Rude Girl
23 Capitulo 23 — Promessa de coração
Notas iniciais
— Regra numero um sobre games — disse Damien. Ele se esticou sobre as almofadas em cima do sofá com o controle em mãos e um sorriso grande no rosto. Ele vestia uma camiseta esverdeada e um short jeans que o deixava sexy pra caramba — Nunca jogue comigo se não quiser perder.
— Isso não é uma regra justa — falei, pegando um punhado de pipoca e enfiando na boca enquanto assistia-o jogar — Eu ainda vou descubrir como você faz isso.
Damien riu.
— Existem coisas que o mundo não descobre. — Ele piscou um olho para mim — Isso é uma delas, pequena Harlow.
Fazendo uma careta lhe mostrei a língua e atirei pipocas em seu rosto. Ele riu, rebatendo com uma almofada.
— Você é tão bobo — resmunguei, mas não podia deixar de rir.
— É meu melhor charme — admitiu, e como uma cobra, se esticou no sofá até estar perto de mim. Gargalhei quando fui puxada para cima dele, porém tentei me soltar só para implicar, no entanto não foi uma boa ideia, pois isso nos levou ao chão junto com as almofadas e a vasilha de pipoca.
— Ah, caralho — gemi em baixo dele, sentindo seu peso pressionar meu estômago — Estou morrendo. — sussurrei sem ar.
Damie riu, e usando as mãos ergueu a maior parte do peso para me olhar de cima.
— Não seja exagerada.
— Eu que estou sendo esmagada.
— Dramática.
— Idiota. — Ele balançou a cabeça com os olhos cheios de humor e diversão. E algo que me deixou muito ciente foi o fato dele ter se ajeitado em cima de mim perfeitamente, fazendo-me sentir cada pedacinho de seu corpo.
— Não é interessante jogar com você. Já perdeu a graça ganhar em todos os momentos — reclamou com um bico. Eu virei os olhos.
— Ora. Então me deixe ganhar uma vez — falei irritada. Ele gargalhou e empurrou-se para o lado, caindo de costas no chão.
— Isso nunca vai acontecer gatinha.
— Era o que eu temia — Zombei não surpreendia.
Impulsionando-me para frente, me sentei para tirar a pipoca de cima de mim. Fiz uma careta para como aquela sala estava desarrumada.
— Adelaide vai me matar. — murmurei para a graça de Damie.
— Eu poço seduzi-la se quiser — Piscou ele para mim de forma inocente.
— Adelaide é esperta demais para se deixar levar.
— Impossível. — Sorriu largo — Ninguém me resiste.
Olhei para ele com a minha famosa expressão “Não seja um babaca” e me levantei. Senti Damien me observando enquanto arrumava o top que tinha colocado para ir à academia, ele era preto assim como minha leggin, e ambos eram absolutamente novos, pois desde que comecei essa nova rotina de dieta e exercício, meu corpo havia mudado, não poderia ignorar isso quando algumas roupas minhas ou não passavam das minhas coxas ou estava largas demais no quadril. Ter essa primeira impressão de mim mesma foi como ganhar chocolate.
— A academia está lhe fazendo bem — Damien comentou como se estivesse lendo meus pensamentos.
Dei uma olhada nele e quase me senti corar com seus olhos indo e vindo por meu corpo.
— Está ganhando corpo, Harlow — Constatou sorrindo.
— É o que parece — Alisei meu cabelo e o puxei para trás para prender com elástico — Meu personal está me ajudando muito e agora as coisas estão ficando mais fáceis.
— Eu acredito. O que você fez hoje?
— Pernas e braços — Suspirei e toquei o ombro, o deslocando para frente e para trás — Pressinto dores para amanhã.
— Então estamos marcando para correr. Assim não ficará pensando na dor e sim em aquecer para a próxima ida à academia. Podemos nos aquecer juntos que tal? — Ele se levantou e eu sorri agradecida.
Damien havia mudado de sua academia para minha, querendo ficar ao meu lado nos treinos. Eu nunca fiquei tão grata por ele estar me ajudando com isso e com todas as manhãs de aquecimento.
— Isso séria ótimo. — falei sincera — Obrigada.
Ele assentiu de volta. Eu estava pronta para dizer como ele era importante para mim quando a porta da casa abriu e Amélia entrou em seu terninho preto. Olhei para ela com cuidado, novamente lembrando aquela noite estranha em que a vi com aqueles homens enormes de gravata. Ela estava segurando uma pasta escura, e o cabelo como sempre estava preso bem alto.
Seus saltos cantaram contra o piso e sua expressão era tão séria que senti um arrepiar na espinha. Ela parecia estar pensando com muita concentração, mas quando notou que estávamos na sala, ela mudou seu rosto e um sorriso genuíno e cheio de gentileza foi direcionada para nós, era uma expressão totalmente contraria daquela que ela tinha quando entrou. Era uma expressão sincera, ou pelo menos esperava isso.
— Boa tarde — Saudou educadamente. Seus olhos com cílios longos deslizaram pela bagunça no chão de sua sala, mas nenhuma insatisfação a fez fechar o sorriso — Parecem que estão se divertindo.
— Pra caramba — Damien apontou sorrindo.
Eu bufei.
— Não. Eu não estou me divertindo com ele — reclamei cruzando os braços. — Ninguém consegue se divertir quando sempre perde no vídeo game.
Amélia sorriu para nós, olhando-nos quietamente até falar.
— Entendo sua frustação querida, também já fui apanhada pela frustração por causa de um homem que é melhor que eu em alguma coisa — Fiquei quieta um instante para avaliar aquelas palavras e o tom afiado que dominava cada uma delas. Amélia não era de se estressar ou ficar pensativa como andava, e ouvi-la falar algo como isso fez a curiosidade se espalhar ainda mais por meu peito, mente, e qualquer canto do meu corpo que estivesse congelado no lugar.
Damien não pareceu notar a mesma coisa que eu, pois riu suavemente e ajeitou as almofadas no sofá, jogando-se lá em seguida.
— Admitam. — disse alegre — Nós homens colocamos suas cabecinhas em chamas.
Eu respirei fundo, já acostumada com a doce superioridade que Damien carregava nas costas todos os dias, em seguida não pude me impedir de acertar sua cabeça cheia de fios louros.
