a gente ainda não sabia nada da vida. Você foi a mulher que voou pelo mundo, que me deu a filha mais linda do universo e que teve a paciência de quebrar o meu orgulho estúpido — ele declarou, olhando bem no fundo dos olhos dela, com os seus próprios olhos azuis marejados. — Eu não quero ser apenas o pai da Beatriz. Eu quero ser o seu companheiro, o seu protetor, o homem que vai te aplaudir nos bastidores de cada palco da sua vida. Elise, você aceita se casar comigo? Aceita ser a minha esposa de verdade?

​O silêncio do apartamento foi preenchido apenas pelo som do choro emocionado de Elise. Ela não precisou de tempo para pensar. Toda a mágoa do passado havia sido perdoada e curada pela maturidade e pela entrega daquele homem.

​— Sim! Mil vezes sim, Lucian! — ela exclamou, jogando-se nos braços dele de joelhos no chão.

​Lucian a envolveu em um abraço desesperado e possessivo, rodando-a levemente no chão da sala enquanto colava seus lábios nos dela em um beijo profundo, lento e transbordante de promessas eternas. Ele deslizou o anel pelo dedo trêmulo de Elise, selando de uma vez por todas a união deles.

​Ali, na penumbra de Londres, com a filha deles dormindo no quarto ao lado e o futuro totalmente traçado sob o mesmo teto, Lucian e Elise sabiam que o espetáculo mais bonito de suas vidas estava apenas começando. Eles haviam acertado o compasso, e a dança do amor deles agora seria eterna.