Só um beijo
5 Capítulo 6
Ele não dormiu quase nada ontem à noite.
Mal dá pra permitir o cansaço tomar conta de seu corpo durante as aulas teóricas e práticas, então é na hora do almoço, quando Katsuki relaxa para comer, que sente suas pálpebras pesadas e olhos marejados devido ao sono, que merda!
Ele nunca teve problemas pra dormir antes, mesmo nos dias em que sua cabeça fica matutando maneiras de superar o Deku maldito, o Meio a Meio e os outros que ficam no caminho dele, mesmo nos dias que as memórias do acampamento e toda a merda que aquilo deu depois martelam seu cérebro, Katsuki consegue dormir sem demorar muito, os treinos físicos e estudos o deixam cansado o bastante para apagar toda essa merda durante suas preciosas horas de sono. Mas não ontem.
Ontem, Katsuki mal conseguiu dormir pensando nos três dias que lhe foram roubados, em como ele pode ter agido nesse tempo e… principalmente, no beijo. É só o que ele pode fazer: pensar, imaginar, porque a memória mesmo, a prova de que isso aconteceu simplesmente não existe em sua cabeça. Uraraka o beijou pra tirá-lo desse transe, e ele não tem nem ideia de como isso aconteceu.
Porra, será que foi um beijo beeeijo mesmo? Na boca? Será que… teve língua e tudo? Puta que pariu, e se ela percebeu que ele era BV? E se… e se ela fosse BV também? Tsk, provavelmente não, todo mundo sabe que ela e aquele nerd maldito são asquerosamente apaixonados um pelo outro desde o começo do curso, e o Deku é o rei dos imbecis, mas não tanto a ponto de ter deixado passar a chance de beijá-la! Ugh…
E essa foi a noite de merda dele, mal-dormida e jogada em um ciclo vicioso de pensamentos sobre o tal beijo, o que ela pode ter achado disso tudo e o quanto ela deve odiá-lo agora. Katsuki não a julga, ele também tá se odiando no momento.
— Ué, Bakubro, não vai ficar admirando sua musa hoje? — o Fita Crepe diz no tom mais debochado possível.
— Pois é, assim ela vai achar que você não tá mais apaixonado por ela, poxa! — o Pikachu emenda logo em seguida, os dois babacas sentados um de cada lado dele, como se estivessem cercando-o — Qual é, Bakubrooooo, fala pra gente o quanto você gosta dela, vai!
— Morre, seu idiota do caralho! Me deixa em paz!
— Ah, que sem graça! O efeito da individualidade lá deve ter passado. — o Fita Crepe lamenta.
— Hehe, ainda bem que a gente tem vídeos. — o Pikachu maldito balança o celular animadamente, e Katsuki o arranca das mãos do idiota — E-ei! Calma aí, cara!
Ele nem o ouve, só procura os tais vídeos, e imediatamente dá play. Katsuki se vê sentado nesse mesmo lugar onde está agora, o ângulo da câmera o pega de perfil e tem algo parecido com uma tigela na frente, os imbecis gravaram isso escondido com medo da reação dele. Pelo menos isso. o loiro não deve ter ficado tão fora de si a ponto de deixar esses idiotas tirarem uma com a cara dele assim na lata.
“Então, Bakugou, o que você mais gosta na Uraraka?” é a voz do Fita Crepe.
“Tsk, mais fácil eu falar o que NÃO gosto nela, seu imbecil!”
“Opa, então fala aí!”
“Nada, ela é perfeita! Esperta, criativa, redonda, corajosa e forte pra caralho!”
“Caramba, Bakubro! Nunca ouvi você elogiar alguém assim!” a voz do Pikachu é de espanto.
“Pois eu não estou nada surpresa, sempre achei que você é mais soft com ela, até o seu apelido pra ela é mais bonitinho do que um insulto de verdade.” esse tom sabe tudo é da Rosinha maldita “Tem certeza que isso é efeito de uma individualidade mesmo? Pra mim você só tá deixando sua crush ainda mais óbvia, meu anjo.”
“Foda-se essa individualidade e o caralho a quatro, eu gosto dela! O que vocês têm com isso?”
O vídeo acaba, ele… não parecia tão diferente do que normalmente é, quando a Uraraka disse que ele estava alterado e a Recovery Girl explicou o que a tal individualidade fez, Katsuki achou que poderia estar agindo como um drogado maluco olhando pra ela com cara de tarado, aparentemente não foi nada disso, ufa.