— Hey! — gritou ele.
— Não seja metido Levesque.
— E você não seja chata, Cooper. — debateu de volta. Eu ri, e balançando a cabeça me direcionei a Amélia mais uma vez, porém fiquei preocupada que essa estivesse novamente com aquela expressão concentrada enquanto nos olhava fixamente. Era como se estivesse pensando em algo não muito agradável e que ao mesmo tempo, a fazia perder o sentindo das horas.
— Damien — Chamei, sem tirar os olhos da mulher distraída — Pode me deixar com minha tia? — Percebendo o que eu havia acabado de falar, Amélia me olhou com o cenho franzido enquanto eu me virava para trocar olhares com Damie — Eu ligo para você mais tarde.
Ele ergueu uma sobrancelha loura e mirou Amélia e eu cautelosamente, notando agora o clima estranho que se estendia entre nós. Sem perder mais tempo e sendo aquele cara perfeito, ele sorriu e se levantou.
— Ok. Estava pensando em abrir a loja mesmo — Se aproximou de mim e pegou minha mão. Permiti que ele se abaixasse e alisasse a tatuagem de sol que ambos nós dois compartilhávamos, e quando ele a beijou eu sorri. — Até mais caramelo.
— Até Damien — sorri, e me colocando nas pontas dos pés encostei meus lábios nos dele. Ele sorriu satisfeito, e em seguida se virou e passou por Amélia, acenando uma mão como despedida.
Finalmente sozinhas, observei enquanto Amélia caminhava para mais perto e deixava a sua pasta em cima do sofá. Muito deliberadamente, ela deu passo até mim e me encarou por uns segundos antes de perguntar.
— Deseja falar comigo?
Não respondi de imediato, pelo contrario. Tomei meu tempo olhando-a com cuidado, me certificando que poderia perguntar minhas suspeitas, e, no entanto eu hesitei ao constatar que ela parecia mais fechada que nunca, e por experiência própria, sabia que respostas seria a última coisa que ela me daria.
Portanto eu me empertiguei e sorri largamente, demonstrando uma animação nova.
— Na verdade eu só queria passar um tempo com você — falei. Amélia estreitou os olhos, surpresa transparecendo em seu rosto.
— Sério?
Assenti suavemente.
— Sim. Por isso queria saber se você não tem nenhuma ideia para nós hoje. Tenho estado muito com Damie e esqueci que o objetivo de eu estar aqui era passar umas horas com você. — Me aproximei mais dela quando seus olhos azuis brilharam intensamente — Eu tenho notado que ultimamente, está meio triste.
O brilho se foi, e como eu esperava, ela cerrou os lábios e desviou os olhos.
— Não é nada. — falou depressa — Perdoe-me se dei impressão de estar mal.
— Não precisa se desculpar por se sentir triste, tia — disse sinceramente — Não quero explicações, e sim um dia para que esqueça seus problemas. Que tal?
Aquele olhar carinhoso e doce que eu diariamente via em seu olhar desde que eu vim morar aqui retornou, e foi estranho como o alívio quase me fez sorrir. Não gostava de ver Amélia triste e muito menos pensativamente aérea. E não era um pensativo bom, isso eu tinha certeza. Algo estava a perturbando, e eu queria muito saber o que é e sobre o que se tratava.
— Bem... Você já pulou de paraquedas? — perguntou, afastando qualquer pensamento de minha mente.
Eu arregalei os olhos, super interessada.
— O que? Claro que não — Ela sorriu de lado — Como assim? Você já pulou?
Em perplexidade, eu a via acenar positivamente com a cabeça.
— Eu gosto de fazê-lo às vezes. É um exporte que me deixa mais leve e ao mesmo tempo em alerta. — Seu olhar aguçado se prendeu em mim. — Quer tentar?
Meu estômago começou a se revirar assim que ela perguntou, uma torrente de ansiedade, curiosidade, e uma pontadinha de medo, fazendo-me soar ao dizer, mordendo os lábios.
— Jared vai morrer se souber — murmurei. Ela sorriu largo.
— Então não contaremos para ele.
Eu ri, e de repente muito animada, assenti.
— Sim. Vamos fazer isso.
Amélia pareceu irradiar um pouquinho.
— Excelente! Vou ligar para meu instrutor agora mesmo. Vista algo confortável e prenda o cabelo. Estarei fazendo o mesmo no quarto — E sorrindo animada, ela pegou a pasta e subiu as escadas até o seu quarto.
Rindo nervosamente, fiz o mesmo e corri para cima. Coloquei uma regata por cima do tope e calcei um tênis. Em seguida prendi meu cabelo e me olhei meu reflexo no espelho, ficando ainda mais surpresa com o resultado. Quer dizer, ultimamente eu estava sempre me surpreendendo com meu corpo, ainda não tinha me acostumado em encontrar uma elevação a mais no meu busto ou constatar que eu tinha uma barriga formando gominhos, era impressionante como a academia e minha nova dieta tinha feito uma diferença, e não só no meu corpo, mas também na minha saudade.
A asma a muito não ataca, porém sempre andava com minha velha bombinha. Ataques de pânico? Nenhum. A injeção que Jad sempre me dava continuava sendo aplicada uma vez por mês, mas meu novo médico disse que se eu continuasse com essa minha evolução, em breve eu poderia encerrar de uma vez por todas as picadas de seringas. Quis contar isso para Jared, mas acho que ele tem estado ocupado demais para atender minhas ligações, por isso estava indo ligar mais tarde para Dana, ou começaria a ficar preocupada com sua falta de noticia.
Com isso em mente, peguei meu celular querendo testar a sorte agora, no entanto assim, atendi que estava em minha mão ele tocou e o nome de Eloise apareceu na tela.
— Quem é vivo sempre aparece — falei sorrindo. Do outro lado, pude ouvir vozes serem atropeladas umas pelas outras, me dando a ideia de que eles estavam todos juntos. Saudade me fez suspirar ao me sentar no pé da cama.
— Como anda as coisas por ai? — Perguntou Lizze com uma risadinha. Eu ergui uma sobrancelha, notando seu tom de “Algo mais”.
— Estão ótimas Lizze, mas não foi para isso que você me ligou, certo? — Eu podia o ouvir seu esforço para não explodir em risadas, mas não era como se tivesse adiantado, pois varias outras eram audíveis ao fundo. — O que estão fazendo?
