Rude Girl
6 Capitulo 6 — Complicações
Notas iniciais
(Pov’Harlow)
Meu coração estava partido, uma avalanche de sensações me empurrava para o fundo como se estivesse me afogando. Alguns falam que quando nos sentimos mal, a família era quem nos amparavam. Mas o problema era que tinha sido por causa da minha própria família, que a vontade de virar o rosto e apenas fugir apareceu. E, no entanto, tinha uma pessoa que não me deixava fazer isso, e essa pessoa, por muito tempo, foi apenas meu inimigo, mas agora, parecia querer me confortar.
A prova disso era aquele vento sobrando em meu rosto, o som do motor da moto rugindo enquanto ele acelerava na estrada sem se preocupar com multas e sim em somente me ouvir rir, sentia-me livre de todos os problemas. Era incrível, relaxante, e eu não queria parar, por mim permanecia fazendo aquilo por toda vida, mas isso não aconteceu.
Quando Jimmy parou, dei uma olhada em volta. Estávamos a uma distancia grande da minha casa e já era noite, o céu estava escuro e sem estralas, a lua cheia fazia tudo parecer magico, porém aquela beleza me fez pensar como parecia injusto a noite parecer tão bonito, quando meu coração estava tão triste.
— O que acha? — Jimmy perguntou, olhando sobre seu ombro para mim. Apontou para a imensidão de céu azul, sorrindo largo — Gosto de vir aqui quando estou mal. A estrada está sempre deserta há essas horas.
Ajeitei-me atrás dele, usando seus ombros para sair de cima da moto.
— É legal — falei. Caminhei até uma barreira de metal que fechava o caminho da estrada, quando olhei para baixo, estremeci com o tamanho da ladeira que havia ali — O tombo seria feio aqui — Murmurei. Jimmy desligou a moto e a posicionou, depois veio ficar ao meu lado.
— Houve acidentes aqui — falou, olhando para a descida da montanha — Por a estrada ficar em uma curva na montanha, é fácil perder o controle. Principalmente em dia de chuva.
— E você ainda me trouxe aqui — apontei, mas não estava lá me importando de verdade. Jimmy sorriu e apoiou-se na barreira de metal, olhando além do céu.
— Eu gosto da paisagem. Aqui eu posso ver as estrelas e a lua sem nenhum empecilho, não existem prédios e o ar parecer livre da poluição da cidade. — Seus olhos fecharam quando ele inspirou profundamente — É bom. E só para deixar claro, eu nunca faria nada para causar um acidente enquanto está sentada na minha garupa. — Achei ter visto uma hesitação em seu olhar quando ele me olhou, como se pensando em rever as palavras, mas depois balançou a cabeça como se para afastar o pensamento.
— Tecnicamente, a garupa é de Jack — falei, mas não consegui conter o sorriso que apareceu. Ele riu, balançando a cabeça negativamente.
— Você entendeu — falou. Abaixei a cabeça, olhando para as mãos enquanto várias coisas passavam por minha cabeça. A pior de todas era como encararia Jared depois de tudo que aconteceu hoje. — Está ficando tarde. — Jimmy disse, e achei que tentasse adivinhar o que eu estava pensando e que soubesse como eu tentava arrumar uma forma de organizar as palavras para o que iria vir assim que colocasse o pé dentro de casa.
— É — sussurrei — Está. — Silencio. Ele não me olhou.
— O que vai fazer? — perguntou, e parecia hesitante quanto a tocar no assunto. Fiquei feliz que ele tenha aguentado durante o dia todo para fazer a pergunta.
— Eu não sei — disse sincera — Estou cogitando em me trancar no quarto pelo resto da vida.
— Acho que isso não vai poder acontecer — falou, e eu virei os olhos sabendo que ele ia dizer.
— Eu sei. Não é certo fugir dos problemas — bufei exasperada — Já ouvi muito isso.
— Na verdade eu ia dizer que você não vai poder, porque provavelmente seu irmão arrombou a porta do seu quarto e a levou para o chão — Ergui a cabeça, e inesperadamente, um riso borbulhou da minha garganta para fora.
— Oh, é verdade — rindo, sentei em uma pedra grande no chão e olhei Jimmy. Ele me observava, seu sorriso alcançava os olhos tornando-os bem pequenos. — Então talvez tenha uma ideia melhor? — perguntei, ele pensou.
