Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Rudolf abriu seu computador.
Depois de mais um dia de trabalho, resolvera se debruçar sobre o laptop e colocar a cabeça para funcionar; servia, também, para se distrair um pouco do mundo lá fora.
Resolveu, também, que voltaria a exercitar seu lado escritor.
Ibrahim, as investigações... tudo aquilo podia esperar um dia a mais ou a menos.
Lembrou-se das inúmeros viagens que fizera pelo sertão, especialmente quando seu pai e seu avô ainda eram vivos e o levavam junto.
Uma coisa que sempre lhe chamara a atenção eram as casas modestas que eram bastante comuns de se encontrar nas cidades daquela região, e também ao longo das estradas que conectavam os diversos municípios. Casas de taipa; casas com aqueles telhados, cheios de telhas avermelhadas ou marrons...
Como num passe de mágica, os ambientes e cenários que usaria em sua nova criação começavam a tomar forma em sua mente.
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Enquanto digitava, rascunhando ideias e pensamentos num arquivo de seu computador, lembrou-se de Johnny. Seus olhos marejaram um pouco ao pensar no amigo.
Lembrou-se, também, de uma das últimas conversas que tivera com Johnny antes deste ficar em estado catatônico.
Johnny sempre se preocupava com as pessoas, em especial com um amigo em comum deles. Rudolf o chamava de "maninho".
Certa vez, o maninho estava chateado com algum assunto particular, e pedira que seus amigos não fizessem nenhuma comemoração de aniversário para ele.
Rudolf conseguiu contornar a "proibição" dele, e com o auxílio de Johnny e outros amigos, organizaram uma festa para o amigo.
Maninho havia ficado em lágrimas, mas extasiado. Desabafou e disse que, mesmo não se sentindo bem, entendera e era muito grato aos amigos por terem querido e desempenhado um esforço para entregar a ele um bom aniversário, um aniversário de que jamais se esqueceria. Como Johnny dissera, "temos que, no mínimo, fazer um aniversário épico, um 'aniver' que o maninho tenha como inesquecível quando se recordar no futuro".
Assim como Johnny, o maninho também era querido por todos da turma. Até mesmo Ibrahim, Léo e Verônica, que apenas recentemente o conheciam, também já o tinham em altíssima estima. Vez ou outra, Maninho vinha ajudar no projeto, sempre com um sorriso no rosto — mesmo quando não estava se sentindo bem.
Algo que ele confidenciara inicialmente apenas a Johnny e Rudolf, mas que hoje era de conhecimento de todos os amigos, era que o maninho fazia acompanhamento terapêutico. Iniciara com uma psicóloga, mas seus pais, preocupados, eventualmente o convenceram a se consultar também com um psiquiatra. Aparentemente, pelo pouco que Rudolf sabia, essa preocupação se devia a ocasiões em que o maninho desaparecera, como se tivesse fugido de casa. Os pais dele eram muito reservados e quase não comentavam sobre esse assunto, mas Rudolf conseguira extrair do amigo informações o suficiente para somar A mais B e tirar suas conclusões. Aparentemente, as fugas haviam sido uma válvula de escape para que "Maninho", sem conseguir lidar com diversos problemas, angústias e preocupações que o consumiam, tentasse extravasar ou desabafar sobre tudo aquilo para com o mundo. Ele costumava dizer: "Rudolf, se tentarem me colocar numa redoma, se tentarem me proteger em excesso, se tentarem me privar das coisas... Se tentarem, enfim, me colocarem em uma redoma, saibam que eu não vou ficar bem. Não vou reagir bem. Não sei ficar quieto diante do que considero errado. Se me puserem em uma redoma, minha primeira reação será chutar a redoma até ela quebrar."
Desde então, Rudolf, além de deixar de ser tão "over" protetor para com o amigo, passara a incluir ele em tudo que ele e os amigos faziam. Costumava dizer: "Maninho, chega de distância, seja ela física ou emocional, entre nós." Essa frase e sentimento haviam ficado ainda mais fortes depois do "incidente" de Johnny. Privados da companhia do amigo, ou pelo menos, da forma como ele costumava ser, era quase como se Rudolf e o maninho tivessem feito um pacto de não ficarem mais distantes um do outro em momento algum. Que um estaria sempre apoiando e ao lado um do outro.
Agora, o maninho fazia o acompanhamento psicológico já há quase dois anos, e o acompanhamento psiquiátrico há quase um ano.
Tratamentos à parte, o maninho continuava a ser um bom amigo, mesmo com tantos problemas consumindo-lhe por dentro. Conseguia esquecer-se dos próprios problemas, ainda que temporariamente, para ser um bom amigo e prestativo para com os demais.
