São Francisco
24 Capítulo 23
Voltamos para o quintal bem no momento em que rolava a troca de presentes. Ao nos ver de volta, Otávio veio até a gente e quis saber onde estávamos, pois não nos via há minutos por ali.
—A gente estava lá dentro pai.
—Sozinhos? Fazendo o quê se todo mundo está aqui fora?
—A gente não tava fazendo nada de mais, Otávio. Só entreguei meu presente de Natal a Sara e ela me entregou o dela.
—E não podiam ter feito isso aqui na frente de todos como está sendo feito?
—A gente queria privacidade pra trocar nossos presentes, pai.
—Privacidade pra se agarrarem também, né? Olha, rapaz, não faça eu me arrepender de ter falado aquelas coisas a seu respeito. E nem pense que só porque disse aquilo tudo, agora tá tudo liberado.
—Jamais ia pensar isso.
—E o que você deu de presente a minha filha?
E lá vamos nós pra uma possível chiadeira dele ao saber qual foi o presente.
—Gil me deu esse anel de compromisso, pai.
A cara que Otávio fez foi impagável demais. Tive até que me segurar pra não rir na frente dele por isso e ser mal interpretado.
—Você pediu minha filha em casamento?
Ele tinha uma expressão incrédula e arriscaria até em dizer, que era assustada também.
—Não! É só um anel de namoro. Ainda somos jovens demais pra casar.
—Com certeza são jovem mesmo, principalmente a minha filha. Se quiser casar com ela é só quando Sara tiver mais de trinta, quase quarenta.
—Mas pai, eu já vou tá velha assim.
—Melhor ainda. Ele não casa com você.
Otávio saiu dali com um sorriso debochado e na maior tranquilidade.
—Já entendi de onde veio o seu humor instável. Ele veio do seu pai.
Sara me socou o braço.
—Engraçadinho!
Eu apenas sorri e abracei minha namorada em seguida.
Trinta... Quarenta... Seja lá qual for a idade que ela tiver, eu me caso com aquela insuportável no futuro.
A festa foi até quase as cinco da manhã, quando o último convidado foi embora e o último hóspede subiu para o quarto dele. Depois disso, Laura, Otávio, Sara, eu, minha mãe e Phil demos uma ajeitada rápida nas coisas ali e fomos dormir.
Horas mais tarde, quase meio dia, eu era despertado por minha namorada.
—Gil acorda!... Vai, seu preguiçoso, tá na hora de acordar.
Abri os olhos ainda morrendo de sono.
—Sara o que faz aqui no meu quarto?
—Te acordando!
—Eu ainda tô com sono e quero dormir. Me dá só mais cinco minutos, vai. — Resmunguei fechando os olhos.
—Então chega pra lá um pouco pra eu deitar aí com você.
—Não acho uma boa ideia isso. — Abri os olhos rapidamente.
—Por quê?
—Primeiro por causa do seu pai. Se ele pegar a gente nessa cama não vai ser legal pra mim. — Sara abriu um sorriso. _Segundo, porque eu tô só de cueca. E terceiro, porque o meu estado nesse momento não é muito favorável pra ter você por perto, ainda mais, numa cama comigo.
Sara caiu na risada logo após o que eu falei.
—Do quê está rindo?
—Das coisas que disse.
—Eu não disse nada de engraçado pra você rir.
—Ah, disse sim. E deixa eu te esclarecer umas coisas. — Sem o meu consentimento, ela se meteu sob as cobertas junto comigo. Essa garota é louca! _Primeiro, meu pai não está em casa. Ele saiu há poucos minutos com o Phil pra um jogo de futebol que o Paul veio chamá-lo e com isso ele vai demorar pra voltar desse jogo. E antes que mencione a minha mãe, ela está na cozinha entretida de papo com a sua mãe. — Sara contou colando seu corpo no meu naquele espaço pequeno que havia em minha cama e me fazendo suspirar com a proximidade entre nossos corpos. _Segundo, que eu já te vi de cueca e sem ela. Então essa "desculpa" não cola. E terceiro, a gente pode muito bem se aproveitar desse seu estado pra fazer algo bem interessante aqui. — Beijou meus lábios sutilmente.
Ela perdeu a noção do juízo? Transar aqui na pousada correndo o risco de sermos pegos. Nem pensar.
—Sara aqui não. Eu não acho uma boa ideia. Alguém pode nos pegar e isso seria constrangedor.
—Ninguém vai nos pegar. A porta tá trancada. E a gente faz rápido.
Sem me dar chance pra contestação, ela me beijou agora com urgência enquanto ia se acomodando sobre mim e me deixando sob ela.
