Running with the Wolves
28 Último Sacrifício - parte II
Notas iniciais

Era como se o caos reinasse na casa de Scott McCall, estavam todos reunidos ali; Scott e Chris Argent, no limite por causa do sequestro de Melissa; Malia, Lydia, Stiles e Parrish, que tinham voltado depois de encontrar o carro de Rachel capotado em uma parte remota da cidade, os quatro tinham certeza que a jovem tinha sido levada pelo bruxo, por causa do cheiro de encofre impregnado no lugar; Peter Hale também estava ali, depois de uma ligação de Malia que o deixou sem escolha; Liam e Theo haviam chegado quase junto com Mason e Corey; os últimos a se juntarem a eles foram Crystal e Derek.
— Vamos achá-las. — Stiles tentou soar confiante, mas a verdade é que a postura preocupada de Lydia o deixava alerta.
Desde que a banshee tivera uma convulsão na floresta, ela vinha tendo sonhos muito estranhos...
— Sequer sabemos onde começar... — Peter foi um pouco mais pessimista e recebeu um olhar repreensivo de Malia, não que ela fosse a otimista ali, mas não queria deixar Scott mais tenso.
A discussão prosseguiu, era óbvio para o grupo que Bradley faria o último sacrifício e traria Malvina de volta, mas eles não entendiam onde Rachel se encaixava nisso, tampouco sabiam onde procurar.
Pelo menos chegaram a um consenso sobre a Lua Cheia ser o evento que tornaria aquela magia possível.
Enquanto todos discutiam e falavam ao mesmo tempo, expondo teorias cada vez menos prováveis Lydia estava sentada ali perto, batendo sua caneta em uma folha de papel enquanto tentava processar tudo que estava ao redor. Ela sequer saberia dizer o momento em que perdeu o foco, mas aconteceu, e tudo que ela viu foi sangue e chamas, crânios por toda a parte, então sentiu que a terra a estava engolindo, seus pulmões se enchendo de areia e pó.
A falta de ar foi tanta que a fez voltar a si no meio de uma crise de tosse.
Stiles já estava ao lado dela naquele momento, tentando ajudá-la a se acalmar.
E então todos os olhos estavam em Lydia, esperando pela revelação e pela péssima notícia.
— Alguém vai morrer soterrado... — Ela falou com a expressão mórbida e preocupada.
Scott soube que era sua mãe, afinal ela era o último sacrifício, e o último sacrifício era a morte por terra.
— Você sabe onde? — Ele perguntou, sentindo uma culpa imensa de não ter ido no lugar de Melissa.
Lydia moveu a cabeça negativamente e a sala toda se calou, sentindo a tensão do momento.
— Acho que eu sei... — Crystal declarou, com os olhos no papel em que Lydia batia a caneta momentos atrás.
Talvez os outros não pudessem conectar as linhas avulsas formadas em pontos diferentes, mas os olhos de Crystal fizeram isso automaticamente, devido a todas as vezes que ela própria tinha feito aquele desenho.
Pegou a caneta e o papel e terminou de ligar todos os pontos, formando uma árvore cheia de galhos e folhas, com raízes compridas.
— Uma árvore? — Corey pareceu um tanto decepcionado. — Pode ser qualquer árvore.
— É o Nemeton. — Peter declarou, reconhecendo o desenho imediatamente.
— O Nemeton está cortado, não tem galhos e folhas. — Liam lembrou.
— Ele costumava ter. — Peter respondeu.
— Quando eu cheguei na cidade a magia ressurgiu e o Nemeton brotou... — Crystal começou, e sentiu que aquilo fazia muito tempo, mesmo que não fizesse de fato.
— Se lá é a fonte da magia, faz sentido que seja o lugar escolhido para trazer Malvina de volta. — Derek completou o raciocínio de sua Delta.
— Então temos que ir para o Nemeton. — Scott declarou decidido.
— Vou pegar minhas armas. — Chris Argent, que até aquele momento estava sentado por causa do ferimento em seu abdômen, se colocou de pé e não demorou a dar as costas e seguir para o quarto.
Scott fez um sinal para os amigos e seguiu o ex-caçador. Chris já estava separando um pequeno arsenal, desconsiderando totalmente seu ferimento e a dor latente que se espalhava por seu corpo.
— Você tem que ficar... — Scott declarou com calma e cautela.
— O que? — A indignação de Argent estava em cada letra, mesmo que o simples ato de falar mais alto fizesse a dor se alastrar por seu corpo. — De jeito nenhum!
— Você ainda devia estar de repouso, você está sangrando. — Scott retrucou, apontando o peito de Chris, que começava a apresentar sangue no curativo. — Se você for e algo te acontecer, minha mãe nunca vai me perdoar.
