Running with the Wolves
25 Calmaria
Notas iniciais

Você não tem que ter medo das palavras que você quer dizer agora
Porque o amor é um jogo que merecemos jogar em voz alta
Então, se você quiser
É melhor você beijar o garoto agora
Kiss the Boy — Keiynan Lonsdale
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Derek Hale tinha os olhos vermelhos, garras e presas de fora, uma posição de ataque ofensiva e ameaçadora quando o golpe de Theo Reaken passou a centímetros do seu rosto.
O Alfa desviou do ataque e deu um único safanão no braço de seu oponente, que o fez se desequilibrar e cambalear para o lado.
— De novo. — Derek incentivou, parando na mesma postura de antes.
Theo respirou fundo e se preparou para um novo ataque, que foi bem-sucedido apenas até certo ponto, afinal o Alfa da alcateia Hale o jogou para trás novamente sem grande dificuldade.
— De novo. — A voz de Derek se mostrou levemente ofegante, mas ele já estava em postura ofensiva uma vez mais.
Theo emitiu um rosnado contrariado e fez o que foi ordenado, com um pouco mais de raiva do que preciso. Daquela vez atingiu Derek em cheio no queixo.
O Alfa deu dois passos para trás, estralou o pescoço, alongou os ombros e o maxilar, se colocando em postura de ataque outra vez, como se o golpe nada o tivesse abalado.
— De... — Começou, mas foi interrompido por Theo, que parou no meio do loft e deixou que sua forma lobisomem se fosse.
— Você já disse "de novo" umas mil e quinhentas vezes. — Ele resmungou, deixando os ombros caírem.
Desde que Theo se recuperara totalmente, o que fazia dois dias, Derek vinha sendo exigente em treinamentos extensos e exaustivos, colocando ordens e regras em qualquer mínimo detalhe.
"Derek é um Alfa muito chato" era o pensamento mais frequente de Theo.
— E vou dizer mais mil e quinhentas, até você ser perfeito. — Derek apontou superior e mal-humorado como sempre.
— Eu sou perfeito. — Theo retrucou como se fosse a maior verdade do mundo e viu o Alfa revirar os olhos. — Eu já sei como lutar, okay? Não sou um bebê, nem um novato. Essa não é minha primeira vez como lobisomem.
— É sim, aí é que está. Você não era um lobisomem, você era uma quimera, as coisas são diferentes agora. — Derek devolveu dando alguns passos para frente, se impondo sobre seu Beta. — Tem a lua cheia daqui alguns dias e eu não sei como você vai reagir.
— Então treinar até a exaustão é a solução? — Theo bufou, sem se deixar intimidar pela postura do mais velho.
— É! — Derek assentiu, como se aquela fosse a única verdade incontestável do universo. Arrumou sua postura, assumindo as características lupinas e voltou a ordenar: — De novo.
Theo suspirou e deixou os ombros caírem, negando algumas vezes, mas se preparando para a nova rodada de ataques.
— Por que não é honesto com ele, Derek? — A voz feminina interrompeu os dois, em um tom calmo e levemente entediado. — Achei que esse fosse o ponto de ter uma alcateia...
Derek deixou seus olhos vermelhos se apagaram novamente, e encarou Crystal sentada em um dos cantos.
Ele não pegava tão pesado com ela nos treinos, por conta das características humanas dela, mas isso não significava que Crystal estava liberada dos dias enfadonhos, tampouco de algumas rodadas de lutas improvisadas para suas habilidades de Delta.
— Ah legal, então o alfa está escondendo coisas... — Theo jogou as duas mãos no ar. — O que é? Espera, deixa que eu adivinho, ele ainda não confia em mim.
— Não é isso... — Crystal respondeu, repreendendo o tom irônico do melhor amigo.
— Você precisa parar com isso. — Derek advertiu, apontando para a garota, sabendo exatamente o que ela pretendia dizer.
Ele não era a favor de expor seus sentimentos e preocupações daquele jeito.
