Notas iniciais
Hello todo mundo!! Eu sei, eu sei, ando bem atrasada ultimamente, mas é aquele velho ditado: "Vamo faze oq", não espera. Acho que o ditado é: "Antes tarde do que nunca" kkkkkkk piadinha de tiozinho a parte, finalmente tô de volta com capitulo novo (eehhhh) Esse é um daqueles capitulos de transição, mas temos mais algumas informações sobre Rosalyn e Talia, além da introdução de um dos conflitos para o nosso casal (agora eu finalmente posso falar o nome do shipp, porque não tem mais mistério sobre o que a Crystal é) eu chamo esse OTP de FairyWolf (porque será neh?) E sem mais demoras, vamos ao capitulo Boa leitura!

— Tem certeza que você vai ficar bem? — Madeleine Green perguntou, segurando o rosto da neta com ambas as mãos.

— Eu vou sim, vovó, já conversamos sobre isso, lembra? — Crystal respondeu docemente, abrindo um sorriso que, embora parecesse, não era verdadeiro.

Os três Green estava parados do lado de fora da casa, a caminhonete estava no gramado, portas e janelas abertas, Madeleine e Alan estavam partindo.

— Eu acho melhor ficarmos mais uns dias... Não sei se... — A avó ainda tentou argumentar, não estava muito segura de deixar a neta sozinha em uma cidade estranha.

— Madeleine, deixa a menina, mulher, a gente sabia que uma hora ou outra esse dia chegaria. — Alan Green interveio e apesar das palavras, seu tom era calmo e quase divertido.

— Sim eu sabia, mas por que não pode ser outra hora? — Madeleine respondeu, agindo como se ela fosse a adolescente ali.

— Eu vou ficar bem, gente, prometo. O Senhor Bigodes está aqui comigo e qualquer coisa eu ligo, vai dar tudo certo. — Crystal colocou convicção e calma em suas palavras, mas a verdade é que nada disso existia em seu anterior.

Fazia três dias que descobrira toda a verdade sobre a mãe, sobre si mesma e sobre a real ameaça que pairava sobre Beacon Hills. Desde então, estava tão assustada e nervosa, que tudo em que conseguia pensar era tirar os avós da cidade o mais rápido possível. Não queria que corressem risco de forma alguma.

— Não estou feliz com isso, não, não... — A Senhora Green abraçou a neta pela milésima vez, e negou várias vezes, enquanto seguia para a caminhonete.

— Ela vai ficar bem... — Alan tranquilizou a garota, enquanto se despedia pela terceira ou quarta vez aquele dia. — E você cuide de si mesmo, ouviu?

— Pode deixar, vovô. — Crystal continuou fazendo de tudo para parecer calma e feliz.

— Eu deixei o congelador abastecido de algumas coisinhas que você gosta, assim quando não estiver querendo cozinhar, não vai ter que ficar comendo porcarias por aí. — O Senhor Green apontou, se afastado para o banco do passageiro, já que a esposa estava na direção.

— Obrigada, vô. De verdade. — A jovem mandou um beijo para os dois, dando um passo para trás, no momento em que o motor da caminhonete era ligado.

— A gente te ama! — Madeleine acenou para a neta, se virando para o companheiro e dando-lhe um cutucão. — Diz que ama ela também.

— Ela sabe, mulher. — Alan esfregou o braço em que a esposa acabara de bater.

— Mas diz de novo. — Ela ralhou e o homem colocou a cabeça para fora do veículo:

— Nós te amamos, querida. — Acenou também.

— Eu também amo vocês! Boa viagem. — Crystal gritou, balançando o braço, enquanto a caminhonete se afastava devagar pela rua.

Alguns segundos depois os avós sumiram ao virar a esquina e ela suspirou fundo, deixando os ombros caírem e encarando a rua vazia.

— Pois é, Senhor Bigodes, somos apenas eu e você agora... — Falou com o gato, que estava sentado no parapeito da varanda. — O que quer fazer primeiro?

O felino amarelado pulou direto para o chão, assim que Crystal abriu a porta da sala, tomando a dianteira e assumindo seu lugar preferido no sofá, dando uma volta entorno do próprio corpo e se deitando ali, todo enroladinho, sem dar a menor atenção para a dona.

— Nem sei por que eu ainda tento... — Crystal revirou os olhos e checou o celular.

Não havia nenhuma mensagem ou ligação, nada. Durante aqueles três dias ninguém entrara em contato, nem mesmo Theo, que supostamente era seu amigo.

