Síndrome de Gaea.
6 Verde
Eu sempre li muito. Essa é a minha grande qualidade, na realidade. Eu gosto de palavras, elas são sempre um reconforto pra mim nesse mundo bagunçado. Quando mais criança eu tinha poucas habilidades sociais, a maioria delas, aprendidas pela observação. Acho que por ser filha única, superprotegida por todos os muros e familiares eu quis sempre viver uma aventura. Queria viver uma vida cujo envelhecesse e sentisse orgulho. Eu sonhava em ser corajosa e destemida e de fato, eu fui. Mas fui também arrogante e estupidamente volátil, manipulável. Típica arrogância juvenil, quando temos certezas de que tudo o que nos dizem nada vale, você sabe mais. Creio que esse texto irá sintetizar tudo isso.
Os ventos do inverno começaram a ganhar força quando ela descobriu o que era decisão. Estava realmente acostumada a não ter poder de escolha. Tinham o que lhe diziam ser melhor, mais digno e mais seguro. Não precisava pensar em nada que não fosse Niilismo ou Cinemática pensariam por ela. Sempre usava grandes blusões das suas séries favoritas e tinha seus cabelos dourados. Era, de fato, a personificação de "Castanho". Cabelo em corte reto, empilhando livros na cabeceira da cama na vaga expectativa de se aprender mais sobre o mundo, que agora, já sabe pouco, mas já sabe viver nele também.
Uma boa menina, muito pequena com sentimentos e sonhos grandes, quase tão grandes quantos seus delírios de grandeza sobre como seria capaz de mudar o mundo. Tão vaidosa que não conseguia sair de casa sem seus brincos. Achava mesmo que tinha todas as respostas. Nota dez nas provas, nota setenta nos simulados, imbatível nos debates, achou mesmo que seu pequeno e frágil mundo juvenil poderia de alguma forma refletir sobre a realidade ao seu redor.
E quando o conheceu se sentiu tão sortuda. Foi como se a confirmação de que era, de fato, grandiosa demais pro mundo. Se cercava de pessoas mais velhas pra se sentir mais adulta, mas a realidade não tão doce é que era uma criança como sempre foi, fazendo desejos pra estrelas cadentes e torcendo pra que ninguém note que seu filme favorito é do Disney Chanel. Se afundou nas expectativas de um adulto enquanto mal sabia pegar ônibus sozinha, sangrando pra poder crescer da forma mais humilhante para uma mente tão pretenciosa.
O ciclo começou cor-de-rosa. Não aqueles rosas escuros, não! Era claro. Claro como uma semelhança, dizendo tudo o que ela precisava ouvir, conhecendo cada gatilho e cada perspectiva. Cada poema que levou seu nome era como uma rosa que mais tarde, perfumaria seu caixão. Foi como encontrar um espelho de fundo falso, tão oco quando a construção de uma casa de madeira e barro. Ela realmente acreditou que era inteligente, diferente. E ela era mesmo: Uma adolescente com pouco repertório de mundo e muitas convicções contraditórias.
O decorrer do tempo passa em uma velocidade incomum na sua memória, entre risadas e discussões, às vezes em que a sua ansiedade a sufocou até perder o ar, ou em que teve seu celular jogado no chão, seu corpo pressionado contra o guarda-roupas, e entre uma risada e outra, hematomas iam aparecendo. Os sinais quase tão imperceptíveis quanto a cor do seu cabelo que transitou do costumeiro cor-de-mel para azul, verde, preto. Todas às vezes em que inutilmente batia portas e jurava a si mesma que seu limite havia chegado, e descobriu como limites podem ser elásticos. Nada a salvava, nem mesmo a sua própria arrogância. A queda em desgraça foi a pior parte para o esmagar do ego.
Com o tempo viu toda a sua inocência ser corrompida. Toda a sua personalidade deixar de combinar com sua aparência. Aprendeu coisas das quais gostaria nunca ter aprendido, vivenciou coisas que deseja esquecer todas as noites quando dorme e ainda assim, aqui está ela.
Viva, livre e sábia.
Verde.
Lidar com a violência é solitário. E eu acho que vou me sentir assim pra sempre: Sozinha.
Fale com o autor