Rude Girl
2 Capitulo 2 — Lagrima renegada
Notas iniciais
Depois da vinda de Jodie, meu humor passou de ruim para terrível. O restante das aulas foi uma tortura e quase cantei quando a sineta soou dando as aulas por encerradas. Fazia-me lembrar também que aquela merda estava chegando ao fim. Graças a Deus! Assim que as férias chegassem, eu poderia ficar em minha cama durante o dia todo sem me preocupar. No entanto ainda não era desse modo. Naquele horário, naturalmente, o grupo da banda marcava para tocar na garagem de Jonah, porém o retorno de Jodie tirou a atenção praticamente de todos, e obviamente, com certeza se esqueceram de comparecer hoje.
Percebi isso quando usei o controle que Jonah havia dado para cada um de nós, e abri a garagem. Os instrumentos estavam lá, mas não os músicos.
— Que ótimo.
Sem vontade nenhuma de voltar para casa, entrei na garagem e deixei a mochila no sofá. Eu sempre optava por cantar, mas naquele instante, sozinha, achei que seria bom ensaiar meu desempenho com o violino. Por isso peguei o que estava em cima da caixa de som, e sentei-me no chão, testando as cordas.
A música fluiu pela garagem, acalmando toda aquela raiva que carregava desde que Jodie foi embora. Ela tranquilizou meu coração partido, meus dedos deslizando contra as cordas parecia não somente tocar o violino, mas minhas lembranças também. Cerrando os olhos, tentei rever o porquê de, de repente, minha cabeça estar tão confusa. A solidão batendo a cada momento em que me encontrava entre quatro paredes sem mais ninguém por perto... Aquela vontade de sumir apareceu, e ela não era nova, na verdade ela ultimamente abraçava meu coração todos os dias.
Não entendia o que estava acontecendo, há muito tempo não me sentia tão desamparada. E para piorar, o ressentimento que guardava de Jodie me fazia querer chorar... O que era muito preocupante. Não era de chorar por esse tipo de coisa. E o que mais me preocupava, era como estava pensando naquela garrafa de vodca que deixara em baixo da cama para qualquer emergência.
— Droga — parei de tocar e afastei o violino, temerosa com o que aquilo queria dizer. Esfreguei o rosto, mais cansada que nunca. — O que está acontecendo comigo? — murmurei para mim mesma, tentando achar algum sentindo. Bem, não foi isso que consegui.
— Falando sozinha, pirralha? — Eu tive de fechar os para não começar a gritar.
Aquele dia estava se tornando incrível. Mas não em um sentindo bom. Porra.
— Vai ver se tô na esquina — grunhi. Não me dignei a olhar em seus olhos, só voltei a pegar o violino e testar as cordas.
Ouvi o som de seus passos e então ele estava sentado ao meu lado, em silencio enquanto minha música tomava a garagem. Não me importei por isso, estava farta de brigar, por tanto permaneci quieta.
— Nova música? — Jimmy perguntou, e mesmo assim não o olhei, mesmo que o peso de seu olhar me deixasse desconfortável.
— Não estou falando com você. — disse a contragosto — Mas se estivesse falando com você diria que não é da sua conta. — A sua risada a seguir me fez virar os olhos.
— Hmm. E por acaso, se você estivesse falando comigo... Você me diria o porquê dessa expressão nada sombria e muito triste? — fiz uma careta, pensando se ele realmente falava serio. Quando não ouvi nenhuma gargalhada da sua parte, ergui a cabeça para olhá-lo.
— Mas é claro que não... — E como todas as vezes que acontecia, eu perdi o sentindo das palavras assim que o olhei. Culpei aquela maldita quedinha adolescente. Eu não devia ter percebido assim que o olhei que ele cortara o cabelo hoje. Também devia ter notado como seus olhos castanhos eram bonitos e cheios daquele brilho perigoso.
Jimmy tinha uma maneira de me olhar que me deixava completamente desarmada. O frio na barriga fazia-me querer vomitar e correr para longe, e às vezes pensava que ele sabia disso, pois o sorriso que ele me lançava era comprometedor, como se me convidasse a fazer algo insano ao seu lado. E o pior era que eu queria.
— O gato comeu sua língua, pirralha? — Ele sorriu mais largo, me olhando atentamente.
— Me deixe em paz. O que faz aqui? Ninguém veio — resmunguei, me afastando um pouco dele. Jimmy respirou fundo, a diversão de repente se esvaindo.
