Notas iniciais
Volteii !


Verônica chegou perto de Rudolf mais uma vez, ainda com a festa em andamento. O rapaz voltara a se recostar na sacada, com a desculpa de que estivera observando o movimento noturno do bairro – mas, na verdade, fora um pretexto para ficar isolado durante a festa, e, quando Verônica se aproximou, pôde falar a ela o assunto particular de que haviam começado a falar mais cedo.

- Quer que eu fique de olho nele?

Os dois se referiam a Ibrahim.

- Sim. Não somente hoje... nos dias em que você estiver no projeto, também. Por favor, não o perca de vista.

Verônica olhou de soslaio para até onde Ibrahim estava. Léo e alguns dos outros presentes conversavam com ele, que contava histórias de sua juventude no Oriente.

- Pode deixar. Já sabe quando terá alguma resposta?

Rudolf olhou dela para o velho, e depois novamente para a moça.

- Logo, provavelmente.

Verônica assentiu, sorriu levemente, pousou a mão no ombro de Rudolf brevemente, e depois voltou para perto dos outros convidados, enquanto o professor voltou a esquadrinhar a noite de Ponta Negra.

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Alguns meses antes...

Rudolf havia revirado vários pertences de seu avô, e um item em particular chamou sua atenção: uma agenda com alguns contatos, e nele, havia notas escritas tanto pelo pai quanto pelo avô do garoto.

Ambos haviam deixado explicitamente nas anotações que aquela lista de contatos era composta por pessoas de confiança, e que Rudolf deveria recorrer a elas quando achasse necessário, especialmente quando precisasse ir atrás de respostas importantes.

Mesmo um tanto enigmática, a anotação de seu pai e seu avô o deixou confiante. Um dos números estava com uma anotação ao lado (“investigador”).

Rudolf fez contato com a pessoa, e combinou de se encontrarem na praça de alimentação de um supermercado na Zona Sul.

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No dia seguinte, Rudolf e o tal detetive se encontraram. O homem aparentava ter mais de 40 anos e já contava com um pouco de cabelos grisalhos.

- É um prazer, senhor – disse ele ao se sentarem numa das mesas. Rudolf fez sinal para um atendente de um dos restaurantes para que viesse trazer o cardápio. – Eu trabalhei com seu pai e com seu avô. Era questão de tempo até que o senhor me procurasse. Tornou-se, para mim, uma questão de honra servir à família Silvestre.

- Bom, obrigado, eu acho... – Rudolf tirou da mochila um caderninho com várias anotações que fizera. – Estas informações podem ser úteis para o senhor. É sobre um conhecido meu... chama-se Ibrahim. Ele alegou, há poucos dias, que conheceu também meu avô.

- Entendo. – O homem folheou rapidamente algumas páginas, e pareceu satisfeito com o que vira. – O senhor é muito observador, também. Seu avô estaria orgulhoso. Não se preocupe, senhor, que conduzirei a investigação da forma mais discreta e eficiente possível. Ah, e célere.

- Não sei se é necessário termos pressa – disse Rudolf.

- Eu disse “Célere”, senhor. Não apressado ou afobado – retrucou ele, dando um riso leve. – Há uma diferença. Fique tranquilo, que darei o meu melhor. Vai dar tudo certo.

Os dois apertaram as mãos, Rudolf agora se sentindo um pouco mais aliviado, ou menos nervoso.

Quando o garçom chegou para recolher a conta do almoço, Rudolf fez menção de pegar a carteira, mas o detetive o impediu.

- Não, senhor. Esta é por minha conta. Como eu disse, é uma honra servir ao neto do sr. Silvestre – disse ele, dando uma nota alta ao garçom como gorjeta, e apenas conferindo rapidamente a conta e o troco.

Rudolf ergueu uma sobrancelha, um tanto surpreso, mas resolveu simplesmente mudar o foco da conversa levemente:

- Ao menos deixe-me te dar um pagamento de adiantamento. Uma ajuda de custo ou algo...

- Não é necessário, sr. Sou uma pessoa bem resolvida quanto aos meus investimentos e finanças. Faço o que faço porque gosto de ajudar os clientes... Em especial, os clientes mais antigos e de renome.

Os dois apertaram as mãos novamente, e o homem recolheu o caderninho de Rudolf. Seguiu para a praça de táxis do supermercado, deixando o historiador olhando-o, admirado, mas também um tanto curioso.

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Finalmente, veio a ligação no dia da festa de Verônica, com o investigador deixando a entender para Rudolf que já estava com quase todas as informações necessárias acerca da investigação solicitada pelo professor.

Ainda admirando a noite natalense, Rudolf lembrou-se de seu avô. E perguntou-se em seu íntimo se mais mistérios acerca do vovô ainda existiam, ou se todos eles estavam prestes a ser revelados.