Running with the Wolves
22 Delta e Alfa
Notas iniciais

Kate Argent não teve qualquer dificuldade em abrir o cofre Hale novamente, foi até engraçado que Peter não tivesse arrumado a entrada frontal. Mas esse era o problema com os lobisomens Hale, eles se achavam intocáveis... Um explosivo bem posicionado e Kate não teve maiores problemas.
No entanto, achar o tal livro não foi tão fácil, teve que revirar o lugar, passando por todo tipo de quinquilharia sem valor e, apenas quando perdeu a paciência e derrubou uma das estantes, é que encontrou o que procurava. O livro voou para o chão junto com tantas outras coisas e Kate sorriu.
Se abaixou e esticou a mão para pegar o objeto, lembrando no último segundo que tinha quer ser com a mão protegida por um feitiço.
Não havia nada de surpreendente no grimório, era apenas um livro velho, com desenhos estranhos e escrito em uma língua desconhecida, mas para Kate isso não importava, desde que ela tivesse o que queria no fim.
Se direcionou para a saída e estava na metade da escada, quando alguém bloqueou sua passagem.
— Então é isso que você se tornou, Kate, uma ladra comum? — Chris Argent tinha uma arma em punho.
Desde que deixara a clínica não tinha sido difícil rastrear Kate, o fato de conhecer os métodos de agir da irmã, também ajudavam muito naquela caçada.
— Eu não esperava que você entendesse, Chris, sua visão sempre foi muito limitada... — Kate debochou, subindo mais um degrau e encarando o irmão de frente. — Então, vai me deixar passar ou vai atirar em mim?
— Você é minha irmã, Kate, mas eu não posso te deixar sair daqui com esse livro. — Ele destravou a arma e tinha um olhar firme, mas não intimidou Kate em nada.
— E vai fazer o que? Você não vai me matar, já teve chances pra isso e não fez. Assim como teve chances de matar o Gerard e também não matou. Eu fiz isso, lembra? — Ela acusou com uma postura superior, que fez com que Chris começasse a pensar se a irmã tinha ficado daquele jeito depois da transformação, ou se ela sempre tinha sido cruel e fria.
Talvez seu amor por ela o tivesse cegado aquele tempo todo...
— O que você está fazendo, Kate? A pessoa que quer esse livro é exatamente o tipo de coisa que caçávamos juntos, você não lembra? — Ele tentou argumentar, colocar um pouco de juízo na cabeça da irmã. Se Theo e até mesmo Peter Hale tinham se redimido de alguma forma, por que Kate não podia seguir pelo mesmo caminho?
— Não venha falar de caçadas pra mim! Foi você quem traiu nosso código, foi você que adotou um monte de lobisomens. Os mesmos lobisomens que mataram a sua filha! — Kate gesticulou descendo alguns degraus.
Chris Argent sentiu a acusação lhe atingir em cheio, mas já tinha passado da fase de culpar a si mesmo por aquilo, nunca deixaria de sentir falta da filha, mas sabia que a morte dela fora uma tragédia contra a qual ele não podia ter feito nada.
— Alisson morreu salvando os amigos dela, ela morreu lutando pelo que ela acreditava ser certo. — Devolveu em um tom firme, mas que não escondia sua dor.
— É isso que você diz pra amenizar sua culpa? — Kate jogou estreitando os olhos e subindo os degraus novamente.
Ela própria sentia falta de Alisson, da família, das coisas como eram antes. Por isso estava fazendo tudo aquilo, pra recuperar ao menos um pouco do que tinha perdido.
— "Nós caçamos aqueles que nos caçam" lembra, Chris? E mesmo assim você deixou sua filha brincar com a caça. — Outra acusação, Kate achava que o irmão tinha se perdido. O problema é que ele pensava a mesma coisa dela.
— "Eu protejo aqueles que não podem se proteger", esse é o meu lema agora, o lema da Alisson. — Chris declarou com orgulho, não se arrependia de ter mudado seu jeito de pensar, não se arrependia te ter seguido a vontade da filha. — Se eu fosse seguir o antigo tema dos Argent você seria a minha caça.
Kate riu sem humor, aquela última parte era verdade, ela era aquilo que costumava caçar e odiava isso, exatamente por esse motivo tinha se aliado a Bradley e estava se sujeitando a ser apenas uma capanga.
— Não por muito tempo. Isso aqui é o meu passe livre para a normalidade. — Ela balançou o livro. — Eu serei eu outra vez.
O acordo com o Bradley Blackwood era simples, se Kate ajudasse com retorno de Malvina, então a bruxa faria um feitiço que tiraria todos os traços de jaguar da caçadora. Ela não seria mais um ser sobrenatural.
Chris são sabia do acordo da irmã, mas entendeu o que ela queria dizer com: "eu serei eu novamente".
— Isso não é possível. Não existe uma cura. — Ele abaixou a arma por um momento.
— Cura? Isso é magica, Chris. Qualquer coisa é possível. — Kate argumentou, talvez pudesse convencer o irmão a ficar do seu lado.
— Estão usando você. — Chris afirmou, mas não tornou a ergueu a arma.
— Ninguém me usa, eu sei exatamente onde me meti. — A mulher devolveu e ergueu a cabeça em um gesto superior.
Se não tivesse o que queria, aquele idiota do Bradley morreria em suas mãos e a maldita bruxa também.
— Então, vai atirar? — Ela estreitou os olhos em direção ao irmão.
Chris estava prestes a responder, quando viu nos olhos da irmã o que ela pretendia, infelizmente ele não foi rápido o bastante para desviar, as garras de Kate o atingiram em cheio na barriga e ele rolou escada a baixo.
Viu a irmã deixar o cofre sem olhar pra trás e soube naquele instante que Kate não tinha salvação, ela era a inimiga, e teria que ser tratada assim dali em diante.
