Running with the Wolves
13 Voltando Pra Casa
Notas iniciais

O barulho de aviões pousando e decolando do Aeroporto Internacional da Califórnia não agradava a audição lupina de Scott McCall, mesmo assim, ele cruzou o saguão rapidamente, com uma euforia gostosa batendo em seu coração.
Estava atrasado, é verdade, culpa do jipe do Stiles, mas o importante é que estava ali. Continuou correndo, até chegar na ala de desembarque, mas aparentemente o voo já tinha chegado e os passageiros não estavam mais ali.
Estou mais atrasado do que eu pensei... resmungou mentalmente, enquanto tentava encontrar a pessoa que tinha vindo buscar.
— Hey, estranho — A voz feminina, que ele reconheceu perfeitamente bem, estava bem atrás de suas costas.
Scott se virou a tempo de ver o sorriso de Malia Tate e foi impossível não sorrir também.
— Hey... — Respondeu enquanto os dois se puxavam para um beijo. Um longo e muito aguardado beijo de reencontro.
— Senti sua falta. — Ele admitiu quando se afastaram. — Como estava a França?
Malia não conseguia parar de sorrir, ainda era estranho se sentir não feliz por causa da simples presença de alguém. Ainda mais se considerasse o fato que só estava de volta porque Beacon Hills tinha problemas.
— Francesa... — Ela deu de ombros. — Como estava a universidade?
— Legal, legal. — Scott assentiu algumas vezes, mas sua resposta não tinha convencido em nada sua namorada. — Horrível.
Riram juntos, sentindo que todas aquelas vídeo-chamadas não tinham amenizado em nada a saudade. Era um daqueles momentos em que uma pessoa olha pra outra e simplesmente sabe que tem muita sorte.
— Então... — Scott pegou uma das malas, mesmo que não precisasse, já que Malia podia ser até mais forte que ele. — Estou surpreso que o Peter não está aqui pra te receber.
Ela fez uma careta de desgosto no mesmo momento.
— Ele não está aqui porque eu não falei que voltava hoje. —Devolveu pratica. — Ele estava surtando pra eu não vir. Ele é louco.
Scott assentiu enquanto sorria, Malia era uma garota descomplicada, que via a vida de um jeito único, ela podia parecer estranha à primeira vista, por causa da falta de filtro e dos modos nada delicados, mas ela era especial, era isso que o Alfa achava de sua Beta Coiote.
— Eu não quero lidar com isso. Ainda não superei ele ter ido atrás de mim na França. — Ela comentou um tantinho revoltada.
— Ele só está preocupado com você. — Scott respondeu e ele próprio se surpreendeu com o fato de estar defendendo Peter Hale.
Mas muito tinha acontecido desde que McCall fora mordido pelo tio de Derek. Coisas ruins e coisas boas. Peter tinha se redimido pelo menos um pouco no fim de tudo. Malia era uma boa influência, mesmo que ninguém jamais fosse dizer uma coisa dessas ao olhar pra ela.
— Por que? Não faz sentido. — Ela fez um gesto displicente com a mão direita, pra então perceber que tinha algo errado. — Espera, você sabe de alguma coisa. O que você sabe?
Scott engoliu em seco, pensando se devia ou não contar tudo que tinha descoberto pela manhã.
— Derek pode ter comentado algumas coisas comigo... — Preferiu manter o meio termo.
— Tipo o que? — Malia parou de andar e o encarou um tanto desconfiada.
— Nada demais... — Scott deu de ombros, tentando não dar importância demais para o assunto. — É só sobre essa menina nova...
— A tal Delta? — Malia pareceu subitamente desinteressada. — O que tem ela?
Scott ainda não estava certo se acreditava em tudo que tinha ouvido de Derek durante a ligação telefônica, ainda mais em se tratando de algo que Peter tinha dito. No entanto, ele não podia mentir para Malia...
— Peter acha que a conexão entre um Alfa e sua Delta pode se tornar um tipo de... ligação emocional. — Revelou com cautela.
Malia o encarou por poucos segundos, ainda assim, foram o bastante para que Scott começasse a se perguntar o que ela estava pensando.