— Oh Deus, fale logo para ela. — A voz de Jonah parecia afastada do telefone — Diga logo.
— Ora, eu diria se parassem de rir! — Me empertiguei quando reconheci na mesma hora a voz risonha.
— Dana? Porra, Dana, é você?
— Sim mana, como vai? — Ela parecia cheia de diversão na voz.
— Como eu vou? Ainda pergunta? Por que diabos Jared não atende o maldito celular? Estava a ponto de ligar para você com medo que algo tivesse acontecido. — Foi apenas mencionar o nome do meu irmão rabugento, que uma descarga de risos veio da minha querida e prestativa irmã, ela parecia até mesmo estar sem fôlego.
— Oh pai, eu não consigo...
— Dana! — gritei impaciente. — O que está havendo? Cadê o Jared?
— Com certeza está fazendo uma festinha particular em seu quarto à uma hora dessas — Ela murmurou sem ar, e eu fiquei ainda mais confusa.
— Festa particular...
— Está meio lenta hoje Harlow — Jodie ao fundo também parecia rir.
— Mas como assim?
— Ok. Ok. — Dana voltou a falar, respirando rapidamente — É que nós achamos que Jad e Caroline finalmente se intenderam.
Congelei no lugar. Festa particular...
— Ah. Porcaria — Um riso partiu da minha garganta quando as peças se encaixaram — Como isso foi acontecer?
Os risos então se encerraram, e o silencio fez-me levantar da cama.
— Oi. Ainda está ai?
— Desculpe Harlow — Dana não tinha mais o humor na voz. Que estranho — Bem, eu não sei o que rolou, mas eu estava dormindo, e então de repente eu ouvi... — Ela não conseguiu terminar, estava rindo novamente — Oh Deus, eu não acredito que ouvi nosso irmão fazendo sexo com Caroline. Eu mal posso esperar para curtir com a cara dele.
Eu ri com ela, mesmo que sentindo minhas bochechas ficarem rosadas ao pensar que minha irmã estava no meio dos meus amigos contando que meu irmão mais velho estava curtindo um tempinho a sós com a irmã do meu hãm... Ficante? Eu sabia que Dana não era mais virgem e que tinha perdido com Jimmy, mas eu não gostava de pensar que ela estava sendo tão à vontade sobre o assunto na frente dele... Não que eu ligasse caso ele estivesse ali, o que provavelmente não estava. Mas era minha irmã e Jimmy, bem...
— Harlow? Perdeu a língua maninha? — Ela riu.
— Estou apenas digerindo a noticia. E vamos combinar que falar sobre a vida sexual de Jared é meio estranho né? — falei sorrindo mesmo assim.
— Oh, eu sei, mas eu que tive de ouvir isso, aliás... Eu, Liam, Jodie e Jimmy. Que tinha passado lá novamente porque deixaram um laptop em casa. — Parei como uma estatua em frente minha janela, fechando os olhos quando mais uma vez, o ciúmes apertou meu coração e fez loucuras no meu estômago.
Jimmy esteve na minha casa. Ele esteve com Dana. Jimmy não me ligou mais. Jimmy não se importava mais.
— Er... Bom, eu fico feliz que Jad e Car tenham se entendido. — Tentei soar normal enquanto o pensamento de Jimmy ouvindo tudo que eu dizia agora fazia-me querer desligar. — Fora isso, está tudo bem por ai?
— Não. Está tudo uma grande merda... — Jodie começou, mas pareceu ser interrompida por alguém, descobri mais tarde que foi Liam.
— O que Jodie quer dizer, é que está tudo bem. — Ele falou com um tom de aviso. Não sei se para mim ou para namorada.
— Isso é bom.,. Estou com saudades.
— Todos nós estamos Harlow — Stef falou ao longe — É ótimo que os dias estejam diminuindo. Em breve estará em casa certo?
Algo naquela pergunta me fez hesitar, ou talvez não a pergunta, mas o que aconteceu dentro de mim e como o rosto triste de Amélia sobrevoou em frente aos meus olhos, senti aquela solidariedade por ela ao pensar como seria difícil viver sozinha naquela casa enorme somente com Adelaide para dizer boa noite. Pensei como ela apreciaria alguém para leva-la para se divertir como eu ia fazer agora e pensei em sua alegria e carinho quando disse que queria um tempo com ela. Apenas nós duas. Amélia parecia tão sozinha, que até me fazia cogitar vir morar aqui e...
— Harlow? — Como se pressentisse meus pensamentos, a voz de Dana saiu cheia de medo — Harlow o que foi?
Me senti então culpada por trazer aquele sentimento a minha irmã, e suspirando, esfreguei o rosto.
— Nada eu... Só estava pensando em umas coisas.
— Que coisas são essas? — sua voz tremeu.
— Dana eu...
Uma batida na porta do quarto me fez prender as palavras na boca. A cabeça de Amélia apareceu e ela sorria largo, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo e ela vestia uma roupa que usava para ir à academia. Uma legguin azul e camiseta branca.
— Vamos indo querida? Está tudo pronto — falou. Em meu ouvido, Dana puxou levemente o ar.
— Só um minuto. — Pedi. Ela assentiu e saiu do quarto.
— Aonde vocês vão? — Exigiu saber. Eu mordi a unha.
— Sair eu... Vamos passar um tempo juntas. Só isso.
— Em que lugar? Se ela lhe colocar em perigo juro que vou fazer uma loucura e...
— Dana! — Cortei-a totalmente chocada com sua reação. Eu já sabia que ela não gostava de Amélia, mas nunca ao ponto de reagir assim, como se minha tia fosse uma vilã de historias em quadrinho — O que está havendo com você? Amélia nunca me machucaria.
Dana nada disse.
— Ela gosta de mim Dan. Você está sendo paranoica.
— Eu...
— Estou falando sério Dana, Você e Jared precisam parar de implicar com ela, Amélia não é o mostro que vocês acham, pelo contrario. Eu gosto dela.
— Ah Harlow... — Ela gemeu tristemente.
Depois veio mais silencio, e esse parecia ser seguido por meus amigos também.
— O que está acontecendo ai? Vocês estão estranhos.