Ufa é o caralho! Que porra é essa de sair falando tudo que ele gosta nela? Ele jurou pra si mesmo que não ia nem pensar nisso, muito menos falar. Assim que o manipulador de explosões começou a entender que o que tava sentindo por ela não era só uma curiosidade intrigada, Katsuki decidiu empurrar essas ideias pra bem fundo dentro de sua cabeça. Ele não tá aqui pra namoro adolescente e essas bostas! Seu objetivo é ser o maior herói de todos, que se fodam ela e a paixonite ridícula dela naquele imbecil!
Aí aquela fodida foi atacá-la com uma flecha pelas costas e a visão dele ficou vermelha, Katsuki só entrou na frente sem nem pensar duas vezes, Uraraka é foda demais pra ser abatida por um golpe covarde daqueles… maldita a hora em que ele quis pagar de bonzão com ela! Agora ele tá nessa, sem memória de três dias da sua vida, três dias em que ele agiu como um completo imbecil por causa de mulher!
Mas não, Katsuki não se arrepende de tê-la protegido, com certeza não.
— Qual é, galera, deixa o cara em paz. — o Kirishima resolve apaziguar, agora um pouco tarde já que ele já viu os vídeos em que faz papel de bobo — Você tá bem, Bakugou?
— Tsk, por que não estaria? — o Cabelo de Merda fica olhando-o por mais alguns segundos e dá de ombros, mas Katsuki sabe que esse assunto não acabou.
—-
Aparentemente, o Kirishima sabe da merda toda, Katsuki contou tudo pra ele durante seu estado de “embriaguez”, deve ser por isso que o bobão fica o olhando com essa cara ridícula de pena. Depois que os treinos da tarde acabam e os dois andam rumo a seus quartos, o moleque lhe lança um longo e cansado olhar que o lembra vagamente do velho dele, então lá vai Katsuki contar sobre o mais recente desdobramento dessa história patética.
— Então… pode ser que vocês nem tenham se beijado, né? Não era certeza que aquela era mesmo a solução e sei lá, vai ver o efeito passou sozinho.
— Não, a gente se beijou. — Por mais que Katsuki não se lembre, ele tem certeza que rolou. Assim que voltou a si, ele tava todo ofegante e suas mãos pinicavam de tanto suor, ela também parecia meio sem ar, os olhos ainda mais brilhantes e as bochechas ainda mais rosadas, com certeza aconteceu.
— Entendi. — o Kirishima parece analisar — E então? O que você vai fazer agora?
— Hã?
— Ué, agora ela sabe que você gosta mesmo dela, cara!
— E quem disse que eu gosto dela? Isso foi só a individualidade, eu só fiquei todo bobo pra cima dela porque foi a primeira pessoa que eu vi, a Recovery Girl que disse.
— Sim, mas olha que coincidência boa a primeira pessoa que você viu ter sido justamente ela! — ele sorri animadamente — Agora você pode se confessar e mostrar que não era só a individualidade!
— Tsk, de onde você tirou que eu gosto dela, Cabelo de Merda?
— Bakugou, vou te falar na moral porque sou seu bro: você não tá enganando ninguém. É ela passar ou falar um “a” que sua cara muda na hora, e já era assim bem antes do rolê da flecha. Quando teve o sorteio pra ver quem ia fazer compra domingo passado, você precisava ver sua cara quando viu que ia com ela, parecia um manézão. — ele abaixa o tom, ficando mais sério — A Uraraka é muito gente boa, tenho certeza que ela vai te escutar e te dar uma resposta honesta. — sim, aí é que tá um dos problemas.
— Tsk, eu não quero resposta dela pra porra nenhuma. — ele se afasta — Fora que… ela deve estar puta comigo. — ela parecia bem incomodada com a presença dele no quarto dela, Katsuki sabe que a maioria das meninas não curte isso, mas… tinha outra coisa, ela parecia… triste com ele ali. Mais uma coisa que o impediu de pregar o olho ontem à noite.
— Bom, isso só tem uma forma de descobrir.
— Nem fodendo que eu vou falar com ela-
— Ver o que a Mina já sabe. — ele saca o celular e digita furiosamente — Ela já tá vindo pra cá com informações quentinhas pra gente!
Katsuki o olha feio, tsk, esse idiota fica falando dele, mas é outro que não engana ninguém. Se ele quer passar tempo com a Rosinha, que pare de enfiá-lo nesses rolos!