— Eu sou a sua Delta, faz parte da conexão, além disso eu entrei na sua cabeça, eu sei tudo sobre você e você sabe tudo sobre mim. — Crystal devolveu dando de ombros, sem recuar em suas intenções de colocar tudo às claras. — É assim que as coisas são agora.
Derek jogou todo o ar para fora dos pulmões em um gesto contrariado, dando as costas para os dois membros de sua alcateia, enquanto secava o suor da testa com uma toalha de rosto e seguia para uma garrafa de água. Sabia que discutir aquilo com Crystal seria inútil.
— Derek tem medo que algo aconteça e não estejamos prontos. — A jovem revelou.
— O que isso significa? — Theo questionou olhando do Alfa para a Delta.
— Significa que, se algum de nós se machucar, ele vai se sentir culpado por não ter ensinado o bastante. Porque ele é o nosso Alfa, é responsável por nós... — Crystal explicou com um sorriso ameno, achava aquela preocupação de Derek uma graça e entendia aquele sentimento, afinal o tinha visto perder toda sua antiga alcateia. — E ele meio que até gosta de você agora
A risadinha de Crystal fez Derek revirar os olhos.
— Eu nunca pensei isso! — Ele se defendeu, jogando a garrafa de água para Theo, que pegou o objeto no ar sem qualquer problema.
— É só uma questão de tempo... — Crystal deu de ombros com um sorriso travesso.
— Certo. — Theo estendeu a garrafa para que a melhor amiga segurasse, e se aproximou de Derek, voltando a sua posição de ataque. — Então vamos "de novo".
Estava cansado e entediado, mas se aquilo era pra manter todos de sua nova alcateia bem e seguros ele entendia. Derek por sua vez deu um sorriso de aprovação.
Talvez Crystal estivesse certa, ser honesto era mesmo a melhor coisa para a alcateia Hale.
— Ah não, pelo amor de Deus! — A Delta se colocou entre os dois, os impedindo de lutarem e pousou uma das mãos no peito de Derek. — Olha, eu entendo a sua preocupação, mas estamos nisso faz dois dias, precisamos de uma pausa.
— Scott ainda está curando. Lydia ainda não faz ideia do que aconteceu com os poderes dela. Bradley e Kate estão por aí com o livro. Deaton e Argent estão incapacitados... Não temos tempo para pausas. — O moreno retrucou, enumerando todas as suas preocupações.
— Estamos no meio de uma calmaria que antecede a tempestade, eu entendo isso. — Crystal concordou em um tom apaziguador. — Mas não somos robôs, Derek, não somos soldados, somos adolescentes.
— O que isso significa? — Ele deu um passo para trás, frustrado com a perda de tempo daquela discussão.
— Significa que se não cultivarmos uma vida pela qual valha a pena lutar, vencer ou perder não vai fazer a menor diferença. — Ouviu a Delta argumentar e de fato entendeu a mensagem.
Era um impasse, Derek queria todos treinados e prontos, mas também os queria motivados, tinha que achar uma forma de ter os dois.
— Vinte e quatro horas. — Crystal propôs altiva. — Vamos dar uma pausa por vinte e quatro horas e então voltamos aqui e treinamos o quanto você quiser, de novo, de novo e de novo. — A imitação da frase de Derek fez Theo segurar uma risadinha. — Quem concorda?
A própria Crystal ergueu a mão, seguida por Theo, que o fez mesmo sob o olhar nada amigável de Derek.
— Viu? — A garota apontou os braços erguidos. — Uma votação justa. Ganhamos.
— Isso não é uma democracia, isso é uma alcateia. Eu sou o Alfa, eu decido. — Derek retrucou em um tom firme, que me nada afetou Crystal.
— Chame de alcateia democrática se quiser. Nós decidimos. Juntos. — Ela argumentou com um sorriso animado, enquanto Theo já tinha dado a discussão como vencida e pegava a chave da caminhonete para sair correndo do loft.