Viu que uma poça de seu próprio sangue se formava rapidamente e soube que não demoraria muito para perder a consciência, precisava pedir ajuda e dizer onde estava antes que fosse tarde demais.
Alcançou o celular no bolso, com alguma dificuldade porque a dor começava a se espalhar pelo seu corpo. Chris percebeu que tremia de frio, típico sintoma de quem já tinha perdido sangue demais...
Não precisou de esforço para discar, porque o número que queria era um de seus contatos rápidos e mais frequentes.
A voz feminina atendeu depois de alguns toques e mesmo em meio àquela situação terrível Chris não pôde deixar de sorrir.
— Melissa... — Sua voz saiu bem mais rouca que o de costume.
— Sabe, só uma vez eu queria que esse hospital ficasse cheio de casos não sobrenaturais, cadê os atropelamentos? Partos de emergência? Briga de vizinhos? Tudo é sobrenatural, "acidente de caça", "ataque de animal"... — A mãe de Scott McCall disparou tudo de uma vez do outro lado da linha e então suspirou. — Vai me trazer o jantar? Estou faminta.
— Melissa... — Chris foi um pouco mais urgente e não precisou mais que isso para que a enfermeira entendesse que ele estava com problemas.
Sempre tinha alguém com problemas sobrenaturais ao redor de Melissa McCall, e mesmo que aquela vida não fosse a desejada ela sempre estava lá por quem precisasse.
— Onde você está? — Ela soou urgente. — Chris!
O homem sentiu tudo rodar e teve que apoiar a cabeça no chão, sabendo que a inconsciência o dominaria logo.
— Escola. Cofre. — Disse apenas, fechando os olhos.
— Eu estou chegando, não ouse morrer, ou eu te mato! — Ainda pôde ouvir a voz de Melissa ao fundo, mas não conseguiu responder, porém não se importou com isso, sabia que ela chegaria a tempo. Não era a primeira vez que Melissa McCall salvava sua vida...
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Quando Crystal Green abriu os olhos ela não estava mais na clínica veterinária de Deaton; a jovem Delta se encontrava em um corredor escuro e sem fim, com dezenas, talvez centenas, de portas dos mais diversos tipos.
— Derek? — Chamou, caminhando lentamente, sem saber muito bem para onde seguir.
No entanto não houve resposta, apenas sua própria voz reverberou pelas paredes e ficou ecoando por vários segundos no corredor.
Crystal reparou que todas as portas eram diferentes, tanto em suas cores, quanto em seus materiais, algumas eram de madeira, outras de ferro, algumas tinham frisos e símbolos e outras eram lisas, mas havia um detalhe comum em várias delas: sangue. Não eram todas, mas conforme a garota andava pelo corredor ela se deu conta que dezenas das portas tinham manchas de sangue, algumas muito mais, outras apenas respingos.
Ela sabia que estava na mente de Derek, mas não fazia ideia do que aquelas portas significavam. No entanto, uma em particular chamou sua atenção, era uma porta azul marinho e estava manchada de sangue, havia algo nela combinava com outras portas da mesma cor, era um coração entalhado na madeira, um coração partido.
Crystal tocou a maçaneta e imediatamente sentiu uma tristeza angustiante, era um sentimento que se misturava com revolta e a forte sensação de perda, algo que fez com que os olhos verdes de Crystal se enchessem de lágrimas, porque era como se os sentimentos fossem dela própria.
Virou a maçaneta e passou pela porta, o que a fez adentrar um ambiente totalmente diferente, era algum tipo de depósito subterrâneo ou algo assim, Crystal não teve tempo de pensar muito sobre isso, porque logo percebeu que havia duas pessoas ali; um garoto e uma garota.
— Olá. — Crystal tentou, mas os dois agiam como se ela não estivesse lá.
Estavam abraçados, sentados no chão, aos pés das raízes enormes de uma árvore. Crystal reparou logo que a garota não estava bem, mas foi mais que isso, ela soube que a menina não estava bem, aquela garota de cabelos negros, tão jovem, estava morrendo...
Havia uma culpa dolorida nos ossos de Crystal, como se ela própria fosse a responsável por todo aquele sofrimento.
O garoto, um rapaz moreno que pareceu muito familiar para Crystal, parecia desesperado, ele amava a garota, Crystal soube disso, porque ela sentiu que também amava...
Paige. O nome veio claro em sua mente, a garota morrendo se chamava Paige.
Crystal se aproximou dos dois, Paige estava com dor, muita dor, e o garoto parecia devastado com isso. Ele soube que podia fazer alguma coisa, como se fosse seu dever, ou melhor, Crystal soube todas essas coisas, porque era o que sentia em seu próprio coração.
Havia tanta dor e sofrimento ali, que ela mal conseguia respirar, se abaixou junto com o casal e viu quando o garoto abraçou Paige e seus olhos brilharam amarelos, como os de Theo ou Liam. Crystal soube o que ele faria, antes mesmo de acontecer, como se fosse uma ideia dela própria, uma ideia aterrorizante e devastadora, mas que pareceu a única solução.
Paige tinha sido mordida por um Alfa, Crystal queria que ela se transformasse, ou melhor, o garoto queria, mas deu tudo errado. E agora Paige estava sofrendo, ela morreria, mas sentiria cada segundo de dor até lá.
Crystal viu quando o garoto apertou o corpo de Paige, quebrando seu pescoço e parando a dor da morena. Na verdade, era como se a própria Crystal pudesse sentir os ossos da pessoa que amava quebrando sob suas mãos. Era desesperador, algo que nunca sairia da sua mente.
A jovem Delta se sentou ao lado do menino e ali ficou com ele, porque não seria capaz de deixá-lo sozinho naquele momento, tentou tocar seu braço em um gesto de solidariedade, mas sua mão atravessou o braço do moreno como se ele fosse feito de fumaça.
Não era real, mesmo que todos os sentimentos fossem, a cena não era.
