SAGA PAVANELLI LIVRO 2: O REENCONTRO
3 Entre Lembranças e Desejos
O dia no Teatro Municipal havia sido exaustivo. Elise passara horas repetindo sequências, corrigindo a postura e alinhando os passos com o restante da companhia de Londres. Seus músculos doíam, mas a mente estava ainda mais cansada. Assim que o ensaio terminou, em vez de voltar para o hotel, ela sentiu uma necessidade urgente de buscar o único lugar que um dia chamou de lar.
O táxi a deixou em frente à mansão dos Pavanelli. Elise subiu os degraus da entrada com o coração batendo compassado e tocou a campainha. Quando a porta se abriu, o tempo pareceu voltar cinco anos.
— Elise! Minha menina! — Letícia exclamou, com os olhos brilhando de emoção.
Antes que Elise pudesse responder, a psicóloga a puxou para dentro, envolvendo-a em um abraço apertado, daqueles que curam qualquer distância. Elise enterrou o rosto no ombro da mãe adotiva, respirando o perfume familiar de lavanda.
— Que saudade, mãe... Você não imagina o quanto eu senti falta disso — Elise sussurrou, deixando uma lágrima de alívio escapar.
— Entre, meu amor. Venha para a cozinha, acabei de passar um café fresquinho — Letícia disse, limpando o rosto da filha com carinho e guiando-a pelo corredor.
A mesa da cozinha estava posta com o mesmo cuidado de sempre. Havia um bolo de fubá quentinho e duas xícaras de porcelana. As duas se sentaram e, entre um gole de café e um pedaço de bolo, começaram a conversar. Elas sorriam, relembravam as tardes de lanche após os treinos de balé e atualizavam as novidades da vida em Londres. A conexão entre elas permanecia intacta, como se Elise nunca tivesse partido.
O clima acolhedor, no entanto, mudou de frequência quando o som pesado da porta da frente batendo ecoou pela casa. Passos firmes cruzaram o corredor, e a silhueta imponente de Lucian surgiu no batente da cozinha. Ele usava calça de moletom escura e uma camiseta preta justa, que evidenciava seus ombros largos. Ao dar de cara com Elise, ele travou por um segundo, os olhos azuis faiscando na penumbra.
Sem dizer uma única palavra, Lucian caminhou até o armário, pegou um prato e uma xícara, serviu-se de uma fatia de bolo e de café, e sentou-se na ponta oposta da mesa. O silêncio dele era pesado, quase palpável.
Letícia, percebendo a eletricidade no ar, tentou ignorar a carranca do filho e continuou a falar com Elise, que se esforçava para manter o foco na mãe adotiva, embora sentisse o olhar gélido de Lucian queimando sua pele. A conversa entre as duas voltou a fluir, repleta de risadas e memórias, enquanto Lucian permanecia em um silêncio ranzinza, apenas observando a dinâmica das duas sobre a borda da xícara.
De repente, o celular de Letícia começou a tocar em cima do balcão. Ela olhou para a tela e suspirou.
— É da secretaria da clínica, preciso atender. Já volto, queridas... quer dizer, vocês dois — Letícia corrigiu-se rapidamente e saiu em direção ao escritório, deixando o ambiente imerso em um silêncio cortante.
Lucian deixou a xícara no pires com um estalo seco. Ele empurrou o prato para o lado, cruzou os braços sobre a mesa e fixou os olhos em Elise, com uma expressão ríspida.
— Então a estrela de Londres resolveu fazer uma visita de caridade aos reles mortais? — ele disparou, a voz grave destilando um deboche binal. — Veio ver se a casa ainda é do mesmo tamanho ou se o Brasil ficou pequeno demais para as suas piruetas?
Elise respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não perder a paciência. Ela olhou para ele, com o semblante sério e maduro.
— Eu vim ver a minha mãe, Lucian. Coisa que eu faço porque a amo, e não para ostentar nada. Mas pelo visto, o seu passatempo favorito continua sendo despejar frustrações banais em cima de mim.
— Frustrações banais? — ele se levantou da cadeira, a postura imponente intimidando o espaço. — Você aparece aqui, age como se nada tivesse acontecido, e eu sou o errado por não bater palmas?
Desgastada pela discussão que claramente não levaria a lugar nenhum, Elise jogou o guardanapo na mesa e se levantou.