— Não. — Ele estalou a língua — Acho que você está totalmente ferrada — Mais uma vez, eu ri, e fiquei surpreendia por ele ser capaz de me fazer isso.
— Você é idiota. — Ele ergueu uma sobrancelha, e lentamente caminhou até mim, sentou-se ao meu lado e olhou novamente para o céu. O tempo passou, e ele voltou a ficar sério.
— Sei que isso te assusta, mas ir para Malibu não é nos abandonar, Harlow. É apenas geografia, um pouquinho mais longe do que o outro lado da rua. Você ainda vai estar pertinho, logo ali... do outro lado do muito em modo figurativo. Só isso.
— Só isso — zombei.
— Além do mais, vai ser podre de chique dizer para todo mundo que a minha amiga vai passar as férias em Malibu. Talvez eu e o pessoal até consiga ir com você depois que os outros encerrarem a faculdade. Consegue imaginar? Nós dois passeando pelo Sena...
— O rio Sena fica em Paris.
— Tá vendo? — se animou. — Mais uma razão para você aceitar ir para Malibu. Para me ensinar um pouco de geografia.
— Mas eu não vou.
— É claro que vai. — Ele passou o braço por meus ombros. — Porque você é a pessoa mais inteligente que eu conheço e vai perceber que esse convite para Malibu, é a melhor coisa que poderia ter te acontecido agora. Isso pode até ser bom para Jared, que não percebeu, pois estava nervoso demais com todo o mundo. Ir com sua tia pode dar chance a ele para se focar mais no emprego e também em conseguir sua guarda.
Mas eu já havia pensado. E a resposta continuava sendo não.
— Não quero ficar com Amélia — engoli em seco, abraçando as pernas com força — Ela se parece tanto com... — Mordi o lábio.
Jimmy esfregou meu ombro, me puxando para mais perto. Não entendi o que havia de errado com ele, mas estava muito casada para me preocupar com Jimmy sendo terrivelmente doce comigo. Então permiti-me aproximar e deitar o rosto em seu peito.
— Quando viu sua tia... Você a chamou de mãe. — falou. Eu fechei os olhos.
— Foi sem pensar... Quer dizer, durante todos os dias da minha vida, eu tinha uma imagem da minha mãe gravada na cabeça, e por mais louco que possa parecer, eu realmente achava que fosse ela. Eram lembranças dela me colocando para dormir, contando histórias e brincando comigo. Nunca me importou que essas lembranças fossem impossíveis de existir, porque Hope Cooper, morreu quando nasci... Eu só me sentia bem em ter algo mais do que um simples quadro com uma foto, e uma merda de caixinha de música deixada por ela, assim como aquela tiara idiota — Apertei mais olhos, incapaz de deixar a raiva de lado.
— Que coisas são essas? Caixinha de música e tiara — Jimmy perguntou, eu suspirei.
— Mamãe deixou para cada filho, umas coisas. Para Jared, seus livros favoritos de Elizabeth Bishop. Ela foi uma autora americana, considerada uma das mais importantes poetisas do século XX a escrever na língua inglesa — Apertei os lábios firmemente — Para Dana, ela deixou seu violão e a caderneta na qual ela fazia músicas. Jad e Dan me disseram que ela cantava para eles todas as noites, e que tinha uma voz esplendida.
Jimmy sorriu levemente.
— Então sabemos de quem você puxou — disse, e eu não pude deixar de corar pelo elogio — O que você ganhou?
— Uma tiara, mas Jared disse que o nome correto é Diadema. É uma joia utilizada na cabeça e considerada como distintivo real. Ela é uma herança da família dela, e a tradição era que sempre devia passar das filhas mais velhas para as mais novas, para que usassem em seus bailes e aniversários. Dana usou uma vez, na formatura dela, mas eu nunca. Então ela me deixou como herança. Além de uma caixinha de música — sorri um pouco e me afastei dele, puxando minha mochila das costas — Ela é minha favorita. Então nunca me separo dela — Tirei a pequena caixinha da bolsa e Jimmy sorriu, pegando-a com cuidado.
Ela era circular e feita de cristal transparente, tinha pedrinhas azuis brilhantes nas bordas e uma pequena fechadura de ouro que a muito não havia sido polido.
— Isso são diamantes de verdade? — Ele pareceu impressionado. Assenti.