— Bem... Eu não posso negar que alguém me ligou pedindo certa ajuda. Liguei para sua casa e ninguém atendeu. O que me fez pensar que seus irmãos estavam trabalhando e você estava aqui — Raiva se contorceu dentro de mim e sabia que ele assistia ela espreitar e nos rondar, pois ergueu as mãos em sinal de paz. — Por favor, será que não pode me escutar antes de distribuir farpas?
— Está perdendo seu tempo. Assim como Jodie — Desviei o olhar do dele, queimando por dentro.
Jimmy suspirou.
— Não acha que está sendo muito dura com ela, Harlow? Ela precisava de ajuda e...
— E você acha que eu estava querendo fazer o que naquele velório, Jaime?! — Eu quase gritei, mas me poupei ao vê-lo fazer uma cara de desgosto ao ter seu nome dito em voz alta; Porém não retrucou sabendo que eu não estava tentando provocá-lo, pelo contrário — Eu não sou boba, Jimmy. Sabe o quão duro é para mim gostar de alguém ao ponto de escolhê-lo como amigo? Sabe o que eu passei por cima quando disse para Jodie que ficaria ao lado dela sempre, e que ela podia me procurar quando precisasse? O problema aqui não é o fato de ela ter partido... E sim o que ela acabou por fazer ao decidir isso. Quantas pessoas podem fazer isso? Olhar e simplesmente achar que uma carta vai resolver tudo e assim ela conseguiria ficar com um pouquinho de consciência limpa. Pergunto-me se é isso que ela acha que é amizade, porque se for, a forma dela de pensar é mais diferente da minha do que eu pensava. — declarei com firmeza.
Jimmy apenas me olhava avaliativo.
— O que está acontecendo Harlow? — Não entendi a pergunta repentina e muito menos compreendi o porquê de sua expressão preocupada. Ele nunca ficava preocupado com garotas. Principalmente eu.
— O que quer dizer?
— Você anda diferente — Inspecionou meu rosto — Toda vez que te olho, vejo essa tristeza tomando seus olhos. E o rancor... Deus, você está mais dura que o normal. E o pior é que nem é só comigo. Está espalhando sua frustração sobre toda a banda. Nesses cinco dias que Jodie chegou não a vejo mais sorrir e muito menos ter animação para sair com o grupo... Essa não é você!
— Você não sabe nada sobre mim! — Olhei no fundo de seus olhos, enraivecida — E o modo que eu trato as pessoas é problema meu não seu.
— Passa a ser meu quando se trata dos meus amigos também — Ele me mirou com ferocidade — E mesmo que existam desentendimentos entre nós, você também é minha amiga, e eu sinto que tem algo lhe incomodando. E esse algo estava fazendo com que desconte a raiva em nós, e principalmente em Jodie. Por favor, me diga o que é para que eu possa ajudar. — Por alguma razão louca, senti uma parte de mim se quebrar enquanto olhava Jimmy com os olhos arregalados. E essa coisa que se quebrava estava doendo. Doendo tanto que a ardência em meus olhos acabou por ser mais um susto.
O que estava acontecendo? Ah, eu sabia. Sabia muito bem. O problema é que eu não gostava de admitir que o motivo da minha raiva pelo mundo, por Jodie, era apenas a chegada do meu aniversário.
Minha respiração acelerou quando a imagem daquela fotografia que havia roubado do quarto de Jared, passou por minha cabeça. O rosto em forma de coração de minha mãe era adorável, e os olhos azuis com linhas verdes, brilhavam sob a luz do sol que estava no dia em que a fotografia foi tirada. Seu cabelo de um castanho mel magnifico estava habilmente formado em uma trança, enquanto meu pai segurava uma vara de pescar ao seu lado e sorria para a pessoa que tirava a foto.
Jared tinha dito que aquela foto fora tirada na viagem de lua de mel dos nossos pais, ele ainda não havia nascido. Mamãe estava gravida. Não disse muito mais que isso, e eu sabia que lembrar era doloroso para ele. Portanto não forçava mais explicações. E talvez fosse esse o meu mal.
Nunca falar dela.
Às vezes imagens de Hope apareciam em minha mente. Momentos dela sorrindo para mim ao me pegar nos braços, ao brincar comigo. Não era uma lembrança boa, mas ainda sim era capaz de distingui seus olhos azuis bonitos enquanto ela me contava historias. Eu sabia que aquela imagem era uma mentira, pois minha morrera ao me dar a luz, mas uma lembrança com ela, mesmo que essa fosse inventada por minha própria mente, fazia com que as coisas fossem melhores.