Argent sabia que estava com um ou dois pontos abertos, mas não deu importância para isso, a vida e segurança de Melissa estavam acima de seu bem-estar pessoal.
— Você também devia estar de repouso, pelo que eu sei. — Argent apontou acusatório. — Seus poderes ainda não voltaram totalmente.
— Eu sei... — Scott deu um suspiro de frustração e seus ombros caíram.
Não foi difícil para Chris notar a culpa e a derrota na postura do rapaz.
— Mas eu preciso ir, porque é minha alcateia... mas eu não sei se... — Ele parou, como se a voz tivesse travado em sua garganta.
Scott caminhou pelo quarto e se sentou na cama, repousando os braços nos joelhos e encarando chão.
— Aquela criatura que eu enfrentei, é diferente de tudo... — Chris notou um certo receio na voz do Alfa. — Eu não sei se posso vencer aquilo...
Quando Scott enfim ergueu a cabeça, Chris viu dúvida nos olhos do jovem, era a primeira vez, desde que se conheciam, que ele via Scott duvidar que pudesse vencer um inimigo.
— Se eu não voltar, você precisa estar aqui por ela. — Scott se levantou, e encarou Argent como se esperasse uma promessa dele.
Chris deu um suspiro que era muito mais conformismo do que aceitação.
— Vai logo. — O ex-caçador apontou e Scott assentiu uma única vez antes de deixar o quarto e partir com o restante dos amigos em seguida.
Scott tinha feito um pedido que Chris nunca seria capaz de negar, mas o Alfa Genuíno jamais entenderia o que custou ao ex-caçador ficar ali sentado sem fazer nada.
Para Chris Argent era como se a história se repetisse. Teria feito qualquer coisa para salvar a filha, mas estava sentado em casa.
Foi então que ele se deu conta que ainda havia algo que podia fazer, uma última coisa que podia tentar, algo que ia contra seu próprio orgulho, mas que se salvasse Melissa, valeria a pena.
Pegou o próprio aparelho celular e procurou por um contato há muito esquecido ali, torcendo para que a pessoa do outro lado da linha ainda tivesse o mesmo número.
A pessoa atendeu no segundo toque e Chris Argent reconheceu a voz que disse "alô".
— Kate... — Ele falou, quase aliviado ao ser tendido pela pessoa certa e a mulher tremeu ao ouvir a voz do irmão.
Não tinha mais o contato dele salvo, era uma parte de sua vida que tinha deixado para trás quando notou que eles sempre seriam inimigos.
Jamais esperaria receber uma ligação do irmão, ainda mais depois do que tinha acontecido no cofre dos Hale. Os Argents eram orgulhosos e teimosos, aquela ligação era uma quebra muito grande do padrão.
— O que você quer? — Ela questionou com a voz fria.
Estava no meio da floresta, Bradley seguia na frente, puxando as duas reféns com suas cordas mágicas e o Sol estava morrendo no horizonte, revelando a grande lua prateada no céu.
— Você me atacou... — A voz de Chris veio neutra, sem acusações, apenas uma constatação dos fatos.
— As coisas são como são. — Kate manteve seu tom indiferente.
Não tinha como dizer ao irmão que nunca pretendeu atacá-lo daquela forma, não tinha como explicar que achava estar sendo parcialmente controlada pelo bruxo, talvez Chris sequer acreditasse nisso.
De fato as coisas eram como eram. Kate tinha feito suas escolhas e não se arrependia delas.
— Eu sei. Nós somos inimigos agora, finalmente entendi isso. — Chris soou um tanto decepcionado do outro lado da linha — Mas também somos irmãos, ainda somos. E eu estou ligando como seu irmão para te fazer um pedido, Kate.
A mulher sentiu as palavras lhe afetarem. Sempre sentiu orgulho se seu sobrenome, do legado que ele carregava, viveu sob os princípios do pai para honrá-lo e deixa-lo orgulhoso. Mas então ela virou a caça, deixou de ser uma filha motivo de orgulho e passou a ser nada, matou o próprio pai porque sabia que ele a mataria primeiro se tivesse chance.
Mas Chris... Chris nunca pretendeu machucá-la realmente, Kate pensou que ele iria, no começo, afinal os dois tinham mudado muito, estavam em lados opostos, deviam ser inimigos, mas ela sabia que até aquele dia no cofre Chris nunca viu daquela forma, não realmente, ele ainda a via como sua irmã, uma irmã que estava perdida, mas que ainda podia encontrar o caminho.
Mas Kate nunca esteve perdida, sempre fora consciente de todos os seus atos, até os ruins, principalmente os ruins...