Uma terceira pessoa entrou no depósito. Era um rapaz e Crystal o reconheceu de imediato, mesmo que sua aparência fosse diferente da atual.
Peter Hale.
— Eu tenho que levá-la, Derek. — Peter se abaixou ao lado do garoto e fez menção de recolher o corpo de Paige.
Crystal sentiu que tinha levado um choque, era o Derek? Ela olhou para o garoto ao seu lado e seu coração se partiu ainda mais.
Derek ergueu a cabeça para encarar Peter Hale, e Crystal viu que os olhos dele não brilhavam mais amarelos e sim em um tom frio de azul.
Ela finalmente entendeu o que estava acontecendo, aquelas eram as memórias de Derek, cada porta devia representar uma memória, e aquela era a lembrança da morte que tinha mudado a cor dos olhos do lobisomem.
Crystal se colocou de pé e com dor no coração deixou a cena, saindo pela mesma porta pela qual entrara. Mas mesmo depois que saiu da lembrança, o sentimento continuou em seu coração, como se tivesse se tornado parte de quem ela era.
A Delta soube que cada porta que abrisse e cada memória que visse, se tornariam memórias delas também, mas também se deu conta que Derek estavam em alguém lugar ali, portanto teria que procurar...
Foi abrindo as portas, passando pela vida de Derek através de memórias aleatórias, algumas apenas lembranças e algumas momentos dolorosos, como quando ele foi obrigado a matar um membro de sua própria alcateia: Boyd.
Aquela memória marcou Crystal, colocou dentro de seu coração um tipo de temor e uma certeza "eu não posso proteger ninguém", a garota sabia que esse sentimento não era dela, mas partiu ainda mais seu coração entender que Derek carregava aquilo todos os dias, como um fardo.
Logo ela se deu conta que memórias conectadas tinham algo em comum em suas portas, as memórias de Paige, por exemplo, todas tinham um coração partido gravado na entrada, mas nem todas eram ruins, algumas eram doces e felizes e Crystal soube que eles tinham se amado docemente e de alguma forma amou Paige também.
Haviam portas cuja maçaneta eram a corona de uma arma, essas diziam respeito a uma mulher chamada Breaden, independente e forte, o tipo de mulher que não precisava ser salva, mas estava sempre disposta a salvar alguém, Derek gostava dela exatamente por isso e Crystal simpatizou com a moça também, mesmo que tivesse evitado memórias que julgou "inapropriadas. "
Mas é claro que as memórias de Derek não se resumiam a mulheres, haviam memórias sobre os Hale, sobra a infância, sobre lugares apenas, sobre o camaro e curiosamente havia um tipo de porta especifico que era exclusiva para memórias com Stiles, essas eram marcadas com uma âncora de metal na entrada.
Crystal passou pela vida de Derek por partes, conheceu Laura e Cora Hale, viu quando ele se tornou Alfa e quando deixou de ser um... E principalmente viu suas decepções e dores.
A Delta sentiu seu próprio coração ser despedaçado pela traição de Jennifer, mas nada comparado a raiva que sentiu de Kate Argent, mesmo que na memória em questão o próprio Derek ainda não sentisse raiva da caçadora.
No entanto ela começou a se preocupar, porque não fazia ideia de como encontrar o verdadeiro Derek e tirá-lo de lá. Suspirou e percebeu que estava parada em frente a um tipo diferente de porta, era como se fosse feita do próprio brilho da lua.
Haviam poucas daquelas no corredor e nenhuma delas tão brilhante. Crystal se aproximou um passo e notou que não havia maçaneta, a porta simplesmente se abriu e ela reconheceu o ambiente no mesmo momento. Era seu próprio quarto, ou melhor seu closet...
Derek pulou do sótão e ela mesmo desceu sem seguida, sendo amparada pelo moreno no chão. Se lembrava daquele momento perfeitamente, mas foi diferente sentir o que Derek sentiu quando seus lábios se tocaram pela primeira vez.
A intensidade do sentimento era diferente de qualquer outro, não era como o amor jovem e quase inocente que Derek sentia por Paige, tão pouco quanto aquela paixão curiosa que ele sentia por Kate, não era como nada que ele já tivesse sentindo antes e Crystal se deu conta que o próprio Derek sabia disso.
Ela mexia com ele como nenhuma outra pessoa conseguia... E eles dois faziam um casal muito bonito, ponderou, dando alguns passos em direção a saída.
Saiu dali ainda sorrindo e só então se deu conta que estava perdendo o foco, precisava encontrar Derek e precisavam sair dali. Fechou os olhos e tentou se concentrar, eram memórias e portas demais para buscar uma por uma.
Onde você está, Derek? Onde você está?
Quando abriu os olhos eles estavam brilhando em fúcsia e Crystal pode ver que haviam pegadas no chão, algo que ela não tinha reparado com sua visão comum.
Correu naquela direção, sentindo que o corredor ficava ainda mais longo, não importava quanto corresse, mas não desistiu. As pegadas pararam em frente a uma porta e Crystal tremeu.
Ela sabia o que aquela porta significava, mesmo antes de abrir. A porta era negra a única porta negra em todo o corredor, tinha um triskelion gravado na madeira, indicando que era uma memória sobre os Hale, mas também tinha diversas mascas de garras, uma característica das portas que eram sobre Kate, também havia sangue, muito sangue... E Crystal já sabia que quando mais sangue respingado na porta, mais dolorosa a memória era e, além de tudo isso, havia fogo ali como se a madeira estivesse em combustão eterna.
Era o incêndio da casa dos Hale.
Crystal ficou assustada, mas na verdade não se surpreendeu, devia ter imaginado que Derek estaria ali, não é?
Girou a maçaneta e entrou na memória, se vendo no meio da casa dos Hale, enquanto o fogo queimava tudo. Crystal ficou impactada com a visão e foi atingida por vários sentimentos de uma vez, mas havia algo sobre aquela memória que pareceu diferente das outras.