Abriu a aba de mensagens de Derek, pela milésima vez naqueles três dias, e checou que ele estava online. Sentiu vontade de digitar alguma coisa, mas não o fez.

"Se ele não vai falar comigo, eu é que não vou falar com ele" deu de ombros, como se não se importasse e estava pronta para subir para o próprio quarto, quando alguém tocou sua campainha.

A jovem franziu as sobrancelhas, sabendo que não estava esperando ninguém. Como em um impulso incontrolável, seu coração disparou assim que sua mente pensou que talvez fosse um certo moreno de olhos verdes.

Quando Crystal abriu a porta, ficou um tanto desapontada, mas muito surpresa.

— Como vai, Crystal? — O homem de cabelos grisalhos e barba por fazer cumprimentou com uma expressão neutra.

Crystal piscou ao menos três vezes, enquanto encarava os olhos claros, antes de responder.

— Oi... — Sorriu, meio incerta. — É senhor Argent, certo?

Não sabia se era bom ou ruim que o caçador de lobisomens estivesse na sua porta.

— Chris. — Ele corrigiu. — Só Chris está bom.

Crystal assentiu, mas ainda tinha os olhos assustados.

— O senhor quer entrar? — Questionou dando um passo para o lado da porta.

Não sabia se era seguro chamar um caçador para entrar em sua casa, mas considerou que ele estava do lado certo e resolveu ser educada.

Educação ainda tinha que valer de alguma coisa, certo?

— Não. — Chris Argent negou e o esboço de um sorriso apareceu em seus lábios. Resolveu explicar o que fazia ali, antes que a menina ficasse ainda mais assustada. — Os meninos disseram que você não aparecia na escola desde nossa conversa na clínica veterinária. Imaginei que ainda estava processando tudo, já que Parrish disse que você permanecia na cidade...

— Espera, o Oficial Parrish é...? — Crystal interrompeu, deduzindo que Jordan fazia parte de tudo aquilo

Será que alguém nessa cidade é normal? Questionou pra si mesma.

— Um Hellhound. Cão do Inferno. — Argent explicou e foi como se a jovem Green estivesse ouvindo grego. — Você não faz ideia do que seja, não é?

Ela negou um tanto desconcertada e Chris se permitiu sorrir daquela vez. Era só uma garota inocente, jogada de cabeça em tudo aquilo...

— Imaginei, por isso estou aqui. — Ele explicou finalmente. — Trouxe uma coisa pra você dar uma olhada, enquanto processa tudo que descobriu.

Estendeu para Crystal um tipo de livro grosso. Ela observou a capa dura, onde a palavra "bestiário" estava gravada.

— É um livro, contém informações sobre todas as criaturas sobrenaturais que minha família já teve contato. — Argent elucidou, enquanto apontava o objeto.

— Uma família de caçadores? — Crystal lançou, antes mesmo de ter intenção.

— Eu estou aposentado. — O homem deu de ombros. — Mas sim, venho de uma família de caçadores.

Se encararam por não mais que dois segundos e Crystal assentiu:

— Obrigada...

Chris Argent colocou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro e suspirou, podia imaginar o que aquela menina estava prestes a enfrentar.

— Posso fazer uma pergunta? — Crystal falou de repente e ele fez um sinal com a cabeça para que ela prosseguisse. — Por que parou de caçar?

Observou o ex-caçador piscar algumas vezes e desviar os olhos antes de responder:

— Minha filha. Ela dizia que tínhamos que parar de caçar aqueles que nos caçam e começar a proteger aqueles que não podem se proteger. — Havia uma ponta de tristeza na voz dele, embora houvesse muito mais orgulho.

— É um lema muito bonito. — Crystal sorriu, todo o receio que tinha do homem tinha se esvaído dela durante aquela curta conversa.

Talvez confiasse depressa demais nas pessoas, mas não conseguia ver maldade em Chris. Fora o fato dele ter sido o primeiro a procurá-la naqueles três dias.

Theo e Derek deviam aprender umas lições com o senhor Argent, comentou para si mesma, enquanto ainda observava o homem, que parecia muito longe em sua própria mente.

Crystal não tinha como saber, mas ele estava pensando em sua filha, Allison.

Chris Argent decidiu não tocar no assunto, não só por ser dolorido para ele relembrar a morte da filha, mas porque Crystal ainda era muito crua e inocente para saber de certas coisas.

O mundo sobrenatural podia ser cruel.

— Eu anotei meu telefone, caso tenha alguma dúvida. — Apontou o livro e deu sua tarefa ali por terminada, tinha que voltar para casa, Melissa era quem precisava de apoio naquele momento, já que Scott estava prestes a voltar para a cidade.