— Sabe de uma coisa? Eu não sou obrigada a ficar aqui ouvindo o seu veneno.
Ela deu as costas a ele e subiu as escadas correndo. Instintivamente, seus pés a guiaram até o final do corredor do segundo andar, parando em frente à porta do seu antigo quarto. Ao girar a maçaneta e entrar, Elise sentiu o peito apertar. O cômodo estava exatamente do jeito que ela o havia deixado cinco anos atrás: a sapatilha de ponta antiga pendurada no espelho, a colcha clara sobre a cama de solteiro e os quadros de dança nas paredes. Letícia havia preservado cada detalhe.
Lá embaixo, a voz de Letícia ecoou pelo vão da escada, gritando em tom de urgência:
— Elise! Lucian! Deu uma emergência com um paciente na clínica, preciso correr para lá agora! Tranquem a casa se saírem! Beijos!
O som da porta principal se fechando indicou que Letícia havia saído, deixando a mansão mergulhada em um silêncio profundo.
Elise continuava de pé no centro do quarto, tocando a textura da colcha da cama, quando ouviu o som suave da porta sendo empurrada atrás de si. Ela se virou rapidamente e encontrou Lucian parado no portal. A expressão de raiva dele havia desaparecido, dando lugar a um olhar predatório, intenso e carregado de um desejo que ele claramente não conseguia mais conter.
— O que você quer aqui, Lucian? Me deixa sozinha — ela pediu, a voz saindo mais fraca do que pretendia, o coração acelerando com a proximidade dele.
Lucian não respondeu com palavras. Ele deu passos lentos e calculados em direção a ela, fechando a porta com o calcanhar. Toda a postura ranzinza deu lugar ao charme avassalador que ele sempre soube que tinha sobre ela. Ele parou a poucos centímetros de Elise, a diferença de altura fazendo-a ter que erguer o queixo para encará-lo.
— Você sabe muito bem o que eu quero, baixinha — ele sussurrou, a voz rouca e sedutora enviando um arrepio imediato pela espinha de Elise.
Antes que ela pudesse formular qualquer resposta defensiva ou tentar se afastar, Lucian estendeu as mãos grandes, segurando-a firmemente pela cintura e puxando-a contra o seu corpo musculoso. O impacto físico fez Elise soltar um suspiro sibilado. Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, os dedos se enterrando nos cabelos ruivos, e colou seus lábios nos dela.
O beijo começou urgente, selvagem, uma explosão de toda a saudade e da mágoa reprimidas por meia década. Elise tentou resistir por um breve segundo, espalmando as mãos contra o peito dele, mas o calor do corpo de Lucian, o perfume amadeirado e a familiaridade daquele toque desarmaram completamente as suas defesas. Ela soltou um gemido baixo contra a boca dele e entregou-se por inteiro, enlaçando o pescoço do homem com os braços, correspondendo ao beijo com a mesma paixão desesperada.
As mãos de Lucian desceram pelas curvas das costas dela com possessividade, apertando-a contra si enquanto o beijo se aprofundava, as línguas dançando em um ritmo ardente e conhecido. Ele a conduziu com passos lentos, sem quebrar o contato dos lábios, até que as pernas de Elise tocaram a borda da cama.
Lucian desceu os beijos pelo maxilar dela até o pescoço, fazendo-a arfar e jogar a cabeça para trás.
— Eu tentei te odiar, Elise... Juro que tentei — ele sussurrou contra a pele quente dela, as mãos trêmulas desfazendo os botões da blusa dela com pressa. — Mas eu não consigo. É você. Sempre foi você.
— Lucian... — ela gemeu o nome dele, os dedos cravando-se nos ombros largos do namorado, a maturidade cedendo espaço à entrega total.
Sem mais nenhuma barreira ou palavra banal para afastá-los, os dois se deixaram cair na cama de solteiro daquele antigo quarto. As roupas foram deixadas pelo chão como se fossem as máscaras que usavam para o mundo exterior. Na penumbra do cômodo cheio de memórias, Lucian e Elise uniram seus corpos com uma paixão avassaladora e um amor que o tempo e a distância foram incapazes de apagar. A batida de seus corações voltou a ditar o ritmo perfeito daquela ligação inquebrável.
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