Running with the Wolves
23 A Alcateia Hale
Notas iniciais

Ser uma banshee nunca foi algo que Lydia realmente entendeu, havia sempre uma parte de seus poderes que ela não compreendia, até a assustava às vezes... Cada pressentimento era novo, diferente, causava coisas distintas
Ser uma banshee nunca foi algo que Lydia realmente entendeu, havia sempre uma parte de seus poderes que ela não compreendia, até a assustava às vezes... Cada pressentimento era novo, diferente, causava coisas distintas nela.
Havia algo latente no coração de Lydia durante todo aquele dia, ela sabia que alguém estava prestes a morrer, sabia como, porque era como se pudesse sentir o fogo em sua própria pele, mas não sabia quem... E isso a deixava nervosa.
Estava no fundo da clínica veterinária com Stiles, seguindo as ordens de Deaton, prestes a jogar as cinzas da montanha na passagem, quando sentiu algo gelar sua alma.
Paralisou onde estava, a mão erguida no ar, quando viu o vulto preto passar do lado de fora.
— Lydia? — Stiles chamou preocupado.
— Viu aquilo? — Ela questionou, sentindo que havia gelo em seus ossos.
Stiles olhou ao redor e balançou a cabeça sem entender. Não tinha visto nada.
— Melhor fecharmos tudo e voltarmos. — Stiles tocou o braço da namorada, mas ela deu um passo para fora como se não o tivesse ouvido.
Lydia podia prever que algo estava prestes a acontecer, ao mesmo tempo que sentia como se a própria morte estivesse rodeando o lugar, era como se seus poderes estivessem entrando em colapso.
— Tem algo ruim chegando... — Ela declarou mórbida, olhando ao redor na escuridão da noite.
Entre as árvores viu o vulto negro novamente, uma figura negra encapuzada, mas ele se foi tão depressa que Lydia não conseguia dizer se era real ou apenas uma visão.
— Como assim? — Stiles se aproximou dela, segurando seus ombros. Sempre confiaria em tudo que Lydia dizia, não só porque ela era uma banshee, mas porque a amava o bastante para nunca duvidar dela.
— Não sei... — A ruiva admitiu tirando os olhos das árvores.
Ela e Stiles trocaram um olhar e o rapaz a abraçou em forma de apoio.
Ainda estavam assim quando Deaton saiu da clínica.
— Scott conseguiu? — Stiles foi o primeiro a perguntar, desinformado do que tinha acontecido dentro da clínica após sua saída. — Ele trouxe Crystal de volta?
— Acho que não é algo que cabe a ele fazer, vamos entrar, eu explico. — Deaton acenou, olhando nervosamente em volta.
Stiles e Lydia concordaram e estavam prestes a voltar para a clínica quando um dos berserkers pulou do telhado entre eles.
Lydia caiu para um lado e Stiles para outro. Deaton agiu depressa e ergueu sua mão, cheia de cinzas da montanha para jogar e prender a criatura. Porém o berserker foi mais rápido e atingiu o veterinário antes disso, ao mesmo tempo que o grito potente da banshee cortava o ar, junto com o rugido de Derek que vinha de dentro da clínica.
O berserker voou longe, caindo desacordado entre as árvores, no entanto Deaton estava ferido, as garras da criatura o tinham acertado antes que Lydia pudesse atacar.
Stiles amparou o veterinário que caia desacordado, com um ferimento aberto entre o pescoço e o ombro.
— Ele está bem, ele está bem, está respirando. Isso é bom, não é? — Stiles jogou as palavras nervosamente, depois de se certificar dos sinais vitais de Deaton.
— Precisamos achar o Scott, Deaton precisa de um médico. — Lydia decidiu e Stiles ficou feliz que ela estivesse no controle, porque ele estava surtando.
— Você ouviu? Não era o Scott, era o Derek. — Stiles comentou, se referindo ao rugido que tinha cortado o ar junto com o grito de Lydia
Mas Lydia não estava prestando atenção em mais nada, seus olhos estavam fixos em um ponto da floresta e sua mente parecia anestesiada, dormente.
Ela deu três passos naquela direção, quase como se estivesse hipnotizada.
— Lydia... — Stiles chamou, tentando segurar a ruiva, que já não estava mais ao seu alcance.