— Obrigada, senhor Argent. — A jovem acenou enquanto ele se afastava, rumo ao seu carro.

Chris parou em frente ao veículo e observou a figura pequena da garota. Quando a viu na clínica, da primeira vez, jurou que Crystal deixaria a cidade na primeira oportunidade, mas ela ainda estava ali, firme e forte. Confusa, perdida, indefesa, mas ainda assim, ali.

— Você é muito corajosa por ter ficado, Crystal. — Declarou em voz alta.

— Acho que minha mãe queria isso, quer dizer, ela me deixou uma casa aqui, então... — Ela deu de ombros como se não fosse nada demais.

— Ligue se precisar de ajuda. Não importa a hora. — Foi a última coisa que ele disse, antes de entrar no carro e dar a partida.

Crystal fechou a porta e caminhou vagarosamente pela sala, enquanto encarava o livro em suas mãos. Demorou alguns segundos para se sentar ao lado do senhor Bigodes e abrir em uma página aleatória.

Havia o desenho da face de uma criatura humanoide, assim como de algumas partes especificas de seu corpo. O nome "Kanima" podia ser lido em letras cursivas.

— Esse não é o tipo de coisa que eu gostaria de encontrar por aí... — Crystal declarou em voz alta, virando as páginas aleatoriamente.

Todo o livro parecia retirado de um filme de terror e Crystal suspirou.

— As coisas eram um pouco mais "mágicas" em Harry Potter — resmungou, voltando ao inicio do livro. — Mas é o que tem pra hoje, paciência...

Estava prestes a começar a leitura, pela página correta daquela vez, quando novamente a campainha soou pela casa.

— Quem será dessa agora? — Jogou o livro em um lugar qualquer e caminhou até a porta.

Theo Raeken estava parado ali, com a expressão mais aleatória do mundo, como se não tivesse sumido por três dias.

— Você perdeu a apresentação do trabalho de artes e uma porção de coisas idiotas. — Ele praticamente jogou alguns cadernos em cima da garota, enquanto passava pela porta. — Eu disse para os professores que você estava doente, de nada.

— Valeu...? — Crystal ainda não tinha processado tudo. Theo parecia um tanto frenético, como se algo estivesse errado.

— E aí, o que o seu avô fez de bom hoje? Estou faminto. — Ele caminhou a passos largos pela sala, como se fosse o dono da casa.

A jovem Green finalmente conseguiu se recompor e jogou os livros no sofá, depois de fechar a porta com o pé.

— Meus avôs voltaram para o Maine, achei que era melhor incentivá-los a ficar bem longe da cidade. Saberia disso, se tivesse sido um bom amigo e me mandado mensagem, ou ligado... — Ela fez questão de deixar clara a sua irritação.

Theo a encarou por meio segundo antes de se jogar ao lado do senhor Bigodes, que saiu correndo dali como se o mundo estivesse acabando.

— Deaton disse pra te darmos espaço pra tomar suas decisões sem influencias. — Ele comentou, como se isso fosse capaz de explicar tudo. —Mas eu estou aqui agora, não é? De nada.

Crystal negou algumas vezes, mas se deu por vencida, fazia sentido no fim das contas e aqueles três dias tinham sido mesmo necessários para que ela tomasse as próprias decisões e, principalmente, para que colocasse a cabeça no lugar sobre tudo que tinha descoberto.

— Fiquei curiosa pra saber o que rolou em você e o Liam aquele dia. — Ela finalmente se jogou no sofá ao lado de Theo.

O garoto, por sua vez, conteve a vontade de falar de uma vez tudo que estava passando por sua cabeça. Queria fingir que não tinha nenhuma vontade de contar tudo para Crystal, porque ainda era difícil aceitar aquela coisa de amizade.

Mas a verdade é que as coisas com Liam tinham se tornado ainda mais confusas e, no fundo, Theo precisava contar para alguém, e ele não tinha ninguém.

Naqueles três dias, enquanto Liam, Corey, Mason e o próprio Deaton achavam que talvez fosse mais seguro que Crystal decidisse partir, Theo só conseguia pensar que não queria que as coisas voltassem a ser como antes.

— Nada... — Ele desconversou, no cúmulo de seu fingimento.

— Nada? — Crystal repetiu um tanto incrédula. — Vocês saíram de lá juntos e nada aconteceu?

Theo deu de ombros e ela se colocou de pé, rumo a cozinha, demorou alguns minutos por lá e ele, com seus sentidos apurados, soube que Crystal estava preparando algo para que comessem.