Derek cruzou os braços e revirou os olhos quando viu seu Beta acenar uma despedida. Nem parecia que ele era o Alfa daquela alcateia.
— Você não tem que assumir todas as responsabilidades, Derek. — Crystal tocou o rosto dele de modo carinhoso. — Somos um time, nada ruim vai acontecer se trabalharmos juntos.
Ela beijou os lábios dele de forma casta, porém doce. Sorrindo animadamente quando se despediu e saiu atrás de Theo.
— Espero que esteja certa... — Derek suspirou quando se viu sozinho.
Não podia deixar de ficar preocupado, era como se vivesse em estado de alerta, esperando que uma tragédia fizesse dele um Alfa sem alcateia outra vez...
E talvez esse fosse o problema, ficava tão paranoico que não via o óbvio, Crystal e Theo tinham limites, vidas, vontades, não eram soldados e se aquele era mesmo o último momento de calmaria que teriam antes das coisas ficarem muito ruins, talvez todos merecessem um dia de descanso.
Não era o que Derek queria de verdade, mas ele era voto vencido na tal "alcateia democrática". E na verdade até gostava da voz ativa que Crystal tinha, o fazia sentir menos solitário.
Ter alguém ao seu lado, apoiando ou contestando suas decisões não era algo que Derek estava realmente acostumado, no entanto ele percebeu logo que se sentia confortável com aquilo.
Crystal era como o equilíbrio entre sobrenatural e natural, fazia Derek não esquecer que, por mais que fosse um lobisomem, havia um mundo real a sua volta, um mundo do qual ele também fazia parte.
Ela podia ter ficado aqui pelo menos... se pegou pensando, e sorriu com isso.
Os treinamentos vinham sendo tão exaustivos que Crystal e Derek mal haviam encontrado tempo para si mesmos. Não que Derek sentisse que precisava falar de sentimentos, as coisas estavam claras para ele pela primeira vez.
Aceitar a conexão que tinham pareceu tão natural, e aquela certeza que os dois se pertenciam e estavam destinados deixava o lado lupino de Derek calmo e satisfeito. Completo.
Mas é claro que a certeza da ligação também tinha intensificado o desejo de Derek. Ele entendia porque ela queria "ir devagar", a conexão de suas mentes tinha revelado que Crystal nunca tinha feito certas coisas com ninguém...
Pensou em mandar uma mensagem e pedir que ela viesse, mas não queria apressar as coisas. Colocou o celular de volta na mesa e decidiu que esperaria o tempo de Crystal. Quando ela estivesse pronta, ela daria o primeiro passo.
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Quando Theo e Crystal chegaram em casa a primeira coisa que fizeram foi se jogar no sofá, e teriam ficado ali sem culpa, se o Senhor Bigodes não tivesse aparecido e feito um escândalo, como se perguntasse quem é que trocaria a sua ração, mesmo que seu pote estivesse cheio.
Os dois amigos se entreolharam por um segundo, enquanto o bichano miava como se sua vida dependesse disso e resolveram decidir quem assumiria aquela responsabilidade de forma vai racional possível: Pedra, papel e tesoura. Crystal perdeu é claro.
Ela se colocou de pé e caminhou até a cozinha, enquanto Theo tirava vantagem de sua vitória.
Do sofá em que estava ouviu a amiga reclamando com o gato, sobre o pote cheio de ração.
Theo riu, estava feliz apesar de tudo, não era tão diferente ser um lobisomem, quer dizer, mesmo aquele cheiro de Crystal, sobre o qual todos falavam, pra ele não havia mudado, Crystal cheirava como sempre, Theo acabou se convencendo que isso era porque o cheiro que o acalmava era o da própria melhor amiga.
Conhecia o bastante da mitologia dos lobisomens para perceber que Crystal havia se tornado sua ancora. Sua família.
Pela primeira vez via um futuro diante dos seus olhos, não era apenas incerteza, se viu com esperanças e sonhos. Realmente acreditava que tudo daria certo.