— Lembro-me de meu pai dizendo que estava com ela quando mandou fazer. Ele também sempre me dizia: Querida, você é um fogo de artificio. Acenda a luz e deixe brilhar. Abra a caixa e deixe a música tocar. E assim com a lua você iria cintilar. — Minha voz saiu embargada com emoção — Percebi depois que ele morreu que minha mãe havia gravado essa mesma frase ao redor da caixinha. Ela toca a música que minha mãe cantava para mim, quando estava gravida.
Ele abriu, e o som suave da música acariciou meus ouvidos, mas continuei forte, olhando para o que Jimmy segurava nas mãos.
— Eu ficava feliz por ter memorias dela sabe — sussurrei. Jimmy teve os olhos tristes presos em mim — Mas agora eu não tenho mais nada, as lembranças eram mais falsas que minhas mentiras. Não era Hope nelas, não minha mãe. Era Amélia... Era ela o tempo todo.
Com delicadeza, ele afastou alguns fios de cabelo que me caíram nos olhos. E aquele toque, tão inocente, mas ao mesmo tempo tão carinhoso e atencioso, fez tudo dentro de mim arrebentar. Saudade, frustração, tensão, raiva, medo, euforia, loucura. A paixão em sua mais crua essência.
—Você precisa ser forte pequena. Acha que sua mãe gostaria de ver você assim tão triste? Acha que ela gostaria de ver você se afundar só por que seu aniversário está chegando? — Estremeci, afastando–me de sua mão.
— Eu não estou...
— Já não precisa mais fingir Harlow. Finalmente entendi o porquê de estar tão frágil — Sua mão sustentou minha bochecha e os olhos castanhos prenderam os meus — Entendi que não é culpa de Jodie e muito menos sua... Eu percebi, tarde demais, que você está se perdendo em uma culpa que não lhe pertence. E isso sim é errado, pois você é uma menina linda, talentosa e corajosa. Essa camada de fraqueza não faz parte de você Harlow, nunca fez.
— Como pode saber? — Estava na beira do precipício, prestes a cair — Como pode saber que não sou fraca e boba? Você nunca se preocupou comigo. — Esperei sua resposta, e quando ele se levantou, colocou a caixinha de música de volta na bolsa e em seguida abaixou-se a minha frente, ficando entre minhas pernas e segurando meu rosto com as mãos, eu arregalei os olhos, congelada com a proximidade, amedrontada com o que via em suas íris escuras.
Ele estava me vendo. Vendo de verdade como nunca ousou fazer. Senti partes do meu corpo esquentar, meu rosto se tornando um borrão de vermelho enquanto ele avaliava cada traço meu em silencio, o dedo percorrendo a mandíbula e depois meus lábios. Tudo muito calmamente, trazendo a lembrança de seus lábios nos meus, das suas mãos em meu corpo como aconteceu uma vez na casa de Lizze, de seu desespero em apenas me ter perto.
Jimmy estava se permitindo estar perto de mim, e eu não sabia o que fazer.
— Eu sei que existem vários motivos para me odiar Harlow. Eu não vou cobrar seu perdão ou obrigá-la a confiar em mim. Estou ciente dos meus atos, mas... Uma coisa nossos amigos estão certos — Engoli em seco.
— O que? — sussurrei. Ele assistiu o movimento de meus lábios, paralisado.
— Eu sou atraído da forma mais absurda por você — Em choque, arrepios subiram e desceram por minha coluna, e mesmo assim, eu não podia deixar de olhá-lo.
— Jimmy...
— Não estou dizendo isso para que você se sinta obrigada a ficar bem comigo. Mas quero que saiba que apesar de tudo, eu ainda desejo estar perto de você. Quando estou distraído é o seu rosto que vem em minha mente, quando olho para o lado, é você que me manda um olhar mortal. E quando saiu com uma garota, é com você que eu desejo estar a maior parte do tempo... Tudo sempre é direcionado a você, e isso me deixa louco! Porque eu sei que não posso fazer o que minha mente pede.
Oh, Deus! Que seja real! Que isso tudo seja real!
— Po-por que... Não pode? — Ele mordeu o lábio, me fitando como se eu soubesse a resposta. E olhando de certa forma, ele tinha razão — Eu não sou uma criança, Jimmy. Entende isso?
— Eu sei — A voz caiu em frustração — E é isso que me deixa frustrado. Você age de uma forma totalmente diferente da sua idade. Eu tenho vinte e você dezesseis e...
