SAGA PAVANELLI LIVRO 2: O REENCONTRO
14 Capítulo Final: O Baile da Eternidade
O aroma das flores brancas e das rosas de tom pastel misturava-se à brisa suave que vinha do Rio Tâmisa. O cenário escolhido para o casamento não poderia ser mais perfeito: os jardins de uma mansão histórica nos arredores de Londres, com uma vista deslumbrante da cidade ao fundo. O céu britânico, em uma rara concessão de primavera, abriu-se em um azul límpido, permitindo que os raios de sol iluminassem o altar decorado com ramos de oliveira e pequenas luzes pisca-pisca que começavam a se acender com o entardecer.
Na primeira fileira, Lucinda segurava a pequena Beatriz, que usava um vestidinho de renda branca com uma faixinha na cabeça. Ao lado delas, Letícia ajeitava o lenço no pescoço, com os olhos já brilhando de orgulho. Logo atrás, os amigos que cruzaram o oceano só para aquele momento — Enzo, Larissa e Murilo — observavam tudo com sorrisos radiantes.
No altar, Lucian Pavanelli ajustava o colarinho de seu terno sob medida azul-escuro. Os cabelos estavam perfeitamente alinhados, e o cavanhaque bem desenhado dava a ele um ar imponente e maduro. Ele batia o pé de leve no chão, o gênio ranzinza sendo totalmente engolido por uma ansiedade avassaladora.
— Calma, Pavanelli. Se você continuar batendo o pé assim, vai abrir um buraco no gramado histórico — Murilo brincou em tom baixo, do seu lugar como padrinho, ajeitando os óculos com o dedo indicador.
— Não enche, Murilo. Meu coração parece que vai sair pela boca — Lucian resmungou com sua clássica voz grave, embora um sorriso nervoso denunciasse sua felicidade.
De repente, a música clássica da orquestra cessou, sendo substituída pelos primeiros acordes suaves e profundos de uma melodia tocada no violino. Os convidados colocaram-se de pé.
Lucian olhou para o início da passarela de madeira e seu mundo simplesmente parou.
Elise Clark surgiu, caminhando com a elegância inconfundível de uma primeira bailarina. Ela usava um vestido de noiva de corte clássico, com mangas de renda delicada e uma saia de tule que parecia flutuar sobre a grama a cada passo. Seus cabelos ruivos estavam parcialmente presos em um coque sofisticado, deixando algumas mechas caírem sobre o contorno do rosto. Em seu pulso, a velha pulseira de prata com a bailarina brilhava sob o sol. Ela sustentou o olhar azul de Lucian durante todo o trajeto, os lábios trêmulos em um sorriso emocionado.
Ao chegar ao altar, Lucian estendeu a mão para recebê-la. Ele inclinou-se e sussurrou bem perto do ouvido dela:
— Você está a mulher mais linda do universo, baixinha. Eu nem sei se mereço tanto.
— Você merece cada segundo, meu amor — Elise respondeu em um fio de voz, os olhos marejados de gratidão.
A cerimônia foi marcada por palavras profundas sobre o tempo, a distância e a força de um amor que sobreviveu às próprias tempestades. Após a troca de alianças e o clássico "sim" ecoar pelos jardins, o celebrante sorriu:
— Eu os declaro, marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Lucian segurou Elise pela cintura com firmeza e cuidado, puxando-a para si e colando seus lábios em um beijo apaixonado, lento e cheio de promessas de eternidade, enquanto a chuva de pétalas brancas caía sobre eles sob os aplausos calorosos de todos os presentes.
A festa de casamento acontecia em um salão anexo, com teto de vidro que permitia ver as estrelas da noite de Londres. Mesas fartas, arranjos suspensos e uma pista de dança de madeira polida completavam o ambiente requintado.
Durante o coquetel, o casal caminhava entre os convidados para agradecer a presença. Ao se aproximarem da mesa dos amigos do Brasil, a recepção foi calorosa.
— Cara, eu ainda não acredito que o Pavanelli casou! E em Londres! — Enzo exclamou, puxando Lucian para um abraço forte com tapas nas costas. — Quem diria que o professor mais ranzinza do Rio de Janeiro ia virar um lorde britânico?
— Não exagera, Enzo. Eu continuo o mesmo — Lucian rebateu, rindo e ajeitando a lapela do terno. — Só mudei o endereço. E o humor, um pouco.
— Um pouco bem grande, graças a Deus! — Larissa interveio, aproximando-se para abraçar Elise com cuidado para não amassar o vestido. — Amiga, você estava perfeita. Parecia uma princesa de conto de fadas entrando. E a Babi dormindo no colo da Lucinda? Coisa mais linda!
— Obrigada, Lari! Significa o mundo para mim ter vocês aqui — Elise disse, com os olhos brilhando. — Eu sei o quanto a viagem é longa, mas eu não conseguiria subir naquele altar sem a nossa turma da escola por perto.