Mesmo sentindo receio em ser flagrado ali com Sara, eu cedi a investida dela até porque foi humanamente impossível não ceder. E então nós fizemos amor rápido e sem preliminares. Tomamos o devido cuidado de não deixar escapar "ruídos" que nos denunciassem ali.
—Você é louca e eu mais ainda por te acompanhar nessa loucura. — Sorrindo, eu murmurei no ouvido dela pra logo em seguida beijar seu pescoço.
Estávamos acomodados de lado na cama, comigo abraçado a Sara por trás, com um lençol nos cobrindo enquanto ainda nos encontrávamos desprovidos de qualquer peça de roupa, já que há poucos minutos tínhamos feito amor.
—Ah, vai dizer que não gostou dessa "loucura" que fizemos?
—Só se eu tivesse um parafuso a menos pra não gostar. — Sorri apertando Sara em meus braços e lhe dando outro beijo agora em seu ombro.
—Não seria um parafuso, mas sim muitos.
Nós rimos.
—Posso saber o que te deu pra querer fazer isso aqui?
—Vontade, ora. E como hoje não daria pra irmos ao apê da minha amiga por causa da visita da sua mãe e Phil, e a barra tava limpa por aqui, aí eu pensei: Por que não?
—A gente podia ser pego.
—Mas não fomos, medroso!
—Não sou medroso.
—É, sim... Medrosinho!
—Pára, Sara.
Ela se virou de frente pra mim e sorrindo, imitou o modo como falei e as palavras que eu acabava de lhe dizer.
—Não tem graça. — A recriminei por sua imitação a mim.
—Ai, porque as vezes você é sério demais?
—Porque eu sou assim ora.
—Parece um velho resmungão.
—Sério que essa zoação não vai parar.
Ela abriu um sorriso e me beijou.
—Grissom!!
Imediatamente, Sara e eu interrompemos nosso beijo ao escutarmos a voz de Laura chamar-me do lado de fora do quarto.
—Caramba é a sua mãe. — Sussurei a minha namorada.
—Responde pra ela, vai!
—Oi, Laura! — Fingi uma voz sonolenta e Sara riu de mim. Eu a olhei sério.
—Sara está aí com você?
Minha namorada gesticulou negativamente com a cabeça.
—Não, Laura.
—Ai, mas essa garota e essa mania de sair sem avisar. Tá, Gil. Desculpa te acordar.
—Tudo bem.
Esperamos alguns segundos até pronunciar qualquer palavra ali.
—Não gostei nada de mentir pra sua mãe.
—Uma mentirinha boba não mata ninguém. Deixa eu me vestir e sair daqui antes que ela volte e descubra que mentiu.
Sara saiu da cama, vestiu-se rapidamente e assim que ficou pronta eu dei uma espiada no corredor pra me certificar que ninguém a veria saindo dali.
—Pode ir.
—Até depois.
—Até!
A gente trocou um rápido beijo e ela se mandou dali apressadamente.
...
Como o voo da minha mãe e Phil pra Vegas era só a noite ainda deu pra Sara e eu levarmos os dois à praia de tarde onde passeamos pela orla e pela areia. Tomamos água de côco na barraca do padrinho de Sara e no fim da tarde voltamos pra pousada para minha mãe e Phil se arrumarem.
Quando foi por volta das sete da noite os dois já se despediram de Laura e Sara. Otávio ia levá-los ao aeroporto e eu iria junto com ele.
—Agora esperamos vocês em Vegas pra uma visita a gente.
—Eles podem ir para o seu casamento com o Phil, mãe. — Sugeri ali.
—Ah, é mesmo. Assim que tivermos a data avisamos, não é Phil?
—Sim. E fazemos questão da presença de vocês lá.
—E ficarão hospedados lá em casa.
Meus sogros confirmaram que iam e ficariam no aguardo da ligação da minha mãe informando a data do casamento direitinho pra eles se programarem para ir a Vegas. Depois Sara e Laura trocaram abraços com minha mãe e Phil. Pra em seguida partirmos para o aeroporto onde chegamos minutos mais tarde.
Esperamos pouco tempo até ouvirmos o chamado do voo pra Vegas. Então me despedi da minha mãe primeiro e posteriormente de Phil.
—A gente se vê segunda de tarde, querido.
Assenti pra minha mãe antes de vê-la seguir com Phil para o portão de embarque.
—Sua mãe e o namorado dela são ótimas pessoas. — Ouvi meu sogro dizer ao meu lado. Olhei pra ele e sorri concordando totalmente com as palavras dele.
...
—Nossa, você foi péssimo!
—Obrigado! — Olhei nada contente pra Sara por ela ter dito o óbvio. _E você que quase me mata afogado.
—Ah, que mentira, Grissom! Eu te falei pra mergulhar, você não me ouviu. Tomou caldo!