Olhou ao redor, para a casa que ele aprendera a aceitar como seu lar e sorriu, fazendo uma nota mental para que comprassem outra mesa de centro.
Haviam arrumado tudo o que os Berserkers destruíram, mas a mesa de centro era algo que ainda faltava...
Crystal voltou da cozinha naquele instante, ainda resmungando sobre a exigência do gato por ração nova.
— Então, vai fazer o que com as suas vinte e quatro horas de folga? — Ela se jogou no sofá novamente.
— Dormir, olhar para o teto. Qualquer coisa, menos brigar com um Alfa mal-humorado. — Theo respondeu satisfeito.
— Ele não é tão mal-humorado assim. — Crystal defendeu, fazendo uma careta.
— Pra você é fácil dizer, ele te ama, você o ama... — Ele respondeu em um tom levemente debochado.
— Não posso discordar. — Ela admitiu com um sorriso satisfeito.
Olhou para o amigo por alguns instantes e sorriu ao ter uma ideia.
— Você devia ligar para o Liam. — Declarou animada, no que Theo revirou os olhos.
— Nem morto! — Retrucou emburrado.
— Não seja tão difícil... — Crystal aconselhou em tom de súplica, mas Theo não se comoveu.
— Difícil? — Devolveu levemente irritado. — Ele está me evitando desde aquele dia. Fez promessas que não cumpriu. Ele é um babaca!
Apesar de ter se preocupado com toda a recuperação de Theo, Liam tinha se mantido cautelosamente longe do novo Beta desde aquela noite. Não tocara no ocorrido, agindo como se nada tivesse sido dito quando Theo quase morreu.
— Quer saber? Você está certa, eu devia mesmo ligar pra ele, marcar um encontro e então ir até lá apenas pra socar aquela cara. — Theo resmungou irritado, cruzando os braços e franzindo as sobrancelhas em uma expressão zangada.
Crystal ter caído na gargalhada não ajudou em nada.
— Não tem graça. — Ele repreendeu, ainda mais emburrado.
— Meio que tem sim. — Ela devolveu ainda rindo. — Porque eu sei que no momento em que você pensou em socar o Liam, você também pensou em dar uns beijos nele.
— Saí da minha cabeça, sua esquisita... — Theo jogou uma almofada nela, mas não estava realmente bravo, afinal tinha mesmo pensado aquilo.
Aquela era uma habilidade interessante que Crystal havia descoberto durante os treinamentos, às vezes era como se ela pudesse "ouvir o pensamento" dos membros da alcateia, era muito frequente com Derek, de modo que às vezes era como se os dois pudessem se comunicar sem palavras.
Com Theo era um pouco mais raro, unilateral, de modo que ele não conseguia decifrar os pensamentos da Delta, tinham chegado à conclusão que aquilo era algo que precisavam desenvolver aos poucos.
Derek julgava útil em batalha, mas para Crystal era apenas uma habilidade muito legal mesmo, algo que ela adoraria usar no dia a dia. Finalmente estava vendo as vantagens de ser uma Delta...
Theo deu o assunto "Liam" por encerrado e decidiu tomar um banho. Se o Beta de Scott estava agindo como se nada tivesse acontecido, então Theo podia fazer o mesmo. Foda-se.
Acontece que Liam não estava agindo como se nada tivesse acontecido, estava se esquivando, isso era verdade, evitando Theo naqueles últimos dias para conseguir lidar com o que sentia.
Mas uma conversa franca com Mason, que tinha voltado na noite anterior, fez Liam aceitar que se sentia atraído por Theo, e não tinha nada errado nisso.
No entanto, aceitar essa verdade não tinha deixado as coisas mais fáceis, na verdade estava com as mãos tremendo quando bateu na porta da casa dos Green naquela tarde.
Crystal atendeu momentos depois e Liam ficou um pouco mais aliviado de ter alguns segundos para acalmar o coração, já que a garota não tinha audição para perceber seus batimentos.
— Hey, Crystal! O Theo está aí? — Ele tentou soar casual, mas errou o batente onde se apoiaria e quase foi de encontro ao chão.