— Leve o Deaton para o Scott, eu tenho que ver uma coisa... — Ela falou fria, continuando a caminhar na direção das árvores.
Stiles se viu em um impasse, correr atrás de Lydia e deixar Deaton ali, sozinho e desacordado, ou ficar com o veterinário e deixar a namorada sozinha, correndo perigo em uma floresta cheia de berserkers.
Olhou para Deaton e soube que era caso de vida ou morte, por isso usando toda a força que não tinha, começou a arrastar o veterinário para dentro da clínica, decidido a conseguir ajuda com qualquer um e correr atrás de Lydia logo depois.
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Na parte da frente da clínica veterinária as coisas não estavam boas, os berserkers estavam em maior número e haviam separado o grupo em dois.
Liam e Theo lutavam juntos, cada vez se afastando mais da clínica e entrando na floresta para usar as árvores como vantagem.
Faziam uma boa dupla, sem dúvida, mas isso não significava que estavam vencendo.
Enquanto isso, Peter, Malia e Scott também faziam o que podiam. A raiva do Hale mais velho era um trunfo, mesmo que Scott não apreciasse toda aquela violência, afinal sabia que por baixo do crânio de urso haviam lobisomens que estavam sendo controlados por Kate.
Scott tentava se manter totalmente focado na luta contra quatro berserkers, mas sua atenção volta e meia focava em Malia, estava preocupado com ela.
Sabia que Malia podia se defender, que ela era forte e destemida, mas desde que tinham começado a namorar e talvez mesmo um pouco antes disso, tinha uma preocupação especial com ela. Vê-la em perigo fazia seu coração bater acelerado de medo. Já tinha visto uma namorada morrer em seus braços, no meio de uma batalha, não suportaria perder Malia do mesmo jeito...
A falta de foco de Scott o fez ser atingido em cheio, o berserker o jogou metros longe e o Alfa sentiu que alguns de seus ossos tinham se quebrado quando bateu contra a parede e caiu sobre as latas de lixo.
Estava em um pequeno beco na lateral da clínica, um local pouco iluminado e estreito que acabou sendo uma vantagem contra o berserker. Usou as paredes para pegar impulso e nocauteou a criatura.
Assim que o corpo do inimigo caiu desacordado, Scott estava pronto para voltar para a luta e ajudar os amigos, quando uma sombra negra passou rapidamente por ele.
Virou na direção do beco, mas não havia nada, apenas escuridão. Um som lhe atraiu a atenção para o outro lado, mas era apenas uma das latas de lixo caindo no chão.
— Scott? — A voz doce chamou, vinda de dentro da escuridão do beco e o Alfa McCall voltou a olhar naquela direção, dando dois passos para a frente, quando seu coração reconheceu a voz muito antes que sua mente pudesse.
Uma jovem deu um passo para frente, como se saísse da escuridão e, mesmo que seus pés parecessem flutuar no vazio e houvesse uma aura negra ao redor dela, Scott estava muito impactado para prestar atenção nos detalhes.
— Alisson? — A voz saiu cortada em sua garganta, mal conseguia acreditar no que estava vendo, mas Alisson Argent estava ali na sua frente, o mesmo cabeço negro ondulado e o mesmo sorriso com covinhas...
— Como? — Ele questionou confuso e deslumbrado, dando mais alguns passos na direção da garota.
— Isso importa? — Ela sorriu, como costumava fazer e Scott sentiu a felicidade lhe inundar. — Eu estou aqui agora...
Deram mais alguns passos até que ficassem frente a frente, então a morena tocou o rosto do Alfa com uma das mãos e Scott se deu conta de algo...
— Eu não escuto seu coração. — Ele franziu as sobrancelhas, se dando conta que não apenas o coração estava em silêncio, não podia sentir o cheiro de Alisson também.
— É porque eu não tenho um. — Ela sorriu ainda mais calma, tocando o rosto dele com a outra mão, foi quando aquele sorriso doce se transformou em algo macabro.
— Você não é a Alisson. — Scott constatou, tentando se livrar do toque da garota.