Enquanto olhava o fogo e ouvia os gritos, Crystal percebeu que as imagens saiam de foco, como se estivesse vendo algo em uma TV com defeito. Quase como se tivesse outro tipo de imagem no fundo.
Ela fechou os olhos e tentou se concentrar e então se deu conta de um fato importante: Derek não estava no incêndio, isso era uma culpa que ele carregava em diversas memórias que Crystal presenciou. Ele estava na escola, por isso sobreviveu...
Aquela memória não era real, aquilo era algo que Derek tinha criado a partir de seu remorso, era apenas a representação do que ele achava que tinha acontecido. E era assustador... Os gritos e o sofrimento que Derek havia criado eram reais e devastadores, de modo que os olhos de Crystal estavam marejados.
Ela continuou andando pela casa, mas só queria sair dali de uma vez, pois se coração se partia a casa segundo. Foi quando ela finalmente encontrou Derek...
Ele estava parado no meio da sala, os olhos fixos na mulher morena que Crystal reconheceu imediatamente como Talia Hale, a Alfa se empenhava em tentar tirar as pessoas dali enquanto suas roupas estavam em chamas.
— Derek? — Crystal chamou, sabendo que não podia aguentar mais daquela visão.
O moreno se virou lentamente e suas sobrancelhas se franziram, Crystal sentiu a surpresa dele, mas isso passou depressa.
— Eu devia estar aqui. — Ele declarou, como se estivesse falando consigo mesmo. — Era dia da reunião de família e todos tinham que estar aqui. Mas Kate não respondia minhas mensagens e eu queria vê-la, então eu menti que tinha algo importante na escola. Laura desconfiou da minha mentira e foi atrás de mim, e quando voltamos a polícia e os bombeiros já estavam aqui. Eu devia ter morrido com eles. Era o certo.
Ele tentou tocar a mãe, mas sua mão passou direto, assim como a mão de Crystal não podia tocar as memórias, Derek também não podia.
Ela sentiu a dor de cada palavra como se fosse dela e só então percebeu que Derek não sabia que ela estava ali de verdade, ele não achava que a garota era real.
— Você não teve culpa do que aconteceu, e você certamente não merecia morrer por isso. — Crystal discordou e aquela atitude pegou Derek de surpresa, afinal um reflexo de sua própria mente não devia discordar dele, não é?
Ela deu um passo para frente e sorriu compassiva:
— Nada disso é sua culpa...
A certeza em suas palavras era tanta que seus olhos brilharam fúcsia.
— Seus olhos, eles estão... — Derek estava surpreso, mas ficou ainda mais quando Crystal conseguiu tocar sua mão direita. — Isso não é um sonho, é?
— Você ficou preso em um feitiço de controle mental. Mas eu fiz a conexão com Scott, posso te tirar daqui, eu posso te salvar. — Ela afirmou calmamente e seus dedos enlaçaram os de Derek.
Todas as pessoas em volta sumiram, embora a casa continuasse em chamas, era como se a mente de Derek não conseguisse manter a ilusão e focar em Crystal ao mesmo tempo.
A informação de que ela e Scott tinham se conectado ficou ecoando em seus pensamentos junto com um questionamento que Derek expressou quando Crystal tentou puxá-lo pela mão:
— Por que você está tentando me salvar?
Crystal franziu as sobrancelhas como se não conseguisse entender a pergunta. Parecia tão simples para ela...
— Você disse que não faria a conexão com Scott e você fez pra me salvar, mesmo depois de... — Ele deu um longo suspiro e afastou a mão dela. — tudo.
— Está se referindo a sua briga com o Theo? — Crystal entendeu parte do que ele estava tentando dizer. — Eu sei porque fez aquilo, você foi meio idiota, inteiro idiota na verdade, mas estava tentando me proteger e eu agradeço isso, mas Theo não é como a Jennifer ou a Kate, ele é meu amigo e ajudou a salvar a sua vida...
A informação de que Theo Reaken tinha ajudado não causou tanta surpresa em Derek quanto Crystal ter citado Jennifer e Kate.
— Como você sabe...?
— Eu dei uma caminhada pela sua mente antes de te achar. — Crystal respondeu, antes mesmo que Derek conseguisse terminar a pergunta.
Ela deu mais alguns passos em direção a ele e voltou a segurar sua mão, sorrindo calmamente.
— Vamos, você vai ter bastante tempo para pedir desculpas quando a gente sair daqui. — Disse, o incentivando a andar.
Derek chegou a dar o primeiro passo, mas parou novamente.
— Você não respondeu minha pergunta. Por que você abriu mão do seu "livre arbítrio emocional" pra me salvar? — Ele fez com que Crystal parasse também, citando palavras dela própria quando fez a pergunta.
— Preferia que eu ficasse parada vendo você morrer? — Ela tentou desconversar, mas percebeu que Derek queria uma resposta de verdade. — Eu não ia precisar do meu livre arbítrio emocional se você não estivesse lá.
Ele engoliu em seco e Crystal não conseguiu tirar os olhos dele. Todo o fogo ao redor se extinguiu e os dois ficaram ali, parados no meio das cinzas.
— E algo mudou? — Derek perguntou dando um passo para frente.
Ele tinha que saber o que tudo aquilo significaria quando as coisas voltassem ao normal. Queria dizer que não se importava com aquela ligação, mas a verdade é que não podia mentir pra si mesmo ali dentro da própria mente.
Crystal foi obrigada a parar e pensar pela primeira vez desde que decidira fazer a ligação. Algo tinha mudado? Ela reviveu os últimos momentos e soube a resposta:
— Sim...
— Entendo... — Derek assentiu, tentando não se decepcionar com aquela resposta, afinal ele sabia, desde o começo, que aquela coisa entre ele e Crystal nunca daria certo. A ligação com Scott apenas provava isso.
— Antes eu gostava de você. — Ela parou por um momento e sorriu quando seus olhos encontraram os de Derek. — Agora eu acho que... te amo... não, eu tenho bastante certeza disso. Eu te amo.
