Síndrome da Solidão a Dois
1 Final infeliz - A doença do mundo adolescente
Verão chegava ao fim. Após passar por tantos dias felizes, dezembro já era e janeiro se esvaía. Caio desfrutava de sua última semana junto aos seus amigos. Havia se mudado para São Tomé das Letras, sul de Minas, deixando para trás todos os amigos em Pedra Azul, nordeste mineiro. Com os seus 13 anos, não consegue entender o porquê de ter se mudado para um lugar tão longe de onde estava tão feliz.
Infelizmente tudo que é bom acaba. Seus pais já estavam se arrumando para irem embora. Seria mais de 12h de viagem, cansativas horas de tristeza e solidão, talvez o remorso, por ter deixado de fazer algo durante as férias. O tão eufórico que fora, torna-se, agora, uma sombra.
Tarde sombria de 15 de fevereiro, um dos raros dias como esses em São Tomé das Letras – cidade famosa pela suposta presença de seres extraterrestres – não só o dia estava encoberto assim como a mente de Caio. Seu único “amigo”, Renato, não era lá tão amigo quanto os seus de Pedra Azul, mas quebrava o galho. Apesar de ter seus atrativos, a cidade não parecia muito sedutora aos olhos de Caio, que preferia ficar em casa junto aos seus cadernos, com quem poderia realmente desabafar... É claro que não é lá um bom opinador, mas, pelo menos, não falava para ninguém seus problemas... E... Sua paixão.
Mesmo em um lugar onde parecia não existir ninguém que olhava para ele, Caio estava aficcionado por Camila, uma morena de olhos verdes que estudava junto com ele, na 7ª série. Talvez ele fosse um dos últimos “tontos” de se apaixonar por alguém, era uma coisa realmente bizarra entre seus colegas de classe. Teve que se acostumar com esse “estilo de vida”, claro, já havia ficado com uma, ou talvez duas garotas. Disse a si próprio que para provar que era homem não precisava “agarrar” todas as meninas, por isso preferia ficar um pouco longe dos “caras pegadores de mulher que nem água”, para não ser zoado por ter ficado com três, pra falar a verdade, só duas, mas sabe como é não é? Tem que causar boa impressão. Mas nada que o leve a um dia conseguir beijar aquela boca carnuda... É... Bem se tirou uma conclusão disso...
Camila, talvez, só se aproximava de Caio para colar na prova de matemática, nada de outro assunto com ela que não fosse escola, qualquer tentativa pode causar desconforto para ambos os lados, talvez por Camila já ter desconfiado da paixão de Caio, ou por achá-lo feio e “nerd”...
- Ah, o “sistema jovial atual” – adorem a imagem externa! – lamenta, ele com a ponta da caneta riscando o caderno do ano anterior. Talvez só estivesse tentando bater seu recorde anterior de folhas gastas por mais um dia sem ninguém...
A família – sua mãe, Elaine, seu pai, Christian, e sua irmã, Aline – tentaram ajudá-lo a superar a falta de alguém com quem pudesse encarar os fatos catastróficos que abalaram a ordem de sua vida.
Mas pior o pior de tudo... É ter a lembrança e o remorso por ter dispensado uma menina que tempos depois tornaria sua paixão... Às vezes a vida nos prega peças... Às vezes ele deitava na rede e ficava olhando para o telhado, contando as teias de aranhas, na esperança de que ela aparecesse do nada, tocando a sua campainha! Às vezes, ele se sentia tão confuso quanto ao seu coração... Dizem, os homens, que essa é a síndrome da cabeça vazia, o que seria isso? É o caso de Caio, não se distrai, vive só, sua mente não se ocupa com nada interessante... Existem três válvulas de escape, diga-se, sintomas: escrever até cansar, que é acarretado pelo segundo problema, paixão confusa (“coração dividido”) e... Eh... O outro é melhor esquecer. Tudo isso causado por uma única coisa: falta de pessoas compatíveis com sua maneira de pensar e agir, ou seu próprio gênio. Os garotos dizem que isso é falta de mulher, Caio não concordava.
Erros e acertos ocorrem constantemente, mas, para Caio, ele não errara tão feio para estar ali, trancafiado, sozinho num quarto, ouvindo música, após tanto escrever, chegou a uma única conclusão e contou-a a mim, Raul, melhor amigo dele em Pedra Azul e a conclusão é a seguinte: é humanamente impossível viver sozinho! Por mais pessoas que o cerquem, todas são desconhecidas e não o ajudam em nada!
Bem... A vida é isso, sozinho não se vive, resolvi escrever isso, após 5 anos, pois há 2 dias, Caio se suicidou, não agüentou viver mais trancafiado na ostra que criara, é uma pena, pelo que eu soube, nunca mais viu Camila após o término do ginásio e se afastou de Renato, por este estar usando drogas.
Ele só esqueceu que havia alguém que se importava com ele... Sua família está sofrendo, mas essa “doença” pode passar para outra pessoa, minha amiga, Anny, a menina que Caio “dispensara” e depois correra atrás levando alguns vetos, creio eu por causa do remorso dela de não ter agarrado Caio com unhas e dentes... Isso poderia ter poupado sua vida... Mas isso é caso para outro dia...
Bem eu termino mais uma folha deste caderno do ano passado, já que fechei o 3º ano, com uma conclusão não só do Caio, mas minha também...
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