— Hum... — Assentiu finalmente, cruzando os braços. — Ele achou que eu não conseguiria lidar com isso?
— Talvez... — Scott comprimiu os lábios, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro.
— Você acha que eu não posso lidar com isso? — Ela estreitou levemente os olhos.
— Não. — Ele respondeu, se dando conta que a resposta tinha vindo rápido.
— "Não", você não acha que eu posso lidar com isso, ou "não", você acha que eu posso lidar com isso? — Malia falou tão rápido, que Scott mal conseguiu acompanhar o raciocínio.
— Ahn... O que?
— Eu posso lidar com isso. — Ela afirmou de cabeça erguida.
— Eu sei. — Scott afirmou no mesmo instante e os dois assentiram um para o outro. — E provavelmente não é nada disso. Peter está só surtando. Sabe como ele é...
Malia não respondeu de imediato, acabou se perdendo em um pensamento solto, um que mostrava uma versão do futuro em que Peter estava certo, um em que coisas do passado se repetiam. Descartou o pensamento. Não gostava de divagar sobre coisas que não tinha controle, também não gostava de sofrer por passado ou futuro. Tudo que ela tinha era o presente, e não queria estragar isso.
— Então, vamos ou não? — Falou finalmente.
— Vamos sim. Mas não agora. — Scott respondeu apontando um dos bancos. — Precisamos esperar o Stiles, ele volta hoje também. O voo chega em menos de uma hora.
Malia não falava com Stiles fazia tempo. Tinham se afastado muito depois dos eventos com a Caçada Selvagem. Não era culpa do Stiles, mas Malia tinha preferido assim. Estava feliz por ele e Lydia, estava mesmo, mas isso não impedia a dor de aparecer de vez em quando.
Ao se sentar, percebeu que não sentia nada daquele tipo desde que ela e Scott estavam juntos e, por isso mesmo, foi inevitável deixar que a sombra do futuro hipotético a assombrasse um pouco. Não sabia se estava pronta pra viver tudo outra vez...
— Lydia vem também? — Perguntou, tentando tirar a cabeça de coisas ridículas.
— Não agora, ela ainda tinha algumas coisas pra resolver no MIT — Scott sorriu, e segurou sua mão, simples assim.
Malia desejou arrastar o Alfa com ela para a França, mas sabia que ele nunca concordaria. Scott não era um Alfa Genuíno por acaso, sempre lutaria pela coisa certa. E era exatamente por isso que ela tinha se apaixonado por ele.
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Crystal Green examinou o celular um tanto impaciente. Derek não respondia as várias mensagens da garota, tampouco atendia o telefone. Já fazia mais de vinte e quatro horas. Ela soltou um suspiro irritado e guardou o aparelho no bolso traseiro.
— Talvez seja um lance de lobisomens... — Falou, erguendo a cabeça e enganchando o braço no de Theo, enquanto os dois andavam pelo corredor da escola. — Sabe, essa coisa de evitar pessoas? Liam está te evitando, Derek está me evitando...
Theo lhe lançou um olhar que começava indignado pela ousadia do contato e terminava entediado pelo assunto.
— Eu e Liam temos um lance. Você é Derek tem apenas a sua obsessão platônica por um cara que não dá a mínima pra você... — Ele fez um movimento displicente com a mão, logo depois de puxar de volta o braço que Crystal tinha tomado a liberdade de segurar.
Ela ajeitou o cabelo e revirou os olhos.
— Você não sabe o que está dizendo — retrucou como se fosse a dona da verdade.
— Não? Tem certeza? — Theo deu um sorriso afiado. — Porque, pra mim, parece que o Derek só estava interessado, enquanto suspeitava que você fosse uma ameaça ou uma assassina, agora que ele sabe que você não passa de uma bateria do Scott, ele nem se importa com a sua existência.
Crystal cruzou os braços e emburrou, como faria uma garotinha de cinco anos.
— Eu não devia ter contado nada pra você. — Se referiu a conversa que tinham tido mais cedo. Momento em que contara toda a breve história com Derek Hale.
— Concordo. — Theo respondeu imediatamente. — Eu não me importo com os seus dramas, mas você fala demais.