Arrumou a postura rapidamente e deu um sorriso forçado, esperando pela resposta da Delta de Derek.
— Olha só... quem é vivo sempre aparece, não é? — Ela sorriu de canto, nada surpresa com a visita de Liam. Até que tinha demorado. — Vou chamar.
Ela deu meia volta e gritou por Theo no pé da escada, apenas para fazer uma média, porque na verdade o garoto já estava ali. Tinha ouvido Liam mesmo antes que ele colocasse os pés na varanda.
— Seja legal, lobisomem. — Ela sussurrou quando Theo seguiu para a porta.
O rapaz controlou sua respiração e ajeitou os cabelos ainda molhados, antes de surgir na porta como se estivesse totalmente desinteressado.
— O que você quer? — Questionou, medindo Liam de cima a baixo e encostando no batente ao invés de chamá-lo para entrar.
— Eu só... — O mais novo engoliu em seco, mas levou apenas dois segundos para agir como se também não se importasse. — Você sabe, passei para ver como você está.
Se encaram por um instante, como se houvesse um desafio implícito ali.
— Eu estou vivo, como você pode ver. — Theo deu de ombros e mostrou o braço, onde não havia mais a marca da mordida de Derek, depois ergueu a camisa, exibindo o abdômen perfeito, sem qualquer sinal do ferimento que quase o matara.
Ele fez de propósito, é claro, e o gesto desconcertou e desestabilizou Liam, exatamente como Theo queria.
— Estou vendo... — Ele assentiu desviando os olhos e esquecendo totalmente de tudo que havia ensaiado para dizer.
Theo deu um sorriso vitorioso de canto e abaixou a camiseta, trocando o peso de perna e cruzando os braços como quem diz: "e então...?"
— Eu também vim porque... — Liam encarou os pés por alguns segundos e coçou a ponta do nariz, procurando por algo que pudesse dizer. — Pensei que podíamos, sei lá, sair pra dar uma volta.
Tentou colocar um pouco de normalidade nas coisas e finalmente voltou a encarar Theo.
— Uma volta? — O mais velho repetiu, erguendo uma sobrancelha para disfarçar seu interesse.
— É, sabe? Comer alguma coisa, jogar boliche... — Liam deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais natural de todas.
E até seria, exceto que os dois nunca tinham feito nada juntos em público, a não ser brigar pra caramba.
— Boliche? — Theo tentou não rir daquela sugestão.
— Boliche é legal, pessoas gostam de boliche. — Liam deu de ombros, cruzando os braços para esperar pela resposta.
Theo quis dizer que não, mandar o mais novo ir se ferrar, mas estava curioso demais pelo que viria depois.
— Vou pegar minha jaqueta. — Declarou neutro, como se aquele convite realmente não fosse nada demais.
Fechou a porta atrás de si e controlou a respiração e os batimentos, para que Liam não pudesse ouvir nada.
Subiu as escadas com calma, atitude que era totalmente contraria a de Crystal, que era incapaz de conter a empolgação.
— Boliche é alguma gíria para sexo? — Ela perguntou em um sussurro, quando os dois entraram no quarto e Theo abriu o guarda-roupa em busca de uma jaqueta.
— Cala a boca, Crystal. — Ele retrucou, revirando os olhos e saindo em seguida.
— Eu te amo! — Crystal cantarolou com um sorriso sapeca e Theo acabou voltando alguns passos.
— E quer saber? Já que você tocou no assunto... — Ele deu um sorriso de canto, com um arzinho de vingança em suas palavras. — Você devia ir jogar um pouco de boliche com o Derek, talvez ele faça um strike.
Levou um tapa no braço como resposta e foi sua vez de sair rindo, enquanto Crystal fazia uma careta de desdém e cruzava os braços.
Theo piscou para ela antes de sair e Crystal não pode evitar rir quando o viu fechando a porta.
Além disso, não era uma ideia tão ruim assim...