Não dá nem cinco minutos, a Rosinha brota no corredor dos dormitórios com cara séria, só faltou o casaco e os óculos escuros, porque ela tá se sentindo a informante do rolê.
— Ok, gente, antes de mais nada, só queria dizer que tô muito impactada com essa reviravolta! Como assim, você esqueceu que tava gamadíssimo na Ochako, Bakugou?
— Não te devo satisfação de nada, Olho de Guaxinim! — ele fica na defensiva, irritado consigo mesmo pelos mesmos motivos dessa doida — Fala logo o que você sabe.
— Ah lá… ele tá preocupado com o que ela acha. — o Kirishima sorri, satisfeito.
— Vão se foder! — quer saber? Que se danem esses dois! Ele não vai ficar aqui sendo feito de palhaço por dois dos maiores palhaços que conhece. Katsuki dá as costas a eles.
— Ela tá bem tristinha, na verdade. — a maldita informa, e ele para de andar — Acho que ninguém ficaria feliz em saber que a primeira pessoa que beijou na vida não lembra do beijo. — Puta que o pariu, ela também era BV???
— Mas poxa, não é culpa dele não se lembrar. — o Kirishima diz. Realmente, não é como se ele quisesse esquecer, ainda mais sendo um beijo na Cara de Lua.
— Eu sei, Kiri, mas se põe no lugar dela, o Romeu aí ficou todos esses dias declarando seu amor e sendo fofo com ela, aí ela o beija, e do nada ele volta ao… de sempre? — ela a olha com desdém, essa maldita — É como se ela tivesse revertido o feitiço, o príncipe voltou a ser sapo.
— Pau no seu cu! — ele resmunga — Então… ela tá puta comigo, é isso?
— Bom, não sei, só me falaram que ela tava triste.
— “Falaram?” Ué, você não conversou com a Uraraka? — o Kirishima questiona.
— Não, eu nem sou boba, né? Ela não ia me contar pois sabe que eu ia vir correndo contar pra vocês! Tive que ir atrás do Midoriya-kun pra descobrir.
— E ele falou assim de boa?
— Claro! Eu só tive que me inclinar assim na frente dele — ela demonstra se aproximando do Kirishima, que fica vermelho na hora — e ele disparou a falar. — a maluca dá risada e se afasta — Enfim… é isso, seu amor tá triste, Bakugou, o que você vai fazer pra consolá-la?
— Nada que seja da sua conta. — ele encerra a discussão, mas a verdade é que Katsuki não tem ideia do que pode fazer.
***
E pro azar dele, não há muito tempo para continuar pensando no que fazer. Assim que ele chega na cozinha, dá de cara com ela. Puta que pariu, qual a chance de encontrar justo ela no meio desse bando de figurantes a essa hora da noite?
Ela arregala os olhos quando o vê e para de mastigar o que quer que estivesse comendo, a cara dela é ridícula e portanto, adorável.
— Eu não roubei esses pãezinhos da Tsu, ela me deu.
— Quem liga? — ele dá de ombros, andando até a geladeira com toda a casualidade que consegue e ignorando seu coração martelando seu peito.
— Você… você melhorou?
— Eu nem tava doente. — imbecil! Katsuki limpa a garganta e tenta recomeçar — Tô bem.
— Que bom. — ela sorri, e isso o faz questionar se a Rosinha tava viajando quando disse que a Uraraka tava triste. Pra ele ela parece a mesma de sempre com sua voz gentil e sorriso que dá inveja ao sol — Bom, então… boa noite! Até amanhã.
Ela se afasta e começa a andar rumo ao elevador, Katsuki nota que as calças de ginástica dela estão mais curtas, como se estivessem cortadas, as panturrilhas dela estão visíveis, e ele nota pequenos machucados de tom roxo escuro, queimaduras.
A cabeça dele começa a doer de repente, e imagens invadem sua mente. Ela se machucou lutando com o Meio a Meio, ele passou pomada nas queimaduras dela e sussurrou algo em seu ouvido e depois… a lua nova e um beijo na testa, mas os pensamentos estão desordenados e turvos, como uma lâmpada prestes a queimar.
— Uraraka.
Ela se vira para olhá-lo, e a cara dele deve estar toda fodida, porque um segundo depois, Uraraka tá parada ao seu lado com a expressão mais preocupada que ele já viu.
— Ei, tá tudo bem? Vem, senta aqui. — ela o guia até o sofá — O que foi, Bakugou-kun?