Mas era como se as duas mãos estivessem coladas em seu rosto, ele estava pronto para reagir com violência, quando a criatura com a aparência e Alisson Argent abriu a boca, sugando todo o ar do ambiente de uma vez. Porém era mais que isso, não apenas o ar estava sendo sugado, Scott sentiu que toda sua força era puxada de si.
Sentiu seus membros cada vez mais e mais fracos, tentou se libertar ou chamar por ajuda, mas não encontrou a própria voz, embora ainda pudesse ouvir Malia lutando ao longe.
Scott McCall sentiu que eram seus últimos momentos, aquela criatura, seja lá o que fosse, estava sugando toda a vida de seu corpo.
Sentiu o corpo amolecendo quando ouviu uma voz ao fundo, longe o bastante para pensar que não era real.
— Hey, você! — A exclamação veio acompanhada de um rosnado.
Scott teve a noção que era Peter Hale, mas não conseguiu se mover, algo foi jogado na criatura com a aparência de Alisson, uma das tampas metálicas do lixo, mas o objeto atravessou a menina como se ela fosse feita de fumaça negra.
Scott piscou algumas vezes, quando viu a figura de Alisson virar algo sem forma, apenas um capuz nego sem rosto, com mãos esqueléticas que soltaram seu corpo.
Ele não teve forças para se mantes de pé, sentiu-se cair no chão e viu quando a figura negra avançava na direção de Peter.
Os olhos de Scott pesavam, piscou uma vez e, quando os abriu novamente, não era mais um ser encapuzado ali, era uma garota com vestido claro e esvoaçante, Scott não a conhecia, mas viu pela expressão de Peter que o Hale mais velho reconheceu a jovem.
O Alfa genuíno tentou alertar o lobisomem de que era uma armadilha, mas sua voz não saiu e logo seus olhos não aguentaram mais ficar abertos.
Peter viu Scott cair desacordado, mas essa informação se perdeu em sua mente assim que ele viu quem estava caminhando em sua direção.
— Amelie? — A voz saiu entrecortada.
Peter esfregou os olhos e tentou focar na realidade, mas as coisas começaram a ficar confusas.
— Isso não pode ser real... — Ele murmurou, observando Amelie se aproximar em passos lentos, com um sorriso calmo e gentil no rosto.
Era ela. Seus fios castanhos dançavam junto com o vento e seus olhos azuis límpidos brilhavam sob a luz da lua.
— Sou eu, Pete. — A jovem insistiu, chamando o homem por ser apelido da juventude.
É uma armadilha. Peter tentou se convencer, colocando suas garras para fora.
— Vai me machucar outra vez? — Amelie perguntou em um lamento e logo seu vestido estava manchado de sangue e sua garganta estava marcada pelos dedos de Peter.
Era a última lembrança que ele tinha dela, do dia em que a tinha matado sob as ordens de Edgard Black.
Os joelhos de Peter cederam e atingiram o chão.
— Me desculpe... — Lamentou, com os olhos marejados. — Me perdoa, Amelie.
As convicções do que era real tinham se esvaído em sua mente, não conseguia lutar contra a figura de Amelie, nunca seria capaz de feri-la outra vez.
— Tudo bem, eu posso fazer toda essa dor ir embora... — A jovem segurou os dois lados do seu rosto.
— Peter! — A voz de Malia soou ao fundo, ela estava cercada por seis berserkers, sem saber onde estava Scott, assim como não sabia o que o seu pai estava fazendo ajoelhado na frente daquela garota de cabelos castanhos.
Mas Peter não deu atenção, tudo que havia era Amelie, mesmo quando ela começou a sugar a vida de dentro de seu corpo ele não se importou, morrer pelas mãos dela seria poético.
Foi quando o rugido de Derek cortou o ar, forte, firme, não o rugido de um Ômega sem alcateia, o rugido de um Alfa.
Amelie pareceu assustada, mas não parou o que estava fazendo, continuou sugando a vida de Peter até que as portas da clínica se abriram e Derek passou por elas acompanhado de Crystal.
Ele tinha os olhos vermelhos de um Alfa, enquanto os da jovem Green brilhavam fúcsia e intensos.
Derek avançou sobre a criatura que se fazia passar por Amelie, enquanto Crystal usava o seu chicote como se fosse uma extensão do próprio corpo, e assim ajudava Malia.