Ainda assim, saber que ela e Chris permaneciam irmãos, mesmo depois de tudo teve algum significado. O sangue é mais denso que a água, afinal.
— A mulher que Bradley levou, eu a amo. — Chris continuou e Kate podia ouvir a sinceridade na voz dele. — Eu não estou pedindo que entenda ou aceite isso, eu não estou pedindo para impedir esse plano maluco, eu só estou pedindo que são seja ela.
No fundo Kate sabia que aquele era o pedido, logo que ouviu a voz de seu irmão do outro lado da linha, por qual outro motivo ele ligaria, não é?
Mas aquilo era algo que estava fora das possibilidades...
— Se algum dia você teve alguma afeição por mim, eu estou pedindo, estou implorando, irmã, não deixe que ele mate a Melissa. — A voz de Chris tremeu e embargou. — Eu já perdi a Victoria, já perdi a Allison... já perdi você, eu não tenho mais nada, eu não posso perder a Melissa.
Uma parte de Kate sentiu o pesar do irmão, amava Allison também, mas a sobrinha havia escolhido seu próprio caminho quando decidiu se aliar com Scott. Fez escolhas erradas, por isso estava morta.
Olhou para Melissa, sendo arrastada por Bradley e soube que o bruxo prestava atenção em sua conversa discretamente.
— Eu tenho que ir. — Ela declarou fria e desligou o telefone na cara do irmão, sem lhe dar qualquer resposta.
Bradley diminuiu o passo para que caminhassem lado a lado.
— Quem era? — Questionou sem rodeios e Kate sequer se surpreendeu com a intromissão do bruxo.
— Um contato antigo. — Ela respondeu simplesmente. — Acha que você é a única pessoa com quem eu faço negócios?
Bradley não respondeu e Kate sentiu um prazer pessoal em poder sair por cima ao menos daquela vez.
O viu fazer um sinal com a mão e a corda ser puxada magicamente, fazendo as duas reféns apertarem o passo.
— Por que não está controlando a mente delas como todas as outras? — Kate olhou para as mulheres de soslaio e Melissa lhe lançou um olhar mortal.
Estavam amordaçadas, Bradley tinha feito isso depois que Melissa começou a contar vantagem sobre o filho e os amigos, dizendo que o bruxo nunca sairia impune, que seria derrotado por Scott.
— Porque assim é mais divertido. — Bradley deu de ombros, apressando o passo novamente e deixando Kate para trás.
Chegaram em uma grande clareira algum tempo depois e Kate ordenou que os Berserkers se espalhassem por todo o lugar, atentos a qualquer movimento suspeito. Bradley estava confiante, mas Kate sabia que Scott e os outros achariam um jeito de intervir, então resolveu se precaver.
Se queria receber pelo acordo então precisava da tal bruxa poderosa voltando à vida e achava Bradley estúpido demais para fazer aquilo sozinho.
Kate não gostava daquele trabalho, mas no decorrer daqueles anos tinha feito muitos trabalhos dos quais não gostava... Se tornara uma mercenária, fazendo coisas por dinheiro ou em troca de algo que queria.
Ainda caçava a escória sobrenatural, no entanto não tinha apoio ou respeito de nenhum caçador, tornar-se uma jaguar tinha mudado isso. Ela tinha se tornado a caça e nenhum caçador confia na caça...
Não podia mentir, o poder e a força eram bons, ter um exército de Berserkers era útil, mas Kate nunca quis nada daquilo, ela tinha se tornado o que mais odiava, se olhar no espelho era como um pesadelo, por isso, quando Bradley surgiu com a proposta, oferecendo sua humanidade de volta em troca de algum apoio, Kate não pensou duas vezes.
Daria qualquer coisa para ser humana outra vez.
E ali estavam, em frente ao grande Nemeton enquanto Bradley fazia um círculo com símbolos estranhos no chão. Kate já tinha ouvido falar da árvore, um grande tronco cortado, o farol sobrenatural de Beacon Hills...
Mas não era mais um tronco cortado naquele momento, a árvore tinha crescido metros e metros e seus galhos e folhas se espalhavam de tal forma que se misturavam aos das outras árvores que estavam metros ao redor.
Kate não se perguntou como um tronco tinha virado uma árvore de ao menos duzentos anos em tão pouco tempo, quando se convive com o sobrenatural algumas perguntas são desnecessárias.
— Peça que cavem uma cova bem funda. — Bradley ordenou, apontando o lugar algum metros longe dele, enquanto ainda desenhava no chão.
Kate pensou em mandá-lo cavar sozinho, mas achou perda de tempo e apenas fez o gesto para suas criaturas.
