Notas iniciais
Escrito 4 anos após o primeiro capítulo, foi a ideia de se mudar um final triste, para um feliz. Mostrando como cada segundo pode mudar toda nossa vida.

Verão chegava ao fim, após passar por tantos dias felizes, dezembro já era e janeiro se esvaía. Caio desfrutava de sua última semana junto aos seus amigos; havia se mudado para São Tomé das Letras, sul de Minas, deixando para trás todos os amigos em Pedra Azul, nordeste mineiro. Com os seus 13 anos, não consegue entender o porquê de ter se mudado para um lugar tão longe de onde estava tão feliz.

Caio amuado começava a se despedir de quem sabia que não veria mais nos próximos três dias em que iria ficar ali em Pedra Azul... Tudo estava indo de azul claro para roxo já... Havia passado as férias experimentando a sensação de ser rejeitado por alguém que já quis o seu bem... Sente-se triste ao quadrado agora... Mal consegue concentrar-se em outra coisa sem ser em Anny e seu olhos azuis dizendo “Quando eu quis você não estava de braços abertos me esperando. Por que deveria te esperar agora que está tão longe?”.

Seus olhos castanhos derramam lágrimas de desprezo por si próprio... A vontade de socar-se era enorme... Como fora tão idiota? Ficava olhando para alguém tão velha... “maldita Carla”, amaldiçoava agora... “tarde demais, garoto!”, repete as palavras de Anny, ela estava ali, o tempo todo, apenas esperando que ele a olhasse, tão simples! Notar aqueles belos olhos azuis! Lindos, porém longínquos, agora...

Os dias em Pedra Azul, por mais alegres que fossem junto aos amigos, poderiam ser mais proveitosos ainda no sentido amoroso... Não queria sofrer em um lugar onde deveria andar com um sorriso no rosto, por estar recompensado. Mas os esforços de Raul, Pedro, Júlia e Ricardo eram felizes no sentido de distraí-lo... Apesar de ser quase impossível esconder que Anny existia e parecia estar ali de propósito, só para assombrar Caio, já que ela morava na esquina da rua onde os amigos moravam. Ela fazia parte desse grupo, para falar a verdade ainda compartilhava amizade com Júlia, para Anny não se sentir completamente isolada. Mas havia tempos, desde que descobrira que Caio gostava de alguém da turma dele, que ela tentava se afastar dos amigos e piorou essa repulsa, ou, quem sabe, medo, quando descobrira que quem a rejeitara meses antes agora estava aos seus pés.

Não se sabe muito a respeito de como Anny, supostamente, esquecera Caio, diz Júlia que foi um rapaz de uns 17 anos de uma cidade vizinha, se não me engano, chamava-se Hugo, que começou a se comunicar com Anny. Passavam horas no telefone, o que em muito irritava Caio, pois parecia de propósito que Anny aumentava o tom de voz quando ele passava na frente de sua casa... Sempre dizendo coisas do tipo “Ah, Hugo, eu realmente deveria ter te achado antes...!” ou “Onde alguém tão especial como você estava escondido de mim?”, Caio se remoia de dor e remorso... Mas logo passava com as doideiras de Pedro, ou as piadas de Ricardo, ou os assuntos inusitados de Júlia, como a suposta existência de vampiros e seres desse tipo (era fácil achá-la fedendo a alho, ou com algum crucifixo enorme e de prata no pescoço, principalmente à noite).

O penúltimo dia de Caio ia nascendo, eram 9h quando Ricardo já o grita na porta de sua casa, com certeza teve alguma idéia de alguma coisa bizarra para se fazer nos últimos dias de férias... Tipo, pular no açude da casa do Cézar, ou assaltar goiabas na casa do Pedro, que detestava esse tipo de coisa com suas crias, assim dizia ele. Mas o fato é que o tal do Hugo estava lá, acabara de chegar e estava dando os maiores amaços em público na Anny, revolta da rua toda. Era uma rua unida... E, poxa, o cara vem de fora e fica ai se agarrando logo de manhã cedo com uma menina da rua! Isso não pode jamais! Todos da rua foram se mobilizando e acordando cedo, para ficarem observando a promiscuidade da cena. Em meia hora, lá estavam, além dos amigos, os colegas (chamados geralmente de pessoas-satélites, por estarem sempre girando em torno dos 5 amigos), Christian, que era vizinho de Raul, João Paulo, que era o vizinho do outro lado de Caio — já que de um lado é o Raul — Rodrigo, morava próximo a esquina com uma avenida, Amanda, que morava nos apartamentos, um monte de meninas que moravam lá também estavam junto. Parecia até que ali estava acontecendo um atentado violento ao pudor. Ao repararem que estavam sendo realmente observados, Anny e Hugo resolveram parar, em pouco tempo a mãe de Anny já estava ali, saíra do serviço para saber qual era o motivo de tanto alvoroço, logo percebeu que era sua filha, mas como se tratava do Huguinho, ela nem ligou muito e ainda reclamou com a galera que estava observando, a revolta foi geral, com o fundamento da resposta na lei, na qual diz que a rua é um bem público... Logo o casal se incomodou mais e tiveram que sair dali... Raul percebeu lágrimas claras no olhar de Caio. Júlia disse:

- Isso foi sujo por parte dela... Preciso falar com ela! — irritada

- Sujo? – soluçou Caio – Isso, por acaso é vingança? Eu fiz algum mal a ela? – enxugou as lágrimas e foi com duros passos para casa.

Após algumas horas, depois do almoço, estavam já todos juntos novamente, pulando o muro da casa do Seu Damasceno, para roubar jabuticaba. E o dia penúltimo se esvaiu.

14 de fevereiro, sábado, parecia que o dia prometia, apesar de ser o último, o sol despontara lá pelas 5h já aquecendo o solo com todo seu calor. Por volta das 9h, Caio era mais uma vez acordado, dessa vez por Raul o gritava agora na rua, chamando-o para jogar alguma espécie de RPG novo... Não tinha cabeça em pensar estratégias assassinas em um jogo... Por mais envolvente que fosse... O máximo que conseguiria era colocar o nome do seu “avatar” de Anny!

Após negar a Raul, esse desistiu da idéia do RPG e ficaram conversando sobre vários tipos de coisas... De homem... Ficaram ali conversando por horas. Após o almoço voltaram para o mesmo lugar, parecia que a rua toda tinha saído de manhã e estava voltando para casa só agora. Ao longe Caio pôde ver o rosto um pouco triste de Anny, vindo conversando com Júlia, que parecia bastante nervosa, obviamente pelo mesmo motivo do dia anterior. Eram duas horas da tarde, estavam todos sentados em frente à casa de Caio, na calçada, quando o telefone da casa de Raul toca... Era alguém inesperado... Muito inesperado mesmo!

- Alô? Quem fala? – disse Raul, ao atender.

- Só me responde uma coisa... – disse uma voz feminina soluçante.

- Que isso... Quem é? – disse o garoto, assustado.

- Anny... Me responde... Caio realmente gosta de mim? – disse a voz feminina atropelante.

- Que pergunta hein Anny? Retórica! – disse o amigo em tom de deboche.

- Me responde! – impaciente.

- Claro que sim, Anny! – mais impaciente que a garota e com um pouco de vingança na voz.

- Tô indo ai... AGORA! – gritou Anny e desligou o telefone.

Após o telefonema... Raul chega para Caio com um sorriso quinze pras três...

- Que foi? Ganhou na loteria? – perguntou Caio.

- Eu não! Mas você sim! – disse o amigo, feliz por Caio.

- Como assim? – indagou, mais encabulado ainda.

- Anny... Tá vindo aqui agora... – sussurrou Raul.

- Ahnhnh? – grunhiu Caio espantado com a notícia, pois havia semanas que não se falavam, desde a sua última tentativa de conquistá-la...

Só foi tempo de se virar e ver os olhos dela vidrados no seu... Já que ela morava na esquina da rua... Onde estavam os quatro amigos, muito aflitos com aparição de Anny. Como poderia ter mudado tanto desde o dia anterior?

- Caio... Terceira chance existe?! -

E se beijaram como nenhum casal apaixonado se beijara antes...

Caio pouco perguntou, mas não foi preciso, Júlia explicara tudo. Hugo não era “fofinho” ou “um cara especial”, era só mais um cara tentando se dar bem em cima de uma “menininha inocente”, tentou forçar Anny a transar com ele dentro da própria casa da garota, já que a mãe não dava a mínima para filha... Raul ainda chiou, afirmando que Caio não era opção número 2, que não era descartável e podia ser usado a hora que bem entendesse, mas logo Anny convenceu os amigos de que, na verdade, nunca esquecera Caio, estava tentando, no caso com Hugo, mas viu que não era o certo, não estava na hora de esquecê-lo e que deveria concertar os erros.

É claro que Caio teve que ir para São Tomé do mesmo jeito... Mas foi cheio de esperanças... Demorou alguns meses de namoro, mas a distância forjou a paixão dos dois e convenceu os amigos de que aqueles dois um dia estariam juntos como hoje, Caio teve a certeza de que existe alguém no mundo que o ama...

Escrevo hoje isso no seu livro se assinantes de casamento... Caio... Lembra-se desses dias meu amigo?!

Dedicatória do seu amigo, Raul!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!