— Nada está acontecendo é só que... — Ela hesitou — Estou com saudades.
Eu franzi a testa.
— Não me venha com essa, eu sei que está mentindo.
— Não estou...
— Se vai falar coisas que não existem, eu acho melhor eu desligar, Amélia está me esperando e não quero deixa-la esperando.
— Harlow espera...
— Tenham um bom dia pessoal. — Desliguei o celular e enfiei no bolso.
Eles estavam escondendo algo. Todos eles. E isso só me deixava com mais raiva enquanto descia as escadas com minha mochila nas costas, porém quando cheguei a saída, parei em frente à porta olhando para mulher que enfiava uma mala enorme atrás do carro, e essa mulher linda parecia distraída novamente, o que me fez decidir que hoje, eu não pensaria nos dramas dos meus irmãos e amigos. Hoje, eu me dedicaria somente a Amélia, talvez assim ela possa voltar a sorrir para mim verdadeiramente de novo.
~*~
Amélia não tinha me alertado sobre saltar de um avião. Na verdade ela não tinha me alertado que ela tinha um avião.
Depois que saímos de casa, fomos de carro até uma área reservada especialmente para maquinas aéreas. Era localizado em Santa Mônica, e enquanto olhava pela janela ansiosamente, percebi que as ruas da cidade pareciam muito com bairros, principalmente por concentrar tudo em um mesmo lugar. A praia era tão linda quanto que tinha como paisagem na janela do meu quarto, o ar tropical e o cheiro fresco absurdamente relaxante. Quando finalmente deixamos o carro em uma garagem, Amélia me guiou até o terraço de um prédio enorme, sempre carregando aquela mala preta.
No terraço, havia dois homens nos esperando ao lado de um avião relativamente pequeno. As hélices movendo-se fez com que nossos cabelos voassem desleixadamente para todos os lados enquanto íamos até os caras.
O da esquerda tinha um sorriso bonito e grandes olhos escuros, batendo perfeitamente com seu cabelo castanho. Ele vestia uma vestimenta estranha da cor laranja e branca, e seu colega louro não ficava atrás, esse parecia mais velho e seu uniforme parecia vir do exercito, assim como aquelas botas de couro.
— Amélia. Fiquei surpreso com sua ligação — O da esquerda falou elevando muito a voz ao apertar a mão da minha tia.
— Eu sei, eu não planejava, mas queria dar um dia inteiro com minha sobrinha. — falou alto também e deu um aceno de cabeça para o outro homem — Como vai Tim?
— Pronto para voar — Disse o cara com convicção.
Amélia sorriu e deixou a mala cair no chão. Virou-se para mim.
— Venha querida, pegue isso — Ela tirou um macacão parecido com que o moreno usava. Esse, no entanto tinha detalhes em vermelho. — Vista isso. E antes que me esqueça, esse é meu instrutor Andrew, e aquele é meu piloto, Tim O’Nill.
— Muito prazer — Gritei sobre o ruído do helicóptero.
— Andrew é profissional no que faz, então não precisa se acanhar em fazer perguntas antes do salta. Provavelmente são as mesmas perguntas que muitos fazem antes de fazer algo como isso. Ele vai ajuda-la a se preparar agora e então iremos decolar. E claro, se quiser desistir depois de ouvi-lo, basta me falar e vamos daqui para uma sorveteria. — sorriu.
Eu ri suavemente, e pegando fôlego, assenti para que Andrew se aproximasse. Eu estava sentindo meu sangue correr mais depressa que nunca, e enquanto colocava o macacão, eu ouvia o que o homem dizia.
— O primeiro salto sempre é difícil. Já está sentindo anciã de vomito? — Perguntou divertidamente. Eu ri nervosamente.
— Um pouco. — admiti pegando o capacete que ele me oferecia.
— É absolutamente compreensível. Mas vou dizer algo que sempre digo aos meus iniciantes. — Seus dentes apareceram brilhantes — Imagine o seu corpo sendo lançado em queda livre a uma velocidade de aproximadamente 200 km/h em direção a terra. Parece loucura? Mas não é. Quem já experimentou saltar de um avião em movimento sabe muito bem do que eu estou falando. A sensação é que essa experiência pode levar à loucura. É difícil conseguir transmitir o que se sente no momento dessa queda. É como se o corpo estivesse estourando por uma bomba de adrenalina. A cabeça vai a mil. Os pensamentos ficam confusos e geram uma mistura de medo, mas de imensa satisfação. Realmente é muito bom.
Despercebidamente, senti meu estômago revirar em ansiedade.
— Foi assim com você? — questionei. Ele sorriu.
— Sim. Mas existem vários modos para descrever, no entanto só saberá de verdade como é, se saltar.
Inquieta, olhei para minha tia, que era ajudada pelo piloto a colocar o equipamento, o que me fez pensar que esse também já havia saltado. Voltei-me para Andrew.
— Quantos segundos duram a queda?
— Dependendo da altura? Cerca de trinta a quarenta e cinco segudos. A velocidade da queda livre é equivalente à 220 km por hora. Vire-se para que eu feche isso — O fiz o que ele pediu e senti seus dedos fecharem meu macacão enquanto ele continuava a falar — Lembrasse sempre que o paraquedas leva quatro minutos para abrir, portanto não entre em pânico.
— Ok — Balancei a cabeça — Entendi.
Ele riu, percebendo que estava começando a tremer como uma vara, mas vamos compreender certo? Estava indo pular duzentos metros de um avião em movimento. Isso tinha que ser o máximo de loucura que já dei ao Jared. Com certeza ele ia odiar isso aqui. Na verdade ele poderia ter um ataque ou atacar Amélia.
Engolindo minha covardia, segui minha tia e o instrutor para dentro do avião, Tim foi para frente na intensão de dirigir aquela coisa para o céu.
— Onde vamos saltar? — perguntei quando sentamos em um dos bancos lá dentro.
Amélia sorriu.
— Já esteve em São Diego? — indagou ajeitando suas luvas.
— Não estive em nenhum lugar antes de vir para Califórnia. É muito longe?
— Uma hora eu acho — franziu o cenho e olhou para seu instrutor procurando ajuda.
Andrew assentiu.
— Uma hora e meia no total. Portando aproveite a viagem. — Ele se virou e bateu no ombro do colega que estava sentado na frente — Vamos Tim!