Olhou para as duas reféns, Melissa e a outra garota que Kate sequer sabia o nome, apenas uma turista que Bradley fizera sofrer um acidente na estrada. Ele queria usar a jovem para ser o receptáculo de Malvina.
Kate achou interessante como a garota passou do medo para a calma durante aquelas horas, e naquele momento era quase como se estivesse interessada no que Bradley fazia.
— Como é o seu nome? — Perguntou, se aproximando e tirando a mordaça que impedia a jovem de falar.
— Rachel. — Ela respondeu alternando o olhar entre Kate e Bradley.
— Você não faz a menor ideia do que está acontecendo, não é Rachel? — Havia um certo deboche cruel no tom de Kate.
— Vocês são bruxos. — Rachel respondeu de cabeça erguida, estava com medo, é claro, mas não era o tipo que baixava a cabeça para ninguém.
Kate se surpreendeu com a resposta.
— Eu não, só ele. — Ela apontou Bradley que seguia traçando símbolos estranhos no chão. — Mas você é bem informada até.
— Eu tenho amigos. — Rachel deu de ombros, preferindo não citar Jordan.
— Bom, seus amigos não podem te ajudar... — Kate riu da pose que a jovem tentava manter, afinal podia sentir o cheiro de medo exalar por toda a parte.
— Deixe nossa convidada em paz, Kate. — Bradley ordenou, erguendo o olhar na direção delas.
— Você amarra todas as suas convidadas e as arrasta para a floresta? — Rachel foi audaciosa o bastante para enfrentar seu captor.
Bradley sorriu de canto e ergueu-se, batendo as mãos sujas de terra na roupa e caminhando até Rachel em passos lentos.
— Você é corajosa.... — Segurou o queixo dela, obrigando a jovem a encará-lo. — Malvina vai gostar disso. Ela vai usar seu corpo por um tempo, só até recuperar o dela e então, quem sabe, se você for uma boa garota, ela pode te recompensar com um lugar no novo mundo que ela vai criar.
Bradley deu um sorriso ferino, mas Rachel não se intimidou, juntou todo o folego e cuspiu na cara do bruxo expressando todo seu asco.
— Vai se ferrar, seu maluco! — Ela gritou, quando ele deu um passo para trás, limpando o rosto com as costas do casaco.
Bradley ergueu os olhos de uma forma que fez a espinha de Rachel gelar, era um olhar homicida e cruel.
— Ou talvez ela sugue a sua alma e faça o seu corpo virar pó. — Ele agarrou o braço da jovem e a empurrou para o círculo.
Recitou algumas palavras em um idioma que mais ninguém ali conhecia, ao mesmo tempo em que Rachel se viu livre das cordas mágicas e tentou correr. O círculo ao redor dela se acendeu em chamas e ela se viu presa ali dentro por algum tipo de força invisível.
Bradley sorriu, satisfeito e cruel, então olhou para o céu, que a essa altura já tinha escurecido totalmente, iluminado apenas pela lua cheia.
— Estamos prontos para começar. — Declarou, fazendo um gesto e puxando a corda mágica que prendia Melissa McCall, então empurrou a mulher na direção de Kate. — Jogue-a na cova e mande os Berserkers a enterrarem viva.
Seria um péssimo jeito de morrer, Kate pensou consigo mesma, enquanto encarava a mulher que seu irmão amava.
— O que? Algum problema? — Bradley questionou impaciente.
— Não. — Kate soou fria e desinteressada. — Vamos acabar logo com isso...
Pegou Melissa pelos braço e a arrastou em direção da cova, vários metros à frente deles. Enquanto isso Bradley tirou uma faca do bolso e começou e riscar sinais mágicos no próprio Nemeton.
Eram apenas alguns metros, mas para Kate pareceu toda uma eternidade, enquanto ela caminhava ouvindo o coração de Melissa bater apressado ao seu lado.
Nunca tinha parado para pensar no que estava fazendo de verdade, sempre focada demais no prêmio para pesar suas ações. Mas pensou naquele momento...
Soube com toda certeza em seu coração, que Chris nunca a perdoaria por aquilo e não se importava, ou ao menos foi isso que ela pensou quando parou com Melissa aos pés da cova funda e escura.
Olhou para a mulher, sabendo que tudo que tinha que fazer era empurrá-la, então virou o rosto para Bradley e o viu entretido com sua tarefa.
Kate soube que se arrependeria tão logo a ideia passou por sua mente, mas arrependimento sempre soou melhor do que "remorso".
Ela colocou as garras para fora e puxou os pulsos de Melissa, partindo as cortas com um movimento violento. Segurou firme o braço da mulher, colocando-a centímetros da cova.