Assim que a criatura foi atacada por Derek, Peter ficou livre de sua influência e cambaleou para se colocar de pé, estava fraco, mas não tinha desmaiado como Scott, isso porque Derek tinha interferido na hora certa.
Amelie voltou a ser a criatura encapuzada por alguns momentos e então desapareceu deixando apenas um rastro de fumaça.
Derek não sabia o que a criatura era, mas não teve tempo de pensar nisso porque ver Crystal no meio de bersekers não era algo que o deixava tranquilo.
Se juntou a luta rapidamente, enquanto Peter cuidava de socorrer Scott no beco.
Não foi difícil para Derek lidar com os bersekers, se sentia mais poderoso do que nunca, algo que nunca tinha sentido, mesmo quando possuía uma alcateia.
Crystal notou logo que não era rápida nem forte como os outros, no entanto sentiu que tinha uma vantagem quando seu chicote atingiu o capacete de osso que um dos berserkers usava, o crânio se partiu, revelando que, por baixo do esqueleto de urso, havia uma pessoa normal, que caiu desacorda no chão.
A luta não durou muito, alguns bersekers bateram em retirada e outros foram derrotados. Malia, Derek e Crystal, se reuniram com Peter que trazia Scott desacordado.
— O que aconteceu com ele? — Malia perguntou preocupada.
— Foi aquela coisa... — Peter não soube como explicar. — Primeiro era Alisson e depois...
O Hale mais velho não terminou, não conseguiria dizer o nome de Amelie em voz alta.
— Era uma criatura que não conhecemos, mas temos que descobrir o que é, porque essa certamente não foi nossa última luta. — Derek declarou decidido.
— Parece que você é um Alfa outra vez... — Peter comentou em um tom falsamente debochado, enquanto Malia tentava acordar Scott.
— Eu sou. — Derek assentiu e trocou um olhar com Crystal.
— É, eu devia saber. — Peter deu de ombros, como se não fosse nada demais, porém escondeu um sorriso orgulhoso. — Filho de peixe, peixinho é...
— E isso é ruim? — Crystal questionou com um certo desafio na voz.
Peter riu, negando algumas vezes.
— Não. Não é ruim. — Admitiu.
— Hey, gente, uma mãozinha aqui! — Stiles acenou freneticamente, enquanto tentava puxar Deaton para fora.
Com todos ali reunidos eles trocaram as informações que tinham, Crystal perguntou de Theo, e Derek usou a audição para constatar que o garoto quimera e Liam ainda estavam lutando com alguns berserkers no meio da floresta.
Com Scott e Deaton desacordados, Theo e Liam ainda com problemas e Lydia andando pela floresta sozinha não havia muito que o grupo pudesse fazer a não ser se separar.
Crystal queria ir atrás de Theo e claro que Derek não a deixaria sozinha. Por isso foi decidido que Stiles tinha que levar Scott e Deaton até Melissa, com a ajuda de Peter que também não estava muito bem.
Nesse caso, Malia teria que seguir Lydia, mesmo que Stiles não estivesse nada satisfeito de deixar a namorada para trás...
A própria Malia não gostou de deixar Scott sozinho naquela situação, mas era Lydia, a ruiva podia estar em perigo e Malia nunca deixaria a amiga para trás. Assentiu rapidamente e enquanto Stiles, Deaton, Peter e Scott seguiam para o hospital; Crystal e Derek iam para o lado oposto atrás de Liam e Theo, Malia correu em direção a floresta, usando seus dons de coiote para rastrear Lydia com mais facilidade.
Metros dali a banshee caminhava no escuro, seus olhos vidrados em ponto algum, mas ela seguia certeira, quase como se soubesse o caminho. Na verdade, seu instinto era tudo que lhe guiava, aquele formigamento incômodo em sua mente que dizia que algo terrível estava prestes a acontecer. Malia a encontrou nesse instante.
— Lydia? — Chamou, mas teve que segurar o ombro da ruiva para ser notada. — Tudo bem? O que você veio fazer aqui.
— Não sei... — Lydia respondeu aérea, se desvencilhando de Malia e continuando a caminhar.