Estar na mente de Derek tinha deixado as coisas mais claras para Crystal e ela soube que seria impossível não amar Derek Hale, a conexão com Scott não tinha qualquer chance de mudar isso.
Derek tinha os olhos verdes nela, tentando encontrar qualquer traço de mentira ou engano no rosto feminino, mas a verdade é que ele não precisava olhar para Crystal para ter certeza, porque ele sentia aquilo. Da mesma forma que Crystal podia sentir os sentimentos de Derek, ele podia sentir os sentimentos dela.
Era verdade.
Ele deu um passo para frente e envolveu a cintura de Crystal, no que ela abriu um sorriso de canto que era quase um bálsamo para Derek.
— Então, eu podia te beijar agora, mas eu prefiro fazer isso lá fora, usando nossos corpos de verdade. — Ela declarou, pousando a mão direita no peitoral dele por um segundo.
— Acho que usar nossos corpos de verdade é uma boa ideia. — Derek sorriu também.
Ele estava feliz, e felicidade não era um sentimento que Derek sentia com frequência.
— Então, como saímos daqui? — Perguntou, olhando a casa ao redor e não vendo nada além de cinzas.
Crystal deu um passo para trás, olhando ao redor também e fazendo com que seus olhos se acendessem.
— Acho que é ali. — Ela apontou algo que só ela podia ver, era uma porta dourada, que estava ali no meio da sala.
Crystal tocou a maçaneta e do outro lado havia apenas claridade. Ela deu um passo para trás abrindo passagem para Derek primeiro:
— Vai primeiro, eu não vou correr o risco de te deixar pra trás.
Ele revirou os olhos, mas passou pelo batente, ainda segurando uma das mãos da Delta.
— Crystal? — Uma voz conhecida chamou e a menina se virou para trás, sentindo seus dedos se soltarem dos de Derek no exato momento em que ele saiu da casa.
— Mãe? — Ela deu um passo para longe da passagem dourada e um vento vindo de lugar nenhum fez a porta bater e sumir.
A mulher com a fisionomia de Eliza Green sorriu, um sorrio perverso e nada amigável, foi quando Crystal soube com toda a certeza, aquela não era sua mãe, era apenas um truque...
Crystal tinha acabado de ficar presa no feitiço.
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Quando Derek Hale abriu os olhos, ele demorou alguns segundos para se situar.
— Derek? Você está bem? — Deaton, o ajudou a se sentar na mesa de cirurgia.
— O que aconteceu? — Perguntou ainda atordoado, forçando sua mente a continuar de onde tinha parado. Lembrou que estava em seu loft... — Kate. Ela está aqui.
Derek se colocou de pé e sentiu tudo rodar.
— Já sabemos disso. — A voz de Scott veio de seu lado direito.
Derek olhou naquela direção, mas não chegou a focar sua atenção no Alfa Genuíno, percebeu que Crystal estava deitada em outra das mesas cirúrgicas e como se fosse um interruptor se acendendo em sua mente, lembrou de tudo que havia acontecido dentro de sua própria mente e mais que isso, Derek também soube de tudo que tinha acontecido quando não estava ali, quase como se soubesse todos os pensamentos de Crystal.
— Você foi... — Stiles começou, mas Derek o interrompeu:
— Controlado. Eu fui controlado por um feitiço. — Virou o corpo e viu o professor Blackwood ali, simplesmente reconhecendo o homem de memórias que não eram realmente suas. Eram de Crystal. — O feitiço do seu filho. — Apontou para o ex-bruxo.
— Como você sabe disso? — Malia questionou surpresa.
— Eu só... Sei. — Derek deu de ombros e focou no que realmente importava. — Crystal não devia ter acordado também?
Deaton pareceu preocupado quando assentiu e todo o clima na clínica ficou um tanto tenso.
— O que aconteceu com ela? — Theo questionou e só então Derek percebeu que ele estava parado bem ao lado de Crystal.
— Ela me encontrou, estávamos saindo juntos... — Explicou, ignorando o tom um tanto agressivo do rapaz.
— Crystal? Crystal! Acorda! — Theo praticamente sacudiu a amiga, mas ela sequer se moveu.
— Você não vai acordá-la assim, é inútil. — O professor Blackwood apontou, sentando em um dos cantos.
— Então me diga o que vai ser útil antes que eu arranque a sua língua! — Theo ameaçou com os olhos brilhando em amarelo e colocando as garras para fora.
— Por que você não gosta dele mesmo? — Peter cutucou Malia com o cotovelo.
— Ele atirou em mim. E quase matou o Scott. — A coite respondeu ofendida.
— Você curou... E eu mesmo quase matei o Scott também... — Peter deu de ombros, qualquer um que quisesse arrancar a língua do professorzinho parecia um bom aliado.
— Ela provavelmente ficou presa. — Blackwood declarou o óbvio e isso irritou Theo profundamente.
— Sério? Quer dizer algo que eu ainda não sei? — Ele ironizou estreitando os olhos.
— Me coloque de volta. — Derek se pronunciou em um tom decidido.
— Não é assim tão simples, Derek. Crystal é uma Delta, ela podia burlar o feitiço, porque é mais resistente a magia, você não. — Deaton explicou e Derek não gostou nada do que ouviu.
Cruzou os braços e tentou fazer com que a mente trabalhasse, precisava encontrar uma solução.
— Eu avisei que era um risco... — Blackwood começou e causou irritação geral.
— Cala a boca! — Theo, Liam, Malia e Peter ordenaram ao mesmo tempo.
Derek tinha os olhos fixos em Crystal, sua mente presa no momento que tinham compartilhado há poucos segundos.
Ela me ama... E agora está presa em algum feitiço estranho, é como se todos que se aproximam de mim continuassem morrendo, Derek deixou o pensamento seguir longe, ás vezes se sentia amaldiçoado, mas não tinha tempo de sentir pena de si mesmo naquele momento.