— Diga ao Chris que eu mandei lembranças. — Sussurrou e então empurrou Melissa... não na direção do buraco e sim na direção de um de seus Berserkers.
Fez um gesto e a criatura escondeu Melissa com seu próprio corpo musculoso. Então a mãe de Scott foi escoltada discretamente para fora da clareira, sem ter tempo de agradecer ou sequer entender o que tinha acabado de acontecer.
— Fechem isso logo! — Kate ordenou em voz alta e os Bersekers começaram a jogar a terra de volta no buraco, como houvesse mesmo alguém lá dentro.
— Pronto? — Bradley questionou, se afastando do Nemeton com um sorriso.
Kate afirmou com um movimento de cabeça, como se tudo estivesse certo e como se ela não tivesse acabado de deixar a prisioneira fugir.
E talvez seu teatrinho tivesse dado certo, se Bradley não precisasse da energia advinda do último sacrifico. Assim que ele reparou que nada mudou, olhou para Kate desconfiado e se aproximou da cova já coberta de terra.
Teve que fazer apenas um gesto para que o buraco fosse aberto novamente e ele notasse que não havia ninguém ali.
Olhou para Kate com uma de suas sobrancelhas erguidas e com um sorriso presunçoso nos lábios.
— Você pode escolher qualquer pessoa, não tinha que ser ela. — Kate deu de ombros como se não fosse nada demais. — Era uma escolha estratégica errada.
Era mentira, aquilo nada tinha a ver com estratégia, tinha a ver com Chris.
— Tem razão, eu posso escolher qualquer pessoa... — Bradley riu, se aproximando um passo mais de Kate. — Mas acho que depois do meu pai, eu posso criar uma nova tradição.... Afinal, sacrificar traidores é sempre muito gratificante.
O bruxo olhou para a cova aberta e no mesmo momento Kate entendeu o que ele queria dizer.
Ela também ergueu uma sobrancelha e sorriu, deu um passo para trás, com a cabeça erguida e cheia de presunção.
— Acabem com ele! — Ordenou aos Bersekers.
Queria sua humanidade, mas queria muito mais sua vida e se Bradley a ameaçava então a aliança estava acabada.
No entanto, nenhum Berserker se moveu, Kate olhou para eles e repetiu o gesto, mas seu exército de lobisomens controlados permaneceu no mesmo lugar.
— Eu disse pra você que tinha te feito uma oferta por pura educação, eu não preciso de você, Kate. — Bradley declarou e seu sorriso era pura maldade, ele se virou para os Berserkers e ordenou: — Se espalhem pela floresta, se encontrarem a mulher, matem-na.
Todas as criaturas obedeceram imediatamente e Kate soube que o bruxo já tinha descoberto um jeito de controlá-las fazia tempo, ele só estava esperando o momento certo de usar esse trunfo.
— Eu vou arrancar a sua garganta! — Ela rugiu, mudando para sua forma de jaguar e colocando as garras para fora, prestes a atacar Bradley.
— Não. Não vai. — Ele riu de canto, como se Kate fosse uma criança de cinco anos que diz uma besteira.
Ela partiu para cima dele, mas Bradley ergueu apenas dois dedos e sua mão ficou travada no ar. A mesma mão com a qual Kate atacara Chris Argent.
Kate olhou o sorriso maligno no rosto de Bradley e teve certeza que aquele feitiço que ele colocara em sua mão era mesmo bem mais que apenas um feitiço de proteção.
Bradley não controlava apenas os Berserkers, ele controlava a jaguar também.
Ela tentou atacá-lo novamente, mas sua mão enfeitiçada a puxou para trás, a arrastando pelo chão em direção a cova. Kate tentou se agarrar a terra antes de cair, mas foi em vão, sentiu suas costas baterem no chão, lá no fundo do buraco.
Então a terra começou a cair sobre si, tão rápido quanto uma enxurrada violenta, cobrindo seu corpo enquanto ela tentava desesperadamente se manter acima da terra fofa. Logo notou que o que vinha de cima e cobria o buraco não era seu único problema... o solo abaixo de si a puxava, como se estivesse vivo e faminto.
Seu corpo começou a afundar lentamente e Kate conseguiu gritar antes ser completamente sugada.
Conseguia sentir a terra entrando em seus pulmões no lugar do ar e ainda teve tempo de pensar que aquilo era uma punição por todos os seus pecados...