— Nós não perderíamos isso por nada, Clark — Murilo pontuou, erguendo sua taça de champanhe em um brinde contido. — Alinhamento perfeito dos astros. Vocês dois precisavam desse tempo para entender que o algoritmo do destino sempre daria o mesmo resultado: vocês juntos.
— Até o Murilo está sentimental hoje, vejam só! — Lucian brincou, abraçando Elise de lado pelo quadril, fazendo todos rirem.
Mais adiante, perto da mesa de doces, Letícia e Lucinda conversavam animadamente, observando os filhos de longe.
— Eles conseguiram, Letícia — Lucinda comentou, dando um gole em seu vinho. — Passaram por tanta coisa, mas a maturidade fez com que eles se encontrassem de verdade.
— Sim, Lucinda. O amor deles precisava desse amadurecimento — Letícia concordou, com um sorriso terno no rosto. — E agora, com a nossa Beatriz, eles têm uma âncora linda para o resto da vida. Só espero que o Lucian não tente aplicar treinos de atletismo na menina antes de ela completar um ano.
— Ah, do jeito que ele é babão? Capaz de carregar a menina no colo até ela fazer dezoito anos! — Lucinda riu, sendo acompanhada pela psicóloga.
O som de um gongo suave chamou a atenção de todos para o centro do salão. A iluminação diminuiu, focando as luzes principais na pista de dança. O DJ anunciou a primeira dança oficial dos noivos.
Lucian conduziu Elise até o centro da pista. Ele parecia um pouco tenso, o gênio ranzinza ameaçando voltar diante de tantas pessoas olhando.
— Ei... olha para mim — Elise pediu, passando as mãos pelos ombros largos do marido. — Esquece o mundo ao redor. Lembra do que você me disse no camarim? Só dança. Dança o meu ritmo.
Lucian sorriu, relaxando os ombros, e espalmou a mão grande nas costas dela.
A música escolhida começou a tocar: uma melodia contemporânea suave, misturada com acordes clássicos de piano. Elise conduziu o início com a fluidez de uma primeira bailarina, mas Lucian não ficou para trás. Os meses que passou em Londres e o desejo de acompanhar a esposa o fizeram aprender a se mover com uma elegância impressionante. Eles giravam pelo salão em perfeita sintonia, os corpos colados, os olhares azuis fixos um no outro, como se o tempo e o espaço tivessem desaparecido. Cada movimento era um reflexo dos cinco anos de saudade, da entrega e da promessa de futuro.
Quando a música terminou, o salão inteiro explodiu em aplausos e gritos de comemoração. Sem perder tempo, a batida mudou para um ritmo mais animado e festivo.
— Agora chega de formalidade! Vamos agitar isso aqui! — Enzo gritou, invadindo a pista de dança puxando Larissa pela mão.
Em poucos minutos, todos os convidados se juntaram a eles. Lucian tirou o paletó do terno, dobrou as mangas da camisa branca até os antebraços e começou a dançar de um jeito descontraído com os amigos, fazendo passos engraçados de educação física que faziam Elise gargalhar. Larissa e Elise dançavam juntas, girando os vestidos, enquanto Letícia e Lucinda arriscavam alguns passos elegantes na ponta da pista, segurando a pequena Beatriz que acordara com a música e olhava tudo curiosa com seus olhinhos azuis.
A festa seguiu pela madrugada, repleta de brindes, risadas altas, abraços apertados e uma alegria contagiante que preenchia cada canto daquele salão em Londres.
Ao final da noite, enquanto os convidados começavam a se despedir, Lucian e Elise caminharam até a varanda do salão, olhando para as luzes da cidade e para o Rio Tâmisa que brilhava no escuro. Ele a puxou por trás, envolvendo-a em seus braços protetores, descansando o queixo no topo da cabeça ruiva dela.
— Sabe, baixinha... — ele começou, a voz grave saindo rouca de felicidade. — Eu passei muito tempo com raiva do mundo e orgulhoso demais para admitir. Mas hoje, vendo a nossa filha, os nossos amigos e você sendo a minha esposa... eu entendi tudo.
— Entendeu o quê, meu ranzinza? — Elise perguntou, virando o rosto de leve para olhar para ele, com a aliança de casamento brilhando no dedo.
— Que a nossa história nunca foi sobre o lugar onde a gente estava, seja no Brasil ou em Londres — Lucian respondeu, colando sua testa na dela com extrema ternura. — Sempre foi sobre o compasso que a gente criava juntos. E o nosso ritmo, a partir de hoje, vai ser perfeito para sempre.
Elise sorriu, entregando-se ao beijo dele sob o céu estrelado. A cortina daquela longa saga de desencontros finalmente se fechava, dando lugar ao espetáculo mais lindo de todos: o início da vida eterna da família Pavanelli Clark.
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