— Harlow? — pulei minimamente quando Jimmy tocou minha bochecha, a expressão triste indicava mais preocupação — Está tudo bem?
Apertei os lábios, tremendo por desabafar, avida por ter mais daquele carinho que ele nunca ousou dar a mim. Era um momento de fraqueza que eu nunca havia dado a ninguém, e por um instante, pensei se ele seria aquele a me ajudar. Comecei a cogitar isso... Então eu me lembrei dele olhando no fundo dos olhos de Dana ao falar: Estou sufocado. Quero parar por aqui. Desculpe Dan, mas não sirvo para ficar preso.
Minha irmã já foi muito apaixonada por ele, e mesmo assim Jimmy não se importou com seus sentimentos. Apenas olhou-a e terminou. E se ele fizesse o mesmo comigo? E se ele olhasse para mim e dissesse que estava sufocado por causa dos meus problemas? Seria eu forte igual a Dana, que pelo menos o acertou com um tapa na cara? Conseguiria mandá-lo para o inferno? Se contasse meus sentimentos agora, me arrependeria amargamente depois?
— Harlow?
E aconteceu. A vontade de chorar se foi. O momento de fraqueza eu empurrei para o fundo, e a velha Harlow estava de volta, voltando o olhar duro e sem emoção para Jimmy, que na mesma hora notou a diferencia, pois decepção brilhou no seu rosto quando falei:
— Mesmo que eu precisasse de ajuda. Não pediria ela há você — Me levantei, deixando o violino de lado e pegando minha mochila. Jimmy me seguiu, segurando meu braço no meio do caminho com uma expressão irritadiça.
— Por que me trata assim?! Estou tentando ajudar.
— Eu não pedi a sua ajuda.
— Claro que não. Você é incapaz de deixar seu orgulho de lado para fazer tal coisa. — ironizou ele, eu ri alto, demonstrando o tamanho do meu desgosto.
— Orgulho? Que merda de orgulho o que seu idiota. — O fuzilei ferozmente — Eu tenho é juízo. Nunca me abriria justo com você, pois sei como vai ser depois. Lembra-se o que disse para Dana? Talvez para varias outras garotas. “Confie em mim. Eu gosto de você” ou a mais dita “Estou sufocado. Não sirvo para ser preso.” — Nojo pingou de minhas palavras, e vê-lo se encolher obviamente envergonhado, me fez bufar — Faça um favor a mim, e deixe-me com meus problemas. Você não merece saber nada a meu respeito, mesmo que tenha rolado qualquer acidente...
— Chama aquilo de acidente?! — Ele pareceu zangado — Você não deu a entender isso quando estava me beijando naquele maldito banheiro! — Minhas orelhas queimaram, mas me coloquei firme.
— Você me beijou! Eu já cansei de dizer que eu nunca me rebaixaria a esse ponto — Ele deu mais um passo, o rosto bonito vermelho de fúria. Eu não me afastei, pois medo era o que eu menos tinha dele.
—Você se acha muito, não é garota?
— Eu não me acho. Eu sou! — Sorri de lado. Ele grunhiu.
— Porra. Com você é só na pancada não é? — Fechei a cara, indo para ele com petulância.
— Experimenta.
— Já levei muitos tapas de você e não revidei — Apontou. Eu sorri debochada.
— Foi bem levado!
— Acontece que o jogo acabou!
— Completamente. — Concordei.
— Eu te odeio.
— Eu te odeio mais.
— Então prova! —Enfrentou dando mais um passo. Arregalei os olhos quando uma mão do nada agarrou minha nuca e eu estava sendo levada de encontro a... Caralho. Não!
A boca dele foi impetuosa, cheia de selvageria enquanto as mãos puxavam meu rosto para perto. Gemi, absorta com o movimento de seus lábios contra o meu, extasiada com a macies deles. Meu coração martelou mais rápido e meus joelhos cederam, dando a Jimmy a tarefa de me deixar de pé, mais apertado contra si.
Rendida, deixei minha mochila cair para agarrar em algo muito melhor. Sobre sua camiseta eu senti seu peito, e por mais estranho que fosse, uma parte sóbria da minha mente detectou os batimentos dele, percebendo que eram tão acelerados quanto os meus, que mais parecia estar tendo um ataque. Era a terceira vez que nos beijávamos, e como nas outras eu me senti submissa, e eu quis permanecer ali, em seus braços, sendo acariciada por suas mãos enquanto eu aproveitava durante toda a manhã de sua boca. Ela me fazia esquecer os problemas, mas entendi que era esse o plano dele. Fazer-me esquecer de tudo para ceder a ele, e isso não podia acontecer.