Kate passou a vida fazendo coisas ruins com pessoas que ela julgava indignas de viverem, apenas por serem diferentes; matou dezenas de inocentes em nome de um código de honra antiquado e injusto. E então ela morreu, ou pelo menos devia ter morrido quando Peter quase arrancou sua garganta. Seria uma punição adequada por seduzir Derek e queimar todas as pessoas que ele amava, mas a vida lhe deu uma nova chance, a colocou na pele do inimigo para que ela visse as coisas pelo outro ponto de vista.
Mesmo assim Kate não deixou o ódio de lado... Ela desperdiçou sua segundo chance cometendo os mesmos erros.
E ela soube naquele instante, enquanto sufocava aos poucos, sozinha no escuro, sendo engolida pelo chão, que o que tinha acabado de fazer por Chris, salvando Melissa, tinha sido provavelmente a coisa mais honrada que já fizera na vida.
Mas uma única boa ação não exime a culpa de duas vidas de maldade e, por isso, desespero foi a última coisa que Kate Argent sentiu antes de ser levada pela morte...
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Melissa McCall corria pela floresta escura, não sabia quanto demoraria para que Bradley percebesse sua fuga, também não entendia a atitude de Kate mas não era hora de pensar, era hora de correr.
Sentia os galhos arranhando sua pele e grudando em seu cabelo, mesmo assim não parou, sua respiração estava falha, ofegante, os músculos das pernas cansados e todo seu corpo parecia prestes a entrar em colapso.
Ela se recriminou por nunca ter saído para correr com Chris, coisa que ele fazia ao menos três vezes por semana, prometeu a si mesma que se conseguisse sair viva daquela floresta seria uma pessoa menos sedentária...
Foi obrigada a parar quando seus pulmões não conseguiam mais respirar, ofegou com as mãos apoiadas no joelho e aspirou o ar, reunindo toda a força que ainda tinha para recomeçar sua fuga. Foi quando ouviu a respiração pesada e furiosa vindo em sua direção.
Olhou para trás a tempo de ver um Berserker entre as árvores, tentou correr, mas tropeçou em algum galho e foi ao chão. A criatura agarrou seu pé e Melissa tentou se debater.
— Somos amigos, lembra, você acabou de me deixar ali nas árvores. — Ela argumentou quando notou que não tinha força o bastante para escapar, embora não fizesse a menor ideia se o Berserker era o mesmo de antes. Todos eram iguais.
Melissa viu o enorme punho vir em sua direção e se preparou para o golpe, mas a mão da criatura ficou parada no ar, uma corrente fina e brilhante evolveu-lhe o pulso.
A mãe de Scott não acreditou que aquela corrente que aparentava ser tão frágil fosse mesmo deter a criatura, por isso, a surpresa foi grande quando ela viu a corrente ser puxada e o Berserker ser jogado metros longe.
Então Melissa pode ver fios loiros se moverem na escuridão da floresta, mas só quando o Berserker tentou se levantar e um corpo conhecido pulou em sua frente e atacou a criatura, foi que ela finalmente suspirou aliviada.
— Por que você não mexe com alguém do seu tamanho?! — Malia rosnou, depois de já ter atingido o Berserker tão forte que ele estava desmaiado no chão.
Melissa olhou para o lado e as mãos de Lydia e Stiles já estavam estendidas para lhe ajudar a levantar, ela estava prestes a perguntar dos outros quando viu todos aqueles adolescentes inconsequentes e terrivelmente corajosos saindo de entre as árvores.
— Scott! — Seu coração se encheu de alivio assim que viu o filho.
Ele a abraçou tão forte que era como se não se vissem a dois anos.
— Como você escapou? — Scott segurou o rosto da mãe em busca de qualquer coisa errada ou de qualquer ferimento, mas fora os poucos arranhões ela estava bem.
— Kate me soltou. — Mesmo para a própria Melissa, que tinha vivido tudo aquilo, as palavras soaram estranhas.
Percebeu vários pares de olhos sobre si, tão surpresos quanto era possível ficar.
Peter encarou o céu como se procurasse por alguma coisa.
— Acho que vai chover, melhor a gente se preparar, vai ser uma tempestade e tanto. — Ele comentou em um certo tom de deboche. — Talvez o mundo esteja acabando, só isso pra justificar uma boa ação daquela psicopata.
— Um psicopata falando de outro. — Stiles resmungou baixinho, revirando os olhos, mas obviamente foi ouvido por metade das pessoas que estavam ali, inclusive pelo próprio Peter, que lhe lançou um olhar de descaso.
Mas Melissa precisava que eles se concentrassem, sabia que coisas ruins estavam prestes a acontecer.
— Eles já começaram... — Ela revelou e seu tom tenso fez com que o clima ao redor de si mudasse. — Bradley está fazendo um feitiço bizarro e tem outra garota presa com ele.