Malia conhecia a amiga bem o bastante para entender que aquilo era um momento de banshee, por isso deixou que a ruiva continuasse a andar, seguindo-a de perto.
Estavam caminhando ainda quando a audição da coiote captou vozes:
— Em breve Malvina vai retornar, papai. Eu já tenho o livro, o ritual está quase completo. Eu vou fazer aquilo que você foi fraco demais pra conseguir. Mas não se preocupe, você vai me ajudar.
Malia apressou o passo, deixando Lydia um pouco para trás.
Oculta pelas árvores a coiote viu que o professor Blackwood estava no centro de um pentagrama invertido desenhado no chão. Malia não conhecia o rapaz que o rodeava, mas apostou que aquele era Bradley Blackwood.
— É quase poético que um bruxo desistente morra na fogueira. — O jovem sorriu diabolicamente e Malia percebeu que o professor tinha os olhos vermelhos sangue, característico de quem estava sendo controlado.
Bradley tinha sido capaz de lançar um feitiço no próprio pai? Malia mal conseguia acreditar na cena e ficou ainda pior quando ela se deu conta que Edmund Blackwood fedia a gasolina e tinha um fósforo na mão.
— Vamos acabar com isso! — Ela sussurrou em um quase rosnado, quando foi impedida pela mão fria de Lydia.
— Se interferirmos, vamos morrer também. — A ruiva declarou em um tom mórbido que não deixou espaço para dúvida.
Blackwood acendeu o fósforo, depois de uma ordem do próprio filho, e seu corpo todo foi consumido pelas chamas em questão de segundos, não havia gritos, a hipnose era tão poderosa que o professor apenas se entregou a morte...
O cheiro de carne queimada impregnou no nariz de Malia, enquanto Lydia distinguia a exata imagem de sua visão. O tempo todo era Edmund Blackwood a vítima.
Lydia tirou os olhos da fogueira e os pousou em Bradley, não havia qualquer remorso no rapaz, muito pelo contrário, ele exibia um sorriso sádico e satisfeito.
Foi nesse momento que Malia sentiu o cheiro de enxofre dominar o ambiente, ao mesmo tempo em que Lydia via um tipo de aura negra ao redor de Bradley.
Havia uma mulher ao lado dele e Lydia a reconheceu de imediato, era a mesma do pesadelo que tivera antes de voltar para Beacon Hills.
— Temos que ir... — A banshee sussurrou, puxando Malia pelo braço enquanto todo seu corpo tremia e seu coração batia disparado.
E, como se tivesse ouvido as palavras de Lydia, a mulher de cabelos rubros e olhos vermelhos virou o rosto naquela direção, olhando diretamente para a banshee.
— O que foi? — Malia viu que a amiga tinha os olhos vidrados em um ponto vazio, a coiote não podia ver Malvina ali do lado de Bradley, apenas Lydia podia.
A banshee estava prestes a responder, quando Malvina tombou a cabeça para a esquerda e então sorriu, um sorriso frio e sem vida que fez com que todos os músculos de Lydia congelassem. Foi como se houvesse gelo em suas veias, cortando o fluxo de sangue que corria por seu corpo.
Lydia começou a tremer incontrolavelmente, sendo amparada por Malia antes que caísse no chão em uma convulsão que lhe tirou todos os sentidos.
Bradley, alheio ao que acontecia ali, começou a se afastar para o lado oposto, enquanto Malia tentava sem sucesso, fazer com que Lydia recobrasse o controle.
Por fim, quando o bruxo e consequentemente Malvina sumiram entre as árvores, Lydia sentiu seu corpo acalmar e foi abraçada pela inconsciência...
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Não tão longe, dentro da mesma floresta, porém do lado totalmente oposto, Liam estava com problemas, lutava com três berserkers ao mesmo tempo, ou melhor, apanhava dos três.
O garoto caiu no chão, o rosto sangrando e o nariz quebrado, ergueu os olhos e viu que Theo não estava muito melhor.
— Não vamos conseguir. — Se arrastou para longe do berserker antes de ser atingido por uma ponta afiada do osso que a criatura usava como arma.
— Nós vamos sim. Para de fazer corpo mole e usa a sua raiva. — Theo devolveu quando foi jogado na direção de Liam.
Os dois ficaram com as costas coladas e se deram conta que estavam cercados.