Como seu aniversário era no início do ano, perto do de Rudolf, a turma sempre costumava dizer que a festa dele era o que dava o "start" de vez no ano para eles. Como era pouco antes do carnaval, muitos deles já vinham para a festa em espírito folião e carnavalesco. O maninho, mais uma vez, atuava, ainda que indiretamente, como uma cola que deixava o grupo todo unido. Algo similar a como Johnny era antes do "incidente", Rudolf dizia para si mesmo enquanto se recordava.
Em seu íntimo, o historiador acreditava que o maninho ficara assim, com a cabeça agoniada e, por vezes, embebido e envolvido demais em desânimo, devido a decepções amorosas. Várias namoradas, ex namoradas, ficantes ou mesmo casinhos, ou mesmo garotas a quem ele se declarara e que não haviam reciprocado o sentimento dele, que resultaram em tantos tocos, que Maninho costumava dizer que poderia construir um escudo para se proteger dos tocos futuros, dada a enorme quantidade de "rejeições" que sofrera. Era constante ele dizer que não se considerava bom para ninguém.
E seus amigos se empenhavam sempre em mante-lo incluído, mesmo quando a maioria da turma estava já com seus namoros consolidados ou já em vias de noivado e casamento.
Rudolf não se sentia no direito de julgar a forma com que o maninho lidava com problemas amorosos, afinal, ele próprio estava numa situação enrolada e não muito transparente com Ayesha.
Seja como for, o próprio Rudolf era um dos que mais o incluía em tudo o que a turma decidia fazer ou "aprontar", especialmente em festas, feriados prolongados, viagens, idas à praia ou aniversários, etc. Rudolf mesmo dizia para quem quisesse ouvir, inclusive o maninho, que simplesmente "não era a mesma coisa sem ele".
Era como se houvesse uma sensação de vazio, de incompleitude, caso Maninho não estivesse presente.
Certa vez — àquela altura, Rudolf já tinha dúvidas sobre Ayesha e sobre Ibrahim — a turma havia se reunido em Pirangi. Alguns deles tinham chalés no condomínio Parrachos de Pirangi do Norte; outros alugaram chalés especificamente para aquele recesso.
Rudolf e o maninho ficaram hospedados no chalé alugado por outro de seus amigos.
Apesar de uma sensação melancólica dado a ausência de Johnny, os dois estavam curtindo e aproveitando o tempo juntos com a turma.
Numa tarde em que todos estavam na orla, esperando o sol se pôr e tocando músicas, seja no gogó "a capella" ou com violões, Rudolf e o maninho se sentaram em algumas pedras, apreciando a vista e o cantarolar do pessoal.
Rudolf passou o braço nas costas do maninho nesse momento. O amigo o olhou, inicialmente um pouco confuso, mas apreciando o gesto do professor.
"Sabe", ia dizendo Rudolf, "você é como o irmãozinho mais novo que eu nunca tive, maninho".
Maninho sorriu meio que sem jeito. Depois, baixou os olhos e ficou fitando o solo de areia litorânea.
Era uma reação comum dele, quando ficava sem jeito diante de alguma fala de Rudolf, ou de outro amigo, que o deixasse envergonhado, mas que, no fundo, ele sabia que era uma frase sincera e de coração, como alguém se abrindo para ele para dizer que jamais desejaria o seu mal, que jamais o abandonaria, e que ele não deveria ficar achando que não seria nunca bom para ninguém. Que ele não deveria se cobrar tanto assim. Nem achar que precisava ficar sozinho para conseguir resolver todas as suas questões.
"Obrigado", murmurou Maninho, bem baixinho, quase inaudível, mas o suficiente para apenas Rudolf ouvir. Admirando o entardecer da praia, o professor sorriu, feliz em estar ali podendo apreciar aquele momento simples, porém, singular, com o amigo.
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Rudolf esfregou o rosto para evitar que alguma lágrima caísse sobre o teclado do PC. Mas a lembrança daquela tarde em Pirangi o fez ter um pensamento estridente, mas muito positivo e esperançoso.
Ele vinha evitando visitar Johnny nos mesmos dias que Ibrahim, devido à investigação do detetive; nas poucas ocasiões em que conversava com Ibrahim, na presença de outras pessoas, estava chegando a ficar constrangido de ter que fingir assunto com o velho. Então vinha visitando o amigo em outras ocasiões, em que sabia que Ibrahim não iria aparecer. Dessa vez, Rudolf teve uma ideia para que a visita fosse um pouco diferente.
Telefonou para o maninho, mesmo que sem avisar. Não importava. Ele sabia que Maninho gostava de ser surpreendido, especialmente com telefonemas, para receber boas notícias. Desde o "aniversário inesquecível", pelo menos essa havia sido uma das poucas coisas que Maninho havia desenvolvido para melhor, em meio ao seu acompanhamento terapêutico.
"Rudolf? Fala, mano. O que manda"?
"Eaí, maninho. Desculpe pela hora, mas, o que você acha de ir comigo visitar o Johnny amanhã? Tenho certeza de que ele vai adorar a sua presença".
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