Parrish praticamente passou por cima de Liam e de Theo para se aproximar um pouco mais de Melissa.
— Como ela é? Você sabe o nome dela? Como ela está? — Ele perguntou tudo de uma vez, com a preocupação evidente em sua voz.
— Ela se chama Rachel. — Melissa respondeu e praticamente pôde ver o fogo no olhar de Parrish. — Eu acho que ele pretende usar o corpo dela para trazer a bruxa de volta.
Ela sequer terminou de falar e Parrish já estava se afastado, seguindo para dentro da mata.
Scott olhou seus amigos por algum tempo e teve que pensar rápido sobre os passos a seguir.
— Mason e Corey, levem minha mãe para casa. — Ele pediu e os dois assentiram imediatamente. — Stiles, vá com eles.
— Nem pensar! — Stiles cruzou os braços e firmou os pés no chão, como se pretendesse sair dali só se fosse arrastado. — A gente fica junto, lembra?
Scott se aproximou do melhor amigo e pousou a mão em seu ombro.
— Eu preciso que você vá, se algo acontecer você precisa estar preparado para conseguir reforços... Jackson, Kira, Isaac... — O alfa revelou seu plano reserva, Stiles era o único que conhecia todos eles e que podia ter uma chance de juntar todo mundo, caso tudo desse errado aquela noite.
— Kira está no deserto sem comunicação e o Isaac não atende a gente há quase dois anos. — Stiles retrucou, nada satisfeito de não poder ajudar ativamente.
— Eu tenho certeza que você vai conseguir. — Scott deu um tapinha no ombro do amigo. — Se não voltarmos até de manhã, comece a pedir ajuda.
Stiles olhou para Lydia, em busca do apoio da namorada, mas ela apenas se aproximou dele e deu-lhe um beijo, como se aquilo fosse um pedido para que ele fosse.
Não queria assustar Stiles, mas seus poderes pareciam em colapso, Lydia sentia que tudo ao seu redor estava desmoronando, já não sabia quem ia morrer, porque era como se a própria morte estivesse prestes a caminhar no mundo...
Stiles suspirou vencido, percebeu que discutir não ajudaria de muita coisa, apenas prometeu a si mesmo que participaria da próxima luta e deu alguns passos para trás, encarando todos os amigos.
— Tomem cuidado! — Advertiu e então pousou os olhos em Theo e Peter. — Todos vocês.
Virou as costas e correu na direção de Melissa, Corey e Mason, que já se afastavam.
Scott viu o melhor amigo se afastar e suspirou, ao menos a mãe estava a salvo, acenou para o restante do grupo e eles voltaram a caminhar, atentos a qualquer ameaça.
Derek seguia ao lado de Scott, se sentia mais forte do que nunca, mas sabia que o Alfa Genuíno não estava em sua melhor forma.
— Tem certeza que está pronto para isso? — Questionou, preocupado.
Scott colocou as garras para fora e fez os olhos brilharem, a lua cheia havia lhe devolvido um pouco de seu poder, não era força total, mas era o bastante para que ele não desistisse.
— Vamos fazer isso. — Ele declarou e os dois Alfas assentiram um para o outro.
Não demorou muito para que eles ficassem cercados de Berserkers. Parrish, que tinha ido na frente, já estava em forma de Hellhound e lutava com três deles ao mesmo tempo.
— Fiquem perto, façam como a gente treinou! — Derek ordenou para Theo e Crystal que estavam ao seu lado.
Foi uma luta feroz, cada um deles teve que dar o melhor de si, já que estavam em grande desvantagem numérica. E era ainda mais difícil, já que a alcateia de Scott não tinha um Alfa com força total.
Peter estava lutando sozinho, Liam e Theo lutavam separados e isso os deixava sem foco por conta da preocupação. Parrish estava coberto de Berserkers e Lydia estava perdendo a voz de tanto gritar.
Apenas Derek e Crystal lutavam como se fossem uma extensão um do outro, suas mentes trabalhando juntas, conectadas e em sincronia. Derek se sentia no auge de seu poder, focado demais na vitória para notar o que acontecia ao redor, mas Crystal em um momento que pareceu parado no tempo conseguiu ver toda a situação de fora, quase como se conseguisse ver a mente de todos eles ao mesmo tempo.
E ela soube que simplesmente não venceriam um exército de Berserkers daquele jeito.
Em um momento todos eles acabaram cercados, costas com costas enquanto dezenas de Berserkers vinham em suas direções.
— Isso não vai funcionar. — Crystal gritou por cima dos rosnados dessincronizados. — Vamos perder.
— Não vamos. — Derek falou confiante, mas então sua mente se encheu dos pensamentos de Crystal e ele viu a mesma imagem que ela.