Foi a vez de Crystal dar um longo olhar entediado para o garoto.
— Você é oficialmente o pior amigo de todos, Theo. — Bateu o ombro contra o dele, mas acabou sorrindo.
— E você gosta de mim mesmo assim... — Ele se gabou dando de ombros. — Só estou dizendo a verdade, se queria alguém pra te iludir, devia ter escolhido o Liam, ele é bom nisso.
Crystal riu, Theo e Liam não tinham se resolvido e o garoto quimera não estava lidando muito bem com a rejeição.
— Vocês vão se resolver, ele só precisa de tempo e talvez de um empurrãozinho. — Ela tentou encorajar.
— Por que não falou antes? Eu posso empurrá-lo de um abismo qualquer. Pra se honesto eu me sentiria bem melhor depois de fazer isso. — Theo lançou sarcástico.
— Não se sentiria, não. — Crystal falou devagar, como se estivesse ensinando uma criança o que é certo e errado.
— Eu me sentiria melhor fazendo isso, do que indo pra esse estúpido treino de Lacrosse. — Theo apontou com a cabeça os garotos uniformizados que seguiam um pouco na frente.
Crystal riu, enquanto negava algumas vezes e parava de andar.
— Você não vem? — Ele perguntou.
A garota andava tão colada nele o tempo todo que Theo tinha se acostumado. Não era como se gostasse da companhia dela ou nada assim, pelo menos era isso que dizia pra si mesmo.
— Em alguns segundos, só tenho que guardar essas coisas. — Ela apontou para os livros e depois para o próprio armário e Theo deu de ombros, saindo na frente.
Talvez o treino não fosse tão ruim assim... Liam estaria lá, podia bater nele "sem querer" só pra descontar a raiva.
Crystal parou em frente ao seu armário e guardou seus livros, tirou o celular do bolso e deu mais uma olhada, nada de mensagem do Derek e estava quase sem bateria.
Pensou por alguns segundos e digitou: "estou começando a achar que você morreu".
— Brincadeiras com morte, melhor não. — Apagou o que tinha escrito e digitou novamente: "Não sabia que lobisomens hibernavam..." — Ridículo.
Apagou tudo de novo e encostou nos armários, suspirando de total frustração.
Quer saber, não vou mandar mais nenhuma mensagem. Se ele não quer falar comigo, eu não me importo, resmungou mentalmente e estava tão perdida nas próprias conjecturas que não percebeu que o corredor já estava vazio e que alguém se aproximava dela.
— Oi. Você é a Crystal, não é? — A voz masculina a trouxe para a realidade. — Sabe onde fica a sala do meu pai?
Crystal tentou dar um passo para trás assim que reconheceu o interlocutor. Era o filho do professor de artes, o mesmo cara estranho que tinha ficado encarando por tempo demais.
Olhou ao redor e percebeu que estava sozinha com ele.
— Oh, droga, desculpe, acho que eu fiquei parecendo um stalker bizarro agora. — Ele deu três passos pra trás e assumiu uma postura cordial. — Eu sou Bradley, Bradley Blackwood. Sou filho do professor Edward Blackwood. — Estendeu a mão para um cumprimento, mas Crystal só o encarou ainda mais desconfiada. — ... E eu acho que isso ainda não explica como eu sei seu nome...
Ele riu, abaixou a própria mão e deu mais dois passos pra trás como se desculpasse.
— Eu te vi outro dia, quando vim buscar meu pai, e te confundi com alguém que eu conheço. — Começou a gesticular enquanto falava e Crystal se deu conta que todo aquele visual "dark" não combinava muito com ele. — Então, o meu pai falou que você não era a pessoa com quem eu te confundi e disse que seu nome era Crystal. Me desculpa se eu pareci inconveniente ou algo assim, não foi minha intenção.
Ele pareceu sincero, e Crystal pensou que talvez estivesse julgando demais. Resolveu dar o benefício da dúvida para o rapaz.
— Não, tudo bem. — Ela meneou a cabeça como se não fosse nada demais. — Sim, eu sou a Crystal e a sala do seu pai é no segundo andar, terceira porta.