Empurrei-o com toda a minha força, ofegante, enlouquecida que aquilo tinha acontecido de novo.
— Seu idiota! — gritei. Jimmy não parecia culpado, ele sorriu, me olhando maliciosamente enquanto passava a mão pelos lábios vermelhos.
— Está vendo. Você gosta de me beijar.
— Vai se ferrar! — Berrei, pegando minha mochila mais uma vez. Apontei-lhe um dedo de advertência — Estou avisando, se fizer isso de novo, vou matar você! — E com isso eu sai correndo, deixando-o para trás enquanto tentava organizar meus pensamentos. Precisava urgentemente de uma bebida.
~*~
Minha cabeça estava rodando.
Olhando para o teto, um ataque de risos de repente me fez rolar da cama e bater a cabeça no chão. A dor pareceu trazer um pouco de lucidez, pois consegui levantar mesmo que cambaleante.
— Mãe! — gritei, sorrindo ao ir até minha escrivaninha. Peguei o porta-retratos, me sentindo muito feliz — Vamos fazer aniversário, mãe... Cinco. Faltam cinco dias, Huhuh! — Olhei a foto, suspirando quando a melancolia retornou. — 17 anos... 17 anos de morte para você. Muito tempo né? — A custo, caminhei até o armário e deslizei nele até chegar o chão, sentando lá apenas na minha calcinha e sutiã rosa.
Tirei meu cabelo do rosto, procurando pela minha garrafa. Porém fiquei triste ao ver que havia acabado com ela.
— Tudo está complicado... Ei pai, será que Jared bateria no Jimmy por mim? Estou com raiva dele de novo. Você poderia fazer isso, se também não tivesse morrido... Puff! Assim — Mais risos borbulharam para fora — Desgraçado aquele loiro... Por que ele tinha que ser bonito? Não gosto disso!
— Harlow? — sorri, olhando para porta do meu quarto quando a maçaneta mexeu, no entanto não abriu, pois havia trancado — Harlow, o que está fazendo?
— Mano! — Tentei levantar, mas não deu muito certo, pois tropecei para o lado. Ops. O que era aquilo, um sapato? — Merda. Como isso veio parar aqui?
— Harlow, abra porta! O que está fazendo ai? — Ele mexeu na maçaneta mais uma vez, e eu não conseguia ficar de pé, portando desisti e cai deitada no chão em meio à bagunça que tinha feito.
Havia cobertores no chão, roupas espalhadas, e minha garrafa de vodca caída em um canto do quarto. Sonolenta, puxei o porta-retrato para dentro de meus braços, encolhendo em uma bola.
— Harlow! — Jared agora parecia zangado. Isso não era bom.
— Tô comemorando mano... Comemorando com eles — Alisei a foto, sorrindo de um jeito que lá no fundo, eu sabia que era estranho — Mãe e pai gostam de comemorar. — Jad ficou em silencio, como se tivesse ido embora, e fiquei decepcionada por ele não querer participar da festa. Foi quando me assustei com o estrondo que veio da porta.
— Harlow abra essa porta! — Ele com certeza a chutava, e eu fiz careta começando a ter sono. Fechei os olhos, e não sei por quanto tempo eu fiquei assim, só sei que quando os abri, a porta estava batendo contra a parede e Jared entrava no quarto com os olhos arregalados e o rosto mais pálido que de um fantasma.
— Deus do céu — murmurou, passando a mão pelos cabelos ao me olhar. Sorri, acenando para ele.
— Olhe Jared... Eles estão comigo. Mamãe e eu estamos comemorando nosso aniversário... Só que ele ainda não chegou e... — franzi o cenho, confusa de repente — Eu não estou contente... E acho que papai também não, porque só consigo lembrar dele bravo.
— Harlow... — Ele andou por meu quarto, atordoado, olhando em volta como se estivesse entrando no inferno. O vi recuperar minha garrafa vazia do chão, o rosto contorcendo em angustia — Menina, o que você fez?
— Festa! — gargalhei, mas então tossi e chacoalhei a cabeça. O olhei, abrindo os braços para ele — Jared me dá um abraço? Estou me sentindo estranha — Não sei se foi impressão, mas o brilho de lágrimas em seus olhos me fez arregalar os meus, pasma que ele estivesse mesmo prestes a chorar. E nessa hora Dana também apareceu.