— Dezessete! — cortei-o mal humorada — Faltam quatro dias para meu aniversário. Então já tenho dezessete — Ele sorriu, alisando meu rosto com carinho.
— Ainda são quatro anos de diferença. — Apontou e eu me segurei para não socá-lo no rosto.
— Eu. Não. Sou. Uma. Criança! — disse pausadamente para ver se ele entendia — E não são quatro anos. São três. Está fazendo drama por três anos de diferença!
— Harlow me escuta — Ele segurou minhas mãos e me obrigou olhá-lo — Me diz o que Jared acha de mim. — Fiz uma careta.
— Que você é um galinha sem vergonha, mas...
— Isso. E ele em parte está certo. Sei das merdas que fiz — balançou a cabeça e suspirou — Mas nunca poderia colocá-la no meio dos meus problemas. Você nem mesmo aproveitou a vida. Não pode sentir algo forte por mim, ainda não sabe o que é a paixão. Precisa viver.
— Eu vou tentar esquecer que você está me dizendo como me sinto, e falar com seriedade — Dessa vez, eu me aproximei, fiquei a poucos centímetros de sua face, segurei seu queixo e baixo, falei — Não preciso viver uma vida de safadeza adolescente para saber o que sinto. Eu sou humana, Jimmy, sou jovem. Seria muita sorte eu ter mesmo encontrado a pessoa certa agora, e sabe, se eu tivesse certeza de que sou apaixonada por você, pode apostar que não estaria parada enquanto você entra na saia de qualquer vadia que encontra em um pub. Sejamos sinceros agora okay. Eu gosto de te beijar, eu gosto que você me beije, e gosto que me toque, mas isso não quer dizer que estou apaixonada... Eu estou na porra de uma confusão com meus irmão e tia, tenho que enfrentar meu aniversário e ainda aturar os dias com Jodie me perseguindo. Como você disse, eu não sou garota de fraqueza, para mim é tudo na lata, portanto, chega! Acabou essa farsa entre nós dois. Ou você assume que sou uma mulher que você quer, ou me esquece e continua me considerando como uma criança boba a qual odeia. A escolha é sua.
Jimmy estava espantado.
— Droga Harlow — Ele praguejou, balançando negativamente a cabeça. — Você sabe que não posso fazer isso!
— Você pode, só não quer — retruquei com rancor — Você me vê como uma criança inocente e não entende que já sei de uma coisa. E escute bem Jimmy, eu não vou me arrastar até você. Se quiser ter essa opinião sobre mim, que assim seja. Só peço que não me venha ficar nervosinho, quando eu estiver seguindo com minha vida. Não vou admitir que aconteça de novo o que fez no dia do clube. — Jimmy fez uma careta de desgosto. Com certeza eu sabia o porquê.
Há um ano, quando estávamos começando a nos bicar além do imaginável por causa da maldita atração, nós fomos convidados por Liam para assistir uma de suas lutas do Clube Deadly House. Todos nós aceitamos, no entanto eu o fiz querendo não dar na cara que estava mais pra baixo que um palhaço numa festa de criança chata. O problema era que na época, meu aniversário também estava perto e a depressão havia começado a dar as caras. As únicas pessoas que sabiam dos meus momentos, eram Jared e Dana, que acompanhavam tudo de perto.
Enfim, eu aceitei o convite, mas Lizze e Stef notaram meu desanimo, e como um remédio para me animar, elas resolveram me arrumar. Permiti não querendo que elas ficassem preocupadas. No entanto o resultado foi surpreendente, eu nunca tinha visto tanto de mim mesmo como uma mulher de verdade como naquela noite; Fiquei animada. E tudo só melhorou quando, horas depois da transformação, eu topei com Jimmy no corredor e ele faltou perder os olhos enquanto me olhava. Foi à primeira reação que ele teve ao meu corpo, e aquilo foi uma dica do quão quente eu poderia ficar só com um olhar seu.
Eu me animei como as meninas queriam, mas não por estar bonita, e sim porque os olhos de Jimmy não me deixavam. E cada minuto foi precioso e ótimo para provocá-lo. Peguei telefones de garotos, flertei como nunca fiz na vida, e ainda dancei com homens além da minha idade. Jimmy ferveu de raiva, e tudo piorou quando um engraçadinho tentou me beijar — Certo que eu estava dando moral, mas mesmo assim, eu não tinha experiência de verdade, só queria fazer ciúmes ao loiro irritado. Óbvio que deu merda.