— Não vamos conseguir. — Liam repetiu, prevendo o pior, por causa da desvantagem.
— Cala a boca, Liam! — Theo xingou irritado, tentando se concentrar na luta.
Liam se jogou contra o berserker e bateu os punhos no crânio de osso que cobria a cabeça da criatura. O osso rachou e o lobisomem caiu desacordado.
— Acho que você tem razão. Vamos conseguir. — Admitiu com um sorriso de canto. — Temos que quebrar o crânio.
Theo assentiu e fez o mesmo, usando uma árvore como impulso para elevar o corpo e aumentar a força do impacto. O segundo berserker foi ao chão.
Venceram alguns com essa mesma técnica, até que Theo percebeu que Liam seria atingido em cheio com a ponta de um osso e, sem pensar muito, puxou o garoto pela camiseta, o empurrando para o lado, ficando em seu lugar.
A ponta de osso perfurou o abdômen de Theo ao mesmo tempo que ele atingia o berserker. A criatura caiu no chão e o osso se quebrou, deixando uma lasca dentro do corpo do garoto quimera.
Eu vou curar... ele pensou, sem dar importância para o ferimento e nesse mesmo momento Crystal e Derek surgiram entre as árvores.
Theo notou que os dois estavam praticamente sincronizados, como se pensassem juntos, como se estivessem conectados... chegou a conclusão óbvia e sorriu. Sentiu uma leve fraqueza nos músculos, mas continuou lutando, não podiam parar, estavam com a vantagem.
Derek, Crystal, Theo e Liam venceram os berserkers restantes sem grande dificuldade e sem maiores incidentes.
Theo reparou que Derek não deixava que nenhuma das criaturas se aproximasse demais de Crystal e aprovou aquela atitude.
— Viu? Eu disse que conseguiríamos. — Riu, mas seu sorriso morreu em seu rosto quando sentiu algo quente escorrendo de seu nariz.
— Theo? — Liam chamou preocupado, quando viu o liquido prateado.
O garoto quimera sentiu uma súbita fraqueza nas pernas, sua vista começou a embaçar, passou as costas da mão esquerda no rosto e observou assustado a substancia prateada. Era mercúrio.
Theo e Liam trocaram um olhar que foi puro pavor, ambos sabiam o que estava acontecendo. Theo estava morrendo.
O rapaz sentiu suas pernas falharem e seu corpo desabar, ao mesmo tempo que Liam e Crystal cortavam o espaço até ele. Liam amparou seu corpo antes que atingisse o chão e a jovem Green se ajoelhou ao seu lado.
— O que está acontecendo? — Ela perguntou assustada, vendo que os ferimentos de Theo não estavam curando.
— Eu não sei! — Liam tentou assimilar os acontecimentos, analisando o que podia ter causado aquilo. — É o osso.
Olhou a barriga de Theo e arrancou a lasca que estava ali, mas, mesmo assim, o ferimento não começou a cicatrizar, muito pelo contrário, Theo começou a tossir sangue manchado de mercúrio, mostrando que seu organismo estava entrando em colapso.
— O DNA no osso de berserker entrou em conflito com a minha biologia quimera. — Theo explicou com dificuldade, tossindo mais algumas vezes e sentindo uma vontade irresistível de apenas se deixar levar pela inconsciência.
— Hey! Não feche os olhos. Fique acordado. — Liam foi enérgico, dando um tapa fraco no rosto de Theo. — Você não pode morrer me salvando, você disse que não morreria por mim.
— Você me conhece, Liam. Eu sou um mentiroso. — O garoto quimera tentou um sorriso de canto, mas acabou em outra crise de tosse. — Tudo bem era só uma questão de tempo até que a experiência dos Doutores do Medo começasse a dar errado. Eu sou uma falha. Sempre fui...
— Você não é uma falha. Você é meu melhor amigo, você nunca foi uma falha pra mim. — Crystal foi firme, ajeitando a cabeça de Theo em seu colo. — Vamos resolver isso. Vamos dar um jeito.
— Não tem como resolver isso, Crystal. — O rapaz estava pacífico, como se apenas aceitasse o seu destino. — Tudo bem...