—Não achava que surfar fosse tão difícil! — Me joguei na areia acabado de tanto levar tombo e caldo.
—Não é difícil. É você que é ruim demais além de não levar menor jeito pra esporte!
—Definitivamente não levo mesmo! Ainda mais pra esse esporte.
Praticar esporte nunca foi a minha. Uma vez ou outra ainda ia um futebolzinho, mas era muito de vez enquando mesmo.
—Desde quando você surfa?
—Desde os quatorze. É incrível a sensação de estar numa prancha surfando uma onda.
—Eu não achei nada incrível.
—Também você não conseguiu ficar em pé direito na prancha por nenhuma vez.
—É difícil se equilibrar numa prancha.
—Não é nada!
—Você não acha, porque já sabe ficar em uma.
—E lá vem o namorado resmungão dar o ar da graça dele.
—Se eu sou o namorado resmungão, você também é a namorada resmungona.
Ela me golpeou no braço enquanto me olhava com um olhar assassino, que me fez abrir um sorriso.
—Não te ensino mais a surfar.
—Eu peço ao Kylie então.
—Você não vai me dizer mesmo o que te fez mudar de atitude com ele?
—Segredo de estado, senhorita curiosa. — Murmurei com um sorriso antes de roubar um beijo de Sara.
Muitos momentos atrás, logo que chegamos a praia para Sara me dar aulas de surf, encontramos Kylie por ali. Ele ao nos ver, veio até nós. Cumprimentou Sara e depois, eu o cumprimentei na maior tranquilidade e sem qualquer hostilidade. E esse meu comportamento totalmente amistoso com o ex de Sara não passou nada desapercebido por minha namorada.
Assim que Kylie se despediu da gente pra entrar no mar, Sara me interrogou a respeito do meu comportamento amistoso com Kylie e sem qualquer Q de ciúmes. Eu lhe justifiquei isso como sendo a promessa que havia feito a ela de não fazer mais cena com o ex dela. Mas omiti sobre a conversa que ele e eu travamos na noite do luau. Aquilo da minha parte ficaria somente entre Kylie e eu.
—Algo me diz que essa amistosidade tem a ver bem com aquele papo que trocaram lá no luau.
Mais que namorada sagaz e esperta, eu arranjei.
—Tá a fim de um picolé?
—Não desconversa, Grissom.
—Não tô desconversando. — Neguei já sinalizando para o vendedor de picolé. _Vai querer ou não?
—Vou! E eu ainda vou descobrir o que tá escondendo de mim a esse respeito com o Kylie, Gilbert.
—Vai em frente!
Se ela fosse descobrir não seria por mim, porque não iria lhe contar. Talvez, Kylie fizesse isso.
Comprei um picolé de chocolate pra ela e um napolitano pra mim. E quando já estávamos saboreando nossos picolés um grupo de quatro pessoas sendo dois rapazes e duas moças, acenaram na nossa direção e vieram até a gente.
Eles eram amigos de escola da Sara que ela tratou de aprentá-los a mim e vice-versa. Thomas, Glenn, Ruy e Liz eram pessoas bem legais e divertidas. Assim que souberam quem eu era e de onde vim, me bombardearam de perguntas sobre minha cidade e ganhei o apelido de "o cara de Las Vegas".
—Deve ser muito maneiro morar na tua cidade.
—É. E pra quem gosta de agito é mais maneiro ainda, já que a cidade é pura agitação. Lá tem diversão pra toda parte. Você não fica entediado em Vegas essa é a verdade.
—E você vai em muita festa bacana por lá, cara?
—Não. Eu não gosto de festa, Thomas.
—Ah, fala sério! Você mora na cidade mais agitada e cheia de festa, e não gosta de festa?
—Não!
—Mais que namorado mais contrário a você foi encontrar, hein Sara?
—Não enche, Tom.
O tal Tom apenas riu.
—Ah, eu adoraria arranjar um namorado desses, que não gosta de festa e sim, de ficar em casa. Eu ia ficar com ele em casa sempre.
Glenn me olhou com encantamento e sorriu-me largamente me deixando sem graça com aquela sua atitude e fazendo minha namorada não gostar nada daquilo.
—Glenn pode tirar seus olhos apaixonados de cima do Gil, porque ele já tem namorada: Eu!
—Ai, Sara! Até parece que eu ia furar seu olho.
—Eu sei que não, mas não custa nada te deixar de sobreaviso, amiga.
O resto do fim de tarde eles ficaram ali jogando conversa fora comigo e Sara. Foi bem agradável a companhia deles. Gostei de conhecê-los. Eu imaginava que os amigos dela fossem mais loucos que ela, mas não eram tanto assim.
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