O avião fez um ronco alto começou a tremer, troquei olhares com Amélia, o meu mais nervoso que o dela e engoli em seco. Minha tia tentou me alivia sorrindo e pegando minha mão cobertas por luvas.
— Veja isso — falou, e me puxou até a janela ao seu lado.
Ofeguei quando passamos a nos mover rápido, para frente, o chão deslizando para trás enquanto o avião ia de encontro com a pista. Agindo totalmente por impulso, fechei os olhos quando ele chegou da beirada, uma parte de mim esperava que ele despencasse para baixo e que todos nós sofreríamos uma morte dolorosamente lenta, isso até colidir com a terra. Porém não foi isso que aconteceu.
— Abra os olhos querida — A mão da minha tia alisou meu rosto e devagar, abri os olhos.
Nós estávamos sobrevoando por cima de Santa Monica. O céu estava em uma confusão de nuvens e pássaros, que se distanciavam quando o avião estava próximo, e logo a baixo, a cidade era pequena aos meus olhos, mas a paisagem daquilo aqueceu meu coração além de todos os limites. O sol brilhando ao longe acima da água do mar fez-me suspirar com tamanha beleza.
Passamos por cima do Píer de Santa Monica, a praia e por vários prédios. Era tudo muito lindo. Tanto que nem percebi quando finalmente passamos por toda a cidade e seguimos adiante até enfim, chegarmos ao nosso destino.
— É aqui — Amélia olhava além da janela — Bem vinda a São Diego, Harlow.
São Diego situava-se nas margens da baia, e se me lembrava bem o que aprendi sobre geografia, aquele era o litoral do oceano Pacifico e estava rodeado pelo México, além das montanhas e áreas desérticas. As rochas em voltas eram altas e logo a baixo, atingidas pelas ondas quebradiças do mar. Era um lugar perfeito para saltar.
— Ok. Harlow venha até aqui — Andrew aumentou a voz enquanto acenava. Meio tremendo, fiz como pedido e cheguei a sentar ao seu lado. Ele mexia em duas mochilas enormes e passou uma para minha tia. — Como hoje é seu primeiro salto, é apropriado que seu instrutor, ou seja, eu, vá com você. Portanto fique calma e apenas respire ok? — Foi até cômico ver como aquela noticia me deixou mais tranquila.
Esperei sentada enquanto ele aprontava a Amélia e introduzia uma porção de equipamentos incluindo um capacete igual ao meu. Por ultimo apertou as fivelas da mochila dela enquanto Amélia me sorria doce.
— Estou feliz que esteja aqui Harlow. — disse com um tom de sinceridade na voz.
Suspirei e dei uma olhada na janela. A altura me fez suar frio.
— Queria poder fazer seu medo ir embora — Murmurou quando alisei o pescoço. Eu a olhei na mesma hora com uma ideia.
Andrew juntou-se a mim e começou a nos preparar enquanto falava para minha tia.
— Vamos fazer assim... Quando chegarmos à terra firme, quero que me conte o motivo da sua tristeza repentina. Isso vai me fazer melhor agora — Os olhos dela estreitaram um pouco e a boca formou-se em uma linha reta, mas respirando fundo, ela disse.
— Acho que isso é justo. — Sorri grande e assenti em acordo — Então nos vemos lá em baixo, querida.
Suas palavras fizeram os pelos da minha nuca arrepiarem, e o pior é que Andrew escolheu esse momento para abrir a porta lateral do avião. Ofeguei quando vento nos acertou no rosto, gotas de suor cobriram minha testa e por um momento achei que ficaria doente. O medo perfurou meu estômago mais uma vez, mas nesse instante Amélia agarrou minha mão e sorriu.
— Boa sorte — falou suave. Apertei os lábios.
— Obrigada — E em seguida Amélia caminhou para a beirada do avião e simplesmente saltou. Prendendo um grito surrealmente alto na garganta, dei uma olhada para baixo e vi com horror minha tia cair para morte. Mas ela não parecia estar preocupada, pois podia ouvir os gritos dela de longe, gritos refreados por risadas.
— Nossa vez. — Andrew sorriu.
Tomando respiração, permiti que ele me prendesse firmemente contra seu peito e ajeitasse as fivê-las, quando acabou eu fechei os olhos, não conseguindo me impedir de fazer uma breve oração.
— Preparada? — Não!
— Sim.
— No três então. Um... dois... — Ele me trolou totalmente.
Lembro brevemente de ter xingando-o de algo muito feio, porém isso não importou quando senti a superfície que nos segurava não mais existir. Estávamos no ar, como se caindo de um abismo diretamente para o chão, no entanto esse nunca chegava, e enquanto caia entendi o que Andrew quis dizer quando disse que nada daquilo poderia ser explicado com palavras.
Era algo como euforia, medo e quase loucura. De olhos fechados, eu sabia que estava gritando, mas aos poucos a curiosidade do porque Andrew estava rindo sobre minha orelha, me fez abri-los. A imensidão daquele céu era terrivelmente belo, as nuvens que cruzavam conosco eram lindas, assim como aqueles riscos laranja e vermelhos que vinha do por do sol. Logo a baixo, eu podia ver minha tia e muito mais: A paria, o mar, as rochas nas quais provavelmente iriamos pousar, tudo tão inacreditável que me vi rindo também, sentindo a bomba de adrenalina explodir por todo meu corpo como fogos de artifícios.
Fechando os olhos, senti meu corpo em movimento ao de Andrew em queda livre, e depois minutos algo fez com que meu estômago desse uma revirada e que o frio subisse, nossa velocidade pareceu aumentar, uma sensação parecida com a descida da montanha russa. Uma loucura. Quando olhei para baixo, percebi que o solo estava perto.
— Andrew! — Senti dificuldade de respirar quando falei, mas meu instrutor apenas disse.
— Tranquila Harlow. — gritou sob o vento — Quase lá.
Durante os 40 segundos da queda, fiz algo que nunca pensei ser possível, eu extravasei, eu não me escutava, mas gritava a plenos ouvidos quando minha respiração igualou novamente. Foi inacreditável, uma experiência inesquecível, e quando senti um leve puxão para cima e ergui os olhos, vi o enorme e azul paraquedas bem a cima de nossas cabeças, levando-nos diretamente até a terra firme.