Os olhos de Bradley acompanharam a mão de Crystal quando ela apontou a escada e ele sorriu.
— Muito obrigado e desculpa outra vez. — Juntou as duas mãos e fez uma referência para agradecer. — Foi um grande prazer te conhecer.
— Imagina... Prazer te conhecer também. — Ela acenou, enquanto ele subia a escada.
Bradley sumiu de seu campo de visão e Crystal se virou para o armário outra vez. Esfregando os braços em um gesto instintivo.
— Credo, que frio — resmungou, procurando entre suas coisas uma blusa.
Não encontrou, fazia calor, mesmo quando saiu de casa pela manhã. Não teve motivos para pegar blusa de frio e não fazia sentido estar com frio naquele momento, afinal não estava ventando e ainda estava sol do lado de fora.
Preciso parar de ser tão friorenta desse jeito, pensou enquanto olhava o celular por puro impulso. Nada de Derek Hale. Bateria em sete por cento.
"Estou com frio, meu telefone vai morrer
Estou cansada, então vou pra casa
Boa Sorte com o Liam"
Enviou para Theo enquanto fechava o armário, decidida a ir para casa.
A caminhada provou logo que aquela coisa de frio era loucura, o calor da Califórnia era agradável e Crystal se sentiu até mais animada. Estava no meio do caminho quando a bateria acabou de vez, mas não se importou realmente, seriam apenas alguns minutos.
Quando avistou sua casa, percebeu que tinha algo errado, Senhor Bigodes estava do lado de fora, andando de um lado para o outro da calçada, miando como se o mundo estivesse acabando.
— Minha nossa que desespero. Eu esqueci de te dar comida? — Crystal perguntou, enquanto pegava o felino no colo e o acalmava, acariciando sua cabeça.
Caminhou até a porta da frente e achou a chave na bolsa, estava fazendo o melhor que podia para destrancar a fechadura e segurar o gato que não parecia nada feliz de voltar pra casa, na verdade ele parecia desesperado.
Quando Crystal abriu a porta o animal lhe deu um arranhão e fugiu.
— 'Tá bom, pode ser que eu tenha esquecido, mas não é pra tanto! — Ela resmungou, sem ver pra onde o gato tinha ido, passando a mão sobre o braço arranhado. — Já vou colocar a comida!
Jogou a bolsa sobre o sofá e seguiu para a cozinha, afim de cuidar das necessidades do animalzinho.
Mas logo que verificou os potes, se lembrou que tinha trocado água e comida antes de ir pra escola e tudo estava lá, praticamente intocado.
— Gato doido! — Ela gritou, para ninguém em particular, tirando o telefone celular do bolso e dando meia volta, na intenção de colocá-lo para carregar no quarto.
Talvez, se Crystal Green fosse mais atenta, ela teria notado que a porta da cozinha não estava travada, na verdade a maçaneta tinha sinais claros de que fora forçada.
Mas a garota estava tão preocupada com o celular, que subiu as escadas alheia a todos os sinais. Quando estava no último degrau, ouviu um barulho estranho em seu quarto, como se algo estivesse sendo jogado no chão.
— Sério, Bigodinhos? O que eu te fiz pra você estar com todo esse ódio no coração? — Ela julgou que era seu gato simplesmente fazendo arte.
Todavia, quando abriu a porta do quarto, percebeu que algo não estava certo. Era tarde demais, no entanto. Dentro de seu closet, com as portas escancaradas e todas as coisas no chão estava um jovem.
Crystal o reconheceu de imediato.
— Greenberg? — Exclamou entre o surto e a surpresa. Greenberg era um garoto da escola, um repetente, mas nem por isso um problema, na verdade ele era inofensivo.
Mas, quando o rapaz se virou para Crystal, com o baú de sua mãe nas mãos, ela soube que ele não era ele mesmo. Seus olhos estavam vermelhos, não apenas a íris, toda a orbe estava com a cor de sangue, um vermelho escuro e sem vida, que fez cada pelo do corpo de Crystal se arrepiar.
E no centro da testa de Greenberg, desenhado com o que parecia sangue fresco, havia um pentagrama invertido...
Fale com o autor