O garoto tentou me agarrar, mas eu o acertei nas bolas e corri. Não ajudou eu ter esbarrado justo no Jimmy, que ao perceber que eu fugia do cara, ele virou o bicho. Liam podia ser o único bom lutador do nosso grupo — tirando Jodie — mas Jimmy ganhou muitos pontos assim que enlaçou o pescoço do infeliz que me seguia e o prensou em cima do balcão, derrubando bebidas e garrafas no chão.
— O que pensa que está fazendo? — Ele rugiu para o homem ruivo que prendia. E por mais que o cara parecesse mais velho que Jimmy, ele arregalou os olhos e apertou os lábios de medo. Mas ao me olhar sua raiva voltou ele rosnou, tentando se soltar.
—Essa vadia me deu um chute no...
O que aconteceu a seguir foi tão rápido e furioso que a única maneira de descrever isso seria com um coloquialismo que aprendi com Jonah.
O inferno começou.
Jimmy virou o homem contra a parede, fazendo gritos ao redor ficarem altos enquanto enlaçava o pescoço do cara e apertava. E incrivelmente, ele conseguiu pegar um pedaço de garrafa quebrada, e eu fiquei sem falas quando ele pressionou-a contra o pescoço do cara.
— Não chame ela assim — rosnou Jimmy — Peça desculpas. Agora!
Ele virou o homem para mim, fazendo-me piscar sem conseguir uma expressão realmente digna para aquilo. Olhei em volta, só para encontrar todos os meus amigos assistindo, mas ao contrário do que pensava que fariam, ele sorriram como se já soubessem que aquilo iria acontecer uma hora outra.
— Eu estou ficando sem paciência — grunhiu Jimmy — Olhe nos olhos dela e peça a porra das desculpas!
Quando ele sacudiu o homem, algumas palavras desconectas e tremidas saiu da boca do idiota.
— Você aceita seu perdão? — Jimmy exigiu em um tom perverso — Ou você gostaria que ele rastejasse? Eu absolutamente gosto da ideia. E só para melhorar, diga-me por que estava correndo dele.
— Ah, Jimmy...
— Fale! — Ordenou — Agora Harlow.
— Eu acho melhor soltá-lo. O segurança está vindo atrás de você.
— Foda-se o segurança. Fale o que imbecil fez. Será que vou ter que fazê-lo dizer? —Apertou o pedaço de vidro na garganta do homem, e o cara só faltou se urinar enquanto xingava.
— Não aconteceu nada de mais, pare com esse drama e vamos embora. — Ele não escutou, só grunhiu um aviso. Cansada e não querendo um assassinato, falei — Ele só tentou me beijar. Eu o chutei e...
Jimmy foi além de sua raiva. A porra de uma briga assustadora. Lembro dele ter jogado a garrafa quebrada longe e atirado o homem contra as mesas. Logo depois foi para seu pescoço, apertando a jugular para impedir seu ar de passar. Foi quando Jonah e Jack resolveram separá-lo da briga, no entanto ele não quis parar, parecia querer o ruivo morto. Eu não pude fazer nada, só assisti enquanto ele se debatia contra seus amigos e proferia maldições contra todos. Ele teria voltado atacá-lo, se não fosse o ruído das sirenes lá fora.
Por um instante eu pensei que ele fosse ir preso, mas quando as pessoas passaram a sair para fora do clube para ver o que estava acontecendo, nós compreendemos o que era. O carro de tia Amara — Mãe de Liam — estava sendo cercado por policiais e um estava sendo beco interditado. Foi naquele instante, que percebemos que algo terrível tinha acontecido com Jodie e Michelle.
Depois de Jimmy se acalmar, Jackson ligou para Michael, irmão mais velho de Liam. Recebemos a noticia, que logo depois que eles saíram do clube com Jodie e Michelle — Que havia fugido dos adotivos pais para entrar no clube — encontrou o carro de Amara, completamente aberto. E a passos dele, em um beco imundo, estava ela própria e seu marido Ethan Corey. Ambos desacordados.