Apesar do paraquedas aberto, a aventura não se encerrou por ai. Andrew permitiu que eu controlasse o paraquedas enquanto fazia curvas rápidas dando mais daquele friozinho na barriga. Ao nos aproximarmos do solo, meu instrutor assumiu o comando e disse.
— Erga as pernas quando chegarmos ao chão — Ele ordenou, e assim o fiz, sentindo quando ele pousou e freou os pés na grande rocha, segurando-me em seguida quando o paraquedas caiu para frente.
Meu coração ainda estava acelerado quando nos livramos das proteções, o sorriso em meu rosto não podia ser despercebido quando me virei e encontrei minha tia, sem seu paraquedas e capacete, seu cabelo tão arrepiado quando o meu.
Cheia de energia demais, eu não consegui me impedir de gargalhar ao correr em sua direção.
— Isso foi incrível! Caramba! Eu senti tudo. Absolutamente tudo! — Amélia sorriu com seus olhos diminuindo, brilho crescendo com minha excitação.
— Eu vi meu bem, você foi ótima. — Ela se aproximou e me abraçou, eu ri, retribuindo. — Parabéns.
— Nós podemos fazer isso de novo? — perguntei ansiosa. Minha tia sorriu.
— Não vejo motivo para não fazermos — falou, e virou-se para seu instrutor — Obrigada por tudo Andrew, como sempre, você foi perfeito.
O homem sorriu de lado e alisou o cabelo, tirando as luvas.
— Ligue quando quiser mais diversão. — E olhou para mim — Posso ensinar uns saltos radicais.
— Sério? — Me empolguei. Ele assentiu.
— Parece que conseguimos mais uma paraquedista — Amélia riu — Pode marcar mais um salto para o final do mês Andrew. Aposto que ela vai adorar.
— Sim! — Eu gritei animada. Os dois riram e em seguida passaram a cuidar de organizar as coisas.
Enquanto esperávamos o carro da empresa para qual Andrew trabalhava, eu me sentei com minha tia na rocha depois de tirarmos os uniformes. Ela tinha o olhar vago no mar, ela tinha soltado seu cabelo, deixando-a ainda mais jovem e bonita.
— Está tudo bem? — perguntei ao ver seu olhar vago.
Seu lábio subiu relativamente.
— Eu prometi uma explicação, não é? — disse baixo. Eu sorri.
— Pois é. Você deve. — concordei. Ela suspirou e passou a brincar com a grama presa na rocha. Puxando e arrancando.
Por segundos, ela nada disse, porém depois falou, com uma voz um tanto baixo.
— Eu tenho tido uns problemas no trabalho e... Acho que o dia ajudou a piorar as coisas. Apenas... me sinto incapaz de dizer para alguém que sou forte hoje. — Eu consegui evitar um estremecimento. Minha tia estava de alguma forma, muito ferida. Mas por quê?
— O que esse dia tem de especial? — Tentei ter o máximo de gentileza possível.
Amélia pegou fôlego.
— Primeiro de agosto — Seus olhos ficaram severos de repente — Foi quando minha mãe faleceu. Hoje faz quinze anos que minha mãe morreu.
— Oh! — Eu me encolhi.
Não tinha ouvido muito sobre meus avós maternos, sabia que haviam morrido e se chamavam Arthur e Elisa, mas fora isso, nada mais. Porém Jared havia me explicado que os pais do meu pai, — Mason e Adele Cooper — se encontravam em um asilo que ele pagava desde que Martin morreu. E ensando naquilo, me senti mal por eles, pois eu sabia que o motivo de nunca vê-los, era eu ter surtado em uma visita, ao ver o rosto de Martin, e pensar que era meu pai. Se me lembrava bem, tinha dez anos.
Jared e Dana até tentaram, mas eu nunca mais quis ir visita-los, e olhar agora para o rosto da minha tia, que estava triste pela perda de sua mãe que eu não conheci, fez-me querer ter uma segunda chance de conhecer Martin e Adele. Eles não tinham culpa de meus traumas.
— Eu sinto muito tia — falei depois de um tempo — Acho que posso dizer que sei o que é sentir saudades de uma mãe.
Os lábios de Amélia curvaram para os lados quando ela me olhou com gentileza.
— Então temos mais em comum do que pensávamos — murmurou. Eu sorri.
— Pois é — Virei o rosto e pisquei, assistindo o sol parti enquanto ouvia-a respirar — Como ela era? Jad me disse que seu nome é Elisa. Certo?
— Sim. Elisa — confirmou quietamente — Minha mãe era uma das mulheres mais corajosa e doce que eu já conheci. Lembra-se da história que contei? Quando disse como conheci Logan e me envolvi com drogas?
Assenti.
— Seus pais queriam mandá-la para casa de seus avós. Me lembro.
— Sim, mas — disse melancólica. — minha mãe não queria isso. Ela lutou por mim, tentou fazer com que meu pai mudasse de ideia e tentou me manter segura de que aquilo ia mudar. Ela sempre esteve ali para me dizer que eu era importante... Eu sabia que ela me amava, mas também conhecia meu pai, e ele estava bravo demais para voltar atrás na sua decisão de me mandar embora, não haveria escapatória.
— Então você fugiu — Concluiu. Ela assentiu.
— Fugi. Mas não precisamos entrar na mesma conversa de antes, sei que foi uma coisa idiota. Apenas... Não queria ir.
Ficamos por um tempo em silencio até que a curiosidade foi mais alta e perguntei.
— O que minha mãe dizia sobre isso tudo?
Amélia franziu o cenho com a pergunta, mas disse de toda forma.
— Acho que Hope não sabia muito quanto ao que fazer comigo. Ela tentou conversar em vários momentos, mas em cada um deles eu acabava distorcendo as coisas e criando uma briga.
— Mas não pode ser possível que não tenham, em nenhum momento, se divertido juntas — falei esperançosa — Vocês eram irmãs no final das contas.
Minha tia engoliu em seco, e lentamente, olhou em meus olhos.
— Tivemos, mas eu... Não sei, acho que as coisas com Hope eram um pouco estranhas. — Ela fez careta. Interessada, me aproximei dela.
— O que quer dizer?