— Liam quer agir como se nada tivesse acontecido. Eu também sei fazer isso... — resmungou alto, como quem não quer nada, incapaz de se conter.

Crystal voltou correndo para a sala no mesmo instante, uma bandeja mal arrumada e a expressão bastante empolgada.

— Então alguma coisa aconteceu! Vocês conversaram?

Theo pensou o quanto era idiota que a menina estivesse tão animada por algo que nem lhe dizia respeito, mas não pode deixar de pensar que gostava do comprometimento dela.

— Mais ou menos... — Ele deu de ombros de novo, afinal a pose ainda era mais importante.

Era bom em fingir que não se importava, tão bom que, com o tempo, chegou a acreditar em suas próprias mentiras, mas isso não funcionava quando se tratava de Liam, o beta tinha despertado um lado há muito esquecido em Theo.

— E o que ele disse? — Crystal tinha vontade de sacodir o garoto para conseguir respostas mais rápido, mas Theo seguia se mostrando desinteressado.

— Nada...

— Você disse que gostava dele e o Liam não disse nada? — Ela quis ter certeza, seu tom era um tanto indignado.

— Não foi exatamente assim que aconteceu... — Theo deixou no ar, se sentindo um tanto idiota por estar falando sobre aquelas coisas.

— Então como foi? — Crystal começou a ficar desconfiada, com o amigo sendo evasivo daquele jeito, alguma merda tinha rolado, com certeza.

— Ah, não importa, o idiota vai ficar agindo como se estivesse com amnésia alcoólica mesmo. — Theo jogou, enchendo a boca com o que estava na bandeja, tentando se convencer que tudo aquilo era um erro.

Mas, mesmo naquele momento, mesmo depois de três dias e de tudo que Liam vinha fazendo, aquela noite na clínica não parecia um erro, na verdade, parecia a coisa mais certa que Theo tinha feito desde que era um menino.

— Espera, eu disse pra você conversar com o Liam sobre sentimentos, e vocês ficaram bêbados? — Crystal cruzou os braços, agindo como se aquilo fosse uma bronca, embora sua figura miúda não intimidasse Theo em nada.

— Sentimentos, embriagues, é tudo a mesma coisa... — Ele jogou a mão no ar e deu de ombros, pegando mais algumas coisas na bandeja.

— Não. Não é. — A jovem retrucou como se fosse óbvio.

Theo achou que já era hora de dizer tudo de uma vez e acabar logo com aquilo.

— Tanto faz, Scott, o Alfa perfeito, está voltando para a cidade e Liam vai agir como se o beijo nunca tivesse acontecido, assim ele não precisa encarar os olhares acusatórios do papai, que não gosta de mim. — Soou um tanto revoltado, mas não se importou com isso.

Crystal levou dois segundos pra associar "papai" ao garoto chamado Scott, mas certamente não foi aquela parte da frase que a surpreendeu.

— Espera. — Ela agiu como se tivesse levado um choque. — Vocês se beijaram?! Ah, meu deus, vocês se beijaram!! Me conta tudo!!

Ela começou a sacudir Theo, que fez a pior das caras. Crystal soube que, se tinha qualquer amor à vida, era melhor parar imediatamente. Soltou o garoto devagar e se ajeitou em seu lugar, como se aquele pequeno ataque de empolgação nunca tivesse acontecido.

— Eu não quero falar sobre isso agora. — Theo declarou sério. — Próximo assunto.

A jovem Green percebeu que não haveria um acordo, e resolveu dar um tempo para que o amigo se sentisse mais à vontade para compartilhar os detalhes daquela noite.

— Tudo bem... — Focou em outro assunto. — Então, por que o tal Alfa não gosta de você?

Theo gelou. Não tinha como contar o motivo de toda a alcateia de Scott detestá-lo, sem contar todas as coisas horríveis que tinha feito com eles.

Não quis fazer isso, sabia que, no instante que Crystal soubesse, ela agiria como todos os outros e o pintaria como o vilão. Afinal, ele era um vilão.

— Ah, sei lá, algumas pessoas simplesmente não gostam de outras, acontece... — desconversou, agindo naturalmente.

Crystal o encarou por alguns segundos e não duvidou em nenhum deles.

— Me parece que esse Scott e a turminha dele são meio idiotas. — Ela desdenhou revirando os olhos.

Theo se sentiu bem, era a primeira vez que alguém ficava ao seu lado daquela forma, mesmo os Dread Doctors nunca tinham feito o mesmo. Mas ele soube que não podia criar inimizade entre Crystal e a alcateia de Scott, tinha mais coisa em jogo que seus interesses pessoais.