— Nós vamos perder, se continuamos lutando desse jeito. — Ela reforçou, usando sua pulseira brilhante para jogar um dos Berserker contra outros dois.
— Desse jeito como? — Theo questionou confuso, desviando de um golpe por pouco.
— Como duas alcateias, um ômega e um Hellhound. — Crystal explicou.
— Mas isso é exatamente o que nós somos, esperteza. — Peter resmungou entre um rosnado e outro.
— Teremos que ser mais que isso se quisermos vencer. — Ela retrucou firme. — Temos que ser uma só alcateia.
— Não existe uma alcateia com dois alfas, menina, isso é impossível. — Peter riu da inocência da garota.
— Pelo que eu sabia todo mundo também dizia que bruxas não existiam quando eu cheguei aqui. — Crystal respondeu superior. — Não é sobre dois Alfas, betas, ômegas e seja lá mais o quê. Isso é sobre amigos, é isso que somos, e amigos lutam juntos. Uma só alcateia.
Ela procurou pelo olhar de Derek e ele encarou Scott, que assentiu.
— Uma só alcateia. — Os dois Alfas disseram juntos e todo o restante concordou.
— Bom, vocês ouviram a Delta, pessoal. Somos uma só alcateia agora. — Peter se deu por vencido. — Agora vamos chutar o traseiro dessas pragas!
E quando a luta recomeçou tudo parecia diferente, os mais céticos diriam que era só impressão, mas mesmo Peter Hale se sentia mais forte, parte de algo maior.
Eles lutavam melhor quando estavam juntos, porque seus movimentos se completavam como se todos fossem partes únicas de um só organismo.
Será uma alcateia podia ter dois Alfas? Não se sabe... Mas o fato é que aquela noite eles foram mais forte juntos.
Não precisa chamar de alcateia se não quiser, basta chamar de amizade.
Quando todos os Berserkers estavam no chão eles caminharam juntos para a clareira, mais confiantes de que podiam vencer aquela ameaça.
— Rachel! — Parrish gritou assim que viu a garota no meio de um círculo de fogo.
— Jordan! — Ela gritou de volta, enquanto ele corria naquela direção.
Os outros procuraram Bradley com o olhar, o bruxo recitava alguma coisa inteligível com os braços para cima e os olhos na lua, ou estava alheio ao grupo ou simplesmente não se importou com a aproximação deles.
Todos resolveram atacar juntos, Bradley estava vulnerável, era uma oportunidade que não podiam perder.
Jordan deixou as chamas do Hellhound consumirem seu corpo novamente e estava prestes a atravessar o círculo de fogo e alcançar Rachel, quando Bradley gritou a última frase tão alto que o próprio chão tremeu.
Rachel flutuou no ar, seus braços se abrindo e o fogo do círculo se extinguindo como se uma rajada de vento potente viesse do centro do corpo da jovem.
Parrish foi atirado dezenas de metros longe, assim como todos os outros do grupo, que estavam perto do Nemeton aquele momento. A energia que os atingiu foi tão poderosa que nenhum deles teve forças para resistir.
E então tudo virou silêncio... Os grilos e corujas não emitiam qualquer som, mesmo o vento parecia ter parado de soprar. O cheiro de enxofre se espalhou por toda a floresta.
Lydia sentia um medo tão profundo que era como se todos os seus ossos estivessem congelados, nem mesmo o Anuk-Ite lhe causara aquela sensação.
Aos poucos o grupo começou a se arrastar pelo chão, afim de ver o que estava acontecendo.
O corpo de Rachel pousou suavemente, ao mesmo tempo que uma fumaça negra lhe envolvia, se mesclando a sua roupa, modificando o tecido e o formato transformando-se em um sobretudo de couro negro.
— Rachel! — Parrish chamou, ao mesmo tempo em que se colocava de pé com seus amigos, todos tendo um tanto de dificuldade, devido a força com que aquela energia os havia atingido.
Rachel não respondeu, ela tinha os olhos fechados e nenhuma expressão em seu rosto alvo.
Bradley rodeou o corpo da jovem com evidente devoção no olhar e então se ajoelhou aos pés dela.
— Seja bem-vinda de volta, minha rainha. — Declarou solene.
Então Rachel finalmente abriu os olhos... olhos carmesim como sangue fresco, não eram brilhantes como os dos Alfas, não eram opacos e sem vida como os daqueles controlados por magia, eram vivos, intensos, profundos e cheios de uma maldade tão pura que paralisou todos ali por um segundo.
Ela sorriu, um sorriso perverso e sedutor, nada Rachel, totalmente Malvina...
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