Theo foi com Liam no carro dele, mesmo que a sugestão não fosse a que mais lhe agradasse, a caminhonete ficou para trás.
O caminho para o boliche foi estranho, Liam não sabia o que dizer e falava demais sobre assuntos que não importavam realmente, Theo por sua vez tentava manter a paciência intacta e esperava pelo que realmente queria ouvir.
Quando chegaram ao boliche o clima ficou mais ameno. Eram bons competindo, então as primeiras partidas até que foram divertidas.
Desfrutaram de alguns momentos normais, mesmo que a rixa entre eles ainda fosse o ponto de apoio de toda aquela noite. Liam estava ganhando, a prática lhe dava certa vantagem.
Mesmo com os dons lupinos Theo não era o tipo de garoto que crescera jogando boliche, não tinha esse tipo de amenidade com os Doutores do Medo.
Tinham pedido fritas e refrigerante, mas enquanto Liam comemorava outro strike, Theo percebeu que não queria nada daquilo se não viesse com todo o resto...
— Por que estamos aqui, Liam? — Ele questionou, encostado na mesa.
— Estamos jogando boliche... — Liam deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do universo.
— E por que estamos jogando boliche? — Theo não se deu por vencido.
— Você sabe... — Liam se afastou do suporte de bolas e se aproximou do outro. — Somos amigos.
Aquela resposta irritou Theo um pouco. Estava cansando daquele papo de amigos, daquelas esquivas.
— Não somos amigos. Você sabe disso, todo mundo sabe disso... — Devolveu, se afastando da mesa e dando um passo na direção de Liam. — Eu não quero ser seu amigo.
Se encararam por alguns segundos, o peso daquelas palavras pairando entre eles.
— Eu não quero ser seu amigo também, babaca! — Liam empurrou Theo para trás, agindo como se não tivesse entendido o real significado da frase.
— Ótimo, então o que estamos fazendo aqui? — Theo jogou uma das mãos no ar, tentando não perder a paciência.
— Eu tinha que te dizer uma coisa... — Liam admitiu, encarando o chão por alguns segundos.
— E o que é? — Theo incentivou dando outro passo para frente.
— Você sabe o que é... — Liam deu de ombros, se afastando aquele mesmo passo.
— Sei? — Theo respondeu, cruzando os braços.
— Não banca o idiota, Reaken. — O mais novo acusou, revirando os olhos e aquilo foi a gota d'água para Theo.
— Diz de uma vez, Liam! — Perdeu toda a paciência que estava tentando conservar. — Ou você não consegue manter uma promessa?
— Você estava morrendo por minha causa... Eu diria qualquer coisa. — Liam se defendeu, também perdendo a paciência.
— Então por que não disse? Por que prometeu que diria depois? — As perguntas de Theo eram afiadas e acusatórias.
— Eu não sei. Por que você me salvou pra início de conversa? — O mais novo jogou de volta, como se aquilo fosse algum tipo de competição para ver quem cedia primeiro. — Você mesmo disse que não somos amigos, você não tinha que me salvar então...
Theo suspirou de frustação e descontentamento, dando três passos para trás e agarrando sua jaqueta que estava jogada sobre uma das cadeiras.
— Quer saber, isso foi um erro! — Ele declarou, jogando alguns dólares na mesa e dando as costas.
Liam demorou alguns segundos para pagar a contar e seguir Theo, tempo o bastante para que os dois acabassem se encontrando no estacionamento.
— Não foge feito um covarde! — Liam gritou, puxando Theo pela jaqueta e o prensando contra um dos carros.
— Eu estou fugindo?! — Theo empurrou Liam para trás com certa fúria. — Quem é que está me evitando faz dias? Quem é que está fugindo desde aquela noite na clínica do Deaton?! Eu não sou o covarde aqui, Liam.
Obviamente a discussão tinha virando uma briga e Liam não tardou em revidar, afastando as mãos de Theo com um safanão.
— Se você não é um covarde, então por que não diz de uma vez? — Ele acusou, encarando o mais velho de frente.