Se tudo que Deaton e Peter Hale tinham dito era verdade, então Crystal precisaria de proteção contra as bruxas, proteção essa que Theo não podia dar, mas Scott e os amigos, sim.

— Não são. Acredite, eles são uma ótima alcateia. — Ele declarou, e não precisou mentir sobre. Scott tinha tudo que Theo quis um dia, realmente era uma ótima alcateia. Uma da qual eu não faço parte, lembrou a si mesmo enquanto desviava os olhos.

— Hum... — Crystal ainda não estava tão convencida, mas resolveu deixar aquele assunto em aberto, até que conhecesse o tal Scott pessoalmente. — Falando em Alcateia, Chris Argent esteve aqui hoje. Me trouxe isso.

Entregou o livro na mão de Theo.

— Ah, é um bestiário. — O garoto não demorou mais que alguns segundos para reconhecer. — E o que você achou?

— Me parece mais um livro de lendas bizarras. Eu ainda não entendo muita coisa. — Ela não pareceu nada empolgada.

— Eu posso te ajudar com isso. — Theo ofereceu antes mesmo de pensar sobre. — Sou muito bom com essa coisa de criaturas sobrenaturais.

Não costumava ajudar os outros apenas por ajudar, e não soube dizer por que tinha resolvido fazer aquilo por Crystal. Talvez aquela coisa de amizade fosse contagiosa...

— Eu gostaria de um curso intensivo. — Ela voltou a sua animação usual.

— Tudo bem, e o que você quer saber? — Os dois ajeitaram suas posturas lado a lado.

— Tudo.

E Theo passou o resto daquela tarde contando tudo que sabia sobre o mundo sobrenatural e a alcateia de Scott. Alfas, Betas, Ômegas. Coiotes, Banshees, e os tipos de Kitzunes.

Usou o bestiário para ilustrar cada criatura.

Contou sobre as quimeras, sobre Mason e a Besta. Sobre Dread Doctors e a Caçada Selvagem. Não poupou detalhes sobre os caçadores e sobre a criatura chamada Anuk-ite.

Também explicou sobre os poderes deles e sobre as fraquezas. Sobre cinzas das montanhas e acônito.

Se sentiu útil, importante. Crystal podia aprender aquilo com qualquer um, mas estava aprendendo dele. Se um dia ela se tornasse uma grande Delta, Theo saberia que tinha contribuído ao menos um pouco para isso, era um sentimento estranho para ele, mas ao mesmo tempo era bom.

— Mas então, você contou como Corey e Mason acabaram nas mãos dos Dread Doctors, mas e você? Como se tornou uma quimera? — Crystal questionou no final, ao perceber que Theo praticamente não falara sobre si mesmo.

Não sabia como ele tinha conhecido Scott, nem por que não eram amigos, era como se uma grande parte da história ainda faltasse. Theo tinha contado que ajudara com a Caçada Selvagem e os Caçadores, mas todo o confronto com os Dread Doctors era uma grande lacuna que Crystal não conseguia entender.

— História muito longa, te conto outra hora, tenho que ir agora. — Theo desconversou no mesmo instante.

Não queria ir de verdade, afinal não era como se tivesse mesmo um lugar para ir. Mas Crystal faria perguntas que ele não podia responder.

Sabia que era só uma questão de tempo para que a garota descobrisse tudo. Assim que entrasse na alcateia de Scott alguém contaria, Stiles ou Malia, Crystal saberia cedo ou tarde sobre todas as atrocidades de Theo e assim, a amizade dos dois estaria acabada.

— Já? — A garota se colocou de pé junto com Theo, que já caminhava para a porta.

— Eu tenho uma vida, sabia? — Ele retrucou um tanto irônico.

— Tudo bem, obrigada pela ajuda, não me sinto uma cega no meio de um tiroteio agora. Quer dizer, ainda estou no meio do tiroteio, mas pelo menos não sou mais cega. — Crystal abraçou o jovem e ele se sentiu estranho, um tanto triste, como se vislumbrasse pela primeira vez tudo que perderia quando aquela amizade ruísse.

Theo passou pelas portas e parou na varanda.

— Eu estava pensando.... — Crystal recomeçou. — Você disse que o Liam está agindo como se não lembrasse, talvez você deva fazer exatamente o contrário. Seja irresistível.

Sorriu e Theo acabou por fazer o mesmo. Tudo chegaria ao fim uma hora ou outra, mas enquanto não chegasse ele e Crystal ainda eram amigos.

— Hum... — Ele deu um sorrisinho superior. — Eu posso fazer isso... Até que você não é tão inútil assim, Bateria Lupina.