— Ora, bem. É que as vezes Hope se tornava cuidadosa demais ao meu lado. Ás vezes, quando eu perguntava sobre como foi saber que a minha mãe estava gravida, ela simplesmente travava ou acabava desviando o assunto, como se não gostasse de pensar sobre isso — Seus dedos puxaram mais grama da rocha — Eu sempre pensei que ela desgostasse de mim, ou que de alguma forma, não gostasse de ser minha irmã. Puderá! Eu não facilitava a sua vida em certos assuntos.
— Eu não acho que minha desgostasse de você — disse sincera — Pode ser por outro motivo.
Amélia deu de ombros.
— Pode ser. Mas isso não nega o fato que ela e meus pais escondiam algo de mim. Algo muito grave. Porém não importa mais. Eles se foram. Toda minha família está morta — Pesadamente, ela suspirou — Gosto de ficar pensando nesses momentos de trégua qe eu e Hope nos dávamos no pouco tempo que convivemos. Lembro do aniversário de dezessete anos dela, é difícil focar na imagem com força porque eu tinha apenas seis anos, mas ainda sim, é uma das melhores lembranças que tenho dela.
— O que aconteceu? — indaguei curiosa, Amélia sorriu.
— Bem, Hope já era casada com Martin na época, pois como deve saber, meu pai a fez casar se casar depois que descobriu que ela estava gravida aos dezessete anos de Martin. Ele não permitiria que sua filha passasse por um escândalo que fizesse parte de fofocas — falou. Eu assenti, me lembrando relativamente das conversas que tive com Jared.
— Acho que me recordo de Jad falando que nossos pais casaram cedo.
— Muito cedo — concordou — Depois que eles voltaram da lua de mel eu e minha mãe fomos visitá-la na nova casa. Eu percebi assim que entrei que algo estava errado. Eu podia ser criança, mas entendia quando minha irmã queria esconder alguma coisa de mim. Ela e minha mãe falaram por muito tempo enquanto eu olhava as coisas na casa, o quarto que estavam enfeitando para o bebê. — Amélia deu uma risadinha — Sabe o engraçado? Toda vez que o bebê é menino, o quarto é decorado com apenas azul, e o quartinho de Jared não ficou atrás. Dos armários ao berço, tudo tinha azul. Tudo. E eu pensava exatamente nisso quando Hope me pegou olhando fixamente para tudo aquilo. Minha mãe tinha ido ao mercado comprar algo para comermos, então ela aproveitou para me deixar com irmã.
— Vocês não...
— Não discutimos, não éramos tão impulsivas quando eu era menor, apenas quando fiz onze anos. Foi quando as brigas começaram. — Observei com atenção enquanto ela esfregava o rosto — Hope entrou no quarto e ficou encostada na janela, me olhando seriamente, eu pensei que fosse mesmo brigar comigo, mas me enganei. Ela apenas me perguntou como eu estava.
— Mas... O que ela tinha afinal?
— Era o que eu queria saber. Então perguntei. Ela apenas... Sentou-se em uma cadeira de balanço e me olhou. Lembro como se fosse ontem à forma como ela chorou na minha frente. Ela parecia desesperada.
— Chorou? — Me surpreendi.
— Isso. E não só isso. Ela tentou me explicar como estava com medo de ser mãe, e que me olhar, a fazia pensar em como seria cuidar de Jared. Ela ficou ali, fungando enquanto eu, uma garotinha de seis anos, escutava seus lamentos. — Seus olhos brilharam como duas tochas de fogo ardente — Hope nunca foi tão sincera comigo como naquele dia. Eu gostei.
— Entendo. — murmurei, pensando nos dias em que vi Jodie chorando na minha frente e de nossos amigos, lembrando de como ela confiou em nós para ver suas cicatrizes e contar sobres as loucuras que seu pai fazia com ela. — Acho que sempre é algo emocionante quando alguém escolhe seu colo para desabafar. Mesmo quando o colo pertença a uma menininha de seis anos. Ainda é precioso o tamanho dessa confiança. Da coragem.
Minha tia assentiu, parecendo concordar comigo.
— Sim. E eu quis ajuda-la mais que tudo naquele dia, por isso permaneci em seu pé até que minha mãe me levou embora. Porém no dia seguinte tudo havia voltado ao que era antes, a distância entre nós retornou e eu ignorei. Durante o restante de sua gravidez, eu fui a sua casa, hora com meu pai hora com minha mãe. Isso até cansar de ficar para lá e para cá, e saber que minha mãe deixou herança de família para minha irmã e não para mim, fez-me mais nervosa.
Franzi o cenho, confusa.
— Que herança de família?
Amélia ergue uma sobrancelha.
— Aquela que você usou no seu aniversário de dezessete anos — De repente sua atenção estava totalmente em mim — Aquela que Jared colocou em sua cabeça.
Arregalei os olhos.
— Está falando daquela tiara velha? — indaguei surpreendida. Amélia gargalhou.
— Aquela tiara velha, vale milhões de dólares, Harlow — Sua gargalhada foi contida até que somente sobre um sorriso — Ela é de uma linhagem antiga de familiares passados. E em todos, o Diadema passava da mais velha para a mais nova filha para que usassem no aniversário de quinze anos. Minha mãe não quis esperar eu fazer quinze anos, e assim que Jared nasceu ela deu a tiara para Hope como um presente, para que ela passasse para suas filhas. Esquecendo-se de mim. — Senti meu estômago embrulhar quando o sorriso dela se fechou por completo, e sentindo sua tristeza, capturei sua mão.
— Oh tia, eu sinto muito, eu...
— Hey, calminha querida — Ela sorriu para mim novamente — Isso não é culpa sua. Mas uma magoa minha de família. E tal magoa fez com que minha rebeldia começasse. Meus pais e minha irmã tiveram o gostinho de ver como era me ver virar o rosto quando me recusei a conhecer Jared. — Isso foi como um tapa em minha cara, e devagar, minha mão escorregou para longe da dela.
— Você se recusou a vê-lo? — Estava chocada. A expressão dela foi de culpa.
