Notas iniciais
Não fará sentido se ler sem coração aberto.

Existem algumas questões sobre mim que você deveria saber antes de me conhecer. Acho que a primeira é que nada passa batido por mim. Desde a luz do Sol que invade a janela do meu quarto e esquenta o meu colchão e meu lençol de flores cor-de-rosa até o idoso que dorme na rua, sujo, em um banco de praça que tem uma madeira faltando, fazendo-o cair de frente para um andador que acredito, seja dele. Eu também tenho um espírito muito inocente, e isso me faz quebrar muitas vezes. Quando estou tentando salvar alguém de si mesmo eu nunca penso em como isso pode me levar ao meu limite e como meu limite pode ser a adaga que corta a minha alma bem no meio. E por conta de tudo isso eu me tornei mestre em disfarçar.

Aprendi que se você passa uma imagem para as pessoas por algum tempo ninguém necessariamente descobre como você é ou suas fraquezas e rachaduras, e é devastador saber que eu tenho tantas delas. O que você nunca vai saber é o quanto eu tive que sangrar pra crescer, e ainda assim, me parece que eu sou sempre tão pequena. E tudo o que eu posso contar para manter minha força por perto é com uma atitude confiante e algumas palavras difíceis que eu decorei do dicionário aos 8 anos quando descobri o que era gramática. Mas o que todos sabem é como meus olhos brilham quando eu falo sobre livros, mais especialmente os infanto-juvenis, e o quanto eles ficam tristes quando eu falo sobre política. Mas eu ainda acredito que um dia as coisas serão boas e iguais pra todo mundo.

E em minha defesa esse texto não é pra fazer sentido, nunca. Já que nem eu faço. Eu sou um paradoxo. E às vezes isso me incomoda. Eu queria ser como todo mundo. Às vezes eu acho que eu seria mais feliz se fosse de fato, mais ignorante. Se eu pensasse menos no melhor pro mundo todo e mais no melhor pra mim, se eu fosse tudo aquilo que eu finjo ser com medo de que me acessem de novo e levem todas as grandes conquistas interpessoais que eu levei anos para construir. Mas eu já entendi que eu preciso ter a mesma coragem que já tive aos 17. Eu preciso confiar nas minhas decisões como adulta, eu preciso entender quem eu sou e quem eu quero ser.

E quem eu quero ser? Uma pessoa que toma à frente. Que pode ser gentil e se impor. Eu quero não ter medo de ser vulnerável. Eu quero ser a líder que usa unhas de bolinhas e maquiagem de estrelinha. Eu sou a adulta que tem o sansão coelho cor-de-azul como bichinho de cabeceira. Eu sei que sou a menina que aos 17 se conhecia e conhecia os pais o suficiente pra tomar uma decisão importante por todos nós, que mudou o rumo das nossas relações e que se hoje jantamos juntos e rimos, foi por minha causa. Eu não deveria duvidar tanto do meu julgamento, mas, sabe: Eu duvido.

E se eu poder escolher uma pessoa pra ser, seria, eu.