— Jad! Será que você pode... — Ela deixou de falar, também arregalando os olhos ao me ver, ao olhar meu quarto. Depois arquejou — Deus. Harlow!
— Dana. Irmã. Olha isso, eu tô dando uma festa, mas o Jad vai chorar. O que foi mano? Está machucado?
— O que foi? — Sua voz estava baixa, perigosa. —Você está me perguntando o que foi?!
— Jared — Dana começou, mas o irmão ergueu a mão, impedindo-a. Depois fez algo que eu nunca na minha vida, achei aconteceria. Ele largou a garrafa no chão, que se quebrou, e marchou até mim.
— Venha! — Ele agarrou meu braço com força, fazendo-me gritar quando a pele beliscou.
—Hey! Esta me machucando!
— Jared, o que está fazendo?! — Dana gritava, nos seguindo pelo corredor enquanto eu era arrastada como uma boneca para dentro do banheiro. Comecei a gritar, horrorizada com o tratamento que meu irmão estava me dando. Fiquei mais chocada quando ele me enfiou d’baixo do chuveiro e o ligou na água fria.
— Ahaha! O que isso?!
— O que pensa que estava fazendo?! — Ele gritou me chacoalhando de baixo do chuveiro, olhando profundamente em meus olhos. Fiquei paralisada, engolindo em seco. — O que esta acontecendo com você Harlow?
— Jared, tenha cuidado — Dana choramingou da porta — Por favor, não grite com ela assim.
— Ela está bêbada, Dana! Olhe para ela! — Os dois me olharam, e a decepção ali me fez sentir as lágrimas chegando. Olhei Jared, sentindo a água gelada trazer um pouco da lucidez, mesmo que estivesse tonta. Meus braços latejando com seu aperto foi esquecido enquanto me tocava o que tinha feito.
— Jared, eu...
— Por que, Harlow? — Ele piscou furioso, e como se não pudesse estar perto, me soltou, o que eu não estava preparada, pois a tontura me pegou e eu cai dentro do box.
— Harlow! — Dana tentou me amparar, mas Jared a segurou, afastando-a — Jared, que isso? Ela nossa irmã!
— E ela se lembrou disso quando abriu a garrafa?— Olhou para mim profundamente, e eu me encolhi, querendo ficar longe de sua agonia — Na nossa casa Harlow! O que estava pensando? Me diga antes que pense o pior... Diga-me que foi a primeira vez. — Minha garganta travou, e percebi que não poderia mentir assim, olhando-o nos olhos, portanto abaixei a cabeça. — Harlow Cooper. Responda!
— Não — Tremi, fechando bem os olhos — Não foi.
Eu não sei como me senti quando ouvi o primeiro deslize dele. Ergui os olhos, e me odiei por tê-lo feito chorar. Jared nunca chorava, pelo menos não na nossa frente, ele era sempre atencioso, preocupado com os nossos sentimentos. Ele não se importava consigo mesmo, era apenas nós. E naquele momento, eu estava sendo a única a causar suas lágrimas.
— Jared.
— Ah, Harlow — Balançou a cabeça, perdido — Meu Deus, Harlow.
— Me desculpe. — funguei, tentando me levantar com a ajuda da parede — Por favor, me desculpe.
— Desculpar? — Seus olhos estavam molhados, seu rosto contorcido — Quer que lhe desculpe quando não foi a mim que você realmente feriu? Estava bebendo diante do retrato dos nossos pais... Acha que eles se orgulharam disso? — Então ele pegou no ponto fraco. O mais fatal e o que estava mais dolorido. — Olhe para você mesma, cambaleando de tanta bebedeira enquanto eu e sua irmã estamos lá fora trabalhando para dar tudo a você. É assim que você valoriza o esforço de nossa mãe para lhe dar a vida? É assim?
— Jared! — Dana estava chocada com a forma que seu irmão falou, e me olhou como se sentisse dó. Eu não queria aquilo. Não queria pena, não queria nada. Ainda mais agora, que via como ele estava certo e percebia como era idiota.
Hope, minha mãe, havia dado sua vida por mim, e o que eu estava oferecendo em troca? Bebidas? Lamentações?
— Tome seu banho — Jared por fim disse. Sem me olhar — Quando acabar, tome o um café e venha falar comigo. Nós não terminamos com isso — E ele saiu, sem olhar para trás, deixando-me sozinha com Dana.