Respirou fundo e pensou no que poderiam fazer, até que algo lhe ocorreu:
— Traga-a de volta, Scott. — Ergueu a cabeça pra encarar o Alfa.
— Que? — Scott estreitou as sobrancelhas e de repente todas as atenções estavam em Derek.
— Ela é a sua Delta, você é o Alfa dela. Você pode trazê-la de volta, se você chamar, ela vai ouvir. — O moreno colocou sua teoria em palavras.
— Claro! Como quando fomos buscar o Stiles, entramos na mente dele e ele te ouviu quando você rugiu. — Lydia completou, ao se lembrar do evento citado.
— É uma boa ideia, suas habilidades de Alfa não vão ser suficientes para que você burle o feitiço e entre na mente dela, mas talvez Crystal ainda possa te ouvir, por causa da conexão. — Deaton também concordou.
— Não há nada mais poderoso que a ligação de um Alfa e sua Delta, já vi com meus próprios olhos. — Peter declarou, mesmo que, quando olhasse para Crystal e Scott, não visse o mesmo que via em Talia e Rosalyn.
— Eu também já vi. — Blackwood se pronunciou, recebendo alguns olhares enviesados.
— Ninguém te perguntou nada! — Peter devolveu de mau-humor.
— Vai logo Scott, faz o que o Derek falou. — Stiles apontou, para Crystal na mesa.
— Certo. — O Alfa assentiu algumas vezes e preparou a postura.
Mas o rugido que cortou o ar não foi dele e o pior, aquele rugido veio acompanhado de muitos outros...
— Bersekers... — Malia informou, depois de olhar pelas portas de vidro da clínica.
— Sabe Derek, sinto dizer, mas acho que sua ex é psicótica. — Peter declarou, dando um passo para frente. — Devíamos sair pelos fundos e fingir que nunca aconteceu...
Malia lançou um olhar irritado para o pai e ele ergueu as duas mãos, como quem diz "eu tinha que tentar".
Theo respirou fundo e tomou uma decisão.
— Faz o seu lance de Alfa, eu vou atrasá-los. — Se dirigiu a Scott e então seguiu para a saída.
— Theo... — Liam imediatamente se colocou ao lado do rapaz.
— Se eles entrarem, Crystal é um alvo fácil, eu não vou correr esse risco. — Theo deixou claro, antes mesmo que o beta de Scott pudesse dizer alguma coisa.
— Eu sei, por isso eu vou com você. — Liam afirmou decido e os dois assentiram um para o outro.
"Eu não vou morrer por você. Mas eu vou lutar com você." Era o que tinham dito um para o outro uma vez, e esse lema tinha seguido com eles desde então.
Malia deu um suspiro profundo e revirou os olhos.
— Eu vou com eles, vão acabar se esquecendo dos berserkers se ficarem flertando um com o outro... — Ela resmungou, batendo com as costas das mãos na lateral do braço de Peter. — Vamos logo, anda.
— Eu não vou com você. — Ele se recusou de imediato.
Malia ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços, encarando o pai com a cabeça erguida. Peter por sua fez resmungou algo inteligível e saiu andando na frente bufando como um adolescente.
— Quem é que te fez Alfa? — Foi a última coisa que ele disse, antes de passar pelas portas, assim como Liam e Theo.
Malia caminhou até Scott antes de sair e colocou a mão no ombro dele.
— Você consegue. — Sorriu compassiva e deixou a clínica logo depois.
Deaton observou a alcateia se posicionando e lembrou de algo importante.
— Stiles, Lydia. — Alertou o casal, passando um frasco, com cinzas de tramazeira, para que o professor Blackwood entregasse a eles. — Bloquem as saídas dos fundos.
Os dois assentiram e nenhum deles reparou que Blackwood tinha ficado com um punhado de cinzas como se estivesse se preparando para alguma coisa.
Assim que o casal se retirou, para fazer o que Deaton tinha pedido, Derek soube que devia estar ajudando na briga que acontecia do lado de fora, mas não podia sair dali sem saber se Crystal ficaria bem, portanto ele esperou que Scott arrumasse a postura outra vez.
O rugido do Alfa genuíno cortou o ar enquanto seus olhos brilhavam vermelhos, e Derek olhou em expectativa para Crystal Green...
Nada aconteceu.
— Faz outra vez. — Ele pediu e Scott assentiu, tomando folego uma vez mais.
Daquela vez o rugido foi tão forte que mesmo as paredes pareceram tremer um pouco, do lado de fora, toda a alcateia de Scott sentiu em suas veias o poder fluindo, mas do lado de dentro nada mudou, Crystal continuou desacordada.
— Talvez o feitiço seja forte demais... — Scott lamentou, como se pedisse desculpas, realmente queria ajudar, mas sua real preocupação era com os sons que vinham do lado de fora. Havia dezenas de berserkers e ele não sabia se os amigos dariam conta daquilo sozinhos.
— Ou talvez você não seja o Alfa dela. — Blackwood declarou, como se sequer estivesse surpreso.
— Nós fizemos a conexão. Você viu. — Scott retrucou encarando o professor.
— O que eu vi foi um ritual simbólico que se torna totalmente invalido caso Crystal já tivesse uma conexão. — O homem explicou calmamente.
— Mas ela não tinha uma ainda... — O alfa genuíno argumentou e seus olhos seguiram para Deaton que parecia pensativo.
— Tem certeza? — Blackwood prosseguiu com certa convicção. — Porque do meu ponto de vista, ela já estava com os dons de Delta ativados quando chegou na cidade ou o Nemeton nunca teria despertado e os poderes de Malvina não poderiam ser liberados. Está tudo conectado, Scott, só não está conectado com você...
Os olhos do professor, assim como os olhos de Deaton seguiram para Derek ao mesmo tempo, como se os dois estivesse com a mesma ideia naquele momento.