— Eu não vou dizer nada, não fui eu que prometi... — Theo não abaixou a cabeça.
Os dois estava a centímetros um do outro, se enfrentando com olhares cheio de raiva.
— Eu também não vou dizer, você já mentiu pra mim tantas vezes que quebrar uma promessa não é nada. — Liam retrucou superior.
— Ótimo, então não diga nada. — Theo deu de ombros como se não se importasse.
— É isso! Não precisa dizer nada também. — Liam copiou o mesmo movimento e os dois deram um passo para trás ao mesmo tempo.
— Tanto faz... — Repetiram ao mesmo tempo, dando as costas um para o outro.
Deram dois ou três passos na direção oposta, mas isso foi o máximo que se afastaram um do outro, antes de voltarem como se algo magnético os prendesse.
Quem visse de longe diria que os dois rapazes estavam prestes a sair no soco, mas não foi isso que aconteceu. Liam agarrou a gola da jaqueta de Theo, que o empurrou em direção a um dos carros ao mesmo tempo em que seus lábios se uniam feroz e violentamente.
A tensão sexual entre eles explodiu, incendiando suas veias de tal forma que cada movimento era tão rude quanto um golpe. Estavam ainda brigando por controle, mãos nada sutis explorando os corpos um do outro no mesmo ritmo que seus lábios se misturavam.
Seus movimentos eram tão violentos que o alarme do carro atrás das costas de Liam disparou, fazendo o som se espalhar pelo estacionamento.
Se afastaram no mesmo momento e se encararam por não mais que dois segundos antes de começarem a rir.
Theo puxou Liam pelo braço, e os dois cruzaram o estacionamento rumo ao carro do mais novo antes que qualquer segurança os visse.
Ainda riam quando entraram no veículo e seus olhos se encontraram.
— Isso foi... — Liam não encontrou uma palavra pra descrever, mas não precisou, Theo apenas concordou como se soubesse o que o outro diria.
Suas respirações se acalmaram aos poucos, embora o sorriso permanecesse em seus lábios.
— Então... — Liam ligou o carro, depois de desviar os olhos. — Você quer ir pra outro lugar?
— Agora não. — Theo respondeu, curvando seu corpo na direção do volante e tirando a chave do contato.
Liam assentiu devagar, segundos antes dos dois voltarem a se beijar.
Foi mais calmo daquela vez, como se estivessem tirando um tempo para entenderem um ao outro, eventualmente acabaria em outra disputa por controle, ambos sabiam disso. Eram hormônios e curiosidade, mas também mente e orgulho, sempre estariam competindo de alguma forma.
Foi naquele momento que aceitaram que seria assim com eles, ao mesmo tempo em que percebiam que as palavras não eram necessárias.
Theo gostava de Liam. Liam gostava de Theo. Era simples assim. Talvez um dia dissessem, mas não aquela noite. Aquela noite não precisavam de uma declaração.
Aquela noite precisavam de suas peles e músculos se tocando. Era sobre descoberta e paixão
E onde tudo aquilo levaria? Bom, os dois estavam dispostos a descobrir... Juntos.
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Derek Hale tinha acabado de sair do banho, estava com os cabelos ainda molhados e o peito desnudo, vestindo apenas uma calça de moletom, decidido a passar o resto na noite à vontade em casa, quando um perfume bem conhecido invadiu suas narinas.
Ouviu o som dos saltos na escada, passos ritmados, lentos, que eram o oposto das batidas frenéticas do coração de Crystal Green.
Sorriu de canto e caminhou para a grande porta de correr do loft, abrindo antes mesmo que Crystal batesse.
— Olá, Senhor Alfa... — Ela abriu um sorriso radiante quando o viu ali, nada surpresa com a antecipação dele.
Derek a mediu dos pés à cabeça e sorriu também.
Aquilo era definitivamente um "primeiro passo". Talvez aquelas vinte e quatro horas de folga não fossem tão ruins afinal...
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