— Não tem graça. — Crystal empurrou o ombro do garoto e os dois riram.

— Ah, tem sim! — Theo se dirigiu a sua caminhonete. — Eu te pego amanhã cedo, chega dessa coisa de faltar na escola. Liam tem Corey e Mason do lado dele, eu preciso de você como meu reforço.

— Você quer dizer que precisa de mim como sua amiga. — Crystal corrigiu e Theo revirou os olhos teatralmente a deixando sem resposta.

Quando a caminhonete azul virou a esquina Crystal ainda estava sorrindo, gostava de Theo e tinha ficado feliz com a visita, tinha feito-a esquecer dos problemas que ficavam rondando sua mente nos últimos dias.

E, depois de saber tudo que tinha acontecido em Beacon Hills, Crystal parou de pensar que era tudo sua culpa. Merdas aconteciam naquela cidade e aconteceriam com ou sem ela, o jeito era aceitar isso. Se Theo estava certo em tudo que disse, então a Alcateia de Scott resolveria o problema. Eles sempre resolviam...

Voltou para a sala e, novamente, checou o celular, ainda nada de mensagens. Derek estava online novamente. Crystal ficou encarando a tela por alguns segundos.

Não tinha regra alguma dizendo que Derek tinha que ser o primeiro a mandar mensagem. Ele podia estar ocupado, podia estar dando espaço pra ela como Theo... Era uma infinidade de coisas. Crystal decidiu que aquela coisa de sobrenatural já era confusa o bastante, não havia necessidade de complicar ainda mais com coisas simples como uma troca de mensagens.

Se Maomé não vai até a montanha, então a montanha vai até Maomé...

✶ ✶ ✶ ✶ ✶

No loft de Derek Hale apenas uma voz era ouvida. Uma voz frustrada e urgente.

— Malia, já disse que você tem que...

Peter Hale andava de um lado para o outro, em uma briga com a filha, ou melhor, não era uma briga, era um monólogo, afinal Malia desligou o telefone na cara do homem sem cerimônia alguma.

— Como essa menina pode ser tão teimosa? — Ele jogou as mãos para o ar, frustrado.

— Ela é sua filha... — Derek respondeu entediado.

Os olhos verdes do Hale mais jovem estavam focados em seu aparelho celular, a foto de Crystal Green na tela e nenhuma mensagem nova.

Fazia três dias.

Ela não estava indo à escola, não tinha dado sinal de vida, nada.

Derek ainda lembrava do semblante assustado da garota, quando a tinha deixado em casa. Ele tinha certeza que Crystal sairia de Beacon Hills assim que possível, e por mais que um lado de si mesmo achasse isso o melhor, outro temia e tinha esperanças que ela ficasse. Estava em conflito e ficar olhando para a tela do celular não ajudava em nada.

— Ela não me escuta. Scott não me escuta. — Peter continuou resmungando e ele nunca tinha parecido tão velho quanto naquele instante. — Você tem que ligar pra ele e dizer que a Malia não pode voltar pra Beacon Hills.

Derek riu. Era uma ideia ridícula. Malia fazia parte da Alcateia de Scott, era a beta mais forte dele, além de ser sua namorada, Scott precisava dela, ficava mais forte com ela. Não havia um só motivo para que a coiote não voltasse para Beacon Hills.

No entanto, Derek preferiu se controlar, seu tio não parecia normal nos últimos dias e o Hale mais jovem sentia que havia algo mais acontecendo.

— Você vem falando isso pra eles e pra mim nos últimos três dias, mas não diz por que. — Foi direto, como era sempre, não gostava de subterfúgios ou joguinhos, não sentia que tinha tempo pra isso.

Peter encarou o sobrinho por três segundos e deu uma resposta tão evasiva quanto das outras vezes.

— Eu já disse, é por causa de tudo isso... — Moveu a mão direita em um movimento amplo, como se mostrasse toda a cidade. — O melhor para a Malia é ficar bem longe do Scott.

Derek revirou os olhos e suspirou enquanto negava. A mesma resposta dos últimos dias. Relaxou o corpo na cadeira novamente, na verdade, não estava interessado nos assuntos do tio.

Voltou a examinar o telefone, como se Crystal Green fosse mandar uma mensagem a qualquer momento.

— E o melhor pra você é ficar bem longe daquela Delta. — Peter arrancou o celular da mão de Derek, mais rápido do que o esperado. — Nada de mensagens, conversinhas, encontros. Pare agora de se apaixonar por ela!