Do lado de fora, Scott pode ouvir que Malia estava em apuros.
— Vai... — Deaton assentiu. — Eles precisam de você.
Assim que Scott saiu, os olhos do ex-bruxo e do veterinário voltaram para Derek.
— Eu não sou um Alfa. — Ele declarou como se estivesse se defendendo.
— Mas você é um Hale. — Blackwood devolveu muito seguro do que dizia. — E ela é uma Riven, vocês estão destinados, como suas mães estavam.
— Você não sabe o que está dizendo. — Derek negou algumas vezes, sentindo seu estômago congelar.
Não era que não gostasse ou não se importasse com Crystal, mas Derek sabia muito bem o que ser um Alfa significava, as lembranças ainda estavam bem vivas em sua mente.
— Não sei? Tem certeza? Nunca se sentiu ligado a ela de um jeito inexplicável? Nunca percebeu que estavam pensando a mesma coisa? Nunca pressentiu que ela estava em perigo? — O professor começou a enumerar e Derek foi ficando cada vez mais tenso. — Porque ela pressentiu que você estava em perigo. Como explica isso? Ela estava na sua mente.
— Porque ela se conectou com Scott. — Derek tentou argumentar, e teve que cerrar os punhos para que suas mãos parassem de tremer.
— Não. Você não é parte da alcateia do Scott, uma Delta só pode entrar nas mentes dos lobos pertencentes a sua alcateia. Mas Crystal entrou dentro da sua mente. Como explica isso? — Edmund fez a pergunta final, antes que um cheiro insuportável de enxofre invadisse o lugar.
— Nada mal... — A voz debochada veio acompanhada do som de palmas, Bradley Blackwood estava parado do lado de fora da sala de cirurgia. — Papai é sempre tão didático.
— Bradley. Filho. — Edmund se levantou no mesmo instante e caminhou até a entrada do cômodo. — Pare com isso, por favor. Podemos ajudar você. Podemos expulsar Malvina da sua mente, ela não é boa, filho.
Tudo que ele queria é que o filho colocasse a mão na consciência e tudo aquilo acabasse bem.
— E você é? — Bradley acusou. — Me mantendo longe das minhas origens, mentindo pra mim sobre o meu potencial, me mandando pra longe de Beacon Hills, impedindo o meu destino. Eu vou ser o rei desse mundo. Você não vê?
Edmund podia ver que o filho estava fora de controle, ele conhecia aquele olhar obstinado, era como um déjà vu de seu passado...
— O que eu vejo é que os seus delírios de grandeza vão acabar matando você, assim como mataram a sua mãe. — Era quase uma súplica, Blackwood colocou a mão no ombro do filho com carinho e tentou fazê-lo enxergar a verdade.
— Sua traição matou a mamãe! — Bradley afastou a mão do pai para longe. — Mas não se preocupe, você vai pagar por isso. Será um desfecho poético, papai. Você apreciaria se não fosse um velho tão enfadonho...
Edmund previu o que viria a seguir, por isso agiu antes que fosse tarde, tirou do bolso o pouco de cinzas de tramazeira que tinha conseguido e a jogou a entrada do cômodo, antes que Bradley começasse a recitar um feitiço.
— Salve-a... — O professor teve tempo de dizer para Derek. — Seus amigos precisaram de vocês dois para o que...
Edmund Blackwood não teve tempo de terminar a frase, Bradley terminou o feitiço e os olhos do professor de artes ficaram vermelhos.
A intensão de Bradley era atacar a Delta desacordada, afinal a garota estava presa em seu feitiço, mas era um bruxo, portanto não podia passar pela tramazeira. Edmund, mesmo sem poderes, também não podia atravessar, afinal estava sendo controlado por magia, o que o tornava, de certa forma, produto do sobrenatural.
Derek, do lado de dentro da sala, tinha os olhos brilhando no tom de azul, pronto para atacar Bradley, caso o garoto atravessasse.
No entanto, a única pessoa ali que podia desfazer a barreira de tramazeira era Deaton, que estava seguro do lado de dentro.
O celular de Bradley apitou e ele rapidamente leu a mensagem de Kate, abrindo um sorriso ferino, que era quase uma ameaça velada.
— Não tem problema, eu já tenho tudo que eu preciso mesmo... — Encarou Derek antes de virar as costas e sair com Edmund logo atrás de si.
Derek fez menção de ir de encontro a barreira de tramazeira, mas Deaton tocou seu ombro.
— Derek... — Era quase um pedido.
O veterinário encarou Crystal desacordada e o lobisomem Hale fez o mesmo.
Ela parecia tão vulnerável ali deitada, que Derek se sentiu fraco e impotente.
— Eu não sou mais um Alfa, eu não posso ser um, eu... não tenho mais poderes. — Sabia que estava apenas tentando um jeito de fugir do que lhe assustava, mas não conseguia evitar o pensamento de que não era capaz de fazer aquilo.
Deaton entendeu o que estava acontecendo e parou na frente de Derek com um olhar calmo e acolhedor.
— Você não quer ser um Alfa, porque você está com medo, Derek. Porque você perdeu sua alcateia, e se culpa por isso até hoje. — Ele colocou tudo que o rapaz estava sentindo em palavras.
— Eu não sou um Alfa por que abri mão dos meus poderes para salvar a Cora. — Derek não gostava de se sentir exposto daquele jeito, por isso tentou tirar o foco da verdade.
— Você desistiu dos seus poderes para salvar a sua irmã, mas esse poder ainda está aí dentro de você, adormecido de alguma forma, afinal não existe um Alfa sem uma alcateia... Acredito que o lado Delta de Crystal tenha enxergado essa fagulha de poder. — Deaton continuava calmo, o que fez com que Derek erguesse o olhar.