Amara tinha recebido uma pancada na cabeça e Ethan, havia tentado lutar. Assim como os filhos, Mick e Liam, Ethan já foi um lutador muito bom, mas com o passar dos anos, assumiu uma doença que o deixa proibido de lutar, pois o faz sofrer fortes paradas cardíacas ou quedas de preção. Michael acabou por herdar essa mesma doença, e parou de lutar aos dezessete anos.
Foi por conta disso, que Ethan ficou meses internado em estado grave no hospital. Amara não se machucou muito. Contudo, Jodie e Michelle foram sequestradas por Edgar naquela noite, fazendo com que todos, principalmente Liam, entrasse em um surto de preocupação.
— Eu estava lhe protegendo! — O protesto indignado de Jimmy me tirou da triste lembrança. Esfreguei os olhos e o encarei com nada mais que descrença.
— Você agiu como um animal descontrolado — contradisse. — Aquilo não pode se repetir Jimmy. Não tem o direito de agir daquela forma, não é nada meu.
Eu com certeza percebi como aquelas simples palavras o enraiveceu, mas eu não podia fazer nada se aquela era a verdade.
— Eu sou seu amigo, então tenho direito de protegê-la.
— Não preciso de proteção — falei duramente — Não quando ela vem de você. Não quando se recusa o que sente. Não quando me acha incapaz de distinguir o certo do errado. Eu posso e sei cuidar de mim, mesmo que não tenha fé de que isso seja verdade.
Levantei-me, pegando minha mochila e a colocando em minhas costa. Caminhei em passos rápidos para a moto e senti que ele me seguia, e só pela tensão que vinha de seu corpo, achei que ter que dividir a moto com ele agora, não seria bom como tinha sido antes.
— Você não vai mesmo me entender? — perguntou tristemente. Eu olhei, tentando não amolecer sob seu olhar chateado e machucado. — Nunca quis dizer que não tenho fé em você, só acho que algo entre nós é...
— Errado — completei com amargura. — Acha errado. Tudo bem, isso não é de se impressionar Jimmy. Eu ou errada, assim com foi a Dana, e ou talvez aquela chamada Blair, ou que tal Sasha?
— Harlow...
— Podemos fazer uma lista de todas as suas moças erradas. Mas não culpe minha idade por não querer tomar vergonha na cara. Se não quer assumir que sente algo por mim, pelo menos tenha o bom senso de não dar desculpas esfarrapadas. Agora vamos embora, já chega de fugir do inevitável.
~*~
Às duas da manhã, minha casa ainda estava completamente iluminada, e assim que cheguei senti minha pele formigar. Se de medo eu não sabia, mas ainda queria começar a correr para outro lugar.
— Tem certeza que não quer que eu entre com você? — Jimmy perguntou quando eu continuei parada, olhei para ele e neguei.
— Se colocar o pé dentro dessa casa, Jared vai matá-lo lenta e dolorosamente por ter me ajudado escapar. Ele deve estar louco de preocupação, então acho melhor você ir embora — Ele hesitou, olhando para porta em seguida suspirou e se endireitou vindo até mim. Quase achei que ele fosse tomar uma atitude e segurar meu rosto, mas ele permaneceu em uma distancia curta.
— Me desculpe — falou sem jeito e alisou o cabelo para trás — Eu não estou conseguido encarar tudo isso Harlow. Então por favor, me desculpe por ser tão idiota.
— E por que se importa? — questionei, me escorando na parede enquanto limpava minhas unhas. Qualquer coisa era melhor do que olhá-lo. — Já entendi que isso é errado para você. — E isso machucava. Mesmo que eu não quisesse.
Jimmy parecia machucado também, só não admitia.
— Me importo porque quando você estiver com problemas aqui, eu quero que pense em mim para lhe amparar, não qualquer outro dos nossos amigos. — Ele tinha olhos cheios de esperanças grudados nos meus, eu não pude me impedir de levar a unha para entre os dentes. A curva de sue lábio ergueu levemente com meu ato.
— Harlow, eu queria estar com você. Por favor, me chame se estiver precisando, não me deixe fora como sempre fez. Eu sei que mereço isso e muito mais, mas não se vingue dessa forma. Não agora.
Quando Jimmy acabou de falar, tudo retrocedeu. Minha audição desaparecendo, junto com qualquer sentido de temperatura na varanda. A única coisa que eu via era os olhos castanhos de Jimmy.
Meu primeiro pensamento?