— Eu não estou me apaixonando por ela... — Derek negou, mas sua voz falhou, não estava preparado para ser confrontado sobre aquele assunto.

Peter deixou o celular sobre a mesa e riu, um riso irônico e debochado.

— Se isso é você mentindo pra si mesmo, vai ter que se esforçar muito mais — devolveu, se afastando da mesa e caminhando pelo loft.

Derek perdeu a pouca paciência que tinha e se colocou de pé, bloqueando a passagem do tio e o encarando de frente.

— Peter, o que está acontecendo? — A pergunta foi séria.

O comportamento do tio estava mais estranho que o normal e Derek não confiava o bastante para deixar pra lá.

— Ah, vamos lá, Derek, de novo? — Peter Hale usou seu humor habitual. — Bruxas matando pessoas pela cidade pra trazer outra bruxa de volta a vida. Você já ouviu essa história. A coisa vai ficar feia.

Era uma evasiva, uma ridícula e que não convenceu Derek.

— Exatamente. Se a coisa vai ficar tão feia quanto você disse, por que continua aqui? Você sempre foge, Peter. — Havia acusação direta na voz do mais novo.

Peter desviou os olhos, vacilou. Derek nunca o tinha visto fazer aquilo.

— Eu não posso fugir, é pessoal! — A resposta veio baixa, contrariada, cheia de ódio. — Tiram algo de mim naquela época. Algo que eu não posso recuperar...

— E agora você está com medo que eles tirem a Malia de você? — Derek supôs, até aquele instante apenas Malia havia conseguido despertar alguma humanidade e juízo em Peter Hale.

— O que? Não. — Ele negou fazendo um movimento displicente com a mão, como se aquilo fosse idiotice. — Adoraria ter a Malia aqui, alguém sem frescuras é o que eu preciso na hora de matar essas pragas. Mas ela não pode estar perto do Scott quando as coisas mudarem.

Derek rosnou, sua irritação tinha chegado a níveis incontroláveis.

— "Quando as coisas mudarem?" — Repetiu com a voz um pouco mais animalesca do que pretendia. — Pare de falar por enigmas, Peter e desembucha de uma vez!

— Eu estou falando do Scott e da Delta, por isso Malia não pode estar aqui, por isso você tem que ficar longe daqueles olhinhos verdes... — Peter finalmente encarou Derek de frente e o mais novo sentiu que era sério. — Quando os dois se conectarem, digamos que o vínculo emocional vai ser muito grande. Eles vão se apaixonar um pelo outro e isso vai partir o coração da Malia.

Derek piscou algumas vezes, aquela informação o atingiu de formas estranhas que ele preferiu ignorar. Resolveu focar em Malia e Scott, como se ele e Crystal fosse algo fora da equação, mesmo que seu lado lupino tenha se rebelado dentro de si.

— Ah, qual é? Você já foi menos dramático. Scott não é assim... Ele pode lidar com isso. — Deu as costas para Peter e caminhou em direção a mesa.

— Não importa como o Scott seja, importa o que ele é, e ele é um Alfa que vai se conectar com uma Delta. — O Hale mais velho soou convicto. Tinha certeza em cada palavra. — É uma conexão poderosa, Derek. Chame de destino se quiser. Um Alfa e sua Delta... O lobo vai escolher a garota, e quanto mais ele lutar, mais infeliz ele vai ser.

Por algum motivo Derek se sentiu pessoalmente atingido por aquelas frases. Se sentou, levando alguns segundos para separar o que sentia do que o lobo dentro de si sentia, precisa manter o controle se ainda queria respostas.

Mas era difícil separar duas partes de si mesmo, quando as duas partes eram uma só, e, sem perceber, Derek começou a procurar por soluções para algo que ele sequer admitia que era um problema.

Crystal e Scott, soava como heresia, de qualquer que fosse o jeito.

— Eu tenho certeza que você está exagerando, Peter. — Tentou amenizar, quase como se quisesse acalmar seu lobo. Acalmar a si mesmo. — Minha mãe era uma Alfa e a mãe da Crystal era uma Delta e as duas...

Se calou. O olhar no rosto de Peter foi tão significativo que Derek soube da resposta antes mesmo de ter a pergunta.

— Como acha que sei de tudo isso? — O mais velho deixou no ar.

O queixo de Derek só não caiu, porque ele tinha muito controle sobre si mesmo.

— Elas eram...? — Não teve coragem de terminar a frase, não quando isso colocava tudo que tinha como verdade em cheque.