— Harlow — Ela fez menção de se aproximar, mas não deixei e apontei para aporta.
— Vá atrás dele... Ele precisa mais de você que eu — As lágrimas dela me feriram, por isso lhe dei as costas — Vá Dana.
— Eu vou tentar acalmá-lo. Ele não quis ser grosso.
—Eu sei — sussurrei — Não o culpo. Agora me deixa sozinha. Por favor? —E assim ela o fez. Eu só me virei quando a porta fez clique. Minha estrutura vacilou covardemente e eu tive de usar a parede para me firmar mais uma vez, olhei para o teto, meu peito doía e eu queria muito chorar, mas se eu começasse não pararia mais, sabia disso.
Eu tinha experimentado vários medos em minha maldita adolescência, mas nem um deles se comparava ao que estava sentindo agora, enquanto olhava abobalhada para o teto.
De baixo da água gelada, o medo de agora era de nunca ter o perdão de Jared. A culpa me enchia quando comecei a lavar o cabelo e depois o corpo, continuava meio zonza, mas aquando entrei no meu quarto, enrolada em uma toalha, a primeira coisa que eu vi depois da bagunça, foi a xicara de café quente que estava em cima da escrivaninha. Obviamente obra de Dana.
Foi ruim tomar, pois estava amargo e muito ruim. No entanto não deixei uma gota. Mais resistente que antes, procurei por um jeans e uma blusa. Penteei meu cabelo e fiz um esforço para descer até a sala. Não havia entrado ainda quando ouvi a voz de Dana falar:
— Ela precisa da nossa ajuda Jad. — Me encostei à parede, ouvindo — Você sabe como ela fica quando a data se aproxima.
— Beber, Dana. Ela estava se embriagando nas minhas costas! — Ele tinha um tom ferido — Vê-la daquela forma... Eu nunca imaginei.
— E nem eu. Eu pensei que ela fosse mesmo parar e...
— O que? — Fechei os olhos, xingando Dana por ter dado essa mancada — Você sabia e não me contou?! — Ouvi minha irmã suspirar, como se cansada.
— Estava tentando evitar isso! — Dana disse, um pouco desesperada — Ela é mais frágil do que pensa Jad.
— E ainda assim permitiu que ela se afundasse dessa forma? Dana, devia ter me alertado! Eu poderia ter pegado leve, sei lá, arranjado uma forma de me controlar se fosse a primeira vez... Mas, quando ela disse que já tinha feito eu... Perdi a paciência. — Um fungado. Ele estava chorando de novo. Deus, como isso doía. — Isso pode se tornar mais que uma rebeldia Dana. Ela não devia ter passado do segundo copo.
— Mas agora você sabe irmão — Achei que Dana pudesse estar o abraçando, pois em minha cabeça eu a imaginava fazendo isso — Vamos ficar mais atentos para que ela não faça nada como da última vez. Isso foi uma forma de ver que ela ainda precisa aceitar. Não se perturbe assim, não foi sua culpa.
— Eu devia ter conversado com ela. Não achei que estivesse mal — A voz de Jared era melancólica — Ela não demonstrou nenhum sinal toda vez que comentamos do aniversário, pensei que finalmente estava se conformando. Tinha esperanças disso. Mas fui um tolo por acreditar, minha irmãzinha vem se culpando desde que descobriu que a mãe morreu para ela nascer... Como isso a faria bem? Justo em seu aniversário. Eu sou um idiota, Dana. É isso que sou... Um maldito idiota.
— Ah, Jared — Dana choramingou, e quando espiei a vi puxá-lo para seu colo, para que acariciasse seus cabelos. Ela era assim, sempre cuidando para que não ficássemos tristes, sempre com abraços e cafunes. Aqueles eram meus irmãos, sofrendo juntos por mim. E eu não conseguia fazer nada a não ser olhar de longe. Por que eu era tão inútil?
Porque você merece.
O soluço veio, mas eu o abafei com a mão. Repreendendo-me. Não merecia chorar, eles sim, eu não. Portanto selei os lábios com força e sequei as lágrimas, me obrigando a ficar calma. Aquilo não era eu. Eu não ia ceder. Não ia.
E com esse pensamento, dei um passo para dentro da sala. Pronta para mais um dos sermões dos meus irmãos. Porém esse, eu ouvi cada palavra, não disse nada. Abaixei a cabeça e fiquei na minha. Talvez assim, as coisas pudessem mudar.
~*~
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