— Crystal está certa, podemos resolver isso. Scott pode te morder. Ele é um Alfa, deu certo com a Hayden, vai dar certo com você. — Liam declarou convicto, se lembrando que a mordida de Scott tinha transformado Hayden em uma lobisomem de verdade e assim revertidos os efeitos das experiências dos Doutores do Medo.
— Scott está a caminho do hospital agora, eu vou pedir pra ele voltar. — Crystal começou a procurar o telefone no bolso, mas sua mão tremia tanto que ela mal conseguia controlar os próprios movimentos.
Theo observou Liam por alguns segundos e sentiu que aquele era seu único arrependimento, não ter vivido o que desejava com o beta de Scott parecia idiotice naquele momento.
— Mesmo que Scott fosse conseguir chegar a tempo, ele nunca me morderia, ele não me quer na alcateia... — Theo lembrou, entrelaçando os dedos nos de Liam. — É exatamente por isso que você está fingindo que não gosta de mim todo esse tempo.
— Eu não gosto de você. — O primeiro instinto do garoto foi negar.
— Eu estou morrendo, não pode ao menos admitir? — Theo tentou um pouco de humor duvidoso, mas sua nova crise de tosse deixou as coisas ainda piores.
— Eu vou admitir, se você ficar vivo... — Liam prometeu e Theo quis que aquilo se tornasse real.
— Desculpe, não é uma escolha minha.... — O liquido prateado começou a escorrer de seus olhos, ouvido e nariz.
Crystal subiu o olhar na direção de Derek que observava a cena a uma certa distância. Ele não precisou da conexão com ela, para saber que a garota estava devastada e levou apenas um segundo para tomar uma decisão. Era a coisa certa a se fazer.
— Ele tem razão, essa escolha é de um Alfa. — Derek declarou, fazendo com que seus olhos brilhassem vermelhos. — Não precisamos do Scott.
Crystal e Liam abriram um sorriso aliviado e Derek se abaixou ao lado de Theo.
— Por que vai fazer isso? Você não gosta de mim. — O garoto perguntou quando Derek segurou seu braço.
— Digamos que esse é meu pedido oficial de desculpas. — Derek respondeu dando de ombros, em seguida seu tom ficou mais sério. — Crystal precisa de você, e você precisa de uma alcateia com um Alfa que te coloque na linha.
Theo revirou os olhos e tossiu algumas vezes, virando a cabeça com dificuldade na direção de Liam.
— Você sabe que isso pode dar errado, não é? — Lembrou, afinal a mordida não era certeza de salvação, principalmente quando estava tão fraco. — Devia dizer agora.
— Eu digo, se você ficar vivo. — Liam reforçou e Theo suspirou, focando sua atenção em Derek novamente.
— Acho que eu sou obrigado a ficar vivo então...
Theo estendeu o braço para Derek e o Alfa deixou que seus olhos brilhassem vermelhos antes de colocar as presas para fora e dar a mordida decisiva.
Theo percebeu a lua brilhando alto, quase como se fosse um sinal. Fechou os olhos e suspirou, se morresse estaria em paz consigo mesmo, se sentia redimido, mas se vivesse teria o que sempre sonhou: uma alcateia. E honraria isso com sua vida se fosse preciso. Prometeu para si mesmo que se virasse um lobisomem de verdade trataria aquela transformação como seu renascimento. Uma segunda chance para fazer as coisas direito.
Foi quando sentiu, começou na mordida, um leve formigamento que era quase como um choque de baixa voltagem, entrou em sua corrente sanguínea e foi se espalhando por seu corpo, podia sentir correndo suas veias e chegando ao seu coração...
Seus batimentos aceleraram e o processo de cura começou por todo seu corpo. Theo achou que sabia como era ser um lobisomem, mas estava errado, como quimera nunca tinha sentido nada daquilo. Os sons estavam mais claros e os cheiros mais intensos, era como se Theo pudesse sentir a vida nas coisas ao seu redor.
Abriu os olhos e eles brilhavam em um tom ainda mais vívido de amarelo. Viu o sorriso de Crystal e sorriu também. Theo não se sentia mais sozinho. Pela primeira vez na vida se sentiu completo.
Ele finalmente tinha uma alcateia.
A alcateia Hale.
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