— Apaixonadas uma pela outra. — Peter completou, enquanto assentia. — Nunca vi nada igual... Mas sua mãe tinha as obrigações dela com a Alcateia, tinha uma linhagem de Hales pra continuar, não podia se dar ao luxo. E Rosalyn sabia disso, ela faria qualquer coisa pela sua mãe.

A cabeça de Derek rodou. Pensou nas parcas lembranças que tinha do pai e da mãe juntos e as coisas se moldaram de forma diferente, o relacionamento deles ganhou outro significado.

— Por isso, quando Rosalyn escolheu abrir mão dos poderes, não foi só um sacrifício por Beacon Hills, foi pela sua mãe. Pra acabar com a conexão das duas. Deixar sua mãe ser feliz com o seu pai, enquanto ela ficava livre para partir. — Peter prosseguiu, sabendo que tinha que contar tudo.

— E funcionou? A conexão foi quebrada? — Derek ergueu a cabeça para encarar o tio.

— Não sei... — Ele negou e deu de ombros. — Elas agiam como se tivesse acabado, mas quando se viam na reunião anual, ainda se olhavam daquele jeito... Um jeito que a sua mãe nunca olhou para o seu pai, e um jeito que Rosalyn nunca olhava para o humano dela.

Derek teve que se levantar, caminhou até a janela e respirou fundo. Pensar na mãe vivendo com um homem que não amava, apenas por obrigação, era triste.

Sempre viu a mãe como alguém que tinha lutado por tudo que queria, e mesmo sabendo que naquela época os tempos eram outros, não conseguiu encaixar Talia Hale na figura de alguém que não tinha lutado pelo grande amor de sua vida, mesmo que esse amor fosse outra mulher.

— Foi mal, eu não queria estragar a sua ilusão de família perfeita... — Peter jogou no ar, mas não parecia realmente sentido, e Derek nem ficou surpreso por isso. — Mas, se serve de consolo, sua mãe se casou com o melhor amigo e seu pai era realmente um grande lobisomem.

Derek pensou no pai, quase não tinha lembranças dele, mas imaginar que ele tinha vivido ao lado de uma mulher que não o amava de verdade parecia cruel.

— Ele sabia? — Perguntou, mas não teve certeza se queria saber a resposta.

— Sobre a Rosalyn? — Peter confirmou antes de prosseguir. — Todo mundo sabia, Derek, não tem como esconder um sentimento assim...

Derek encarou o tio e não soube o que dizer, cada vez mais era como se não conhecesse a própria mãe.

— É por isso que Malia não pode voltar, eu não quero ter que entortar o queixo do Scott por partir o coração da minha filha... — Peter parou pra pensar por um segundo — Ou seria desentortar?

Derek não achou graça da piadinha sobre o queixo naturalmente torto de Scott, mas nem se deu ao trabalho de revirar os olhos. Começou a montar as peças do quebra-cabeças que eram as intenções de Peter.

— Também é por isso que você tem que ficar longe da Delta, preciso de você do meu lado, e preciso do Alfa genuíno também, vocês não podem brigar entre si, as bruxas não nosso verdadeiro alvo. — Peter declarou, como se fosse a coisa mais banal do universo, desconsiderando todas as vontades que não fossem a dele próprio.

— Então somos só peões no seu plano de vingança? — Derek cruzou os braços, nada contente, quando entendeu a coisa toda.

— Se quiser colocar assim... — O tio deu de ombros. — Entenda do jeito que quiser, Derek, só fique longe da garota, entendeu? Não se apaixone pela mulher de outro homem...

O moreno engoliu em seco, finalmente tinha se dado conta do que a conexão de Scott e Crystal significava. Não era algo banal ou reversível. Não podiam lutar contra aquilo...

Derek soube que, seja lá o que tivesse sentido por Crystal Green até aquele momento, tinha que acabar. Ele não podia se aproximar dela novamente.

Foi nesse instante que seu celular vibrou sobre a mesa e, mesmo com todos os avisos e advertências, o coração de Derek falhou uma batida ao olhar o remetente da mensagem que acabara de chegar: Crystal Green.

Hey, Lobo Mandão
Acho que me acostumei com seu mau-humor
Estou com saudades...

Como Derek manteria sua sanidade daquele jeito?

Notas finais
Eita! E agora? Parece que tá todo mundo com o romance por um fio por causa da chegada do Mascott uashaushuash até o coitado do Theo. Algumas de vocês já tinham cantado a bola de um romance entre Rosalyn e Talia, não foi bem um romance, mas... Vamos ver como o Derek vai lidar com isso agora neh? Crystal sozinha na cidade, quem aqui acha que vai dar merda? kkkkk (sempre) Nos vemos em breve Bjss e até!