— Eu… sei lá, eu… — ele esfrega a mão na cabeça agitadamente, sabendo que isso não vai ajudar em merda nenhuma, não vai trazer as memórias de volta. E então ele se vira para olhá-la, tsk, como será que o beijo aconteceu? O que ele disse? O que ela respondeu? Quem tomou a iniciativa? Porra, se foi ela, ele não sabe se fica feliz ou puto por não ter tomado atitude, mas… e se foi ele? Como ela reagiu, entregou-se ao beijo ou ficou apavorada e desconfortável, rígida como uma tábua? Ah não, e se ele a beijou sem consentimento? Katsuki instintivamente se esquiva da mão dela em seu ombro, de repente enojado consigo mesmo. Se ele a forçou a alguma coisa, isso o torna pior que um vilão — Eu tô bem, Uraraka. Não precisa se preocupar comigo.
— T-tem certeza?
— Tenho, você já me ajudou demais. — ele engole em seco, e a vê ficar vermelha da base do pescoço até o topo da testa — É, Cara de Lua, não é porque eu não lembro que eu não sei o que rolou.
— C-claro, eu já imaginava que você tivesse sido informado. — ela olha pro lado, extremamente constrangida.
— Uraraka, é melhor você me falar a verdade: eu forcei a barra pra cima de você? Fiz alguma coisa que você não queria?
— O-o quê? Oh… oh, não, Bakugou-kun, de maneira nenhuma! Você… você não fez nada de errado, não precisa se preocupar!
— Tsk, então por que você tá toda estranha comigo, porra? — ele se sente ridículo no minuto em que deixa soltar essa frase em um tom tão birrento e infantil, mas ela não parece se ligar, apenas desvia o olhar de novo.
— Eu não tô estranha, só… tô te dando espaço, eu sei que nada do que você disse ou fez nesses dias foi de verdade, mas imagino que… seja meio constrangedor pra você ouvir as brincadeiras dos meninos e tal.
— Tsk, tanto faz, eu não ligo pro que aqueles idiotas dizem. — ele dá de ombros — Então não precisa ficar fugindo de mim como se eu tivesse uma doença contagiosa, eu não tô puto com você.
— Até porque você nem lembra do que aconteceu, né? — ela dá um sorriso sem-graça.
— É-é. — até agora há pouco, ele realmente não lembrava de nada, mas algumas coisas estão começando a voltar. “Não consigo controlar o que falo perto de você.” Puta merda, ele realmente disse isso pra ela! E ela, educada como sempre, não vai comentar nada sobre isso, mesmo que ela não goste dele, Uraraka vai poupá-lo — E eu sei que você só me beijou pra me tirar daquela, não tinha mais nada que você pudesse fazer. Valeu, aliás.
— S-sem problemas. Uhum, eu só… fiz o que tinha que fazer, só isso, é exatamente o que você disse e nada mais. — ela balança a cabeça freneticamente. Tsk, ele sabia que ela só fez isso pra ajudá-lo, que ela não gosta dele e nem deve ter gostado do beijo, mas porra, ouvir diretamente da boca dela assim ainda o incomoda um pouco… merda! — Então… hã, eu sei que nós não somos exatamente amigos, mas… hã… nós estamos de boa, certo?
— Tsk, que seja. — ela não o vê nem como amigo, porra! — Mas se você quiser treinar qualquer dia, aparece na academia no fim da tarde.
— Oh, j-jura? Seria… seria bem legal.
— Uhum. Agora que você tem um par de luvas decente, pode melhorar esse gancho de esquerda seu. — ela arregala os olhos e faz uma cara estranha, como se tivesse tomado um soco na barriga.
— B-Bakugou-kun. — o tom dela é sombrio — Como você sabe que eu tenho luvas novas?
— Hã? Porque eu dei dinheiro pra Rosinha comprar e… — e aí ele percebe, isso aconteceu em algum momento durante esses três dias, três dias que ele não lembra, bom, pelo menos não lembrava até poucos minutos atrás, mas ela não sabe disso.
— Bakugou-kun, eu sei que esses dias devem ter sido horríveis, mas não precisava mentir assim. — o tom dela é seco e cortante, não combina nem um pouco com ela.
— Peraí, pô, não é isso!
— Eu sou tão idiota! — ela nem o ouve, apenas contorce a cara em uma expressão chorosa e dá as costas, correndo pra longe dele.
E Katsuki a deixa ir, porque o idiota aqui é ele.
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