Ruthven

1 Mudanças


Rubens queria encontrar alguém para passar a noite, mesmo que fosse só por uma noite. O jovem tinha algumas pizzas e vários jogos prontos para serem testados em seu novo vídeo game de última geração, mas lhe faltava o principal: um parceiro para dividir aquilo. Não era a primeira vez que o jovem rapaz pensava no quanto era difícil ser gay ultimamente, ser sempre solitário, nunca encontrar um parceiro a fim de ficar até o fim da noite, de trocar mais que salivas, de se conectar de alguma forma, ou só ver um filme, ou jogar uma partida de vídeo game... Mas ele sabia que isso, principalmente pra ele, era como ganhar na loteria, já que tudo em sua vida era a foder. Estava na varanda do seu apartamento, os cabelos escuros balançavam ao movimento do vento e se misturava a fumaça do cigarro que o rapaz tragava, como sempre estava desanimado, os olhos ainda vermelhos, com certeza era efeito do choro e da maconha usada mais cedo.

— Isso definitivamente não é normal, eu estou com vinte e seis anos, e ainda vivendo essa vida de merda, — suspirou e passou a pensar na vida. — Não tenho um emprego digno, ou que pelo menos pague o que mereço, não tenho mais uma família, ou um namorado que me apoie, e os meus amigos são os piores amigos do mundo, talvez eu já não tenho um motivo para viver... — bufou o rapaz e bateu o punho no estofado do sofá. — E pior, agora estou falando sozinho.

Ele tragou o cigarro lentamente, aproveitando o gosto adocicado de menta na boca. O telefone da sala tocou alto, ele pensou em ignorar, mas depois de alguns minutos e do toque irritante tocando sem parar, levantou-se e devagar foi até o mesmo, estava quase chegando o telefone quando ele caiu na caixa postal mais uma vez e quem estava ligando deixou uma mensagem de voz.

“Estamos numa festa super maneira, e acho que você deveria estar aqui, disse a voz masculina que Rubens logo conheceu era embalada pelo som de uma batida dançante, nós o estamos esperando. O endereço é rua das alamedas, número oitocentos e trinta e três.”

Rubens não esboçou nenhuma reação, apenas caminhou para longe do telefone e entrou no banheiro pequeno da casa. Olhou-se no espelho e se achou um lixo, os olhos vermelhos, os cabelos desgrenhados, não vinham um pente há uns três dias pelo menos. Ele sabia que precisava mudar aquilo, talvez fosse isso que espantasse os homens de sua vida, o seu desmazelo total com a vaidade. Encarou o espelho por mais alguns minutos e preferiu se afastar, não estava no clima de encarar por muito tempo, não era aquela visão que ele queria ver, então arrancou a roupa e entrou embaixo do chuveiro frio, a noite estava quente e abafada, o jovem rapaz ficou ainda mais frustrado enquanto sentia a água escorrer por seu corpo com alguns pelos em lugares específicos, revirou os olhos enquanto encarava o corpo branco e magro que sempre o incomodou, que ele sempre quis mudar mas nunca tomou coragem de ir à uma academia, sabia que malhar gastava muita energia, e ele preferia pizzas e jogos de vídeo game.

A água fria que caiu em jatos fortes do chuveiro o despertou, e ele logo saiu do box pingando água pelo chão e torcendo para que seus pés descalços não o levassem ao chão enquanto corria pelado pelos cômodos, como sempre ele tinha esquecido a toalha. Não muito tempo depois Rubens entrou no quarto e pegou a toalha vermelha em cima da cama, começou a secar o corpo magro quando ouviu o celular vibrando em cima do travesseiro, sem vontade foi até o aparelho e o atendeu.

— Lucas... — ele disse com preguiça, o desprezo e a falta de vontade explícitas na voz.

— Qual foi Rubens? Não está feliz em ouvir a linda voz do seu melhor amigo? — Lucas gritou do outro lado da linha, estava ofegante e a música alta começava a irritar Rubens.

— Então, pra falar a verdade nem um pouco contente em falar com você a essa hora da noite, estou vestindo o pijama e pronto pra dormir. — Rubens disse sendo a sinceridade em pessoa. Não sabia porque os amigos ainda insistiam em compactuar com ele quando ele deixava claro em qualquer ação que ser amigo deles era como levar chutes no saco.

— Assim você até me ofende mocinho. Eu lhe passei o endereço da festa, e acho bom você correr pra cá, a Mônica tem um primo mega gostoso para lhe apresentar, sério corre pra cá que o homem é babado. — Lucas disse gritando mais uma vez.

Rubens olhou para o telefone com olhos intrigados e balançou a cabeça negativamente.

— Hummmmm, é que vindo da Mônica com certeza é algum tipo de roubada, alguma chave de cadeia. Então prefiro ficar dormindo essa noite. Não há necessidades de sair de casa para conhecer...

— Não, você não está entendendo, o homem é realmente um gato, ele tem um ar de renascença e como eu sei que você gosta desses bagulhos de arte, vai adorar, ele é realmente um gato. Então vem logo, estamos esperando você. E só um aviso, se você não vier, eu darei meu rabo a noite inteira para esse deus grego. — Lucas disse rindo e a ligação se encerrou logo depois.

Rubens sentou-se pelado sobre a cama e ficou pensativo, não tinha certeza se deveria ir encontrar um desconhecido primo de sua amiga mais estranha, mas tinha certeza de duas coisas, o Lucas nunca diria que um cara era gato se ele realmente não fosse um verdadeiro deus grego, e ele não queria passar a noite sozinho, então vestiu-se rapidamente, jogou no corpo as primeiras roupas que encontrou no guarda roupa, uma calça preta com rasgos nos joelhos, uma camiseta branca e uma jaqueta de couro sintético, olhou-se no espelho e estava ridículo, mas era o melhor que podia, então resolveu ignorar os cabelos bagunçados, pois esses teriam de ficar daquele jeito mesmo, precisava fazer um corte no dia seguinte. Rubens calçou os tênis velhos e saiu de casa apressado, pois segundo o aplicativo do celular, o próximo ônibus passava em poucos minutos.

O ônibus realmente não demorou a passar e logo Rubens estava a caminho da festa.

Ele só não sabia ainda que a noite reservava mudanças.