— Você sabia? — A pergunta veio em um misto de acusação e surpresa
— Eu tinha uma teoria. — Deaton admitiu. — Crystal disse que sonhou com o Nemeton na noite de seu aniversário de dezoito anos, ela escutou um uivo aquele dia. Acredito que tenha sido seu uivo. E o uivo de um lobo não mente, ela sentiu que você estava sofrendo... você sabe melhor que eu que um lobo não nasceu para ficar sozinho. Ela se conectou com você aquela noite.
Derek sentiu seu coração batendo mais forte, ele lembrava daquela noite com perfeição.
— Crystal disse que se sentia atraída para Beacon Hills e todo mundo disse a ela que era por causa do Nemeton fazendo sua função de farol sobrenatural. — Deaton negou algumas vezes e sorriu de canto. — Mas eu não acredito nisso, o Nemeton era apenas algo no caminho de vocês dois, ela veio por você, Derek. Ela veio porque uma Delta precisa de um Alfa, e um Alfa só é um Alfa se tiver sua alcateia, não é?
Derek sentiu seu lado lupino se arrepiar, como se as palavras de Deaton penetrassem cada poro.
— Ninguém tirou o seu poder, ele ainda está aí. Agora você tem uma alcateia, e ela precisa de você. — O veterinário apontou a garota na mesa. — Encontre essa fagulha de poder e acenda-a, é assim que você vai trazer a Crystal de volta.
Deu dois tapas amigáveis no ombro de Derek e se dirigiu a saída, tirando as cinzas de tramazeira do caminho.
— Onde você vai? — Derek perguntou, vendo que Deaton estava prestes a deixar a sala.
— Stiles e Lydia ainda não voltaram... — Ele respondeu, deixando o lugar definitivamente, porque no fundo sabia que aquilo era algo que Derek tinha que fazer sozinho.
Derek Hale respirou fundo e se colocou de pé, olhando para Crystal sobre a mesa cirúrgica e percebendo que o coração dela batia cada vez mais fraco.
Encarou a lua que brilhava do lado de fora da janela e se lembrou de todas ás vezes que tinha falhado como Alfa... Boyde, Erica, Cora e mesmo Isaac, tinha falhado com todos eles de alguma forma, achou que estava salvando alguns deles com a mordida, mas na verdade Derek sabia que estava procurando uma forma de salvar a si mesmo. Ele não queria ficar sozinho...
Fora um péssimo Alfa para seus Betas e por isso, quando perdeu a alcateia, sequer preocupou-se com o poder, infligiu a si mesmo uma vida solitária, porque soube que era o que merecia.
Mas Deaton tinha razão, lobos não tinham nascido para serem solitários...
Derek olhou para Crystal outra vez e segurou sua mão. Estava com medo, apavorado na verdade, e se cometesse os mesmos erros outra vez?
No entanto, seu medo não era maior que o sentimento crescente em seu coração, algo poderoso que tomava conta de suas veias aos poucos.
Inspirou profundamente e colocou todo o ar dos pulmões para fora em forma de um rugido ao mesmo tempo em que seus olhos se acenderam no tom normal de azul.
"Eu te amo" lembrou das palavras de Crystal e tudo ficou claro. Ela não era uma repetição de seus erros, ela era uma segunda chance e Derek não a desapontaria...
Porque ele a amava também.
O rugido se tornou mais intenso, mais firme, os olhos de Derek piscaram algumas vezes, mudando para o vermelho vivo dos Alfas e voltando novamente para os azuis, até que firmaram na cor quente, ao mesmo tempo que os vidros da clínica veterinária se quebravam.
Derek Hale era um Alfa outra vez.
Crystal Green abriu os olhos, jogando o corpo para frente ao mesmo tempo que sentia o poder correndo quente por suas veias. Era como se tivesse saído de um pesadelo, na verdade era como se tivesse sido puxada dele.
Os olhares de Derek e Crystal se encontraram, havia algo diferente no ar, ambos sentiram, quase uma energia pulsante, que passava de um para o outro, uma corrente elétrica que os unia.
— Seus olhos... — Crystal franziu as sobrancelhas, se sentando direito na mesa. — Eles estão vermelhos.
— É, eles estão sim. — Derek assentiu com um sorriso calmo, mas sabia que aquela calmaria vinha de Crystal.
Ele se aproximou dois passos e tocou o rosto dela com a ponta dos dedos.
— Eu sou um Alfa agora. — Declarou em um tom imperativo que fez um arrepio quente percorrer o corpo de Crystal. — E você é uma Delta. Minha Delta.
Ela sorriu, não precisou perguntar como tinha acontecido, Crystal sabia, porque era como se sua mente e a de Derek estivessem ligadas, como se pudesse ler os pensamentos dele. Aquilo era a verdadeira conexão entre uma Delta e seu Alfa, era diferente de tudo que ambos já tinham sentido.
Era poderoso e mágico, inexplicável. Eles se pertenciam, se completavam. Estavam destinados. Crystal era a lua e Derek era o lobo, não havia definição melhor.
— Eu te amo também. — Ele declarou em resposta ao que ela tinha dito antes, puxando-a para perto e tomando seus lábios, como tinham prometido que fariam.
Foi um beijo doce, carinhoso, mas rápido, dada a situação em que se encontravam.
Crystal ainda sorria, quando os dois se afastaram um pouco.
— E o que fazemos agora? — Ela questionou, olhando para o seu Alfa em expectativa.
— Nós lutamos. E salvamos nossos amigos! — Derek declarou decidido, e foi como se o poder incendiasse suas veias, seus olhos brilham em vermelho vivo, aos mesmo tempo que os olhos de Crystal se acendiam em um tom de fúcsia.
Lado a lado deixaram a clínica, as garras de Derek prontas, o bracelete de Crystal brilhando...
Não muito longe dali, no esconderijo vazio de Bradley, a rainha e o rei branco, colocados no centro do pentagrama invertido, se ergueram como mágica e todas as velas acesas de apagaram, porque não havia feitiço que pudesse deter um Alfa e uma Delta conectados.
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