Mesmo que não estivéssemos juntos, ele seria o cara que eu absolutamente escolheria para me amparar, apesar de tudo, Jimmy, me acalmava. Ele era um protetor tão temível quando Liam, ele podia não ter estrutura grande, mas ainda tinha coragem. E era o que uma menina precisa quando estava em apuros ou precisando de colo.
Isso e sua persistência o faziam digno para mim.
Não importava o quão canalha era.
Não importava se não me queria ou se eu o odiava. Só o queria por perto, sempre.
— Tudo bem — minha voz saiu baixa — Chamarei você.
E a forma como seus olhos brilharam foi intensa, bonita. Ele tomou uma respiração longa, e sussurrou.
— Obrigado. — E continuou me olhando.
Inquieta pela falta de espeço, me remexi.
— Agora tenho que ir — murmurei. Ele não se moveu.
— Eu sei. — Esperei que ele se afastasse, mas não rolou.
— Pode dar um passo para trás, por favor? — perguntei, ele piscou, como se essa opção fosse uma das últimas que lhe passará pela cabeça.
— Okay — falou. Assenti, e quando achei que ele ia mesmo ir para trás, ele me surpreendeu ao erguer a mão acariciar meu rosto com a ponta dos dedos, olhos queimando nos meus. Seu polegar deslizou por meu lábio inferior, dolorosamente lento. Ele abaixou os olhos para acompanhar o tracejar de seu dedo. Umedeceu os lábios suculentos, sua respiração saindo aos trancos.
— Eu não posso fazer isso — murmurou em agonia, mais para si mesmo do que para mim.
— Então não faça — respondi. Ele engoliu e seco.
— Como se fosse fácil. — censurou. Os dedos ainda em meus lábios — Nada é fácil com você. É tão difícil de entender o porquê de ficar assim ao seu lado — Ele parecia mesmo confuso quando se aproximou mais, até que podia sentir seu hálito contra o meu — Estou entrando em uma furada isso sim.
Ofegante, eu o encarei, tentando manter a calma e também as batidas de meu coração.
— Não é só você, pode apostar. — declarei.
Ele me tocou na bochecha de forma hesitante.
— Eu sou um idiota. — falou.
— E eu concordo.
Ele então sorriu envolvente, como se tivesse tomado à coragem que precisava para enlaçar meu quadril e me puxar para ele. Eu não queria impedir, mas toquei em seu peito, o afastando.
— Jimmy...
— Eu sei, mas não posso aguentar.
— Você não vai me beijar de novo! Me solta. — ordenei, desejando que as palavras tivessem saído com mais brutalidade. Jimmy não me largou. — Jimmy.
Ele se aproximou, lentamente, fazendo minha mente esquecer cada coisa que aconteceu naquele dia, deixando-me apenas o rosto dele. Fazendo-me sentir somente ele e nada mais.
— Por favor, não faça isso — implorei. Ele gemeu um pouco, segurando meu rosto.
— Eu sinto muito — sussurrou e mergulhou sua língua em minha boca, os dedos agarrando meus cabelos e os puxando para trás, deitando minha cabeça e oferecendo meu rosto para que aprofundasse aquele beijo maravilhoso. Agindo na intensidade, grudei em seu pescoço, gemendo quando cambaleamos até a parede, um contra o outro em um desespero que considerei agradavelmente bom.
Queria ter tido coragem para afastá-lo, tempo de ter batido nele ou retribuído mais daquele beijo, queria ter tido tempo de enfiar as mãos por dentro de seu colarinho, mas não pude, pois assim que colidimos contra a parede da casa na varanda, ouvi passos dentro da casa. Não houve tempo nem mesmo para afastar Jimmy, tudo que aconteceu depois foi Jared abrindo aporta e saindo, para dar de cara comigo e Jimmy ofegantes e com olhos arregalados.
— Jared, eu posso explicar... — comecei, mas nem sequer terminei. Ele já estava indo atrás do pescoço do Jimmy enquanto grunhia maldições.
— Seu canalha! — Ele gritou, correndo atrás de Jimmy quando esse saltou da varanda.
— Opa, Jared, calma ai... Porra! Eu posso explicar — Ele ergueu as mãos como se isso fosse protegê-lo do meu irmão, Jared estava furioso.
— Você enlouqueceu?! — Jared segurou-o pela camisa, fazendo com Jimmy soltasse palavreados feios. — Que palhaçada foi essa com minha irmã? Seu... Seu...