— Sim. Mas por favor, não pense que desgosto do seu irmão por causa disso, as coisas que fiz no passado acabou por dar o que aconteceu no futuro. Acabaram por me fazer viver o que vivi com Logan. Eu estava rancorosa, não via outro nome bem visto a não ser o de Hope, o que alimentou minha raiva e inveja. Meus pais acabaram não aturando isso, minha mãe chateada e meu pai bravo, foi quando me disse que eu iria embora.
— Então, você ficou sem conhecer Jared durante o que... Nove anos?
— Na verdade foram quase dez. Fugi de casa aos quinze anos, com dezesseis fui achada e internada na clinica, porém fugi com poucos dias lá. Quando Martin me encontrou e levou-me para Hope, eu finalmente conheci Jared. Ele tinha nove anos e Dana também havia nascido, estava com três meses. Naquele dia nossas desavenças acabaram eu juro. Pois ali, naquela hora, a única que compreendia a minha dor era Hope, de alguma forma, ela entendia. Tanto que durante toda a noite ela me abraçou, durante toda noite enquanto chorava pela morte de Logan, ela sussurrava um pedido de desculpas por nunca ter feito parte realmente da minha vida, Hope me tratou mais como sua irmã naquele dia, do que nos anos que eram um passado cheio de brigas. Ah Harlow, ela me compreendeu. Sabe como aquilo foi precioso? — Lágrimas brilharam nos fundos de seus olhos azuis, e quase que inexplicavelmente, eu senti os meus embaçarem com as minhas próprias gotinhas salgadas.
Amélia balançou a cabeça.
— Eu não quis deixa-la, eu fiquei com tanto medo de partir e acontecer o mesmo de sempre. Não queria mais a distancia entre nós, eu queria a minha irmã, queria que meus pais me amassem tanto quanto amava ela. Eu estava cansada de ser a defeituosa. Não importava o que, eu queria ser alguém para eles. Alguém para mim. — Seu fungado desencadeou minhas lágrimas, e tocando sua mão novamente, dei uma leve pressão, sentindo como o coração dela podia estar dolorido — Hope em nenhum momento me abandonou, garantiu que nada ia mudar. Que ela me visitaria sempre na clinica e que me levaria doces, ficaríamos conversando se eu quisesse, mas ela nunca mais ia permitir que uma briga nos separasse. E foi exatamente como ela disse, até que ela engravidou novamente. — Seus olhos pousaram em mim — Em sua última visita, eu já notava que a gravidez estava lhe exigindo muita energia, então pedi que parasse de ir me ver para que pudesse descansar. Obviamente ela negou, mas não dependia apenas dela, existia mais uma vida para ela cuidar. — Sorriu. — E quando eu pude sair da clinica, não hesitei em ir cuidar dela. Martin precisava trabalhar, não conseguiria ficar de olho em Jared, Dana e também na esposa. Eu tive que ir.
Eu funguei e esfreguei os olhos.
— Não ajudou de muita coisa no final — falei ressentida. — Ela morreu mesmo assim.
— Esta enganada meu anjo — Seus olhos agora eram uma imensidão de força — Se Hope não tivesse ajuda naquele instante, não teria como você ter sobrevivido ao parto. Minha irmã já estava correndo risco de gravidez por estar meio adoentada, se esforçasse...
— Continuo dizendo que preferia que ela vivesse ao me dar à luz — falei em sussurro — Mas apesar disso não vou desprezar minha vida mais. Foi por ela que minha mãe morreu, já entendi isso, então vou vivê-la da melhor forma.
Minha tia sorriu, orgulho brilhante em seu olhar.
— Eu fique contente por isso, mas pense somente por um momento querida, acha que sua mãe conseguiria viver em paz, caso tenha vivido no seu lugar. Acha que ela teria ficado completamente feliz se você, sua filha, morresse?
Deliberadamente, eu suspirei, balançando a cabeça.
— Eu sei que não. Nenhuma mãe o faria, mas sei que ela daria um jeito assim como eu estou o fazendo. Assim como ela poderia ficar, não sou ou vou ser totalmente feliz, queria ela aqui. Então acho que se fosse ela so seu lado agora e não eu, provavelmente tentaria viver o máximo que seu coração pedia, pois teria a mesma certeza que eu tenho. A que se eu estou viva, é porque ela me permitiu viver. Nada mais que isso.
Amélia ficou em silencio, não me olhou ou eu a olhei, ficamos nós duas admirando o céu e o mar, vento batendo no nosso rosto. Ao fundo, pude ouvir quando nosso Andrew nos chamou para ir embora. Eu fiquei decepcionada, pois estava realmente curtindo aquele momento com minha tia.
— Sabe, você tem me impressionado bastante Harlow — Ela falou quando nos levantamos. Seus cabelos sendo soprados para frente de seus olhos — Tem mostrado bastante garra quando requer força. Tenho orgulho que seja minha sobrinha, e lamento que não seja minha filha. Seria uma benção na minha vida vazia. — E com sorriso, ela beijou minha testa e se afastou. Eu fiquei sem reação ao assisti-la, mas não por muito tempo.
— Tia! — Gritei correndo atrás dela. Amélia parou e se virou. — Eu também sou feliz por ser sua sobrinha. Sei eu não demonstrei antes, mas mau a conhecia — Peguei sua mão — É diferente agora. Eu gosto de você, muito me ouviu?
Mais uma vez, olhos dela cintilaram com lágrimas, porém ela segurou com uma grande guerreira.
— Obrigada por me aceitar na sua vida, eu não mereço o seu amor Harlow. Não mereço nada disso — Apressada, eu balancei a cabeça e fiz algo que surpreendeu a mim mesma. Há abracei. Forte. Apertado.
— Não é verdade. — Murmurei — Todos merecem ser amados. E eu aprendi amar você. Meus irmãos também podem, apenas tenha paciência com eles. Nós vamos conseguir isso.
Senti os braços dela tremeram quando me circularam, o peito lufando um soluço.
— Oh Harlow, não sabe como isso é difícil — choramingou em meu ombro, como se tivesse em uma situação que não podia controlar ou sequer aguentar. Eu suspirei.
— Estou com você, e não vou abandoná-la — disse convicta, sabendo que o que eu estava pensando, iria causar um desentendimento ainda maior na minha família, entretanto não conseguia ver outra maneira de vê-la bem. — Vou ficar com você tia, eu prometo. Vou cuidar de você agora. Não estará sozinha nunca mais.
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