​A noite na Praia da Barra da Tijuca estava deserta e o vento soprava forte, trazendo o cheiro salgado do oceano e o barulho imponente das ondas que quebravam com força na areia. Elise caminhava devagar, descalça, sentindo os grãos de areia frios penetrarem entre seus dedos. O vestido longo e leve balançava ao redor de suas pernas. Aquela era a sua última noite no Brasil. A turnê havia chegado ao fim e, com ela, a última ponta de esperança que Elise guardava no peito.

​Ela parou perto da beira da água, observando a imensidão escura do mar. Em seu coração, havia uma necessidade dolorosa de encerrar aquele ciclo de uma vez por todas, de ouvir a voz dele uma última vez, mesmo sabendo o quanto corria o risco de se queimar.

​Com as mãos trêmulas pelo frio e pela ansiedade, ela pegou o celular na bolsa. Procurou o contato que nunca tivera coragem de apagar e apertou o botão de chamar. O aparelho chamou uma, duas, três vezes. Cada toque parecia uma eternidade.

​— Alô — a voz de Lucian ecoou do outro lado da linha. Estava mais grave, rouca e carregada de uma fadiga que ia além do cansaço físico.

​Elise fechou os olhos, engolindo o nó na garganta.

​— Lucian... sou eu. A Elise — ela disse, a voz saindo em um sussurro quase engolido pelo som do vento.

​Houve um silêncio pesado e cortante do outro lado da linha. Dava para ouvir a respiração travada de Lucian. Quando ele voltou a falar, a armadura de homem ranzinza e implacável estava completamente reerguida, destilando uma frieza gélida.

​— O que você quer, Elise? Eu estou ocupado fechando as notas da escola. Não tenho tempo para jogos.

​— Eu não estou jogando, Lucian — ela respondeu, mantendo a voz firme, embora uma lágrima solitária já escorresse pelo seu rosto. — Eu só liguei para me despedir. O meu voo de volta para Londres é amanhã de manhã. Eu... eu queria que as coisas tivessem sido diferentes entre a gente nesta viagem. Queria que você tivesse ido me ver dançar.

​Lucian soltou uma risada ríspida, amarga, que machucou os ouvidos de Elise. O orgulho dele sangrava, e a única defesa que ele conhecia era o ataque.

​— Ir te ver dançar? Você só pode estar de brincadeira com a minha cara — ele rosnou, a voz subindo de tom, cheia de rancor. — Você liga na véspera de ir embora para aliviar a sua culpa? Para receber o aplauso do otário aqui antes de entrar no avião? Eu já te disse e vou repetir: a sua vida é lá. Então vai, Elise. Pega o seu avião, volta para a sua realeza europeia e vá para o inferno! Não me liga mais.

​Click.

​O som do telefone desligando na sua cara foi como um estalo seco que quebrou a última barreira de ilusão que Elise sustentava. Ela afastou o aparelho do ouvido, olhando para a tela escura.

​Um suspiro profundo e trêmulo escapou de seus lábios. Ela guardou o celular na bolsa e olhou uma última vez para o mar revolto da Barra. Ali, no silêncio da noite carioca, Elise finalmente aceitou a realidade. O amor da sua vida havia se transformado em um poço de mágoa intransponível. Tudo havia terminado. O ritmo deles havia chegado ao fim.

​Na manhã seguinte, o embarque no Aeroporto do Galeão foi um borrão de sentimentos anestesiados. Elise passou pelas catracas, entrou no avião e passou as longas horas de voo olhando pela janela, vendo as nuvens cobrirem o oceano enquanto o Brasil ficava para trás. Dessa vez, ela não chorou. A dor havia dado lugar a uma aceitação madura e silenciosa.

​Quando as portas do desembarque em Londres se abriram, o clima cinzento e a garoa fina a receberam como um velho casaco conhecido. No saguão de espera, a doutora Lucinda Clark aguardava a filha com um sorriso caloroso e os braços abertos.

​— Elise, querida! Bem-vinda de volta — Lucinda disse, envolvendo-a em um abraço apertado e protetor, que demonstrava o carinho real que havia crescido entre as duas nos últimos anos.

​— Oi, mãe. É bom estar em casa — Elise respondeu, retribuindo o aperto com sinceridade.

​Durante o trajeto de carro até o apartamento, Lucinda observou o semblante sereno, porém pensativo, da filha. Ela sabia que a viagem ao Brasil havia mexido com feridas profundas, mas preferiu focar no futuro brilhante que aguardava a jovem.

​Ao entrarem no luxuoso apartamento com vista para o Tâmisa, Lucinda ajudou Elise a deixar a mala no corredor e a conduziu até a mesa da sala, onde havia um bule de chá quente esperando por elas.

​— Sente-se, querida. Eu tenho uma notícia maravilhosa para te dar, algo que a diretoria da Royal Ballet School me confirmou ontem à tarde — Lucinda começou, com os olhos brilhando de entusiasmo.

​Elise serviu-se de uma xícara de chá, curiosa.

​— O que foi, mãe?

​— Eles estão abrindo um novo projeto de extensão na escola e querem que, dentro de um mês, você assuma o cargo de professora de balé para iniciantes — Lucinda revelou, tocando a mão da filha com orgulho. — Eles sabem que você é a primeira bailarina do teatro, mas querem a sua técnica e a sua sensibilidade para lapidar as novas crianças que estão entrando. É uma honra imensa, Elise.

​Um sorriso verdadeiro e radiante finalmente iluminou o rosto de Elise. A ideia de ensinar, de passar adiante tudo o que a dança havia feito por sua vida, trouxe uma lufada de ar fresco para a sua alma cansada.

​— Minha nossa, mãe... Isso é perfeito! — Elise exclamou, sentindo uma nova onda de energia invadir seu peito. — Eu aceito, com certeza. Eu quero muito ensinar o que eu sei para essas pessoas, quero mostrar para essas crianças que a dança pode ser o refúgio delas, assim como um dia foi o meu.

​Lucinda sorriu, aliviada ao ver o brilho de volta nos olhos azuis da filha.

​Mais tarde, em seu quarto, Elise guardou as sapatilhas no closet e caminhou até a janela. A chuva de Londres batia suavemente no vidro. Ela olhou para o próprio reflexo e depois para a pulseira em seu pulso. O amor por Lucian continuaria guardado em uma gaveta sagrada de sua memória, mas agora, Elise tinha um novo compasso para seguir. Ela era dona da sua própria história, e o seu ritmo, a partir daquele momento, seria dedicado a ensinar o mundo a dançar.