— Okay. Eu sei que quer quebrar minha cara, mas será que não tenho direito a uma palavra? Ou quem sabe um telefonema para o hospital? — Apertei os lábios juntos, segurando um riso que de repente quis emergir.
— Larga mão de ser bundão seu bastardo! — Jared o chacoalhou como se fosse uma boneca e o empurrou. Os dois começaram a rolar na grama se pegando como dois idiotas. Bufei, olhando para o céu em busca de paciência.
Um toque veio ao meu ombro e olhei para o lado.
— No que se meteu Harlow? — Dana perguntou e eu mordi a unha, indecisa sobre o que contar.
— Podemos pensar na explicação depois? Nosso irmão está prestes a quebrar o braço de Jimmy — falei, ela olhou com cara feia.
— Ele poderia viver sem um braço. — resmungou e eu joguei as mãos para o alto.
— Eu tenho irmãos lunáticos! — gritei, e sem outra opção, eu fiz a única coisa que passou por minha mente quando Jared e Jimmy chegaram perto o suficiente de nós. Eu me joguei na grama e garrei o pé do meu irmão.
— Harlow, sua doida! — Dana berrou do outro lado. Jared grunhiu, tentando se desvencilhar de mim, mas acabou por me chutar ao tentar.
— Ai, caralho Jared! — gemi. Ele soltou Jimmy xingando.
— Harlow, me solta!
— Pare com isso! Não seja infantil. Não pode bater nele!— gritei. Ele rosnou, chacoalhando a perna que eu agarrava e tentando alcançar Jimmy, que se arrastava até a moto.
— Eu não pretendo bater nele, quero matá-lo mesmo! — Ele segurou meus ombros com força e me puxou para cima, depois fez uma volta e me deixou deitada no chão. — Fique ai. — E virou-se para pegar Jimmy. Arregalei os olhos, mas quando meu irmão estava prestes a pegar o pescoço de Jimmy, Dana apareceu caindo em cima dele, enlaçou seu pescoço e cruzou as pernas em sua cintura.
— Porra, Dana! — Ele grunhiu tentando se libertar, não adiantou. Sorri, me arrastando para chegar a eles.
Tratei logo de sentar em cima de Jared enquanto gritava para Jimmy.
— Vaza daqui!
— Harlowwwww! — Jared rosnou. Jimmy subiu na moto, hesitando enquanto me olhava.
— Vai ficar bem? — perguntou. Rolei os olhos, apertando Jared contra a grama.
— Eu vou. Agora vai embora porra! — E ele foi. Porém ainda tinha que enfrentar a fúria do meu irmão.
— Me larga Dana. As duas, saiam de cima de mim!
— Está mais calmo? — perguntou Dana. Ele rosnou de novo.
— Não! Eu quero torcer o pescoço daquele...
— Jad. Já chega— pedi me levantando da grama e batendo em minhas roupas. Ele nem me olhou e continuou xingando. Dana pulou para o lado e se levantou, mandando aquele olhar que diza: Temos muito o que falar.
Eu suspirei e assenti sabendo que ela merecia uma explicação sobre isso, mas agora, era outro assunto que queria tratar.
— Jad? — chamei novamente, nada, ele continuou bufando e praguejando ao se levantar, o que me fez perder a calma — Porcaria. Jared me escuta! — gritei. Ele se virou, assustado como demônio. Enfrentei seus olhos e respirei fundo— Quero que me explique tudo sobre essa merda de tutela. E se mentir para mim, juro que fujo de casa e nunca mais iram me ver.
Ele ficou pálido, olhando-me assustado e sem palavras. Eu sabia que ele estava em uma posição difícil, que se encontrava apavorado, eu mesma estava. E por isso esfreguei o rosto e caminhei para ele, peguei seus braços e os levantei colocando-os em cima dos meus ombros; Aconcheguei-me ali mais do que necessitada de um abraço.
— Está tudo bem, Jad. — deitei em seu peito, ouvido seu coração rápido como um carro — Eu juro que está.
— Harlow — Seus braços se apertaram a minha volta, e eu o olhei. Uma emoção nova lhe dominou as feições.
Desespero? Dor? Derrota?
— Não vão te tirar de mim — Segurou meu rosto, os olhos escuros do papai me prendendo com um tipo de juramento — Prometo querida, ninguém vai te tirar de mim. — E esperava que ele tivesse razão.
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